God of Mischief | Loki
18 Capitulo 17: Fogo e gelo
Notas iniciais
Quando chegamos, cambaleei desequilibrada como acontecia sempre. O frio me atingiu como um murro na boca do estômago. Devia fazer uns vinte graus negativos com facilidade e eu estava muito mal agasalhada. Chegamos a um penhasco feito de gelo puro, e a nevasca caindo me fazia deslizar para o lado. Heimdall estava nos mantendo em locais ermos. Olhei para Loki que tentava ver alguma coisa. Ele começou a avançar em direção à parede oposta do penhasco, distante cerca de trinta metros de onde estávamos. Tentei acompanhá-lo, mas meus coturnos deslizavam naquele chão. Chamei o nome dele gritando, tentando me sobrepor ao vento. Eu deslizava e quase caía a cada passo e o deus não me ouvia. Olhei para os meus pés cogitando arrancar as botas, mas imaginei minha pele colando ao gelo. Não seria legal. Pensei em ajoelhar e tentar engatinhar. Muita humilhação.
A mão dele surgiu diante do meu rosto estendida. Olhei dela para seus olhos, e ele gritou algo que fui incapaz de ouvir. Segurei-a e Loki me puxou para frente deslizando sobre o gelo, me parando ao lado dele.
Loki continuou naquele lento progresso, avançando alguns poucos passos e depois me puxando para frente. Ele não parecia cansado, mas por algum motivo eu sentia uma vontade enorme de dormir. Podia ser ali mesmo. Quando chegamos ao paredão eu conseguia avançar colocando as mãos dormentes nele e me puxando para frente. Ele avançava com tanta naturalidade que me causava inveja. Era como se fosse adaptado para aquele tipo de clima.
Loki se virou e me puxou pelo pulso para em seguida me empurrar pela cintura em um buraco na parede. Por um segundo achei que poderia ser uma das casas dele, com uma lareira quentinha me esperando, mas era apenas uma caverna sem nada. Ao menos protegeria do vento. Eu estava congelando. Minha respiração saía rascante e custosa em uma névoa que pairava a minha frente.
Ele entrou em seguida e sentou-se próximo a entrada, como sempre fazia. Fiquei em pé tremendo. Ali estava tão frio quanto do lado de fora e a ausência de vento não melhorava muito. O deus encostou a cabeça, protegida pelo elmo dourado, na parede de gelo e voltou os olhos para mim.
— Vai ficar em pé? — indagou em uma voz tão vazia quanto a caverna na muralha. Deslizei pela parede e sentei no chão. Abracei meus joelhos tentando fazer o corpo tremer menos.
— Você não tem uma casa aqui?
— Se eu tivesse, você acha que estaríamos no meio do gelo? — Eu não precisava responder. A questão é que eu estava realmente congelando. Tremia tanto que algum desavisado poderia achar que estava convulsionando.
Ficamos em silêncio por alguns minutos e eu lutava contra o frio e um sono pesado que teimava em tomar conta de mim. O ar parecia congelado, pois simplesmente não entrava nos pulmões em quantidade suficiente. Eu estava letárgica, porém não reclamaria. Bastava ele me considerar algo completamente inferior. Aos olhos de Loki eu era como uma barata, não precisava achar mais um motivo para ele se irritar. Me encolhi ainda mais e puxei a barra curta do vestido fininho tentando tapar um pouco mais por cima da calça. Em vão.
Loki me olhou pelo canto dos olhos por alguns segundos. Às vezes eu gostaria de saber o que ele pensava. Podia imaginar como a fila para algo assim devia ser extensa. Simplesmente não conseguia tirar os olhos dele. O príncipe asgardiano despiu a cota de couro sem falar nada, ficando apenas com a camiseta de linho, e a jogou para mim. Nem me ocorreu a possibilidade de recusar. Me enfiei dentro dela e lentamente me senti um pouco melhor, mas não o bastante.
O elmo desapareceu de sua cabeça alguns minutos mais tarde e ele a tornou a apoiá-la na parede olhando para o teto gelado da caverna.
— Você não sente frio? — Indaguei numa voz tão trêmula quanto meu corpo.
— Não — respondeu, fechando os olhos.
— Todos os deuses são assim?
— Não — repetiu monossilábico.
— Em que você é diferente dos outros? — quis saber, minha voz falhando afetada pelo frio.
— Vai ficar quieta ou não? — Loki desconversou, me encarando irritado. Eu tentei um sorriso, conseguindo apenas um esgar.
— Não — rebati no mesmo tom.
Loki me avaliou durante um tempo curto, que pareceu uma eternidade. Então encostou os dedos longos e finos diretamente no gelo, no chão ao seu lado. Instantaneamente as pontas tornaram-se azuis. Um tom de azul intenso como o que se vê em icebergs. A coloração foi se espalhando muito lentamente, ao longo dos dedos, das mãos, subindo pelos braços. Estava muito ciente de que ele me encarava esperando alguma reação. Eu não conseguia esboçar nada, apenas o olhava, os lábios entreabertos em choque. A cor se apossou do rosto dele, os olhos tornando-se completamente vermelhos, em contraste. Sua pele tinha detalhes de um tom ainda mais intenso de azul, pelo rosto e mãos, quase como se houvessem tatuagens, no entanto aquilo era natural. Meus olhos percorriam cada centímetro de pele descoberta, tentando achar uma explicação. Eu não entendia.
Me ajoelhei no chão gelado da estreita caverna e engatinhei até diante dele. Loki tinha os olhos vermelhos fixos em mim exatamente da maneira que eu encarava um alvo. Ele queria uma reação. Me sentei sobre as pernas flexionadas e aproximei meu rosto do dele. As íris vermelhas acompanhavam meus movimentos embora não se mexesse.
Ergui minha mão até a altura de nossos rostos, e o encarei com olhos baixos, quase pedindo permissão. Ele franziu as sobrancelhas, mas não falou nada e nem me afastou. Toquei seu rosto na altura da têmpora com a ponta dos meus dedos trêmulos e me surpreendi ao perceber que era gelado como o chão embaixo de nós. Minha pele quente contra a dele, parecia em chamas. Loki virou o rosto para mim, a expressão muito séria e levemente confusa. Esperava uma reação diferente da minha.
Sua respiração era gelada contra minha pele, porém eu não me importava. Deslizei meus dedos pela lateral do seu rosto, quase num afago. Meus olhos corriam ora da ponta dos meus dedos, ora para os olhos dele, esperando algum sinal de raiva. Encontrava apenas confusão e incerteza. Toquei o canto da boca dele e puxei a mão como se tivesse levado um choque. Os olhos de Loki passearam aturdidos pelo meu rosto, não entendendo minha reação. Estávamos próximos demais e eu tinha medo que me afastasse. Meus olhos esquadrinhavam o rosto dele com certo fascínio.
Não me levantei, nem me afastei. Apenas continuei olhando para ele. Loki era estranho e assustador. Loki era lindo.
Ele pegou minha mão de sobre o meu colo. Começou a contornar com a ponta dos dedos as linhas da palma. Eu sorri. Ergueu os olhos para mim. Seus dedos seguiram o olhar e tocaram a cicatriz mínima abaixo do meu olho onde os pontos ainda esperavam o dia para serem removidos. Ele franziu as sobrancelhas com intensidade encarando-os.
— Assim como você, tenho as minhas marcas. Poderia escolher ignorá-las também — sugeri num tom baixo. O deus não respondeu. Deslizou a mão para a parte de trás da minha cabeça, pousando-a na nuca. Loki me puxou para si, e me beijou.
Seus lábios tornaram-se quentes no instante em que o correspondi, o calor espalhando-se por ele inteiro, chegando aos dedos na minha nuca e a mão na minha cintura. O calor levou a cor consigo.
Loki não era doce como Steve. Me beijava com intensidade, como se nunca mais fosse fazer aquilo. Eu não duvidava e correspondia tão sedenta quanto o sentia. Minhas mãos encontraram as costas largas dele onde se apoiaram, o segurando ali. Não me importaria se congelássemos agora, mas a verdade é que eu me sentia muito quente. Mordisquei o lábio dele de um jeito provocativo, que o fez me puxar ainda mais para perto, contra o seu corpo. A respiração condensava a nossa volta. Ele afastou os lábios de mim, os olhos verdes outra vez, muito antes do que eu gostaria.
Agora eu estava assustada. O mistério do que faria a seguir me fazia tremer mais do que o frio. Meus olhos corriam pelos dele, procurando alguma coisa. Qualquer coisa. No entanto, era apenas observada em resposta.
Loki abaixou a mão da minha nuca, mas a que estava na cintura me mantendo perto continuava no lugar. Tomei consciência das minhas pernas dormentes sob o peso do corpo e me ajeitei sentando no chão. Temi que se eu falasse, desencadeasse alguma reação negativa. Independente disso eu precisava de alguma coisa. Qualquer coisa.
— O que você é? — perguntei, enfim. Claramente deuses não eram assim, seu comportamento explicitava isso. Ele me olhava mortalmente sério.
— Gigante de gelo — respondeu em um tom seco. Senti um arrepio me percorrer, mas tentava me focar na mão em minha cintura.
— Mas você não é um gigante... — balbuciei como uma idiota. Ele levantou uma sobrancelha para mim. — Como se você é um deus? Como Frigga...?
— Odin me achou largado no meio do gelo para morrer — explicou como se comentasse o tempo. Ele não dava importância a isso. Ou ao menos buscava aparentar dessa forma.
Então ele era adotado. Eu também era, de certa forma. Loki não parecia gostar daquele assunto e eu o respeitaria, poderia me dar detalhes em outro momento se quisesse. Continuei ali parada, o olhando. Ele não havia se afastado. Não havia me afastado. Não ficara furioso. Loki estava apenas meio tenso, como se estivesse em uma luta interna. Uma conclusão eu tinha tirado: ele não me desprezava tanto assim.
Inclinei minha cabeça na direção dele, o olhando. O deus sustentou meu olhar com segurança, enquanto eu apoiava a cabeça no peito dele. Fiz aquilo muito lentamente, temendo ser enxotada, porém ele aceitou e ainda me envolveu com os braços me mantendo aquecida.
— Vamos buscar a joia pela manhã? — interpelei num sussurro.
— Sim — Loki parecia realmente tenso. Inclinei a cabeça para cima, o encarando.
— Você está bravo? — perguntei, insegura. Ele trouxe os olhos a mim.
— Não.
— Então, o quê? — insisti. Ele suspirou desviando o olhar. Fechei meus olhos e tentei relaxar um pouco, aceitando mais um de seus silêncios. Tentei não pensar em um certo alguém em Midgard.
— Você sabe o que é um gigante de gelo? — inquiriu repentinamente, a voz arrastada dele vinda de cima, atraindo minha atenção. Neguei com um aceno. O deus suspirou pesadamente. — As crianças em Asgard, Vanaheim e na maioria dos reinos vão dormir de noite com medo que algum gigante apareça — falou, sério.
Então gigantes de gelo eram como os vampiros, lobisomens e outros monstros que assustavam crianças humanas. Com a diferença de serem reais. Realmente tinha tentado me assustar quando se mostrara. Independente da forma, era Loki. E eu não tinha medo dele.
— Não sou uma criança de Asgard — falei baixinho. Ele não respondeu. Esse simples fato me tornava diferente de qualquer outra pessoa. Eu não o temia por Loki ser quem era. Mas eu tampouco era uma deusa.
— Amanhã não serei o único gigante de gelo que vai encontrar — alertou, sério. — E quando perceberem o que estamos fazendo tentarão nos matar sem pensar duas vezes. Não os tome por mim.
— Vamos conseguir — afirmei confiante. Depois de hoje eu conseguiria qualquer coisa. Não falamos mais nada. Dormi ali, com a cabeça no ombro dele, os braços em volta de mim e tendo seu cheiro amadeirado me embalando enquanto o vento rugia lá fora. O tempo poderia ter congelado também.
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Acordei cedo ainda segura por ele. Por um segundo pensei que talvez estivesse sonhando. Ergui meus olhos para Loki, ele não parecia ter dormido.
— E então? — perguntei com a voz rouca pelo sono. Ele olhava para o tempo do lado de fora. A nevasca tinha parado.
— Laufey tinha um cofre como o de Odin. Permitia apenas a entrada dele mesmo ou de alguém invisível — disse essa última me encarando. Eu sorri e ele desviou o olhar depressa. — O único problema é que você não vai poder segurar essa joia.
— Por que não? — quis saber, curiosa.
— A joia da alma tem esse nome porque se alimenta de almas — explicou, as sobrancelhas franzidas. Tínhamos um problema ali.
— Então você também não poderia tocá-la. Ninguém pode tocá-la — conclui simplesmente. Ele suspirou sem me olhar.
— Eu sou um deus — aquilo soou como o estalo de um chicote aos meus ouvidos. — Deuses não vão para Valhala quando morrem. Somos parte do universo. Nos tornamos estrelas. Não temos uma alma como a de vocês — explicou. Até na morte seríamos diferentes. Era isso que o havia deixado acordado a noite inteira. Eu precisava pegar a joia, mas ao mesmo tempo não poderia encostar nela.
— Como faremos isso? — indaguei preocupada.
— Torcendo para o cofre me reconhecer como herdeiro de Laufey — ponderou, simples. Ergui as sobrancelhas entendendo o significado daquilo. Loki era de linhagem real independente de qualquer coisa, não um gigante de gelo da plebe. Um príncipe descartado. Não teci nenhum comentário a respeito. Quanto ao plano me parecia uma péssima ideia, falho de vários ângulos, embora o melhor que tínhamos.
— E quando seguimos?
— Agora — decidiu, afastando os braços de mim. Me senti gelada no mesmo instante, no entanto durante o dia era muito mais suportável. Levantei desajeitada e ele fez o mesmo em seguida, com uma elegância inerente. Me senti corar quando olhei para os olhos dele, o que me fez desviar para o caminho ladeando o penhasco de gelo até o chão plano.
— Como vamos descer? — perguntei, preocupada. Eu não tinha nenhum equilíbrio no gelo, acabaria despencando.
— Não vamos descer. Vamos subir — afirmou, sério. — Os gigantes vivem em cavernas e não em belos castelos em planícies — explicou com certo desprezo. Não sabia se pelos hábitos dos gigantes ou dos deuses, talvez por ambos. Loki saiu na frente e se encaminhou para uma estrada íngreme que serpenteava até a parte mais alta da montanha. — Consegue subir?
— Consigo — falei mais segura do que realmente me sentia. Entramos pelo caminho e começamos a avançar, eu me apoiando à parede para garantir algum equilíbrio. Ele vinha um pouco mais atrás. Supus que se caísse ele poderia me segurar. — Onde os gigantes estão?
— Nos observando — comentou, displicente. Olhei para ele de olhos arregalados, chocada com sua tranquilidade. — Mas você tem o melhor deles aqui — completou convencido e divertido. Eu sorri. Fui retribuída com um senso de humor raro.
Demoramos quase duas horas para chegar ao topo da montanha, mas a culpa era da minha dificuldade de avançar. Agora que ele tinha falado eu notava a cada poucos metros pares de olhos vermelhos me encarando de cavernas afastadas.
Havia uma caverna tão grande diante de nós que facilmente haveria espaço para 15 ou 16 elefantes. Olhei para Loki, questionando se deveríamos avançar. Ele fez um gesto amplo com a mão respondendo minha pergunta.
Entramos na caverna fria e achei que fosse desmaiar. Havia dezenas, centenas de gigantes em pontos mais altos nos observando descaradamente. Mal conseguia distinguir homens de mulheres, porém as crianças de colo eram facilmente identificáveis já que eram as menores. Um pouco mais baixas que eu. Rapidamente entendi o motivo de terem tentado descartá-lo, era diferente. Olhei insegura para Loki, vendo-o com o elmo de volta à cabeça.
— Sou Loki, de Jotunheim — anunciou numa voz alta, clara e pausada, cheia de imponência. Uma giganta avançou dois passos em nossa direção. De maneira muito discreta Loki colocou o corpo entre ela e eu.
— Nós sabemos quem você é — disse numa voz lenta, grave e arrastada que me lembrava o jeito de falar do próprio Loki. — E ela quem é?
— Ela é... — começou a explicar. A mulher o calou com um olhar gélido. Olhou para mim. Eu não sabia qual seria a resposta correta.
— Liana. De Midgard — arrisquei numa voz mínima. Ela me olhou de alto a baixo.
— Midgard — A mulher repetiu, alto o suficiente para os outros a ouvirem. Ela se aproximou e Loki não foi tão discreto dessa vez quando materializou sua lança e a colocou no caminho. A mulher abaixou a ponta da lança, com o próprio punho congelado. Os olhos fixos em mim. — O que você tem de diferente?
— O que? Como assim? — perguntei de volta, desnorteada.
— Ela não tem nada de diferente — Loki respondeu seco.
— Uma simples humana não chegaria até aqui — revidou sem desviar os olhos de mim. Eu não sabia o que ela queria.
— Eu não sei... — respondi, sincera. Ela se abaixou até ficar da minha altura e esticou a mão para mim, a segurei antes que Loki pudesse impedir. Sua mão era muito fria e áspera, mas a mulher não me assustava. Sentia tanta curiosidade por mim quanto eu por ela. O deus não movia um músculo, nos olhando.
— Jovem, com gosto pelo perigo — afirmou, seus olhos pareciam perscrutar minha alma. A última parte eu havia decidido ser inegável. — Forte. Frágil. E, que coisa curiosa, um toque do destino — a giganta falou novamente subindo a voz causando um burburinho agitado entre os presentes. Eu não sabia o que era isso. Loki me olhou levemente surpreso. — E também uma benção de Frigga, uma combinação bastante incomum — concluiu. Agora Loki parecia definitivamente chocado. Me fitava com as sobrancelhas franzidas, a boca entreaberta.
— O que é isso? — perguntei ficando tensa com a reação dele. Ela sorriu de um jeito que me causava arrepios.
— Isso significa que você vai entrar no cofre sozinha. Afinal vocês vieram aqui para isso — declarou em um tom neutro. Como a giganta sabia tanto a meu respeito era um mistério. Olhei de olhos arregalados para Loki. Ele tomou a frente, ainda me observando.
— Ela não vai fazer isso — falou categórico finalmente encarando a mulher.
— E como você pretende impedir, pequeno? — indagou com desprezo. Loki pareceu repensar aquilo. Eles estavam em vantagem numérica considerável. Ele olhou para mim questionador. Apertei o arco na mão.
— Qual o caminho? — perguntei cheia de coragem. A mulher indicou o fundo da caverna. Olhei para Loki. — Se eu não voltar até o fim do dia, vá embora — disse com a maior tranquilidade que consegui. Ele me encarava muito sério.
— Não toque — alertou novamente, materializando um recipiente de vidro cilíndrico e me entregando. Assenti e caminhei na direção indicada. Passei por um arco alto de gelo e o silêncio se abateu sobre mim, como se um véu separasse aquele trecho do resto. Havia apenas um corredor amplo de pedra à minha frente. Comecei a avançar, as palavras da giganta ecoando na minha cabeça. Um toque do destino. Uma benção de Frigga. O que era aquilo tudo?
O cofre era infinitamente maior que o de Odin e infinitamente mais vazio. Asgard era claramente um reino colonizador. Havia algumas poucas armas enferrujadas no caminho, e ainda menos joias que brilhavam em cores estranhas. Algumas chiavam como chaleiras. Decidi não ser uma boa ideia dar atenção às coisas ao redor. Parecia que se me desviasse do caminho algo daria muito errado.
Em alguns pontos do chão de pedra havia também gelo e eu precisava deslizar sobre ele desajeitadamente. Em um momento cogitei me apoiar na parede para facilitar o avanço, mas um calafrio me impediu. Eu devia demorar o quanto precisasse e não devia encostar em mais nada. Gigantes de gelo avançam sem dificuldade nesses lugares. Se eu me apoiasse, entregaria à sala que havia algo que não deveria estar ali. Resolvi testar minha teoria.
Peguei uma pedrinha mínima do chão e a atirei contra a parede oposta. No momento em que tocou a superfície, gelo se ergueu do chão como em um gêiser congelado e a englobou em uma coluna. Definitivamente a parede não era boa ideia.
Na metade do caminho havia uma ponte larga o suficiente para duas pessoas, feita de gelo. Ao redor apenas água inesperadamente líquida. Queria que Loki estivesse ali comigo. Avancei dois passos e o gelo estalou sob meu peso. Aquilo quebraria se eu não soubesse onde pisar. E eu não sabia,cairia naquela água mortal. Um pensamento simples me ocorreu. Corra. Não havia tempo para pensar num plano. Se não caísse na água o clima me mataria. Eu precisava ser rápida.
Tudo estava indo bem, até que na metade do caminho pisei em um ponto errado. A ponte soltou um estalo alto e começou a desabar vindo por trás de mim. Conforme o gelo caía na água, gêiseres de gelo respondiam congelando tudo. Soltei um grito alto ecoando por todo o cofre, enquanto corria desabalada para fora da ponte. Passei a mão pelos cabelos e os senti congelados. Perto demais. Soltei o ar em arquejos percebendo que havia prendido a respiração com o nervosismo.
Entrei em um salão amplo e pude ver a joia. Um cubo amarelo brilhante preso por correntes sobre uma mesa de pedra. Por algum motivo não havia nenhuma armadilha para protegê-la, apenas pequenos montes de gelo espalhados pelo cofre. Eu ouvia um som como murmúrios ecoando nas paredes. Quando dei o primeiro passo em direção a joia, uma voz feminina me chamou em alemão.
— Liana, menina insensata — a voz dizia. — Por que continuar assim? Nessa vida de presa? Sendo caçada por predadores maiores e mais fortes. — Senti minha pele se arrepiar e nada tinha a ver com o frio. Era a voz da minha mãe, mas o discurso não parecia o dela. Ela era doce e gentil, simpática e com o som de um riso preso a voz, muito diferente do que eu ouvia agora, embora o timbre fosse o mesmo.
— Criança boba. Achou que não valia a pena viver por você. Achou que você era o motivo. O motivo era eu. Minha fraqueza. — Uma voz que assombrava meus sonhos há anos. Meu pai. Olhei ao redor assustada. O que eu tinha vindo fazer ali mesmo?
As vozes se tornaram mais altas, sussurrando contra as paredes congeladas. Ouvi gritos agudos e vozes zangadas. Choros baixos e angustiados. Crianças e adultos. E meus pais continuavam falando.
— Fique, será melhor. Você não quer nos ver? Nos encontrar? Vamos cuidar de você onde ninguém pode te fazer mal — minha mãe dizia. Ninguém me faria mal. Eu queria isso. Queria ficar quietinha. Dormir.
— Mãe? — chamei com a voz trêmula.
— Largue as armas, querida. Sente, fique aqui. Vamos protegê-la — meu pai falava. Eu não conseguia lembrar o que tinha ido fazer ali, mal estava sentindo meu corpo tremer de frio novamente — Querida, vai ficar tudo bem. Largue esse arco pesado — ele sugeria. O arco nunca havia sido tão desconfortável na minha mão. De fato, quase larguei.
— Onde vocês estão? — perguntei, incerta.
— Aqui. E você pode ficar com a gente — minha mãe convidava. Me sentei no chão. Eu sentia muito frio. Não conseguia lembrar o que estava fazendo ali. Apertei a cota de couro que vestia contra o corpo. Era grande demais para ser minha. De quem era? Eu não sabia. Não importava.
— Isso, querida. Largue o arco — meu pai pedia mais uma vez. Olhei para a arma na minha mão. Pesado e incômodo. Aquilo não era natural. Minha mão tremia.
— Estou com frio — reclamei num murmúrio.
— Quando largar o arco vai passar, querida — a voz da minha mãe insistia. Um pensamento fugaz passou pela minha mente. O arco era parte de mim. Eu não podia largar. Por que ele era parte de mim? O que eu estava fazendo ali?
— Mãe? — chamei baixinho. — Estou com medo. Não tenho ninguém comigo.
— Eu sei, querida. Vamos cuidar de você — prometia numa voz suave, mas eram minhas próprias palavras a soarem falsas. Como eu havia chegado ali? Não consegui lembrar o caminho. Sozinha? Eu não sabia. Puxei a cota ainda mais para perto do corpo com frio.
— Estou congelando — insisti, minha dicção parecia muito ruim aos meus ouvidos.
— Vai passar. Apenas largue o arco e tudo vai melhorar — meu pai insistiu calmo. Movi minha mão para soltar o arco no chão e um cheiro amadeirado invadiu minhas narinas. Era bom. Era familiar. O que eu estava fazendo ali mesmo? Comecei a me sentir sonolenta.
Dobrei as pernas e apoiei a cabeça nos joelhos. Aquela roupa tinha um cheiro bom. Ergui os olhos e percebi sem muita atenção que os montes de gelo encerravam pessoas. Nem todas tinham aparência humana, mas eram inegavelmente humanoides. Que estranho. Estavam todos no chão na mesma posição que eu. Imaginei porquê teriam entrado ali. Eu não sabia nem porquê eu mesma estava ali.
Me mexi desconfortável com o frio e inalei mais daquele aroma bom e amadeirado que a cota tinha. Tão familiar. Então me ocorreu. Quase como uma pancada no cérebro. Loki. Ergui os olhos para a joia. Eu estava ali para buscá-la. Segurei o arco com força e me coloquei de pé.
— O que foi, filha? Fique sentada. Descanse — pediu.
— Você me quer morta, mãe? — perguntei com a voz doída. Aquilo era cruel.
— Será melhor, filha — declarou ele, sem nenhum pudor. Aqueles não eram meus pais. Armei o arco com muito esforço. Eu tremia intensamente. As vozes e os sussurros se tornaram altos, agudos e desesperadores. Atirei contra a joia. A flecha não chegou até o alvo, se desmontando e retornando a aljava, mas as correntes desabaram. Alma estava livre. Me aproximei e a empurrei trêmula com a ponta do arco para dentro do vidro que Loki tinha me dado. Quando fiz isso a sala desapareceu.
Eu estava de volta à entrada da caverna. Loki e a giganta estavam a alguns metros de mim. O sol estava se pondo do lado de fora. Eu não tinha ideia de como poderia ter passado tanto tempo lá. Os outros gigantes urravam e batiam os pés no chão. Loki olhou para mim parecendo imensamente aliviado. Eu sorri e levantei o frasco, mostrando que havia conseguido.
A giganta caminhou até mim seguida de perto por Loki. Me olhava irritada. Ele parecia admirado e eu ousaria dizer, contente.
— Vão embora daqui — ela ralhou. Eu não entendia o porquê daquela reação.
— Com todo prazer, Farbauti — Loki falou com arrogância carregada em cada palavra. Tirou a joia da minha mão e a desmaterializou. A mulher nos olhava irritada, mas não atacava. Eu não conseguia dizer o motivo.
Quando saímos, Heimdall rapidamente abriu a Bifrost para nós, sem nem ao menos precisarmos pedir. Me perguntei se estaria olhando em nossa direção. Ele não devia fazer isso.
Estávamos novamente em Vanaheim, ao lado da caverna de Loki. Entrei intempestivamente sem sequer olhar para ele. Agarrei uma garrafa de licor de sobre uma bancada e tomei dois grandes goles, me sentando na cama ampla. Ele me olhava da entrada com as sobrancelhas franzidas.
— Tudo bem? — perguntou parecendo consternado.
— Vai ficar — garanti, tentando fazer minhas mãos pararem de tremer. Loki se sentou em uma poltrona em frente a mim.
— O que aconteceu lá? Você demorou uma eternidade — indagou em um tom frio e beirando o desinteressado.
— Era cheio de armadilhas no caminho. Não era simples como o de Odin...
— Odin é um velho prepotente e descuidado — afirmou com desprezo.
— Quero ver a joia — pedi enfim. Ele me olhou desconfiado.
— Por quê?
— Porque se não me deixar ver, não entro em nenhum outro cofre — avisei, séria. Eu não sei o motivo de ele simplesmente não me mandar calar a boca, mas com um floreio da mão a joia estava ali no vidrinho novamente. Eu não ouvia nenhuma voz agora. Tentei tirar da mão de Loki e ele a puxou rápido para trás fazendo-a desaparecer. Revirei os olhos, irritada. — Ela é horrível — afirmei simplesmente. Eu detestava aquele cubinho brilhante.
— Apenas para a mente fraca — devolveu indiferente. — O que você ouviu?
— Eu ouv... você sabia que eu ouviria vozes? — perguntei, irritada.
— Alma tem dessas coisas. — Loki deu de ombros. — Se eu te dissesse você não teria ido.
— Manipulador! — resmunguei, acusadora. Ele sorriu debochado como se fosse um elogio. Se eu soubesse o que aquela maldita joia me faria sentir, jamais teria concordado. — Eu ouvi meus pais — confessei num sussurro. Ele levantou as sobrancelhas pensativo.
— E o que te fez voltar à realidade? — perguntou curioso. Eu ri alto e debochada. Nunca contaria. Loki pareceu entender que isso era privado demais para os ouvidos dele. Levantou e pegou uma ameixa de sobre a fruteira, me oferecendo. Eu nem tinha notado a fome que sentia. Larguei a garrafa de licor e a aceitei.
— E aquela giganta? Você me disse que nos atacariam — lembrei-o.
— Farbauti tem tanto carinho pela joia quanto você — informou, tornando a se sentar com uma ameixa na mão. — Ela escuta Laufey. Estava louca para se livrar da joia, mas não conseguia pegar.
— Por que Laufey? — quis saber.
— Era o marido dela — Loki esclareceu indiferente.
— Espera, então ela é su... — Ele me deu um olhar de advertência que me fez calar. Frigga era a mãe dele e ponto final. Farbauti era apenas uma giganta entre centenas.
— E o que ela disse sobre “um toque do destino’’ e a “benção de Frigga’’? — pedi explicações, finalmente. Os olhos claros dele esquadrinharam meu rosto com atenção antes de finalmente responder.
— Você nasceu no dia de homenagem a Frigga. Isso é o toque do destino. Os humanos antigos dedicaram um dia da semana aos deuses mais importantes e você nasceu no de Frigga — explicou sem dar grande importância. — O que te confere algumas características que minha mãe apreciava. Não é tão incrível assim. Apenas uma curiosidade, quase uma coincidência — falou tentando soar indiferente, como se coincidências existissem. Eu já havia aprendido que nada do que acontecia onde o nome de Frigga se fizesse presente podia ser considerado acaso.
— E a benção de Frigga?
— Significa que te conferiu proteção até você concluir algo que ela mesma pode ter traçado no seu caminho — falou seriamente. Eu não me sentia muito protegida ultimamente. — Você tem características que ela aprecia e a proteção dela. A combinação do toque do destino e da benção só reforça a ideia de ter sido escolhida a dedo para alguma coisa planejada. Por isso faz escolhas imprudentes sem pensar como se fosse atraída para isso. Sabe quando tentam manipular sua mente. Repara em detalhes que um humano normal não repararia. Minha mãe te deu uma vantagem sem que você ao menos soubesse.
— Os únicos que tentaram manipular minha mente foram você e essa joia pavorosa — resmunguei. Ele não sorriu. Na verdade, me olhava muito seriamente, como se me avaliasse. Por algum motivo aquela história toda não me surpreendia. Eu sabia de certa forma. Não havia o que fazer, estava no destino. — Quando vamos atrás da próxima?
— Logo. Aproveite para dormir — falou se levantando e indo acender a lareira. Comecei a tentar tirar a armadura, mas meus dedos ainda enregelados se atrapalhavam nas travas. Tinha sorte por não ter queimaduras por gelo.
Loki terminou de acender a lareira e ficou escorado na parede, os braços cruzados na altura do peito, uma expressão de diversão me olhando duelar com aquele monte de metal. Eu o encarei irritada.
— Vai me ajudar ou vai ficar rindo? — bufei. Ele sorriu amplamente e veio até mim, soltando as travas nas minhas costas como se fosse super simples. Talvez para ele fosse. Devia ter tido pelo menos o triplo de tempo que eu tinha de vida para praticar aquilo. Balancei os braços aliviada quando o metal se desprendeu. — Obrigada — agradeci pegando a braçadeira e lhe devolvendo a cota de couro. Ele a vestiu novamente e eu fiquei ali parada o observando. Loki percebeu e me encarou franzindo as sobrancelhas. Eu adorava o quanto elas eram expressivas em conjunto com os olhos claros. Adorava o sorriso dele, o jeito como a boca se curvava quando falava. O som da sua risada. Adorava tudo nele. Aquilo era um mau sinal. Não acabaria bem. Eu não me importava.
— Vai ficar me encarando ou vai dormir? — indagou imitando meu tom de voz com perfeição. Ri baixo e me aproximei ainda mais.
— Vou beijar você — respondi como se fosse óbvio, fazendo exatamente isso. Ele não hesitou nem por meio segundo. Quando percebi, tinha uma de suas mãos atrás da minha nuca e a outra na cintura. Eu queria que o universo entrasse em combustão e nos esquecesse ali. Ele era perigoso demais. Sedutor demais. Eu era volúvel demais. Aquilo ia acabar mal. Eu não me importava.
Loki afastou a boca da minha, me deixando sem ar. Encostei minha testa na dele, encarando seus olhos verdes.
— Vai dormir — murmurou quase como uma advertência. Eu sorri. — Vai logo.
— Boa noite — respondi no mesmo tom baixo dele e me afastei com muito custo em direção à cama. Ele se sentou na poltrona encarando as chamas na lareira em silêncio. Eu adormeci em questão de minutos derrubada pelo cansaço e tão feliz que duvidava ser possível.
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