God of Mischief | Loki

20 Capítulo 19: Memórias


Notas iniciais
Quero agradecer a taaaaantos comentários recebidos!! Muito obrigada vocês são sensacionais! Sejam bem-vindos novos leitores o/ Então meus lindos temos um capitulo bastante longo e complexo adiante. Leiam com calma e aguardem que temos muita coisa acontecendo e mais ainda nos que virão. Não deixem de comentar e recomendar porque isso se torna o meu combustível! Divirtam-se! ''One day I'm gonna forget your name And one sweet day You're gonna drown in my lost pain''

Desci da montanha e caminhei a esmo evitando a cidade. Já tivera provas suficientes de que deveria evitar circular perto de aglomerações. Segui primeiro por um campo amplo e aberto, aos poucos se tomando por árvores de copas amplas afunilando até que eu estivesse dentro de um bosque. Andei certamente por mais de uma hora. Não gostava da ideia de ir tão longe assim, ainda mais tendo deixado meu arco encostado na parede da caverna. Se precisasse dele, bastaria desejá-lo, mas se fizesse isso Loki saberia que eu havia me metido em problemas.

“Você é fraca’’. Eu deveria ter me controlado, ele não precisava me ver falhando toda vez. Eu não tinha culpa se Loki não conseguiria entrar nos cofres. E mesmo entrando ainda precisava arriscar minha vida por aquelas joias. Ele tiraria vantagem disso mais cedo ou mais tarde e ambos sabíamos. Nossa aliança estava fadada a terminar uma hora. Eu só... queria poder adiar esse momento.

O som de água atraiu minha atenção. Avancei alguns metros, pisando sobre raízes e folhas secas, em direção ao barulho. Uma cachoeira estava alguns metros adiante. Banho. Eu estava imunda. Comecei a travar uma batalha épica contra a armadura. Quinze minutos de duelo depois eu a atirei no chão, irritada. O vestido delicado estava chamuscado em vários pontos e eu nem sequer havia reparado, só percebi quando o larguei sobre as folhas secas que se acumulavam no solo. Entrei no laguinho formado ao redor da cachoeira. A água mal chegava à altura do meu joelho. Estava muito gelada, mas eu precisava me limpar. Fui até a queda d’água e molhei os cabelos. Eles estavam bastante embaraçados e nem pareciam ter o comprimento que realmente tinham. Nunca um banho foi tão bem-vindo. Lavei o vestido como pude e o deixei secando sobre a grama na margem.

Me sentei sobre a queda d’água esperando não ser surpreendida por alguém e sentindo a pressão relaxante da água que levava a sujeira embora, mas não meus pensamentos. Abri a palma da mão e a pequena joia da Realidade flutuava acima dela. O que eu realmente queria? Sabia que ela era real. Sentia seu peso e sua textura, mas Loki não era capaz de segurá-la. Ela não era real para ele. Quando eu desejasse algo a joia deveria se materializar de verdade. Quando tornasse meu desejo real ela mesma seria real, mas eu não podia desejar algo com aleatoriedade. Lidar com a realidade me parecia algo muito arriscado. Eu tornaria algo real de acordo com a minha vontade. Mesmo que fosse impossível. Mesmo que fosse improvável. As coisas funcionariam como eu quisesse. E quando isso acontecesse a joia estaria novamente vulnerável para ser roubada.

Fechei a mão com força e a pedra voltou a sumir. A culpa estava me corroendo. Não sabia se tinha algo sério com Steve. Uns beijos e uma dança, mas para um homem como ele isso poderia significar muita coisa. Eu sentia falta dele, mas não tinha certeza se queria realmente compromisso. E afinal de contas o que diabos eu tinha com Loki? Certamente nada que eu pudesse considerar como duradouro. Algumas lutas. Alguns resgates. Algumas discussões. Dois beijos. Eu não podia continuar com aquilo. Um dos dois teria que ser dispensado. E eu sabia bem quem era a melhor opção para isso. Para minha segurança. Mas e se nada disso importasse? E se nada disso fosse real?

Afastei o pensamento como se afastasse um inseto. Saí da cachoeira me sentindo exausta, vestindo a roupa ainda úmida e carreguei a armadura no braço sem a colocar. Comecei a retornar com tranquilidade pelo bosque. Entrar naquela caverna iria requerer muito esforço da minha parte.

Quando retornei, Loki trajava apenas uma calça de algodão, secando os cabelos compridos e ondulados com uma toalha, diante do armário vasculhando algo para vestir. Ao vê-lo meus pulmões expulsaram todo o ar, mas meu cérebro muito decentemente me fez desviar os olhos. Ele me olhou de relance e teve a decência de permanecer calado. Puxou uma camisa preta e a vestiu, enquanto eu largava a armadura a um canto. Me sentei à mesa e comecei a me servir com arroz, ervilhas e um porco com molho de aparência fantástica, fingindo ser tão cabeça oca quanto o deus deveria pensar. Ele resolveu quebrar o silêncio.

— Onde você tomou banho? — perguntou sem me olhar, servindo-se também. Sentou na ponta oposta, na cabeceira da mesa e não ao meu lado como vinha fazendo. Aquilo me irritou profundamente.

— Problema meu — respondi mal educada. Ele largou os talheres na mesa erguendo ambas as sobrancelhas, exasperado.

— Vai mesmo continuar com isso? — indagou numa irritação velada. Loki não queria que eu explodisse. Uma fagulha minha causaria uma explosão dele próprio. Suspirei cansada.

— Você sabe que não é minha culpa. Eu a busquei e ela é parte da minha realidade agora nem entendo direito como — falei em tom apaziguador, tentando explicar a situação. Ele tinha uma expressão dura no rosto. Estava contrariado. — Não planejei isso. Os planos aqui são seus, talvez já tenha reparado. Foi apenas um imprevisto.

— Um imprevisto muito conveniente para você. Poderia voltar a sua realidade perfeita agora — cortou friamente. Minha voz subiu uma oitava.

— Sim, poderia, mas talvez você tenha percebido que ainda estou aqui — afirmei, bruta. — Numa caverna, longe de casa, num vestido rasgado com gente querendo a minha cabeça em um espeto. — Essas palavras o deixaram estático por um momento e então vi seu rosto se desarmar.

— Por que você não volta para casa? — interpelou em um timbre macio e polido, recomeçando a comer. Enchi minha boca de ervilhas e mastiguei muito lentamente. Não responderia aquilo. — Era o que você tinha planejado — insistiu. Loki não desistiria da resposta.

— Eu não quero — balbuciei. Vi quando ergueu uma sobrancelha para mim, indagador. Encarei meu prato por um segundo. — Não sei o que eu quero, lembra? — resmunguei numa voz ínfima. Terminamos a refeição em silêncio.

Loki se levantou da mesa e sentou na poltrona vermelha, encarando o fogo se extinguindo na lareira. Eu saí da caverna e me sentei no chão de terra, encarando as três luas no céu estrelado. Após alguns minutos ele saiu também e sentando-se ao meu lado com as pernas esticadas à frente, as mãos o apoiando atrás. Ficamos em silêncio por algum tempo.

— Você sabe o que mais quer? — perguntei com o queixo apoiado ao joelho flexionado.

— Sei — garantiu sem hesitar. Eu imaginava que aquela seria a resposta. Ele não me diria mesmo se eu perguntasse. E eu não precisava perguntar para saber.

O vento soprava gelado ali em cima e passava pelos buracos chamuscados no meu vestido arrepiando minha pele. Um pensamento me ocorreu e eu o reprimi. Precisava parar com aquilo. Fiquei em um conflito interno por alguns segundos, mas por fim a impulsividade levou a melhor. Deitei no chão e apoiei minha cabeça no colo dele, espalhando os cabelos ruivos por toda parte. Seus olhos correram pelo meu rosto nervosamente e depois acompanharam a linha do corpo. Por um segundo achei que ele fosse levantar e me deixar ali sozinha, mas ao invés disso, desviou o olhar observando as luas no céu noturno. Era uma noite muito clara.

— A Sinmore deve estar nos procurando, não? — indaguei tentando puxar assunto.

— Ela não faria essa bobagem. Temos a joia e ela me considera plenamente capaz de a usar. Na cabeça dela isso seria suicídio — falou simples.

— Qual sua cor favorita? — perguntei repentinamente, emendando um assunto no outro. Ele me olhou com uma expressão engraçada, bufando uma risada. A pergunta era estranha e fora de contexto mesmo, mas eu queria desarmá-lo nem que fosse pelo estranhamento. — Sério, qual é? — insisti cutucando sua perna. Ele pensou durante alguns segundos.

— Verde. Ou vermelho também — respondeu, enfim sem muito atenção. Ficamos em silêncio novamente. O vermelho eu duvidava. Ele não tinha nada daquela cor. Verde era bem óbvio. — E a sua? — perguntou me surpreendendo por aceitar a conversa aleatória.

— Também gosto de verde. Ou azul — respondi sem pensar muito. Silêncio. — O que vai acontecer amanhã? — quis saber. Que conversa esquisita.

— Amanhã vamos atrás do Espaço — falou. O Espaço. O que viria com ele eu mal podia imaginar. Eu tinha um mau pressentimento quanto a joia, quanto a seu nome, quanto ao que estava no nosso destino. Algo me dizia que não teríamos uma noite tranquila como aquela por muito tempo. Não queria ir dormir com medo do que pudesse vir à frente. Queria congelar o tempo. Quase ri com o pensamento de que poderia tornar isso realidade.

Ficamos por uma longa hora ali do lado de fora, ambos perdidos em pensamentos. Eu adorava aquela paz de poder estar com ele quando ninguém nos perseguia. Loki encarava as estrelas seriamente, planejando e tramando, num comportamento muito típico.

— Você deveria ir dormir — sugeriu sem me olhar. Eu resmunguei alguma coisa sem sentido e levantei do chão realmente sonolenta. Ele continuou sentado. Antes de entrar me inclinei e beijei, o topo de sua cabeça, sentindo o aroma de limpeza dos cabelos escuros. Loki ergueu os olhos pra mim, inclinando-a para trás, muito sério. — Liana, você precisa parar com isso.

— Eu sei... — concordei com um meio sorriso, ainda inclinada, a ponta dos meus cabelos chegando à altura do rosto dele. Algo estava para dar muito errado e eu podia sentir isso, talvez pela Benção de Frigga. Se eu pudesse teria atirado os braços ao redor do seu pescoço e ficado ali a noite inteira. A vida inteira.

— Se sabe, comece a agir como se levasse a sério — repreendeu com certa frieza. Eu sorri sem graça e com pouca dignidade. Loki me queria longe. Entrei na caverna e coloquei mais lenha na lareira. Deitei na cama de lado, encarando a parede, minha mente trabalhando em uma única ideia fixa: Algo vai dar errado. Algo vai dar errado. Dormi com isso em mente.

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Na manhã seguinte levantei com uma sensação pavorosa de peso na boca do estômago. Eu estava muito nervosa. Se Loki reparou em minhas mãos tremendo, nada disse.

Nos preparamos para sair e dessa vez não pedi ajuda a ele para colocar a armadura. Briguei durante meia hora com aquela coisa, e mesmo assim tinha a impressão de que estava meio frouxa no ombro. O deus não ofereceu ajuda.

Saímos para a entrada da caverna e eu chamei por Heimdall. Nos entreolhamos quando nada aconteceu.

— Heimdall? — repeti, insegura, acenando para o alto. — Pode nos levar? — perguntei. Loki tinha uma expressão esquisita. Andou dois passos em minha direção e me guiou pela cintura para trás do seu corpo, encarando o céu. Eu o olhei em dúvida. O deus me deu um olhar de alerta. Algo estava errado, de fato. Achei que meu ar fosse faltar. Eu sabia que algo estava para acontecer.

— Heimdall — o príncipe chamou numa voz alta. A luz iluminou o chão, mas não sobre nós. Alguns metros à nossa frente. Loki não parou para ver o que estava saindo dali. Eu não precisava de nenhuma explicação. Era óbvio que finalmente alguém havia ordenado a Heimdall que voltasse seus olhos para nós. Loki era hábil e me ergueu do chão enquanto pulava para o campo abaixo, uma altura de pelo menos 15 metros, onde me pôs de pé com uma ordem muito simples. — Corre! — Ele não precisaria repetir. Disparei em direção ao bosque, ali seria mais difícil nos seguirem, quem quer que fosse. Loki corria ao meu lado, a lança na mão. Eu sabia que ele poderia atacar, mas pela sua atitude precisava me tirar dali primeiro. Então uma voz me fez falhar.

— Liana! — a voz de Steve. Aquilo me fez travar e olhar para trás. Era ele. Inegavelmente. Meus olhos se arregalaram em choque. O Homem de Ferro e Hulk também estavam ali. Juntamente com Thor, a Viúva Negra e o Gavião Arqueiro. Meus olhos correram deles para Loki. Ele encarava todos em choque, com uma atenção especial para Thor e Hulk. O que diabos estava acontecendo? Por um segundo achei que eu tivesse feito algo errado com a Realidade, mas sabia que ela permanecia intocada comigo.

Loki me puxou para trás de si e quando fez isso, Tony o atacou com a energia pura das mãos da armadura. Gritei com o susto, porém o deus era rápido e me empurrou contra uma árvore me protegendo. Meus olhos encontraram os dele por um breve segundo e eu soube que estávamos muito, muito, muito ferrados. Ele estava quase sozinho contra todos os Avengers.

— Renda-se, irmão! — Thor gritou com sua voz grave. Loki riu alto e debochadamente. Morreria lutando. Tentou se afastar de mim. Era um alvo mais interessante do que eu e a distância me manteria mais segura. Ao fazer isso, Hulk atacou como um furacão, ao mesmo tempo em que Thor disparava um poderoso raio. Eles o atingiram em cheio, o arremessando alguns metros para trás. Todos sabiam que isso aconteceria, a vantagem numérica era destrutiva. Gritei disparando duas flechas contra o deus do trovão, mas Clint fez o mesmo desviando as minhas ainda no ar. De qualquer forma Steve protegeu o deus do trovão com o escudo, eu jamais teria acertado. Nunca conseguiríamos derrotá-los.

— Loki! — gritei numa voz aguda em desespero. Ele estava morto? O deus ergueu a cabeça do chão, tentando se levantar lentamente, seus olhos procurando por mim. O Homem de Ferro pousou com impacto ao lado dele, o imobilizando. Tentei correr na direção deles, mas no segundo em que cogitei fazer isso, senti algo pontiagudo se cravar na altura do meu pescoço. Me virei pronta para armar o arco e dei de cara com Natasha me olhando seriamente, o rosto vazio de qualquer emoção. Tão diferente do que eu, idiota como era, havia suposto que uma viúva negra poderia ser. Armei o arco e ela ergueu a Glock sem hesitação.

— Natasha! Nós conversamos sobre isso! — Steve gritou do outro lado do campo. Ela não desviou os olhos de mim. Eu me sentia tonta. Seu rosto estava embaçado. E então eu desabei sem ver mais nada.

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— Ela ainda está sedada. — Natasha dizia numa voz seca.

— Acho que a dose era muito alta, mas não importa — Fury respondeu. Mantive meus olhos fechados. O que estava acontecendo?

— Isso não vai afetar a capacidade cognitiva, não é? — Steve perguntava num tom preocupado. Onde eu estava?

— Já falamos mil vezes que não. Ela foi apenas... reprogramada. Neutralizada — Clint dizia num tom tranquilizador.

— E quanto a ele? — Thor perguntou sério.

— Vai responder pelas nossas leis. Do nosso jeito. O primeiro passo vai ser o forçar a entregar as joias que ele carrega — Fury dizia seco. — Da última vez que achamos que poderiam resolver, ele voltou a causar problemas. Não mais.

— Se o seu jeito for justo, tudo bem — O deus falava preocupado. — Ele não deixa de ser meu irmão e em Asgard terá destino pior, certamente.

— E ela continua sendo minha irmã — Tony falava em uma voz profunda beirando o irado. — Eu não concordei com esse absurdo.

— Se fossemos esperar sua aprovação levaríamos semanas — Natasha respondeu fria. Sua voz era oca como um cano. — Isso satisfaz ambos os lados. Ela não lembrará de nada e ele está em custódia. É a solução perfeita.

— Não vai lembrar de nada que envolva ele, não é? — Bruce perguntava numa voz tensa. — Isso vai deixar lapsos. Eu definitivamente não concordo.

— Sua opinião é irrelevante — Fury falou brusco. — Natasha, vá buscar a menina e tire o Banner daqui.

— Sim, senhor — concordou. Ouvi o som de cadeiras sendo arrastadas e a porta batendo. Minha cabeça latejava, eu caí em torpor novamente.

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Acordei atrasada, o treino começaria às 9:00 e eu costumava levantar às 7:00 para conseguir chegar na hora. Me troquei correndo, agarrei meu arco a um canto, engoli um pão com geléia e um copo de suco, escovei os dentes apressadamente e desci as escadas correndo. Steve me esperava na portaria com a moto. Dei um beijo breve nele e subi na garupa. Me olhava com uma expressão tensa.

— Aconteceu alguma coisa? — indaguei colocando o capacete que me oferecia.

— Ahn... você atrasou — respondeu simples.

—Dormi demais, um sono terrível. Vou tentar ser mais pontual amanhã — respondi simpática. — Você me disse que não tinha carteira.

— De carro ainda não tenho mesmo — falou, acelerando —, de moto devo ter há uns 60 anos — comentou com senso de humor. Eu o abracei pela cintura e voamos pelas ruas de Nova York, costurando pelo trânsito matinal. Ele me deixou em frente à Stark Industries, não sem antes me beijar de um jeito tão apaixonado que parecia que não nos víamos há semanas. Entrei no prédio correndo.

— Bom dia, senhorita Stark — Jarvis me cumprimentou, enquanto eu digitava no painel o código de treino. Os alvos se armaram esperando as minhas flechas. Preparei o arco e uma dor lancinante correu meus dedos. Olhei e percebi o problema. Que maneira de começar o dia. Como eu poderia ter esquecido de colocar a luva de proteção?

Uma das meninas da ginástica me emprestou alguns band-aids que usei para enfaixar os dedos doloridos.

— Você esteve viajando? — questionou, me ajudando a calçar a luvinha sem arrancar o curativo.

— Eu? Não...

— Tem dias que não te vejo... — comentou.

— Você não deve ter prestado atenção, estive aqui o mês inteiro — desconsiderei. — Obrigada — agradeci pela ajuda e retornei ao meu treino. Parei apenas para almoçar e continuei treinando até o final do dia. Minha mira estava impressionantemente impecável. Era quase simples demais atirar em um alvo estático.

Na saída do treino, encontrei com Natasha me esperando. Me cumprimentou com um simples meneio e abriu a porta do carro preto, onde o Diretor Fury me esperava.

— Boa noite, Senhorita Stark — cumprimentou com olhos críticos. Meu coração disparou nervoso por um átimo, e então eu sorri.

— Boa noite, Diretor — respondi sorrindo. — Boa noite, Clint — emendei sabendo que era ele quem dirigia o carro, com Natasha no banco do carona.

— Noite — respondeu simpático.

— Como foi o treino hoje? — Fury perguntou me observando atentamente.

— Ótimo! Uma hora dessas vou ficar tão boa quanto Clint! — afirmei sem esconder minha admiração. O arqueiro riu de um jeito estranho ao volante.

— Quando isso acontecer você poderia se unir a S.H.I.E.L.D. — Fury sugeriu. Foi minha vez de rir.

— Eu gosto de competições. Já me imaginou tentando salvar o mundo? Não é bem o meu perfil — declarei retórica. Ele estreitou o único olho para mim.

— Não consigo imaginar mesmo — sorri, sentindo um calafrio me percorrer. — Chegamos — informou. Abri a porta do carro.

— Vão me buscar amanhã também? — indaguei. Natasha e Clint viraram para olhar para Fury. Ele pareceu refletir por um segundo.

— Acho que amanhã não.

— Ah, que pena! Eu ia acabar mal acostumada mesmo — respondi. Me lembrava de estar voltando de carona com eles há dias pela comodidade de estarem trabalhando numa organização oficial perto.

Me despedi e desci do carro. Ao entrar em casa, Jinggles veio mais do que depressa se enroscar nos meus pés. O acariciei por um segundo e fui tomar um banho. A água escorria pelo meu corpo levando o suor e o cansaço embora. Olhei os pontos na minha coxa. Amanhã eu os tiraria, alguns haviam rompido, mas nada sério. Resultado de uma batida de carro horrorosa. O médico da S.H.I.E.L.D. dissera que eu não lembrava em virtude de estresse pós-traumático. Acontece muito, de acordo com ele.

Assei alguns cupcakes e me sentei para ver TV com Jinggles ao meu lado. Eu me sentia estranhamente sozinha. Estava acostumada a sermos só nós dois, mas algo parecia fora do lugar.

— Senhorita, o senhor Stark está na linha — Jarvis me informou.

— Passe a ligação — pedi, animada por conversar com alguém.

— Oi, Lia — Tony cumprimentou. Sua voz estava engraçada, parecia cansado e preocupado, era como se não quisesse chamar atenção para isso, soando como um ator de comercial barato. — Como você está?

— Ótima e você?

— Bem... Vamos pedir camarão no almoço amanhã e a Pepper me pediu para te chamar — convidou gentil e estranhamente formal.

— Ah, Tony... Eu combinei de almoçar com o Steve — me desculpei. Seria um almoço rapidinho durante o intervalo do treino, mas era com ele, então valeria a pena. — Se sobrar alguma coisa para o jantar eu posso fazer uma visitinha noturna.

— Você vai trocar a ilustre, charmosa, agradável e inteligente companhia do seu amado irmão por um Subway com o Capicolé? — perguntou com fingida indignação, soando um pouco mais como ele mesmo.

— Vou sim, ilustríssimo irmão postiço— respondi rindo.

— Terei uma conversa de homem para homem com esse cara — respondeu numa voz dissimulada. — Te esperamos de noite então — falou e desligou. Estiquei o corpo no sofá com bom humor e adormeci tranquila.

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Dias daquela rotina se passaram. Eu almoçava com um, jantava com outro, treinava todo santo dia, posei para um catálogo da Adidas em uma viagem à Califórnia com outras atletas, encontrava Steve nos horários livres. Podia perceber como o soldado me levava a sério, parecendo cada vez mais interessado em me conhecer e estar comigo, sempre de forma respeitosa. E no fundo algo me incomodava. Me sentia irritantemente sozinha. O tempo inteiro. Não importava quantas pessoas me rodeassem. Hoje era meu dia de folga e eu faria qualquer coisa para afastar aquela sensação.

Me estiquei no sofá e liguei para Pepper e Tony. Estavam no Caribe. Steve tinha me dito que trabalharia até tarde na sede da S.H.I.E.L.D. hoje, mas mesmo assim liguei sendo atendida ao segundo toque.

— Oi, Lia! — atendeu, sua voz soando agradável e terna.

— Oi, Capitão! — o cumprimentei com certo humor e a mesma doçura que recebia. — Quer passar aqui em casa hoje à noite? — convidei. Não podia negar, havia certa malícia da minha parte nessa proposta. As coisas estavam muito à moda antiga para o meu gosto. Esperava não intimidar alguém como ele, contudo um meio termo seria bem-vindo.

— Vou sair tar... — Ele se interrompeu e eu ouvi uma voz masculina falar algo nas costas dele. — Boas notícias, estou indo agora mesmo — falou, num timbre estranho. Reprimir uma risada foi bastante difícil. Eu não reclamaria, talvez devesse agradecer ao amigo do soldado. Apesar disso, fui atingida por um nervosismo repentino.

— Que ótimo! Vou pedir comida chinesa, ok? — avisei, soando mais esganiçada do que deveria, ouvindo-o concordar antes de desligar. Fiz o pedido e corri me arrumar.

Consegui me preparar muito mais rápido do que imaginava, mesmo tendo tomado um banho muito caprichado e passado perfume em lugares estratégicos, mas nada além disso, não queria parecer exagerada. Usava uma blusa frente única de tecido fluído e uma saia lápis justa. Apenas um meio termo, para não intimidar, repeti a mim mesma. Penteei os cabelos, deixando as ondas avermelhadas soltas e alguma maquiagem para disfarçar a cara de cansaço. Escolhi uma lingerie bonita apenas como um detalhe adicional. Puramente por questão de auto confiança. Só isso mesmo, nada demais.

Steve chegou junto com a comida. Subimos no elevador rindo do tempo perfeito dele e repentinamente não sentia mais todo aquele nervosismo. Steve era um cavalheiro, simpático, educado e gentil. Eu queria estar com ele. Quem não iria querer?

O Capitão arrumou a mesa e servimos a comida em travessas perfeitas para enganar qualquer um, fazendo parecer que aquilo era feito em casa.

— Agora até podemos fingir que eu sei cozinhar! — falei bem humorada.

— Verdade — ele concordou rindo. — Porque de todos apartamentos de Nova York eu escolhi vir ao único que só tem meia melancia na geladeira e olhe lá! — alfinetou em um tom divertido. Paralisei ao ouvir aquela frase, minha mão com a garrafa de refrigerante no ar. Larguei-a bruscamente e me senti tontear. Talvez minha pressão tivesse caído. Steve me apoiou pelas costas antes que eu desabasse no chão. — Liana! O que foi? — perguntou alarmado. Eu não sabia. Meu coração batia contra as costelas como se quisesse quebrá-las. Eu tremia. Senti o impulso de chorar.

Steve me colocou sentada e encheu um copo com água o empurrou para mim. Bebi sentindo minhas mãos pararem de tremer lentamente, a respiração normalizando.

— Acho que o calor não me fez bem — expliquei, mesmo não sendo um dia tão quente. Steve me olhava como se esperasse algo muito mais sério.

— Tem certeza? Posso te levar ao médico se quiser. Na S.H.I.E.L.D. te atenderiam rapidinho — sugeriu preocupado. Eu ri desconsiderando.

— Foi só uma queda de pressão. Eu não vou morrer, ok? — brinquei me pondo de pé. – Vamos comer, não comi nada até agora, deve ser isso— justifiquei, fazendo menção de servir meu prato. Ele me olhava como se esperasse que eu apagasse por cima do yakissoba. Almoçamos conversando amenidades. O Capitão era uma boa companhia. Tudo estava indo bem. Só não preenchia o vazio.

Assistimos a um filme antigo abraçados no sofá e ele não pareceu nada relutante quando decidi beijá-lo, apesar disso, demonstrou-se agradavelmente surpreso ao sentir minha perna passar por sobre as dele sentando-me em seu colo. Steve não era um monge, apenas tentava não apressar as coisas e tudo bem, eu também preferia dessa forma. Não parecia certo de outra maneira. Ainda assim, suas mãos sabiam exatamente onde estavam indo, poderia facilmente ter me feito esquecer qualquer raciocínio sobre meio termo. Ele só precisava de consentimento e senti que poderia oferecê-lo quando mordiscou minha clavícula, me fazendo gemer baixo, suas mãos apertando minha cintura. Fitei seu rosto e senti meu coração disparar de um jeito incômodo diante de seus olhos muito azuis. Algo parecia muito errado. Ofereci um sorriso tímido a ele.

— Eu… podemos só… — balbuciei sem saber como completar a frase.

— Ver o filme? — arriscou, com uma expressão tranquila. Não estava frustrado. Assenti, sem graça. Ele me deu um beijo breve nos lábios, conduzindo-me pela cintura de volta ao meu assento, aconchegando-me junto a ele.

Steve ficou comigo até tarde da noite. Depois disse precisar ir, parecia ter um relatório para preparar. Assim que saiu me encostei na porta do apartamento e suspirei cansada. Não dele exatamente. Steve era adorável.

Vesti meu pijama de flanela vermelho e fui ao banheiro escovar os dentes. Na volta parei diante do quarto de hóspedes. Fazia tempo que eu não entrava ali. Jinggles havia tomado o quarto para si e eu entrava apenas para pegar cobertores no armário. Empurrei a porta semi-aberta e meu gato me encarou com seus olhos acusadores, depois de passar o dia inteiro se ocultando da visita. Me sentei ao lado dele sobre a cama.

— Você está bravo comigo? — perguntei numa voz baixinha. Ele se aninhou perto de mim, ronronando satisfeito. Me deitei ao lado, o puxando para perto. Antes que eu percebesse estava chorando. Não sabia o que eu tinha de errado. Apenas aquela sensação de vazio, de um erro sendo cometido. Era sufocante.

*Sede da S.H.I.E.L.D. – Nova York*

A bela ruiva entrou na sala novamente. Era bonita, mas de um olhar vazio e inexpressivo. Muito diferente de Liana que parecia sempre calorosa.

Loki estava algemado à parede numa altura o impedindo de ficar em pé e também de sentar-se. O desconforto era proposital. Ele não ligava.

— Veio me fazer companhia outra vez? — indagou com o deboche pronunciado na voz. — O arqueiro deve morrer de inveja de mim.

— Ninguém teria inveja de você — Ela disse fria. Já tinham jogado aquele jogo uma vez e Natasha havia ganhado. Dessa vez Loki não facilitaria tanto. Até mesmo porque da primeira vez ela tinha bancado a frágil mocinha apaixonada e agora chegava tão calculista quanto ele. — Pode tornar isso fácil ou difícil, Loki. A escolha é sua. Vai entregar as joias? — Natasha avisou. Loki riu alto.

— Não parece óbvio que eu já fiz uma escolha? — perguntou retórico. Haviam proposto uma execução simples se ele entregasse as joias e contasse a S.H.I.E.L.D. onde conseguir as restantes. Ele nunca faria isso. Jogaria do jeito difícil. E quando terminasse aquele jogo a rainha de Musphelheim que se prepara-se.

Sinmore havia procurado por Thor e relatado o roubo. O deus do trovão, por sua vez, procurou os Avengers em Midgard e lhes comunicou o que o irmão estava tramando. Apesar de estarem afastados da organização, o suposto sequestro de Liana e os planos de dominação de Loki, fizeram com que os heróis se reunissem sob a bandeira da S.H.I.E.L.D. outra vez. Não havia escolha. Liana estava em perigo e Loki se reerguendo. Sob as ordens de Fury, Thor os havia levado para Vanaheim e os capturado.

Ele só podia supor que por trás daquilo devia ter havido muita negociação, principalmente em torno do nome da ruiva, mas desde que chegara não tinha visto nem sinal dela. Não perguntaria. Qualquer demonstração de interesse em saber o paradeiro de Liana, poderia colocá-la em risco. E com ela, a joia da Realidade. Precisariam de muito mais do que fome, sede, algumas horas de espancamento e choque diários para fazê-lo entregar as joias. Se bem que oferecer Alma a agente soava tentador.

Loki se perguntava se Thor sequer sabia onde ele estava. Achava que não. O irmão nunca permitiria algo assim. No entanto, o que martelava no fundo de sua mente era se Liana sabia onde ele estava. O que tinha acontecido com a mulher, afinal? Não podia perguntar. Teria que arrumar um jeito de sair dali e então poderia descobrir.

Natasha ligou uma mangueira encharcando o piso da sala com água. O chão era mais baixo ali, de forma que a água se acumulava como numa mini piscina, chegando aos calcanhares dele. Haviam cabos elétricos caídos dentro da água, mas a sala estava com eletricidade cortada, iluminada apenas por uma pequena janela lateral a deixando quase na penumbra. Ele registrou mentalmente que mataria a agente, antes de procurar por Liana.

— Não estou com tempo para você — falou seca. — Vou te deixar pensar um pouco sobre o assunto e volto mais tarde. Qualquer coisa mande me chamar — disse com a dissimulação evidente em sua voz. Loki sorriu de um jeito perigosamente doce.

— Estarei te esperando bem aqui — avisou, escondendo o tremor a lhe percorrer a espinha e o coração descompassado antecipando o que aconteceria. Natasha saiu da sala. A eletricidade voltou.

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Acordei assustada muito cedo naquela manhã. Eu tinha tido um sonho estranho. Uma pedra de brilho esverdeado diferente de qualquer esmeralda e outra de brilho amarelo como nada que eu já vira, um frio terrível e um calor infernal, um arco sem corda e uma lança dourada. Um chão que se enchia de água. E o vazio no meu peito prestes a me tomar por inteiro como uma névoa vermelho sangue.

Me troquei planejando ir ao treino como sempre, mas eu estava muito incomodada e agitada. Ser a irmã de Tony Stark tinha suas vantagens, ninguém reclamaria das minhas faltas se meu desempenho se mantivesse e eu estava treinando muitíssimo bem. Ao invés de ir para a Stark Industries, peguei um dos carros e fui para a praia que ficava há umas duas horas dali.

Ao chegar, desci e caminhei direto para dentro do mar. Mergulhei encharcando os cabelos com a água salgada. Meu coração estava disparado e a ansiedade estava tentando me matar. Minhas lágrimas se misturavam ao oceano. Me sentia tão angustiada sem saber o motivo. Queria tanto que aquele sentimento passasse.

Voltei à areia e resolvi visitar minha casa de praia que há muito tempo não via, caminhando até lá sem me importar com as roupas molhadas. Jarvis abriu a porta para mim e o forte cheiro de casa fechada invadiu minhas narinas. Eu não sabia porque estava ali. Caminhei passando a mão sobre a mobília empoeirada, abri um vinho na prateleira e tomei um longo gole direto da garrafa. Grande Liana Schroeder, bebendo logo pela manhã.

Tomei um banho e vesti uma roupa qualquer. Sentei no sofá e meus olhos caíram sobre uma edição antiga do The Guardian abandonada sobre a mesinha de centro. Peguei-a e comecei a folheá-la. Então meus olhos pousaram sobre uma notícia curtinha do caderno de fofocas. Falava sobre um suposto encontro romântico meu em um restaurante, enquanto Tony se recuperava de sua cirurgia. Eu me lembrava da cirurgia, mas não do suposto encontro. Havia uma foto minha diante do restaurante rindo de algo, com um homem alto me seguindo de perto, mas seu rosto estava virado. Senti meu coração saltar dentro do peito. Eu o conhecia. Era óbvio que sim, mas não conseguia me lembrar dele. Suas feições não me vinham à mente, assim como seu nome me fugia. Sentia o desespero tomando conta de cada espaço novamente. O que estava acontecendo comigo? Como eu podia não saber quem ele era? Tinha me encontrado com esse homem enquanto Tony estava internado. Eu o conhecia. Qual era o nome dele?

Meu coração pulsava muito alto e minhas mãos tremiam. Quem era ele? Quem era ele? Quem era ele? Eu precisava saber. Por que permanecia incapaz de lembrar? Aquilo me colocava em desespero. Se ao menos suas feições me viessem à cabeça... ou seu nome. Me peguei encarando a foto sem saber o que fazer. Sua silhueta era inegavelmente familiar. Minha expressão na foto dizia que eu estava me divertindo em sua companhia. Que eu gostava da presença dele. Como eu podia não lembrar de alguém assim?

Me sentia vazia, me sentia roubada. Algo estava errado. Aquilo não poderia ser normal. Seria parte do estresse pós-traumático que haviam me alertado?

Agarrei o jornal e o atirei no banco do carona do carro. Eu precisava de atendimento médico. Iria para a S.H.I.E.L.D. naquele momento.

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A sede da S.H.I.E.L.D. não era exatamente escondida. Ficava a algumas quadras da Stark Industries, em um enorme prédio espelhado, erguendo-se imponente, frio e cinzento, como um grande alerta aos inimigos da América. Não havia necessidade de se ocultar. A ideia era intimidar.

Em compensação a segurança na entrada do prédio era absurda. Ninguém entrava sem deixar digitais, escaneamento de retina e uma amostra de sangue para identificação genética. Depois de pingar uma gota no sensor da entrada, minha identificação piscou na tela para que o agente que ficava na portaria confirmasse que era eu mesma.

Liana Stark

21 anos

Cabelos ruivos, olhos castanhos

61kgs

1,80 m

Tipo sanguíneo: AB+

Filiação: Howard Stark e Lauren Schroeder

Profissão: Atleta da equipe de tiro com arco da equipe dos Estados Unidos da América

Entrada: Autorizada.

O agente leu as informações atentamente e então destravou a porta detectora de metais.

— Boa tarde, senhorita Stark — o homem me cumprimentou. — Onde devo acompanhá-la? — perguntou solícito. Nenhum visitante tinha permissão de circular sozinho.

— Preciso encontrar o Capitão Rogers — pedi. Não queria ficar com esse agente me seguindo como uma sombra. O rapaz chamou Steve pelo comunicador que trazia preso à orelha. Em minutos o Capitão chegou ao saguão de entrada, com uma expressão entre a curiosidade e a preocupação. Cumprimentou o agente antes de me beijar breve, com algum pudor pelo ambiente de trabalho.

—Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem? — quis saber. Tentei sorrir, mas tudo que consegui foi um esgar.

— Mais ou menos... — comecei. Eu não queria deixá-lo ainda mais alarmado. — Estou com dificuldade de lembrar algumas coisas — admiti. A expressão de Steve tornou-se tensa, rígida.

— Deve ser por causa do estresse pós-traumático. O médico da S.H.I.E.L.D. disse que isso poderia acontecer, não foi? — falou tentando soar tranquilizador. Ele não era bom em fingir. Seus olhos estavam visivelmente tensos.

— Sim, ele disse... mas me sinto tão mal com isso. Achei que esqueceria coisas relacionadas ao acidente, mas parece que falta algo o tempo inteiro — desabafei, olhando para o chão. Steve parecia profundamente agoniado com minhas palavras. Acariciou meu rosto com as costas da mão me olhando preocupado.

— Vem comigo. Vou te levar até ele — chamou, me conduzindo pela cintura. Entramos em um elevador preto ele apertou um dos andares de subsolo. Steve me levou até uma sala vazia exceto por uma mesinha, uma cadeira e uma janela de vidro espelhado. — Lia, preciso avisar o Diretor Fury que estou te acompanhando ou ele pode procurar por mim. Vou falar com ele e volto trazendo o médico. Me espera aqui, ok? — assenti, satisfeita. Ele me deu um daqueles seus beijos muito ternos e saiu da sala.

Sentei e fiquei olhando as paredes cinzas ao redor. Aquele lugar era opressor. Ainda bem que eu tinha Steve comigo. Logo o médico me diria se aquele meu problema era realmente o que deveria acontecer ou precisaria de algum tratamento. Poderia ter procurado qualquer médico, mas Fury afirmava categórico que eu deveria ter o melhor atendimento. Era um cara legal.

A sensação de vazio se intensificava cada vez que eu ficava muito tempo sozinha. Steve tinha me deixado ali há pelo menos meia hora. Estava irrequieta, minhas mãos tamborilando na mesa. Levantei e caminhei até a janela de vidro espelhada, encarando meu reflexo. Eu estava bem. Meus cabelos desciam ondulados até um pouco abaixo dos seios, a blusa preta os fazendo parecer ainda mais vermelhos e brilhantes. Parecia também um pouco mais magra do que estava acostumada como se tivesse me exercitado mais do que o normal, mas me olhando assim, meu semblante parecia cansado e distante. Eu estava abatida.

Steve demorava muito, não queria reclamar, quem estava fora de ali era eu, porém não precisava me acompanhar durante todo o tempo, bastava me dizer onde ir e me viraria. Abri a porta e espiei para o corredor. Nem sinal dele. Resolvi procurá-lo, não devia ser tão difícil, e se não o achasse rapidinho, voltaria correndo antes de levar uma bronca de algum agente. A sala de Fury ficava no andar mais abaixo do solo. Diziam as línguas afiadas que se acontecesse um bombardeio aquele seria o bunker perfeito. Entrei no elevador e apertei o botão para me levar ao fundo daquela fortaleza.

A porta abriu dois andares acima do que eu havia apertado, mas ninguém entrou. Havia um grande quadro com imagens afixadas, bem em frente ao elevador. Fotos das mais distintas. Leões, revólveres, crianças de costas em uniformes iguais, o elmo da armadura de Tony, um lago amplo, alguns pares de sapato, um elmo dourado com chifres e na extrema esquerda do quadro uma reprodução de uma pintura antiga de uma enorme ave de asas abertas, seis lindas plumas douradas como cauda. Aquilo fisgou minha atenção e me fez sair do elevador no segundo em que começava a fechar as portas.

A ave era linda e eu tinha a sensação de já tê-la visto outras vezes. Passei a ponta dos dedos pela imagem, minha visão se turvando de lágrimas. Meus olhos correram dela para o final do comprido corredor. Havia um outro quadro de fotos naquela ponta. Caminhei até ele, meu coração socando as costelas. Nesse quadro haviam desenhos retirados de livros antigos. Um enorme castelo ligado por uma ponte colorida a uma casa de vigília enorme e circular. Um lugar feito de gelo, e outro onde tudo incandescia. Um desenho, no mínimo, cômico de Thor. Um homem em armadura dourada e de olhos da mesma cor contrastando com sua tez escura. Havia uma campina linda com casinhas pacatas adiante. Uma lança dourada. Tudo parecia estranhamente familiar.

Um barulho no início do corredor me fez dar um pulo, mas era apenas o maquinário do elevador trabalhando. Meus olhos encontraram uma porta entreaberta. Espiei pela fresta e não havia ninguém ali dentro, apenas um som baixo de água gotejando. Entrei e percebi estar do lado não espelhado de uma janela igual a da outra sala. Me aproximei tentando ver o que estava por traz do vidro. Uma sala pequena e cinzenta com o piso encharcado e cabos elétricos largados pelo chão. Meu coração acelerou um átimo. O que acontecia ali?

Então meus olhos o viram. Um homem algemado pelos pulsos e pescoço a parede, em uma altura o impedindo de ficar de pé, mas também não permitia sentar, mantendo-o pendurado pelas algemas. Sua cabeça pendia para frente, os cabelos ondulados ocultando o rosto de onde gotejava sangue. Eu não precisaria perguntar a ninguém o que acontecia ali. Levei as mãos à boca, horrorizada e certa de que não deveria ver aquilo. Se me pegassem naquela sala estaria em maus lençóis. Não conseguia desviar os olhos dele e daquela cena macabra. Por que faziam isso? Era algum criminoso? Mesmo se fosse...

Meu coração pulsava contra as costelas como se quisesse quebrá-las e fugir. Meus olhos percorreram a papelada sobre as mesas da salinha. Um nome escrito à mão chamou minha atenção. Liana Schroeder. Meu nome estava naqueles papéis. Remexi e achei fotos. Um vestido verde água todo chamuscado, uma braçadeira de uma armadura toda decorada com gravuras de cobras e aves, além de um arco e aljava metálicos. Não reconhecia nada daquilo, no entanto as fotos estavam anexadas a uma ficha minha. O que estava acontecendo ali? Por que eles tinham um relatório sobre mim e o que aquele homem tinha a ver com isso?

Olhei novamente para ele. Estava tão imóvel que por um segundo me perguntei se estaria morto. Então me ocorreu como um baque. Ele era o homem da foto no jornal.

Antes de perceber o que estava fazendo, comecei a abrir gavetas à procura das chaves para a salinha encharcada. Era óbvio que não haveriam chaves. Ali era a S.H.I.E.L.D. Se eu quisesse jogar teria que ser como eles. Abri minha bolsa e puxei meu celular. Não era um modelo comercial, era igual ao de Tony em tudo. Havia um pequeno painel de energia ao lado da porta de correr e eu grudei o celular sobre ele como se fosse um adesivo, já antecipando como me meteria em confusão. Não importava.

— Jarvis? — chamei para o aparelho. Ele se iluminou em resposta. — Isole os sistemas desse andar. Faça algo tão esperto como se fosse o Tony mandando. Preciso que mantenha esse lugar fechado por tanto tempo quanto puder e abra essa porta. De resto, hackeie tudo e mantenha-se oculto. Traga o caos — orientei apressada querendo gerar distração. A tela piscou duas vezes e as luzes do andar se apagaram por um segundo e tornaram a acender. Meus ouvidos estavam alerta. Ouvi vozes se alteando nos outros andares. O caos estava começando.

A porta levou alguns segundos até correr para o lado permitindo a minha passagem. O homem levantou a cabeça me encarando com um olhar selvagem. Permaneci parada a porta, o encarando em dúvida. Seu olhar me assustava, talvez estivesse errada e fosse cometer um deslize sério. Conhecia aquele rosto, tinha certeza. Assim como ele conhecia o meu. Sua expressão se suavizou assim que pareceu me reconhecer. Então a boca se entreabriu como se não pudesse acreditar.

— Liana? — perguntou numa voz rouca. Ele sabia quem eu era. Ele tinha respostas.

Entrei na sala, minha calça se encharcando com água até os joelhos e andei o melhor que pude em sua direção. Seus olhos não desviaram de mim nem por um segundo. Nos encaramos longamente. Aquele lugar era a organização onde os maiores heróis nacionais se encontravam. Ali era onde os caras bons trabalhavam e se esse homem se encontrava em uma situação tão ruim deveria haver um motivo. Talvez eu devesse temê-lo. Ele me conhecia, como? Minhas mãos tremiam nas algemas antes de poder pensar demais, mas não eram tradicionais para eu poder simplesmente abri-las. Meus olhos em pânico encontraram os dele, incertos, porém muito calmos. Eu não o deixaria ali.

— Jarvis! Uma ajudinha aqui — pedi em voz alta. As algemas estalaram após alguns segundos e abriram. O homem caiu de joelhos no chão molhado. Tentei apoiá-lo para poder levantar, mas ele recusou minha ajuda apesar das pernas trêmulas pela posição desconfortável em que estivera preso. Seus olhos verdes encontraram os meus e eu achei ter esquecido como respirar quando me puxou para perto pela cintura, me beijando com desejo como se fosse algo corriqueiro. Recuei assustada o empurrando para longe com os olhos arregalados. Suas sobrancelhas se franziram e ele virou o rosto levemente para o lado. Me encarou com uma expressão estranha.

— Pergunte — mandou simplesmente, sua voz chegando perto da normalidade. O que me admirou foi a palavra dita em alemão. Me ouvi atender a ordem dele em minha língua materna com a única pergunta que eu tinha em mente naquele minuto.

— Quem é você? — questionei soando alta e clara. A expressão dele tomou-se de pura fúria. Deu um soco de lado na parede com tanta força que achei que poderia ter quebrado os dedos. Estremeci no lugar, embora pela maneira como me olhava, sua raiva não era direcionada a mim. Não tinha medo dele.

Um elmo dourado surgiu sobre sua cabeça e uma lança nas mãos. As mesmas que eu tinha visto nas fotos. Puxei o celular do suporte e corremos para o corredor.

— Onde está seu arco? — perguntou muito sério a voz soando distorcida pela raiva.

— Que arco? — devolvi confusa, meu arco de treino ficava na pista de tiro. O homem me olhou chocado. Apontou para uma das fotos na parede. — Isso é meu?

— Sim. Descubra onde está — mandou de um jeito calculista.

— Jarvis, ache o arco — pedi em voz alta. Uma sirene disparou pelos andares do prédio. Precisávamos sair logo. Uma sala se abriu na metade do corredor. Entramos nela correndo e ele empurrou uma pulseira e um bracelete na minha direção. Eu os coloquei no lugar como se sempre soubesse o que fazer. O homem ficou me olhando. — E agora? — balbuciei constrangida por não saber o que ele esperava.

— Eu não sei, é você quem faz isso — afirmou simplesmente, espiando o corredor em alerta. — Seja como for, faça logo.

Não sabia bem qual a expectativa dele, mas queria o tal arco comigo o quanto antes se era isso que precisávamos para sair. Os segundos se arrastaram, o eco das sirenes e vozes distante, e sem aviso a parede se quebrou ao nosso lado com estrondo e uma pequena caixa metálica entrou na sala se dividindo em um arco e uma aljava. A aljava se prendeu às minhas costas e o arco se chocou contra a mão que estiquei a frente para defender o rosto. Eu encarei o arco metálico, bonito e bem feito, tinha o balanço ideal para alguém da minha estatura. Sabia perfeitamente como funcionava mesmo achando nunca ter tocado nada parecido. A sensação era ótima. Eu sorri para o homem, um pouco nervosa. Ele me olhava sério.

— Sabe usar? — questionou em dúvida. Assenti como se a pergunta dele fosse absurda, sorrindo. Ele finalmente retribuiu meu sorriso, antes de pegar de cima da mesa duas adagas prateadas, passou uma para mim, rapidamente prendi seu suporte na minha coxa esquerda, sobre a calça e a dele ficou atada à cintura.

Ao saírmos da sala meu celular tocou. Senti o coração disparar. Era o Diretor Fury. Atendi hesitante.

— Onde você está? — perguntou sem ao menos me cumprimentar.

— Segundo andar do subsolo — informei, sincera. Ele bufou do outro lado da linha e começou a gritar ordens. Desligou o telefone. Ergui meus olhos com insegurança para o homem que estava comigo. Eu não tinha ideia do que estávamos fazendo e aquilo me assustava. Aquilo era um atentado da minha parte. Ele acariciou meu rosto com gentileza, afastando meus medos.

— Vem — chamou me puxando pela mão. Forçou a porta do elevador a se abrir e tínhamos apenas os cabos de sustentação visíveis diante de nós. A lança desapareceu da sua mão e ele virou de costas para mim. — Segura firme —mandou. Não senti medo, mesmo sabendo o que ele planejava. Por algum motivo confiava cegamente nele.

Enrosquei o arco dentro da aljava e passei os braços ao redor dos ombros largos do prisioneiro, minhas pernas o rodeando pela cintura. Eu parecia uma mochila. O homem saltou, agarrando-se aos cabos e começou a subir como se fizesse aquilo todo dia. Apesar disso, seu rosto estava suado e eu podia sentir os músculos das costas retesando com o esforço absurdo de alguém que não estava em sua melhor condição física após o que imaginava fossem semanas na sala alagada. Quem era ele? Uma pessoa normal não faria aquilo. Pelo menos não depois do que eu sabia ter lhe acontecido naquele prédio.

Alguns andares acima as portas começaram a se abrir e agentes atiravam em nossa direção. Gritei me encolhendo e ele me puxou para frente com facilidade, me colocando entre seu corpo e os cabos, me protegendo o melhor que podia. Aquele prédio devia ter mais de vinte andares e o homem continuava subindo. Agora, diante dele, o olhei com atenção redobrada. Suas feições eram muito, muito familiares, mas era como se houvesse um bloqueio me impedindo de saber quem era. Os olhos verdes, as sobrancelhas grossas e expressivas, o nariz reto, os lábios finos. Tudo era familiar. Afastei os cabelos negros de perto do rosto dele, com a mão. Havia um corte fundo perto da raiz e eu podia ver sangue seco. Seus olhos me fitaram por um segundo antes de voltarem para o ponto acima de nossas cabeças.

A voz de Fury ecoava revoltada pelos alto-falantes gritando ordens. Alguns agentes se atiraram nas cordas nos seguindo. Eles avançavam rápido já que não precisavam subir com uma carga nas costas. O homem me apoiou pela cintura com um dos braços interrompendo a subida.

— Solte as mãos e atire — mandou. Eu olhei para ele de olhos arregalados. Eram pessoas. Eu não podia matar pessoas. — Vai logo — insistiu, brusco. Talvez por isso estivesse preso. Alguém atirou para o alto, mas sem sucesso. Depois disso eu não discutiria. Puxei o arco e uma flecha de dentro da aljava. O arco funcionava exatamente como eu sabia que faria, uma corda de luz surgindo quando fiz o movimento de puxar. Soltei 4 ou 5 flechas e elas atingiram pernas e braços. Não matei ninguém, embora eu soubesse que a queda possivelmente os mataria. A sensação de atirar era ótima. Eu me sentia poderosa e completa a despeito se era certo ou errado. Tiros subiram em nossa direção e me esqueci de ter pena.

Meus olhos se fixaram como se não houvesse nada além de mim e do alvo. Os olhos verdes fitavam atentamente meu rosto e nem isso eu notava. Soltava as flechas livre de qualquer emoção, até mesmo o vazio, e sorri ao vê-las atingirem os alvos os derrubando, uma sensação de satisfação me invadindo. Eu estava plena com um arco em mãos.

Coloquei a arma de volta na aljava e o envolvi com os braços novamente. Ele voltou a subir, mas sua expressão era de divertimento. Um meio sorriso brincava em seus lábios. Ele sabia o que eu sentia quando atirava, podia ver em meus olhos.

— Abra essa porta — mandou, me ajudando a passar dos seus braços para uma plataforma da casa de máquinas do elevador.

— Jarvis, você o ouviu — disse em voz alta. A porta se abriu e estávamos no terraço. Ele saltou para fora do poço e eu o apoiei enquanto se curvava, respirando forte por um momento diante do esforço. Jogou os cabelos para trás erguendo a cabeça com um meneio afastando o cansaço. Helicópteros sobrevoavam a área e pude ouvir a voz de Fury.

——Liana, se afaste do criminoso e você sairá intacta — oferecia. Não pude reprimir uma risada. O que quer que houvesse de errado comigo eu sabia que tinha a ver com a S.H.I.E.L.D. e não com esse homem. Acordara na sede dias atrás e tinham me dito sobre um acidente que eu não lembrava. Desde então o vazio me perseguia. Não me lembrava de detalhes simples e coisas que aparentemente eu conhecia. Eu não me lembrava dele.

O homem olhou sério para mim e levantou as sobrancelhas quando comecei a rir. Armei o arco e disparei contra um dos helicópteros em desafio. Aquela flecha nunca chegaria a atingi-lo, mas meu gesto era claro. Meu comportamento fez o dito criminoso sorrir de forma ampla. Então a voz de Steve me quebrou.

— Lia, não está sendo racional. Está confusa — ponderava com o desespero indistinto em sua voz. Senti minha mão se apertar ao redor do arco. — Me deixe explicar. Se afaste dele.

— Você sabia? — perguntei baixo, mas o Capitão parecia me ouvir mesmo assim. A raiva subia tóxica pela garganta. — O que fizeram comigo, Steve? Você sabia! — gritei acusadoramente em um rompante..

— Afaste-se dela ou vamos atirar — Fury alertou, a voz amplificada. As negociações comigo estavam encerradas. O homem sorriu provocador e malicioso em resposta. Duas flechas voaram de um dos helicópteros. Clint estava disparando e eu soube, no momento em que as vi voar, que o alvo era minha cabeça. Ele não teria errado se o prisioneiro não as tivesse rebatido com a lança que voltava a sua mão. Seus olhos se estreitaram para o arqueiro sentado na porta do helicóptero.

— Faça isso mais uma vez e ela morre — ameaçou numa voz que me causou arrepios. Ele se referia a Natasha, pilotando. Os agentes se entreolharam. Meu comparsa se aproximou me envolvendo pela cintura e beijou o topo da minha cabeça. Quem visse acharia que era um gesto protetor e provocador ao mesmo tempo, mas ele apenas sussurrou instruções. — Deseje a Realidade. Deseje conhecimento — instruiu em uma lógica que ninguém mais entenderia. Assim que disse isso, senti como se pudesse fazer qualquer coisa, ergui os olhos para o prisioneiro e quando abri minha mão direita uma pequena joia amarela flutuava acima da palma. Eu sabia o que ela fazia. Era minha e obedeceria qualquer coisa que ordenasse. Ela era a serva e eu a mestra.

— A verdade se torna real para mim — ouvi as palavras deixarem meus lábios. Não era como se eu as tivesse pensado, apenas fluíram daquela forma. Aquilo não era o que eu mais queria, então ela não se tornaria material. Era um pedido pequeno e simples para uma joia como aquela e também uma forma do objeto instigar seu portador a seguir usando-a até deixar escapar a verdade em seu coração.

Um brilho resplandecente iluminou o terraço e tudo voltou a minha mente como se uma cortina se rasgasse me mostrando algo escondido. Eu sabia. Meus olhos encontraram os dele. Loki. Como eu podia ter me esquecido do seu rosto? Da sensação que seu toque causava em mim? Ele sorriu e retribuí como uma boba, minhas sobrancelhas se franzindo de incredulidade diante da situação.

— Nos leve para algum lugar seguro — ordenei para a joia, sem esperar maiores instruções do príncipe ou dar chance a nossos atacantes. E então o terraço se fez vazio.

Notas finais
Comeeeentem! o/