Notas iniciais
Pessoas lindas! Quantos retornos maravilhosos, muito obrigada mesmo! Fico tão animada para escrever quando vocês fazem isso! Quero pedir desculpas pelos erros de português... geralmente eu sou super cuidadosa, mas no ultimo eu estava exausta e simplesmente postei do jeito que tava. Sou meio perfeccionista e quando vi o que tinha ido de erro fiquei horrorizada. Juro solenemente que nunca mais posto sem reler. Quanto a esse capitulo... então... eu me empolguei um pouquinho no inicio e acabei escrevendo até as 7 da manhã. XD Vocês vão entender o motivo. Foi um capítulo bem difícil de narrar. A historia tava aqui e não queria ser escrita de jeito nenhum. Foi difícil meeeesmo. Ainda precisei fazer um monte de pesquisa para poder fundamentar algumas passagens. Esse foi sofrido. Eu acho que vai ter bastante comentário, mas não custa pedir... XD Comentem e RECOMENDEEEEEEEM! Divirtam-se! E obrigada por estarem sempre aqui, lendo o que a minha cabecinha fica imaginando nas horas insones. ''Trust I seek and I find in you Every day for us something new Open mind for a different view And nothing else matters Never cared for what they say Never cared for games they play Never cared for what they do Never cared for what they know'' ''Ghosts are no different than you Ghosts are now waiting for you Are you dreaming?''

Chegamos a um bosque onde uma grande casa de madeira nos aguardava com sua varanda ampla e os dois andares de janelas largas como nos alpes. A casa era minha. Eu sabia, ao ver um grande pássaro entalhado na porta não tive dúvidas. Nem olhei para Loki, apenas abri e entrei intempestiva. Atirei o arco e a aljava no chão com força, eles se desmontaram tornando-se na pequena caixa metálica. Um urro escapou entre meus lábios. Eu tinha ódio fervendo dentro de mim. Traição. Steve tivera minha mais sincera confiança.

Loki entrou na casa e seu olhar pousou na caixa metálica e dela para mim. Meus olhos encontraram os dele e subiram até o corte próximo à raiz dos cabelos. Ele mancava de maneira muito discreta. Segurei-o pela mão sem falar nada e o fiz sentar em uma cadeira. Instintivamente eu sabia onde achar qualquer coisa que pudesse querer naquela casa, então não foi nenhuma surpresa quando encontrei um kit de primeiros socorros na primeira gaveta em que olhei.

— Não preciso disso, Liana — falou. Seu tom não era seco. Era apenas uma explicação do óbvio.

— Eu sei — concordei, ignorando. Virei água oxigenada em um algodão e a pressionei com gentileza na testa dele, minhas mãos tremendo enquanto limpava a ferida. Loki fez uma careta, mas não recuou. O corte era grande, então o protegi com gaze e esparadrapo. Não havia mais nada visível que eu pudesse remendar, constatei olhando agitada ao redor, mal contendo o furacão dentro de mim. Larguei as coisas, irritada e me sentei no chão, deslizando pela parede. Eu não choraria. Me recusava a algo assim. Soquei o chão duas vezes, praticamente sem sentir dor. Loki ajoelhou-se diante de mim, segurando minha mão.

— Chega.

— Eu vou matar todos eles — rosnei, o ódio deturpando minha voz.

— Eu sei — aquiesceu, sem me contradizer. — Vai ter que entrar na fila — completou com um meio sorriso erguendo as sobrancelhas tentando me fazer entender. Não pude evitar um riso baixo e nervoso ao ouvir aquilo. Só ele conseguiria uma reação dessas naquele momento.

Loki sentou no chão, bem na minha frente, esticando uma perna de cada lado do meu corpo. As minhas que estavam contra o peito se esticaram por sobre as dele. Ficamos sentados ali nos olhando por um longo tempo.

— O que eles fizeram com você? — perguntei numa voz falha quebrando o silêncio. Ele balançou a cabeça brevemente.

— Não interessa — cortou.

— Eu quero saber — teimei. — Quero mais um motivo para atirar, quando os encontrar.

— Você já tem motivos suficientes — desconversou mais firme.

— Loki... O que fizeram com você? — insisti baixando o tom de voz. Estava convicta de que tinha apenas uma vaga noção. Só ele sabia o que tinha passado. O deus desviou os olhos, irritado com minha teimosia. Respirou fundo buscando a paciência quase inexistente.

— Esqueça isso. Você já não dorme direito — falou muito sério, num tom suave, como num pedido. Essas palavras levaram minha alma embora, me dando noção do inferno onde o tinham prendido. Loki tinha a resistência de um deus, afinal. Qualquer coisa que fizessem a um humano, exigiria o triplo de esforço com ele. Assenti apertando os lábios.

— Como você se sente? — perguntou num tom preocupado.

— Estranha — admiti sincera. — Parece que abriram minha cabeça, encheram de papel e chacoalharam tudo. — Ele me ofereceu um meio sorriso.

— Mexeram na sua mente — explicou o que eu já tinha deduzido sozinha. — Mas certamente não tinham a menor ideia do que estavam fazendo — alou como um perito. E era mesmo.

— Fizeram algo na S.H.I.E.L.D. — concluí. Ele assentiu.

— Devem ter entrado em um acordo. Apagariam sua memória das últimas semanas e você estaria livre de qualquer acusação — deduziu perspicaz. — Eu ficaria em custódia. Queriam que eu entregasse as joias.

— Você entregou a Alma? — interpelei mesmo sabendo a resposta. Ele abriu a palma da mão e a joia estava sobre ela, retida em seu frasco. Loki a fechou em seguida, tirando aquela coisa desagradável da minha frente. — Por que não disse que a Realidade estava comigo? Teria sido mais fácil...

— Você tem ideia de como eles fariam para conseguir a joia? Como trariam sua memória de volta? — Sua pergunta tinha um tom sombrio. Um arrepio percorreu a minha espinha.

— Obrigada — balbuciei, entendendo como fora protegida mais uma vez. Meus dedos percorriam a costura das minhas calças ainda molhadas. — Achei que eles quisessem me ajudar... que fossem meus amigos — comentei repleta de amargura. Eu sabia que Tony e Bruce tinham ido contra aquilo. Não queriam fazer da minha mente um computador de onde se seleciona um punhado de arquivos e os deleta, mas ainda assim não fizeram nada para impedir. Quem realmente estava errado, em todos os níveis, era Steve. Havia se vendido a S.H.I.E.L.D. por muito pouco. Havia me vendido a S.H.I.E.L.D. por muito pouco. Loki não respondeu. — Se eu tivesse me lembrado antes, teria te procurado. Teria te tirado de lá... — falei me sentindo culpada. Eu tinha passado dias na minha rotina confortável, enquanto ele tinha ficado fechado naquele inferno. A imagem dos cabos caídos dentro da água não me abandonava e senti meus olhos marejarem, mesmo tentando impedir. Ele me olhava muito sério.

— Esqueça isso.

— Não quero esquecer mais nada — resmunguei. Ele riu, pego um pouco desprevenido por minhas palavras. Eu sorri em resposta e nos encaramos em silêncio novamente, um olhar dolorido em nossos rostos.

O cheiro de comida tomou a casa repentinamente. Nos viramos e encontramos uma refeição completa sobre a mesa de madeira. Levantamos absolutamente famintos, jantando calados. Eu não me incomodava com isso. O silêncio ao lado dele não era vazio. Não existia vazio quando ele estava comigo.

Terminei de comer primeiro. Loki parecia estar sem comer há dias. O que me lembrei, era bem provável. Fui para o armário e puxei um vestido de cetim verde escuro, com decote quadrado. Não havia nenhum bordado dessa vez. Então abri uma gaveta e encontrei um bonito colar de prata. Quando fechado ele mostrava a mesma ave de sempre, dando a volta pelo meu pescoço e segurando com o bico longo uma das penas da própria cauda. Me fechei no quarto e o coloquei, rindo. Frigga sabia que chegaríamos ali. Se Loki era detalhista eu sabia a quem atribuir essa influência.

— Onde estamos? — questionei meia hora mais tarde, quando voltou do banho ainda vestindo as roupas da sua prisão, vasculhando o armário atrás de outras limpas.

— Não sei — admitiu por cima do ombro. — Você nos trouxe aqui.

— Acho que não estamos em lugar nenhum... — falei, a sombra de um sorriso em meus lábios. Ele se virou curioso para me olhar, segurando uma camisa preta de algodão nas mãos. — Pedi por um lugar seguro. E do jeito que as coisas estão, nenhum lugar seria realmente seguro.

— Tem lógica — falou vestindo a roupa. Meus olhos se demoraram um segundo a mais do que seria socialmente aceitável, mas ele não pareceu reparar. — Não estamos em nenhum dos Nove Reinos. Existem mais lugares assim do que se sabe realmente — explicou. Me sentei em um grande sofá e recostei a cabeça no espaldar alto, fechando os olhos. Me sentia cansada como se tivéssemos corrido uma maratona. — Tem alguma coisa para ler aqui? — Ouvi a voz displicente.

— Segunda porta no corredor — informei sem abrir os olhos. Escutei os passos dele se afastando, mas adormeci antes que voltasse para a sala.

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Dormi direto por quase duas horas. Ao acordar, permaneci imóvel, apenas ouvindo os sons ambientes. Percebi que estava deitada, mas pela textura do lugar ainda no sofá. Tinha dormido sentada, mas Loki tinha me colocado deitada ali. Não pude deixar de me sentir grata. Ao abrir os olhos o flagrei me observando por cima da borda do livro. Ele desviou o olhar, porém não rápido o bastante.

— O que estava olhando? — perguntei numa voz irônica.

— Você fala dormindo — justificou sem me olhar.

— E o que eu estava falando? — quis saber entre a curiosidade e a vergonha.

— Com o gato — rebateu simplesmente. Puxei uma almofada e atirei, acertando seu joelho. Ele continuou encarando o livro.

— Mentiroso — chamei em um tom divertido. Era muito pouco provável que estivesse falando com Jinggles. — Diga a verdade — pedi sorrindo. O príncipe ergueu os olhos frios para mim.

— Estava discutindo com o Capitão — falou seco. Fiz uma careta involuntária, preferiria ter falado com Jinggles. Loki continuou me olhando como se esperasse uma resposta.

— Não tenho nada para falar com Steve. Nunca mais — afirmei numa voz gélida. Os olhos verdes perscrutaram meu rosto por alguns minutos e retornaram ao livro. Então um pensamento me surpreendeu e eu ri abertamente. — Você se importa? — perguntei descarada. Ele abaixou o livro lentamente, me encarou de alto a baixo, então simplesmente voltou a sua atenção à leitura. Se Loki tivesse atirado uma pedra em mim teria sido uma dispensada mais digna.

Me levantei do sofá sem falar mais nada e fui para cozinha com a desculpa de buscar água. Loki não precisava saber como tinha me atingido. Passei de volta pela sala e fui direto para o quarto. O deus nem sequer se mexeu. Me troquei, tirando aquele vestido e o colar que deram lugar a uma camisola de seda preta que descia até os joelhos, escondendo a cicatriz da perna. Entrei na sala novamente, me sentando outra vez no sofá.

— Amanhã, o Tempo? — perguntei confirmando o que me dissera mais cedo e tentando manter a voz firme. Ele ergueu os olhos para mim, demorada e intensamente. Qualquer outro homem teria me deixado constrangida, mas ele mal me via.

— Exato — concordou sério. — Mas você precisa saber que Odin despertou nesse meio tempo — avisou num tom sombrio. Eu estava impressionada com o nosso azar, embora também habituada a ele.

— Um a mais, um a menos na lista não faz diferença — respondi em um tom bem humorado, muito diferente da sensação de desesperança a se espalhar por mim.

— Não o desconsidere de maneira tão simples — alertou, severo. — A essa altura, Thor já o avisou sobre nossa fuga e a busca pelas joias. O humor de Odin pode se tornar... desagradável.

— Então precisamos pegar o restante antes que ele nos pegue — falei como se ele precisasse de incentivo. Loki assentiu concordando e baixou os olhos para o livro, encerrando o assunto. Suspirei e me levantei para ir deitar.

Quando estava passando por ele, meus olhos pousaram no livro. Estava escrito em inglês. Tomada pela curiosidade repentina, parei e voltei para ver do que se tratava. Fiquei impressionada. Poesia. Loki lia poesia. Me inclinei ao lado dele, minhas mãos apoiadas no pufe encarando as linhas repletas de palavras de amor. Ele me olhou pelo canto dos olhos.

— Sabe, tem vários outros na biblioteca se quiser ler, esse não é o único — informou irônico. Sorri virando o rosto para ele. Loki me encarou sério, eu o estava irritando e isso só fez meu sorriso se ampliar. Fechou o livro com força e eu recuei com o susto. Fiquei parada o fitando com cara de culpada, meus olhos encarando os dele. Sua expressão se suavizou diante da que eu tinha, seu olhar percorrendo meu rosto, observando atentamente cada sarda, fitou meu lábios por um momento a mais, não pude deixar de notar. O deus fez um movimento repentino com a mão em direção a minha, mas o interrompeu talvez pensando melhor. — Vá dormir — mandou por fim. Eu mal o escutei, esquadrinhando sua expressão com atenção. Os olhos sagazes e o sorriso ferino faziam algo inexplicável se agitar em meu peito. Como poderia ter esquecido de alguém que fazia meu coração acelerar daquele jeito?

— Já vou — respondi baixo, meu rosto a centímetros do dele. Eu sentia nossas respirações se misturarem, mas ele não protestava. Seus olhos deixaram os meus e se fixaram nos meus lábios novamente, os dele se entreabrindo sutilmente. Eu sorri. — Você precisa parar com isso, Loki.

— Eu sei — respondeu num sussurro, ainda preso à minha boca com uma expressão indecifrável.

— Então aja como se não levasse isso a sério — redargui com um sussurro, distorcendo as palavras usadas comigo anteriormente, apoiando as mãos aos braços da poltrona, me inclinando em sua direção.

Seus olhos encontraram os meus mais uma vez, e agora sua mão não se perdeu no caminho. Os dedos dele desenharam o contorno dos meus lábios, me fazendo antecipar e ansiar o que faria, minha respiração saindo em um arquejo entrecortado. Seguiram acariciando minha pele, até chegarem à nuca me provocando arrepios, encaixando-se na raíz dos cabelos. Ele cobriu a distância ínfima que nos separava unindo sua boca à minha. Loki era sempre intenso e não escondia seu desejo. Eu adorava.

Ouvi o barulho do livro caindo no chão, quando sua outra mão fez par à primeira, na lateral do meu rosto. Loki me beijava como se quisesse apagar os dias de distância. Como se eu fosse fazê-lo esquecer. Já eu, queria me lembrar de tudo e correspondia com ardor.

Me trouxe para perto, levantando-se da poltrona e me empurrando com seu corpo contra a parede próxima. Se afastou de forma ínfima me perscrutando em busca de alguma objeção. O envolvi com os braços tornando a beijá-lo. Não haveria objeção.

Sentia meu coração acelerar e minhas pernas trêmulas. Minha respiração rascante era quase um pedido. Ele arfou, beijando meu pescoço, apertando minha coxa, mordiscando minha pele em uma lascívia incontida. Nossos olhares se encontraram, quando uma de suas mãos, buscou a barra da camisola e, por baixo dela, o espaço entre minhas pernas. Seus dedos me arrancaram um gemido baixo e urgente, enquanto sustentava seu olhar, até ser impossível não fechar os olhos sob seu toque.

Sua outra mão puxava meu cabelo de forma firme, mas gentil, inclinando minha cabeça para trás, expondo minha clavícula onde sua boca pousou me fazendo arfar. Afastei os dedos dos meus cabelos e os guiei a um dos seios, prontamente desnudado e tomado em seus lábios em tortura lenta. Podia sentir contra meu corpo o quanto Loki me desejava naquele momento e minhas mãos abrindo suas roupas com pressa, buscando sentir sua pele, deixavam claro que não esperava menos. Eu me arrependeria disso. Se o recusasse me arrependeria em dobro.

Sua camisa caiu no chão, permitindo que minhas mãos acariciassem o abdômen definido, o arranhando com delicadeza, antes de descerem mais. Ele arfou, interrompendo-se ainda de olhos fechados, estremecendo. Nossos olhares se encontraram e, quando percebi, ergueu-me pelos quadris me carregando no colo como se eu fosse feita de pano. Sua boca procurava pela minha com urgência. Eu o queria tanto quanto ele me queria. Loki me deitou na cama se inclinando sobre mim.

A camisola deslizou pelas minhas coxas, expondo a cicatriz branca. Ela não era pequena e quase imperceptível como a do rosto, era grande e chamativa. Seus olhos encontraram a marca que o lembrava do quanto eu era humana. Apertei os lábios, nervosa e puxei o tecido numa tentativa ridícula de ocultá-la. Os olhos dele foram dali para os meus e Loki recuou beijando meu joelho, subindo com os lábios pela cicatriz em direção a minha coxa e ainda mais acima, me arrancando um gemido alto.

Não havia S.H.I.E.L.D., não havia Asgard ou Midgard, não haviam joias. Não havia deus e humana. Não havia nada. Éramos apenas eu e ele.

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Acordei com ele ainda deitado ao meu lado. Era visível que estava acordado há algum tempo. Loki me encarava com olhos insones. Virei apenas meu rosto em sua direção vendo-o franzir as sobrancelhas em resposta. Senti o peso se abater sobre mim, exaustivo. O problema com a noite é que de manhã tudo voltava aos seus lugares.

Nós tínhamos um problema ali. Era óbvio para qualquer um que olhasse que eu estava completa, irreversível e cegamente apaixonada por ele. Eu preferia nem cogitar o que quer que ele pudesse sentir. Ambos desviamos o olhar e eu levei as mãos à cabeça, embrenhando meus dedos nos cabelos. Fechei os olhos com força. Nossa aliança estava fadada ao rompimento em algum ponto, desde o início. Não era exatamente segredo. Algo assim? Sem chance. Não haveriam conversas sobre o assunto. Não era preciso. Quando deixei que me tocasse, sabia muito bem como seria a manhã.

Me sentei na cama, sentindo minha garganta apertar. Mantive as mãos na cabeça e apoiei os cotovelos nos joelhos. Loki me olhava aparentemente sem ideia do que falar. Apertei os lábios temendo que algum som escapasse deles. Eu não faria nada diferente. Nada. A Realidade era inútil nas minhas mãos. Eu nunca mudaria nada do que tinha nos levado até ali. Soltei o ar com força e abaixei as mãos, o olhando.

— Roupa para frio ou para calor? — perguntei inexpressiva.

— Meio termo — respondeu no mesmo tom, levantando-se e saindo do quarto. Tomei um banho rápido e vesti o mesmo vestido verde e o colar da noite anterior. Penteei os cabelos em frente ao espelho, colocando a pulseira e o bracelete de volta aos seus lugares.

Quando cheguei à sala ele já tinha tomado o café. Comi sozinha alguma coisa em que não prestei atenção. Loki estava guardando o livro na biblioteca.

— Eu não tenho mais uma armadura — falei de supetão. Ele arqueou as sobrancelhas como se aquilo o surpreendesse de alguma forma. — Devo desejar uma? — perguntei abrindo a mão onde a joia se encontrava. Era um pedido pequeno e certamente não era o que eu mais queria, embora agora eu soubesse com certeza o que era. Ainda assim não desejaria.

— Não — respondeu categórico. — Você é a mestra, mas isso não é um brinquedo. Não fique usando a Realidade por nada — repreendeu. — Deve ter alguma armadura por aqui.

— Eu não sei... — respondi sincera. Loki me olhou de esguelha. O lugar era meu e agora eu não fazia ideia de onde achar o que eu precisava. Tudo parecia uma bagunça.

Começamos a procurar em armários e caixas. Até que por fim ele trouxe uma encontrada em um baú perto da cama. Eu ri baixinho. As placas eram pequenas e emendadas, todas gravadas de maneira que quando colocadas juntas pareciam penas formando uma asa, cobrindo até mesmo o dorso da mão que seguraria o arco. O abdome era protegido por um corselet de metal como na armadura antiga. Loki me ajudou a afivelar tudo aquilo sem eu precisar pedir.

— Vamos voltar aqui depois? — indaguei, olhando por cima do ombro enquanto ele apertava as travas na cintura. Eu estava determinada a trazer alguma normalidade à conversa. Nada tinha mudado.

— Veremos — respondeu vago. Ao terminar, abri as mãos e rumamos para a próxima joia.

Chegamos a uma floresta fechada e muito densa. O clima era quente e úmido. O sol iluminava através passando nos poucos espaços que as copas densas deixavam.

— Alfheim — ele disse breve apresentando o lugar. O capacete desapareceu de sua cabeça. Ali serviria apenas para enroscar nas coisas. A lança era usada para cortar galhos e abrir passagem. O chão era muito irregular e dificultava nosso avanço. Eu achava esquisito não encontrar casas, pessoas ou algo assim. Estávamos avançando sem interrupções há quase três horas.

— Quem vive aqui? — questionei quebrando o silêncio. Ele continuou cortando galhos e trepadeiras, enquanto me respondia.

— Elfos — falou. — Os bons — esclareceu. Eu quase engasguei.

— Como nas histórias infantis? — perguntei, surpresa. Imaginei que mencionar o Legolas não faria muito sentido.

— Eu não conheço as histórias infantis humanas — respondeu, breve. Definitivamente o Legolas não faria sentido.

— Todos são arqueiros e absolutamente lindos — respondi com uma imagem idealizada em mente.

— Quase isso — afirmou me deixando ainda mais curiosa.

Paramos por uma meia hora para descansar e beber um pouco de água. Loki sentou sobre uma raiz que se erguia acima do solo. Sentei direto sobre o chão, afastando as folhas com as mãos. Minhas pernas tremiam pelo esforço de continuar avançando, mas eu não reclamaria. Eu queria estar ali.

Loki limpou a testa suada, repuxando o esparadrapo da ferida. Me levantei para ajeitar o curativo de modo que ele precisou inclinar a cabeça para eu poder ver. Espiei o corte por baixo. Amanhã estaria como se nunca tivesse sido ferido.

— Água oxigenada faz mágica — comentei sem esconder o deboche.

— Claro que sim — ele riu. Soltei o ar, aliviada. As coisas não estavam tão estranhas assim. Ajeitei o curativo de volta ao lugar e quando me afastei seus olhos encontraram os meus por um breve segundo, antes de os desviar sem alarde.

Loki levantou e eu fiz o mesmo, pronta para o seguir. E foi praticamente só isso que fiz o resto do dia. Caminhar com os galhos enroscando nos meus cabelos e agarrando no vestido. Afundar com as botas até o joelho em lama e obrigar Loki a retroceder para me tirar. Caminhamos o dia todo.

A temperatura começava a cair depressa, tão logo o sol sumiu acima das copas das árvores. Me perguntei por um segundo se dormiríamos no meio da floresta, quando notei que o caminho estava se tornando mais amplo. Chegamos à beirada de uma grande vila, repleta de bonitas e rústicas casas e palacetes. Algumas crianças nos viram chegar e correram para longe, voltando em questão de segundos acompanhadas por adultos. Fiz menção de erguer o arco, mas Loki me impediu segurando minha mão. Meus olhos foram dele, para as pessoas. Elas sorriam. Eu estava em choque. Éramos bem-vindos.

Uma moça jovem se aproximou sorrindo e deu um grande abraço em Loki. Nenhuma reverência a um príncipe, ou formalidade adequada. Olhei espantada para ele, por cima dos ombros dela. O deus tinha uma expressão divertida, achando graça da minha confusão sem se importar com o comportamento da garota.

As pessoas ao redor pareciam animadas. Reparei que todos eram magros e donos de uma elegância invejável. Tinham longos cabelos lisos, enfeitados com tranças. O interessante eram as cores dos cabelos que variavam do castanho comum ao vermelho sangue, passando pelo rosa e azul em variações naturais de cores. Seus olhos eram tão variáveis quanto. Todos tinham longas orelhas pontiagudas. Não eram absurdamente lindos como nas histórias infantis, mas eram bonitos o suficiente. Um humano presente ficaria no mínimo apagado, embora entre eles nenhum se destacasse muito mais do que os outros, com exceção da elfa abraçadora que era dona de um tipo físico invejável, onde as curvas estavam extremamente bem distribuídas apesar de sua baixa estatura. Ela era do tipo mignon, sendo pelo menos uns vinte centímetros menor que eu. Era dona de compridos cabelos e olhos azuis.

— Merenwen — Um homem simpático chamou a mulher. Ela sorriu para ele e se afastou de nós. O elfo dono de cabelos azuis escuros, era muito mais alto que ela, tendo quase a altura de Loki. Se aproximou falando algo que eu não entendi de início, sendo prontamente respondido. Suas palavras eram ditas em um idioma antigo, mas que de alguma maneira tornou-se compreensivo aos meus ouvidos em alguns poucos minutos. Ele e Loki conversavam sobre hospedagem.

— … ficam lá, como preferir — o homem afirmava, apertando a mão de Loki.

— Obrigado — agradeceu.

— Caso mude de ideia é só dizer, Vossa Alteza — completou. O tratamento real depois de um abraço sem o menor aviso. Que coisa estranha. O homem beijou minha mão e se retirou. Todos os elfos o seguiram, incluindo Merenwen.

— Então? — perguntei. Loki começou a avançar pela rua de paralelepípedos comigo o seguindo de perto.

— Vamos ficar na casa de hóspedes — avisou num tom baixo.

— Essa recepção... era para ser tão pacífica? — duvidei, enquanto passava pela porta, que ele mantinha aberta, de uma grande casa de pedra. Ele assentiu.

— Elfos nunca tomam partido de nada, a menos que os envolva diretamente. Não gostam de se envolver com os outros reinos além do necessário — explicou. — E são na maior parte do tempo extremamente amigáveis.

— Isso eu percebi — falei me sentando em um grande sofá vermelho. — Aquele homem disse algo sobre você mudar de ideia. Do que ele estava falando?

— Sobre ficar em outra casa — esclareceu, servindo-se de água.

— Outra? Que outra?

— O nome dele é Sindarin e ele é mestre do parlamento. Os elfos não tem um rei, porque dizem que o poder deturpa as pessoas. — Eu ri da ironia do destino em juntar pessoas tão diferentes como os dois. Certamente Loki não concordava com aquilo. — A questão é que eles entendem os modos da corte e Sindarin me ofereceu estadia na sua própria casa, o que é considerado uma honra entre eles. A maior honra que poderia oferecer. A questão é que você não estava incluída na oferta, então agradeci e pedi para ficar aqui — explicou distraído, lavando as mãos numa bacia a um canto. Eu poderia tê-lo abraçado de tão grata, embora também me sentisse ligeiramente ofendida pelos elfos. Detestaria ficar sozinha naquela casa enorme numa terra desconhecida. De qualquer forma, não era boa ideia nos separarmos.

— Obrigada — agradeci. Eu estava cansada e louca para dormir, mas antes que pudesse dizer isso a ele, Loki me olhou sério.

— Vão fazer uma festa para comemorar a nossa chegada — informou com um estranho tom de advertência. — Precisamos ir para manter um bom relacionamento. Se quiser ser bem tratada, faça-se memorável — alertou de um jeito que não gostei. O que esperava que eu fizesse?

— Algum motivo especial? — indaguei num tom de indignação. Ele desviou os olhos. Mau sinal.

— Mesmo entre eles, os humanos são criaturas baixas — explicou com naturalidade. Que ótimo. Era tudo que eu queria ouvir ainda mais vindo dele. Suspirei aborrecida.

— Vou me arrumar, então — falei resignada, indo para um dos quartos, minha vontade sendo de me fechar e não sair mais. Quando abri o armário encontrei dezenas de túnicas como as de Merenwen de várias cores e tamanhos. Nenhuma me agradava. Todas eram feitas de algodão e, ou eram largas demais em meu corpo muito magro, ou ficavam curtas nos tornozelos. Vários minutos tinham se passado naquela brincadeira de ficar revirando túnicas. Senti vontade de vestir as cortinas do quarto e mandar todos aqueles elfos irem para um lugar bem inadequado.

Me sentei irritada na ampla cama, segurando uma túnica azul bem sem graça. E por mais que tentasse, sempre que provava uma daquelas roupas me sentia vestindo um saco de batatas. Estávamos lidando com primeiras impressões ali e ninguém me advertida sobre algo assim.

— Vamos, Frigga — pedi em voz alta. — Mostre o que você planejou — murmurei como se ela pudesse me ouvir do mundo dos mortos. Nada aconteceu. Loki bateu a porta.

— Liana? — chamou alto. — Você vem?

— Vá na frente — respondi irritada. Ele deve ter percebido pois não falou nada e após alguns minutos escutei a porta batendo. Faça-se memorável. Eu seria um fiasco memorável. Levantei e saí do quarto carregando a túnica azul. Passei pelo quarto que Loki ocuparia e reparei que sua cota de couro tinha ficado sobre uma cadeira. Me perguntei o que ele estaria vestindo.

Resolvi tentar ver as opções no armário dele. Nada muito diferente do meu. O que eu iria fazer? Estava voltando para o meu quarto, resignada em vestir a túnica azul, quando uma pequeno estojo de madeira chamou minha atenção. Era antigo e tinha o tamanho de uma caixa de sapatos. O abri e as únicas coisas dentro eram alguns palitos de fósforo, um anel amassado e para minha total perplexidade um conjunto de longas penas douradas muito finas e emendadas por um cordão de ouro delicado. Um toque de Frigga. As peguei rindo, incrédula. Aquela mulher não deixava passar nada.

Ela não tinha esquecido de mim, eu apenas precisava procurar melhor. Abri gavetas e armários, mesmo os de cozinha. Em alguns achei cobertores, em outros haviam casacos. E então revirando um baú na sala, achei uma túnica longa e vermelha, feita de organza fina, enrolada em um coberto, parecendo ter sido escondida propositalmente. Suspirei aliviada. Eu não seria um fiasco memorável.

Me troquei apressada. Não havia maquiagem, mas eu duvidava que fosse precisar dela. Me admirei em um grande espelho em uma parede da sala. Eu mesma estava impressionada. Se aquilo não tinha o dedinho de Frigga, eu não saberia a quem atribuir o milagre. Raramente minha magreza contribuía com a auto estima, mas honestamente eu lembrava uma modelo naquele momento, com um ar diáfano e meio etéreo. Ou um pontinho vermelho e dourado.

A túnica justa na cintura descia leve pelas pernas, com transparência suficiente para que se visse o contorno do corpo por baixo. Não tinha mangas de forma que mantive a pulseira e o bracelete no lugar. Se abria num decote canoa, sustentando-se pelos ombros. Usei as penas como um colar, mas não de forma que ficassem caídas sobre o decote. Elas se apoiavam pelo pescoço e se abriam abaixo do queixo inclinando-se para fora num efeito de gola alta, destacando o rosto. Meus cabelos desciam soltos pelas costas. Pela primeira vez em semanas, estava livre das botas. Calcei uma sapatilha de cetim dourado. Parecia bom o bastante. Com os cabelos vermelhos, eu merecia crédito por parecer alguma entidade do fogo ou algo assim. Daria uma figurante de luxo em qualquer série.

Quando saí pela porta podia ouvir os sons vindos de uma grande área gramada e aberta no centro da vila. Conforme fui me aproximando consegui distinguir a música de um alaúde unindo-se à melodia de uma flauta. Centenas de elfos tomavam o lugar, comendo, conversando, bebendo, dançando. Para minha surpresa, havia uma enorme fogueira no centro do espaço, iluminando tudo ao redor. Loki estava sentado à direita de Sindarin e à esquerda de Merenwen na outra extremidade do campo em uma cadeira de espaldar alto. Estava no lugar de honra. Não havia cadeira para mim.

Os três conversavam e Merenwen ria abertamente. Loki entendia as sutilezas da corte, sabia manter as aparências e ser um convidado agradável. Tinha uma educação impecável, digna de um príncipe asgardiano.

Me sentia deslocada. Não sabia se deveria ir até eles ou não, se deveria tentar conversar também, se deveria tentar me entrosar com as pessoas ao redor. As mulheres estavam todas muito bem vestidas. Eu me sentiria um lixo se tivesse usado a túnica azul.

Um homem alto se aproximou e sussurrou algo para Merenwen. Seus olhos azuis rastrearam pela multidão e se fixaram em mim. Ela me olhou de alto a baixo. Loki percebeu o desvio de sua atenção e procurou o que ela olhava. Seu olhar encontrou o meu e ele teve a mesma reação da elfa, sua expressão moldando-se lentamente. Disse algo aos anfitriões enquanto levantava e atravessava em minha direção. As pessoas sabiam quem era ele e muitos olhos o acompanharam quando fez isso.

— Memorável o bastante? — perguntei assim que parou diante de mim. Loki certamente estava. Vestia uma calça cinza chumbo de linho e por cima um sobretudo preto de aparência medieval com mangas longas e fechos prateados em formato de serpentes. O tecido era costurado para propositalmente remeter à escamas. Aquilo era invenção dele. Certamente não tinha nada parecido nos armários da casa de hóspedes. — Quase — responde, com um meio sorriso. Me acompanhou de volta aos anfitriões, ambos apenas inclinaram levemente a cabeça indicando que tinham me visto, mas nenhuma palavra foi dita. Loki manteve-se de pé.

— Esta é Liana de Midgard — me apresentou, como se eles já não tivessem me visto antes. — Sindarin estava me dizendo que haverão apresentações artísticas em nossa homenagem. Ambos muito educadamente aceitaram meu pedido para esperá-la chegar, antes de darem inicio. — Me pôs a par.

Eu duvidava que Loki já tivesse colocado tantas mentiras em uma única frase. Era óbvio que era o único homenageado e que devia ter insistido muito para me esperarem. Mas para mim era muito mais óbvio que ele estava louco para acabar com aquilo logo e poder tratar de negócios. Eu conseguia sentir que tinha muita política envolvida e era ele quem devia ter a vantagem. Eu dançaria como me pedisse.

— Muito obrigada. Vocês são muito gentis — agradeci, doce. Ambos sorriram resignados. Sindarin se levantou e o silêncio se abateu sobre os presentes. Ele abriu os braços, sorridente e duas mulheres avançaram sem precisarem de um convite. Traziam uma harpa e uma cornamusa que começaram a tocar num ritmo lento e suave. Para minha surpresa, Merenwen avançou firme para o centro, cantando numa voz límpida em um idioma que eu não conhecia e, dessa vez, permaneci sem entender. Sua voz era tão bonita e delicada quanto sua aparência no vestido de chiffon rosa claro, porém algo ancestral em seu timbre arrepiava. Eu não sabia sobre o que a música falava, mas vários casais tinham os olhos marejados e sorriam para seus pares.

Quando ela terminou de cantar todos aplaudiram entusiasticamente. Merenwen voltou a seu lugar sorrindo abertamente para Loki. Ela estava me irritando. Uma mulher de cabelos loiros tomou seu lugar e executou passos de dança muito suaves e femininos, quase um balé. Todos aplaudiram educadamente. Várias apresentações se seguiram e embora todas fossem lindas não víamos a hora de que acabassem.

Merenwen se aproximou de mim pela esquerda e ficou ali em silêncio por alguns minutos. Eu sabia que ela estava me avaliando e esperava seu veredito.

— Você pode se apresentar se tiver algum talento — convidou num tom baixo e particular. Me virei para olhá-la, uma expressão de indignação no rosto. Suas palavras soavam desdenhosas e provocativas. Não que ela estivesse errada. Eu não sabia fazer nada como dançar, cantar ou tocar instrumentos. Meus talentos eram atirar, sobreviver e me meter em confusão. E assar cupcakes. Nada que eu pudesse apresentar ali. E mesmo se pudesse eu jamais faria.

— Sou tímida — menti deslavada, minha voz soando fria. — Peça a Loki — sugeri na esperança de que me deixasse em paz. Para minha surpresa, foi exatamente o que a mulher fez.

A elfa passou por mim e se enroscou em um dos braços dele. Loki a olhou surpreso, mas não a afastou. Merenwen sorria como uma criança travessa. Eles trocaram meia dúzia de palavras em voz baixa, eu não podia ouvir com a música no fundo. O príncipe parecia relutante, mas enfim assentiu, oferecendo aquele familiar sorriso amplo e apaziguador.

A flauta surgiu na mão do deus. Eu arrancaria os olhos dela. Merenwen fez um gesto com as mãos pedindo silêncio e os instrumentistas pararam. Loki iniciou uma melodia suave de notas agudas que tinha um toque taciturno e nostálgico. A música tocada com maestria me causava arrepios. Eu não a conhecia e pela expressão das pessoas, eles também não. Loki a tinha composto e era absolutamente fantástica. Quando a interrompeu, todos levaram alguns segundos embasbacados até começarem a aplaudir.

Merenwen sorria de um jeito irritante. Loki apenas assentiu em resposta, artificial. Estava perdendo a paciência e eu, começando a me divertir. O deus se aproximou de Sindarin. Eu os acompanhei de perto. Percebi pelo seu olhar que o tempo de politicagens estava encerrado.

— Sindarin — chamou sério e objetivo. O homem servia-se de vinho, mas virou-se rapidamente, um agradável sorriso no rosto. — , creio que você saiba por que estamos aqui — falou seco. O sorriso do elfo desapareceu imediatamente.

— Podemos conversar em um lugar mais reservado — sugeriu, indicando com o olhar seu pequeno palacete de mármore, a apenas alguns metros. Loki assentiu. — Filha, leve a humana para a casa de hóspedes — ordenou dirigindo-se à elfa enquanto caminhávamos, sem dignar-se a usar meu nome. Senti meu sangue ferver, meus olhos estreitando-se para aquele homem.

— Liana fica — Loki respondeu categórico. O elfo me olhou de alto a baixo abrindo a porta da casa. Indicou-nos o sofá, onde sentamos lado a lado.

— Vocês vieram atrás da joia do Tempo — Sindarin começou sério, sentando ao lado da filha no outro sofá em frente ao nosso. — Me deem um único motivo para entregá-la — completou muito ponderado. Eu quase ri quando ao ouvi-lo dizer isso. Sindarin tinha escolhido as piores palavras.

A lança surgiu na mão de Loki e ele a inclinou perigosamente perto do pescoço de Merenwen que mal se moveu, mas revelava o temor em sua expressão. O elfo levantou uma sobrancelha, ele mesmo conjurando uma espada longa e apoiando a ponta da lâmina acima do meu joelho. Os olhos de Loki foram da arma na minha perna, para o meu rosto e dali para a janela aberta. Entendi o que ele queria, sorrindo astuta. Poucos segundos se passaram antes da aljava e arco entrarem por ali ainda se dividindo a partir da base. Tinha o arco armado, com uma flecha apontada entre os olhos de Sindarin, antes mesmo que ele tivesse tido tempo de piscar. O homem olhava para nós dois com o medo estampado nos olhos, assim como sua filha. A espada deslizou lentamente para longe de mim que sorri em uma gratidão debochada.

— Meus talentos não são exatamente artísticos — disse olhando a elfa. Ela parecia horrorizada. Loki afastou a lança e, seguindo seu exemplo, desarmei o arco.

— Tem noção do que estão fazendo? — Merenwen finalmente falou, em um rosnado raivoso. Ela não parecia mais uma bonequinha doce, estava irritada e nos olhava ameaçadora.

— O Tempo não pode ser dominado. Não há como dobrá-lo. Ele devora tudo — Sindarin alertava. — Quando as joias foram dividas entre os reinos, aceitamos guardá-la apenas porque era perigoso demais manter duas juntas e queríamos garantir que isso seria evitado. Nunca nem sequer tentamos usá-la. Nunca nem sequer a tocamos diretamente. O Tempo é uma força incontrolável. Vocês vão morrer — concluiu dramático. Loki sorriu perigoso.

— Veremos. Onde está? — inquiriu, sua voz um sussurro letal.

— Essas joias surgiram durante a criação do universo. Não foram feitas para serem usadas. Vocês não tem ideia do perigo de ter uma dessas nas mãos! — Merenwen falou em uma voz aguda. Agora eu estava perdendo a paciência. Abri a mão na altura dos olhos da elfa, a Realidade pairando acima da palma. Loki tinha uma expressão de aprovação no rosto, ele mesmo revelando a Alma em seu frasco. Os olhos dos dois correram de uma joia para outra e por fim nos encararam ainda mais horrorizados. Fechei a mão lentamente, saboreando o pânico deles. Fixei meus olhos castanhos contra os muito azuis dela.

— Acha que não sabemos o que é ter uma joia dessas nas mãos? — perguntei retórica. — Onde está? — repeti a pergunta de Loki. Sindarin disse algumas palavras em uma língua antiga e uma escada surgiu no chão da casa, levando para um porão fundo. Nos levantamos e fomos até ela.

— Descerão sozinhos — o homem avisou. Loki e eu nos entreolhamos. Ele poderia descer também? Eles pareceram entender a dúvida. — Não tem proteção. A joia se defende por conta própria — falou misterioso. O deus se adiantou pelas escadas e eu o segui de perto.

O porão era amplo, de paredes descascadas e cheirava fortemente a mofo. Não havia nada ali, com exceção da joia laranja depositada sobre uma mesa branca uns 100 metros afastada. Uma barreira tênue e imaterial separava aquela metade do porão da nossa. Comecei a avançar, mas Loki segurou meu pulso me fazendo cambalear de volta.

— Muito fácil — alertou. Eu sabia disso, mas a menos que ele tivesse uma ideia melhor, só restava avançar. Me soltou e me deu um olhar de alerta. Eu continuava sentindo seus dedos na minha pele.

Quando me aproximei da linha, senti meu coração disparar. Realidade vibrava de expectativa. Aquilo fez com que me perguntasse se não poderia simplesmente desejar essa e todas as outras joias. Era óbvio que não. Uma não interferia na existência da outra. Concluí que deviam apenas potencializarem-se quando unidas.

Toquei a linha erguida como uma divisória e a ultrapassei com meus dedos. As coisas pareciam certas, até que vi minhas mãos encherem-se de sardas. Muitas e pequenas. Conforme minha mão avançava a pele tornava-se flácida e enrugada. Então eu entendi. O tempo passava mais rápido ali dentro. Recuei assustada.

Loki se aproximou ao ver minha reação. Puxei a mão para perto do corpo, olhando com atenção o meu braço voltar ao normal. Eu não o deixaria ver aquilo.

— O que aconteceu? — perguntou com uma expressão tensa.

— Não posso passar — respondi simplesmente. Ele me olhou confuso. Loki exigiria uma explicação. Muito relutante coloquei minha mão do outro lado. Seus olhos se arregalaram em choque. Ele puxou minha mão para baixo e a manteve segura na dele, encarando minha pele. — Vou morrer antes de a tocar — expliquei sem esconder minha frustração. Ele assentiu com uma expressão vazia, ainda olhando minha mão. Mais uma vez eu estava exposta.

Loki colocou a própria mão do outro lado. Nada aconteceu. A pedra fazia o tempo passar mais rápido. Ele tinha muito mais tempo que eu. Se Loki atravessasse correndo poderia a pegar e contê-la. Nos entreolhamos, muito próximos. Se acontecesse alguma coisa com ele... Doía só de pensar. Ele atravessou inteiro para o outro lado, soltando a minha mão. Nada aconteceu. Loki retornou apenas por garantia e se preparou para avançar o mais rápido que pudesse.

— Não demora — pedi, sentindo meu coração sendo esmagado. Ele não respondeu, apenas olhava a joia do outro lado, focado.

O deus atravessou a linha correndo, a lança empunhada com firmeza. Cinco metros, dez metros. Eu não teria chegado a dois. Quinze metros. Vamos, vamos. Então ele repentinamente travou. Simplesmente parou, o olhar perdido em algum ponto à esquerda.

— Loki? — chamei alto. Nem sinal de ter me ouvido. — Loki! — gritei. Eu o escutei falando num tom baixo, quase sussurrado. Ele via alguma coisa. Eu precisava fazê-lo se focar na joia.

Desejei uma ponteira diferente para a flecha que pegaria a seguir e ouvi as engrenagens internas da aljava se movimentarem, fazendo a substituição. Armei o arco e disparei perto dos pés dele. Quando a flecha bateu no chão ouve um estrondo enorme e um grande clarão. Uma bomba de luz e som. Não feria, apenas atordoava. Tentei me convencer de que não o atordoaria como aconteceria com um humano comum. Disparar aquilo em um lugar fechado não foi uma boa ideia. Eu caí sentada, olhando confusa ao redor. Não conseguia distinguir para que lado ele estava. Quando o focalizei, Loki estava de volta no caminho, correndo. Vinte metros. Trinta metros.

Então eu vi seus cabelos tornarem-se grisalhos de forma gradativa e até mesmo elegante. Eu não conseguia ver seu rosto e não sabia se ele percebia isso também. Ele parecia mais lento.

— Depressa! — gritei distante. Quarenta metros. Uma nova pausa. Dessa vez ele parecia chocado. Derrubou a lança e recuou alguns passos. Ele estava distante e falava baixo demais. O que estava acontecendo ali? — Loki! — chamei em vão. Se disparasse outra bomba daquelas eu acabaria surda. Ele estava envelhecendo ali e morreria assim como teria acontecido comigo. Tentei disparar uma flecha simples próxima a ele, mas o deus nem a notou. Cambaleou alguns passos. Eu consegui ver seu rosto. Parecia muitos e muitos anos mais velho. Ele se apoiou na parede. Não adiantava gritar, Loki não me ouvia. Abri a mão e vi a joia amarela sobre ela.

— Realidade — chamei alto. Um homem sem rosto surgiu diante de mim. Inclinou a cabeça em uma reverência.

— Esse ainda não é o maior desejo — falou numa voz que soava como a de mil homens, com algum divertimento. Apenas meu maior desejo revelaria a joia. Meu maior desejo a deixaria vulnerável, mas aquele momento ainda não tinha chegado.

— Não, não é — concordei. Eu queria ajudá-lo, queria que Realidade o tirasse dali, mas precisava ser cautelosa. Haviam três joias no mesmo lugar e isso era perigoso. Elas gostavam de confundir e mesmo eu sendo a mestra da Realidade, não confiava na joia.

— Mas não é simples, a ponto de eu torná-lo real livremente — disse. Eu já imaginava.

— Como faço isso? — perguntei depressa. Pelo canto dos olhos vi Loki simplesmente sentado no chão ainda falando.

— Se arriscando. Busque-o, mostre a ele o que é real — sugeriu. Realidade poderia me ajudar a tirá-lo de lá, mas eu deveria me arriscar como pagamento. Não seria um favor gratuito. Eu não me importava. Se eu morresse, a joia seria livre novamente e era o que ela desejava.

— Eu resisto à joia do Tempo. Isso é real — falei em voz alta, as palavras fluindo naturalmente de mim, sem serem pensadas. Mil sorrisos distintos me encontraram em resposta. Realidade desapareceu do mesmo modo como havia chegado, sem alarde. Atravessei a barreira, olhei para minhas mãos e nada estava diferente.

Corri em disparada e tentei gritar o nome dele, mas minha voz soava baixa. As coisas se perdem no tempo. Pepper surgiu alguns metros diante de mim. Loki havia parado naquele mesmo ponto antes. Eu parei por um segundo impressionada. Era uma Pepper pelo menos dez anos mais jovem. A Pepper que havia me achado na rua. Eu ri diante daquilo, a encarndo com frieza.

— Definitivamente não — disse para ela. Sua expressão se alternou para o choque e em seguida para um sorriso. O Tempo percebeu que não estava me influenciando, me confundindo.

— O tempo passa, não é? — ela perguntou.

— E o seu já se esgotou — disse, disparando uma flecha. Não era Pepper e eu sabia disso. Sua imagem desvaneceu antes de ser tocada. Continuei correndo.

Eu estava quase o alcançando. Me assustei com a sua aparência. Loki parecia alguém que tinha pelo menos 80 anos, ao menos se fosse um humano. Os cabelos, completamente brancos e a pele repleta de rugas. No momento em que estiquei minha mão na direção dele, reparei que pequenas manchinhas de idade começavam a surgir muito lentamente. Eu era resistente. Não invulnerável.

Antes de tocá-lo, o Tempo se mostrou em sua face. Parado a poucos metros de mim, bloqueando o caminho entre eu e Loki, havia uma criança de uns 10 anos com grandes olhos castanhos e cabelos muito ruivos. Ao seu lado havia uma mulher bonita por volta dos 40 anos, vestida com a mesma túnica vermelha e o mesmo colar que eu usava. Tínhamos a mesma estatura e ela também era dona de olhos castanhos, mas os cabelos ruivos tinham um ou outro fio branco embora ainda compridos como os meus. E por fim ao lado delas, havia uma mulher idosa com todos os anos de vida possíveis, sentada em uma cadeira, trazendo um arco sem corda nas mãos, com cabelos muito curtos e completamente brancos, pele enrugada e alguns centímetros mais baixa que a mulher de vermelho. Eu era todas elas e elas eram eu.

— Todos temem o tempo — a do meio falou.

—— Ele passa — disse a idosa.

— E traz tristeza — a criança falou. — Do passado e no futuro.

— Ok, lindo. Saiam da minha frente — vociferei. Elas não moveram um maldito músculo. — Vocês me ouviram — esbravejei. Eu precisava acabar com aquilo. Armei o arco, mas algo me impediu. Elas eram eu. As três sorriram.

— Por que seguir adiante? Por que não morrer aqui junto a ele? — a criança perguntou. Eu precisava responder.

— Porque ninguém vai morrer hoje — respondi, séria.

— Assim que tiver todas as joias ele a deixará — A mulher falou. — E em mil ou dois mil anos, você será pouco mais que um eco do passado. Loki esquecerá seu nome, seu rosto. Será menos que um fantasma. — Eu sabia disso. No fundo sabia de tudo isso. Já tinha desistido de resolver meus problemas há muito tempo. Na verdade, havia desistido quando começara a amá-lo. Se eu consertasse as coisas, eu o esqueceria. Isso já havia acontecido uma vez e eu não permitira que acontecesse de novo. Eventualmente ele me esqueceria também, mas há muito eu não estaria mais ali para ver. Estava seguindo com Loki apenas para aproveitar enquanto pudesse permanecer ao seu lado. Até que ele me descartasse.

Sorri em resposta à mulher. A expressão dela demonstrava surpresa. Eu não tinha medo do futuro. Eu aceitava desde que não me roubassem o presente.

— Por favor — pedi. — Saiam da frente. — Para minha surpresa elas se afastaram. Quando corri até Loki, a idosa falou.

— Vamos ver por quanto tempo essa disposição vai durar. — A ignorei e cheguei derrapando diante dele. Assim que o toquei, pude ver o que ele mesmo via.

Frigga estava em pé, trajando um vestido azul e uma armadura incompleta. Ela tinha uma espada curta nas mãos, estava em batalha com um homem de aparência estranha. Frigga era muito mais hábil, girava e atacava, mal dando chance de desviar. A rainha era incrível e tinha a destreza que eu imaginava para uma deusa, da fato. Enfim ela o imobilizou contra uma parede, segurando a lâmina em seu pescoço. Uma criatura de proporções grotescas surgia do nada a seu lado, lhe tomava a espada e a agarrava pelo pescoço, distanciando-a do adversário. O primeiro homem se afastava alguns passos falando algo, inaudível para mim. Podia ver que se dirigia à Jane Foster, presente sabe-se lá por qual motivo. Em seguida ela sumiu de cena e o homem voltava-se irritado para Frigga. Trocavam poucas palavras e a criatura grotesca a atravessava brutalmente com a espada. Um grito deixou meus lábios, incapazes de reprimi-lo. Os olhos da rainha se fechavam para sempre. Assim que isso acontecia o ciclo reiniciava em uma tortura infindável.

Tempo havia prendido Loki no momento da morte de sua mãe. Ele não estivera lá para tentar protegê-la. Não havia ido sequer à despedida dela, mas estava ali, preso naquele momento. Me abaixei ao seu lado e para minha surpresa dentro de sua visão ele era o mesmo de sempre. O deus me olhou confuso, eu não fazia parte do cenário.

— Eu não pude fazer nada. — Sua voz soava incerta e quebrada como eu jamais ouvira. Era isso que ele devia estar repetindo o tempo inteiro.

— Não foi sua culpa — disse num tom brando. — Precisamos ir.

— Fui eu quem disse a ele como achar o quarto — Loki confessou. Senti meus lábios se entreabrirem em choque. Ele havia dado as direções para o assassino. Certamente não havia cogitado a possibilidade. Os olhos dele estavam tomados pela culpa. Ele se culpava pela impulsividade. Loki era astuto e racional. Perfeccionista. Se tivesse pensado, teria lembrado que poderia expor a mãe. Não o fizera e agora ela estava morta. Ele era pura culpa.

— Ela sabia — me ouvi falando. — Frigga planejou isso, lembra? Por isso eu estou aqui — falei repentinamente me dando conta do quanto as palavras eram verdadeiras. — Precisamos ir, Loki. Vamos morrer se continuarmos aqui. Isso não é real, eu sou. — Ele me olhou por um breve segundo. Se levantou com dificuldade e então estávamos fora da visão criada pelo Tempo.

Loki parecia prestes a se desmanchar a qualquer minuto. Eu avançava com mais agilidade que ele. Faltava pouco. Minhas mãos tremiam, não sei se pelo esforço ou pela idade. Cobri os últimos metros com dificuldade e esforço. Meus dedos se fecharam ao redor do cristal laranja.

Um estalo alto desfez a redoma criada pelo Tempo. Tropecei e caí de joelhos no chão frio de pedra, a juventude de volta ao meu corpo. A joia estava firme na minha mão. Olhei ao redor e entrei em pânico. O deus estava caído alguns metros atrás. Ele não levantava.

— Loki? — chamei com urgência. Nenhuma resposta. Não, não, não. Levantei e corri aos tropeços para ele. No momento em que me abaixei trêmula, ele se sentou. Parei em sua frente, os olhos arregalados de terror. O ar saiu em arquejos dos meus pulmões e eu simplesmente atirei os braços ao redor dele, escondendo o rosto em seu pescoço. Comecei a chorar ainda nervosa. Ficou parado por um segundo, então uma das mãos acariciou as minhas costas.

— Chega, Liana — falou sua voz meio rouca. Era uma frase que ele repetia muito. Me afastei limpando as lágrimas do rosto.

— Eu achei...

— Achou errado — respondeu breve. Assenti ainda nervosa, rindo de um jeito estranho.

— Você fica melhor assim, mesmo — falei tentando trazer normalidade a voz. Ele sorriu.

— Imagino que sim — concordou. Agia como sempre, mas a sombra da culpa ainda anuviava seu semblante.

— Você sabe que ela escolheu. Ela sabia — falei séria. Ele desviou o olhar. Eu não fazia ideia da culpa que o deus vinha carregando em silêncio.

— É, eu sei — cortou. Não queria tocar no assunto e eu respeitaria. O Tempo havia dominado a mente de alguém como ele. Aquelas joias subjulgavam deuses como se fosse brincadeira de criança. Eram superiores a qualquer criatura viva. Estávamos tendo muita sorte, percebi, preocupada. — A joia?

— Aqui — disse a colocando na mão dele.

— Eu não a quero — afirmou me surpreendendo. Ele a olhava com desprezo, mas a segurou e a fez sumir para junto da Alma. Olhou sério para mim. — Não sei você, mas estou cansado de Alfheim — assenti aliviada. E não estávamos mais na casa dos elfos.

Notas finais
Então... Eu não postei isso no inicio para dar spoiler. Mas se alguém quiser saber qual a poesia que ele tava lendo, segue o link do áudio na voz do próprio. Procurem a tradução porque vale muito a pena e o negocio é caliente. XD http://www.youtube.com/watch?v=q6RHYeuR7x4 (27/10/2023) No link abaixo, você consegue conferir uma arte NSFW (+18) feita pela artista Grace Cunha para esse capítulo. https://twitter.com/BarbaraABrizola/status/1718083845382107426