God of Mischief | Loki
13 Capítulo 12: Traição
Notas iniciais
No dia seguinte nada de novo parecia estar acontecendo. Fui para o treino, atirei a tarde inteira com meu arco novo, atendi uma ligação de Steve querendo marcar alguma coisa para o próximo final de semana, comprei ração de gato e duas bandejas de frango para iniciar a operação cozinha, preparei uns cupcakes decorados porque ninguém podia me impedir e me sentei por volta das oito da noite para ver TV, comendo meu frango desfiado com milho. Completamente sem sal e seco.
Minhas únicas preocupações seriam me lembrar de pôr sal na comida da próxima vez e me manter bem boazinha perto de Fury. Não sabia o que ele queria com aquela conversinha de manter todos por perto, mas como sempre minha escolha seria ficar quieta no meu canto.
Eu disse que seriam minhas únicas preocupações se não tivesse ligado a TV. Comecei a trocar de canal procurando alguma coisa interessante, depois de ter jurado não ver nada com bolos no meio, quando dei um grito e um pulo, que fez Jinggles correr para o quarto chiando irritado.
Passando pela BBC vi o que me fez gritar. Havia uma nave enorme e preta parada no meio de Greenwich em Londres. A filmagem havia sido feita naquela manhã de dentro de uma biblioteca por um civil, dizia a repórter. Havia uma figura lembrando um ser humano, porém parecia tirado de um filme do alien soltando uma grande névoa cor de sangue pela cidade. Acima havia algo como telas onde eu podia ver lugares diferentes. Fogo, gelo e... Asgard. A filmagem era muito tremida, mas eu reconheceria Asgard se a visse novamente, mesmo de relance.
No entanto, o que me fez gritar não foi nenhuma dessas coisas. Thor estava ali, na Terra. Bem ao meu alcance. Ou quase, já que estava em Londres. Loki havia voltado a Asgard e depois de meses sem dar as caras agora Thor estava ali de novo. Porém, eu não via Loki em lugar algum da filmagem. Devia estar ainda preso. O que me chamou a atenção foi ver em um canto da filmagem uma mulher e um homem carregando alguns equipamentos compridos.
— Jarvis, pause — mandei, me inclinando no sofá e estreitando os olhos. A imagem congelou, e com um gesto a puxei para frente, para perto de mim. Afastei meus dedos como faria numa tela qualquer, aproximando a cena. — Melhore. — Jarvis corrigiu os pixels e eu podia ver o rosto dos dois com clareza agora. Eram os únicos humanos no cenário e não pareciam interessados em fugir. — Quem são eles, Jarvis?
— Esses são o Doutor Erik Selvig e a Doutora Jane Foster. Ambos são astrofísicos. — Me esclareceu com uma rápida busca em seu banco de dados.
— Certo... Agora me fale o que a S.H.I.E.L.D. não gostaria que eu soubesse — pedi com interesse.
— Vou iniciar o rastreio dos dados, senhorita — avisou. Esses talvez não fossem tão simples de obter. Levantei e fui à cozinha largar meu prato quase intocado. Assisti ao vídeo mais umas duas vezes sem nenhum sinal de Loki escondido em algum cantinho que eu não tivesse visto. — Senhorita, o Doutor Erik Selvig trabalhou com o Doutor Bruce Banner antes do acidente que deu origem ao Hulk. Ele cometeu crimes contra a humanidade durante a Batalha de Nova York, contudo foi inocentado porque esteve comprovadamente sob influência de Loki. — Parece que estávamos chegando onde eu queria.
— E Jane Foster? — indaguei observando a imagem da cientista na tela.
— Jane Foster foi responsável por descobrir a conexão entre as dimensões e participa de pesquisas na área. Além disso, é reconhecida como interesse amoroso do deus do trovão, Thor — me informou mais eficiente que qualquer site de fofoca. Interesse amoroso? Ela era namorada do Thor? Bonita, inteligente e sortuda. Conexão entre as dimensões foi um dado que me chamou atenção. — Jarvis, você já foi a Londres?
— Preparando o jatinho, com trajeto programado para Londres — informou. Corri ao quarto, peguei minha pulseira e o bracelete, troquei de roupa, vestindo uma calça jeans e uma blusa de cetim azul com alcinhas finas. Talvez devesse me agasalhar melhor, no entanto me sentia afogueada, alerta. Estava sendo impulsiva e sabia. Calcei um par de coturnos que eu não usava... bom, há uns seis anos na verdade. Amarrei os cabelos e nunca fui tão rápida em me aprontar para uma viagem. — Senhorita, o jatinho está sobrevoando o heliporto do prédio. — Larguei mais ração no pote de Jinggles e corri pelas escadas de incêndio do edifício, se precisasse, Jarvis arrumaria uma babá para ele. Chegando lá, o jatinho estava uns doze metros acima de mim.
— Jarvis, ficou maluco? — perguntei exasperada. Uma escadinha caiu da porta da aeronave.
— O espaço para pouso era limitado, senhorita. Vou enviar pulsos magnéticos pela escada e não vai cair — explicou como se comentasse o tempo. Claro, claro, muito melhor. Mas eu precisava ir antes que mudasse de ideia. Me agarrei na escadinha e subi, sentindo sempre dois dos meus membros completamente grudados à estrutura. Dentro do jatinho não havia ninguém. Me sentei em uma poltrona e apertei o cinto. Jarvis era o piloto.
— Se alguém perguntar por mim amanhã... — comecei a falar.
— A senhorita foi para Bahamas para uma campanha de fotos para a nova linha de tênis esportivos da Nike — afirmou. Fiquei de boca aberta.
— Jarvis, você é sensacional! — elogiei pasma.
— Claro que sim, senhorita, fui projetado pelo senhor Stark — justificou. Ri sonoramente, era bem a cara de Tony fazer com que seus projetos o elogiassem. Seriam cerca de seis horas de voo até Londres, então me permiti dormir durante esse tempo.
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Cheguei à Londres às três e meia da manhã e pousei no aeroporto particular da filial da Stark Industries. Me peguei pensando sobre o que diabos eu estava fazendo ali. O que pretendia perguntar a Jane Foster? “Como posso visitar uma pessoa em Asgard?’’
E se Thor estivesse na casa dela? Meu Deus, eu tinha tido um surto. Impulsiva! Diria o quê a ele? Tentei manter a calma. Saí do jatinho e nenhum funcionário veio me receber. Deviam ser instruções de Jarvis, ou vai ver era apenas cedo demais para alguém estar ali.
Um carro jaguar vermelho veio deslizando pela pista de pouso me buscar. Não havia motorista, Jarvis também estava no comando. Sentei ao volante, mas não fiz nada, deixei que me levasse, assumi o volante apenas caso alguém visse um carro sem motorista e resolvesse chamar a polícia ou algo assim.
Pelo que havia me dito, levaríamos cerca de uma hora de carro para chegar à casa de Jane. Eu me sentia animada e nervosa e tentei me distrair observando as ruas no caminho. Parecia que toda Londres estava dormindo. As ruas cinzas e confusas não me eram totalmente estranhas. Eu tinha estado ali com oito anos junto com meus pais e após, aos dezoito, para um torneio. E agora estava ali, três anos depois querendo saber se o homem que tinha destruído metade de Nova York ainda estava vivo. Muito nobre.
O carro estacionou em frente a um prédio pequeno e de tijolo à vista. Faltavam quinze minutos para às cinco da manhã. Precisaria esperar pelo menos mais três horas, antes de parecer uma louca. Tamborilei meus dedos no volante, agitada. Cantarolei baixinho uma música infantil alemã. Estalei os dedos. Cantarolei mais um pouquinho e com um suspiro resignado, desci do carro. Dane-se se eu pareceria uma louca.
Toquei o interfone do 401, esperei um pouco, porém ninguém atendeu. Toquei uma segunda vez. E uma terceira. Estava me perguntando se Jarvis não teria me mandado para um endereço antigo quando uma feminina voz sonolenta atendeu.
— Oi? — chamou confusa.
— Ahn... Jane Foster? — questionei em dúvida. Ela pareceu muito mais desperta ao ouvir seu nome e ter certeza de que não era algum bêbado por engano.
— Sim. Quem é? — indagou incerta. Ai meu Deus... ai meu Deus... o que eu estava fazendo? — Quem é? — repetiu quando demorei a responder.
— Liana Stark — falei enfim. Esperava que meu nome servisse para alguma coisa.
— A irmã do Anthony Stark? — perguntou rindo, achando um senso de humor surpreendendo apesar do horário, acreditando que eu realmente fosse alguma amiga bêbada inventando histórias no interfone alheio.
— Sim... — confirmei, já imaginando a reação dela.
— Olha, boa noite. Não toc… —começou irritada com o incômodo.
— Preciso falar sobre Asgard — atirei as palavras antes que pudesse desligar. Ela hesitou.
— Você realmente é a Liana Stark? A atleta? Que saiu no jornal com o Capitão América? — Ops. Isso eu ainda não tinha visto.
— Sim, sou eu. Abre por favor — pedi quase implorando. Uma situação vergonhosa a minha.
— Vou descer. Só um minuto — avisou. Suspirei aliviada. Eu tinha ficado completamente louca. Olhei meu reflexo no vidro da porta e tirando as olheiras e alguns fios arrepiados estava bem apresentável. A vi descendo pelo corredor, enrolada em um chambre de cetim cinza grafite. A mulher espiou de longe e eu acenei tímida. Jane destrancou a porta e me olhou de alto a baixo. Bom, de baixo a alto porque ela tinha algo como 1,60 de altura. Deu espaço para que eu entrasse. Subimos as escadas do prédio antigo em silêncio.
Quando chegamos ao apartamento me convidou a entrar, e correu para retirar uma pilha de livros que estavam espalhados por cima da mesa. Títulos como Mitologia Nórdica, Deuses e Mortais, Guia da Mitologia, Astronomia e Astrofísica, Descobrindo o Universo e vários outros incluindo até mesmo alguns HQ’s estavam espalhados por todos os lados, assim como folhas com anotações e cálculos complexos, fotos e copos da Starbucks com sobras de chá gelado e café. Ela se sentou à mesa e me ofereceu a cadeira em frente. Sentei e ela apoiou o queixo nas mãos me olhando com atenção.
— Você não parece com ele — observou calma.
—Ele quem? — questionei achando que ela falava de Loki.
— O Stark.
— Ah... as pessoas às vezes comentam —admiti sem me estender.
— Mas você não veio aqui falar da sua genética, não é? — interpelou bem humorada passando a mão pelos cabelos arrepiados.
— Eu vi Thor na TV — comecei tímida. Como eu iria simplesmente perguntar? Ela suspirou e mexeu em um copo de isopor vazio. — Ele não está aqui, está? — pensei repentinamente na possibilidade, olhando em volta como se esperasse que o deus saísse com martelo e tudo de dentro da geladeira. A Dra. Foster apenas negou com um aceno breve da cabeça.
— Voltou a Asgard, assim que resolveu a confusão — Jane parecia frustrada. Segurei a mão dela e ofereci um sorriso encorajador.
— Ele vai voltar.
— Da última vez demorou dois anos — respondeu com um sorriso amarelo. Me senti mal por ela. Até onde conseguiriam levar um relacionamento assim? Era levar namoros à distância a outro patamar.
— Ele vai voltar — repeti como se tentasse a convencer. Jane assentiu, ainda me olhando com curiosidade. — Eu queria te perguntar... bom... ahn... — Não havia como ser sutil. — Você sabe do irmão de Thor? Aquele que atacou Nova York — falei como se não lembrasse o nome. Ela franziu as sobrancelhas ficando muito séria.
— Loki? Ele está morto. Eu vi ele morrendo — informou. Soltei a mão dela com o choque e cobri minha boca, me impedindo de arfar. A Dra. Foster virou o rosto levemente para o lado estranhando minha reação.
— Bom... isso é... bom. Como...? — perguntei com uma voz fraca. O vira apenas três vezes, e embora em uma delas ele nem soubesse que eu estava lá, em duas aconteceram coisas demais para não me importar.
— Atravessado por uma lança, lutando contra um elfo negro tomado pelo Ether — explicou como quem diz as horas. Sentia meu estômago derretendo. — Thor ficou bem chateado.
— Mesmo? — perguntei retórica sem realmente prestar atenção. Se estivera em campo de batalha, teria fugido ou sido de alguma forma liberado para isso? Loki era capaz de segurar flechas no ar e havia morrido empalado? Simples assim?
Percebi que Jane estava de pé e preparava café instantâneo e torradas para duas pessoas. Se eu comesse qualquer coisa vomitaria, no entanto não disse isso a ela.
— Dra. Foster, acho que preciso ir — comentei me levantando e derrubando uma pilha de anotações que estavam ao meu lado. Sentia minhas mãos tremendo. Ela me olhou com a certeza de que eu era louca. Faltavam cinco minutos para as seis da manhã. Jane Foster pegou as chaves e me acompanhou até a portaria do prédio.
— Senhorita Stark — começou abrindo a porta, e então se endireitando para me olhar —, provavelmente foi melhor assim. Loki não era exatamente uma boa pessoa — afirmou com uma expressão estranha. Compaixão? As pessoas sempre me olhavam daquele jeito quando eu pedia comida, mas muito tempo tinha se passado desde que vira aquele olhar direcionado a mim. Jane era uma boa pessoa.
— Eu sei — concordei assentindo. Queria sair dali o mais rápido possível. — Ele... sofreu? — balbuciei mesmo sabendo que a resposta não seria boa de qualquer maneira. A cientista me ofereceu o mesmo sorriso encorajador que eu havia lhe dado mais cedo.
— Não muito. Foi rápido — garantiu. Havia honestidade nas palavras dela. Não disse aquilo para tornar meu desconforto menor ou qualquer outra coisa. Era a verdade. Assenti e fui para o carro, me sentei e encostei a cabeça no banco ouvindo Jane Foster trancar a porta do prédio.
— Jarvis, preciso de um hotel. Qualquer lugar serve, só me tira daqui, tudo bem? E por favor, coloque alguma música. Alto — instruí sem energia. O rádio estava no último volume e tocava o AC/DC do Tony. Eu gostava.
Cheguei ao Excelsior Hotel, um dois estrelas bem razoável. Fiz check in e paguei adiantada pela diária do dia. Subi para o quarto e me fechei. Deitei na cama de casal olhando para o teto fixamente. Não sentia nada. Fome, sono, cansaço, frio, calor. Nada. Tudo parecia um eco estranho.
Pelo canto dos olhos vi uma edição de ontem do Daily Mail no quarto e a foto de capa era uma onde apareciam os Avengers que compareceram na festa. Em um canto havia uma pequena chamada para o romance do Capitão América, seguida de uma foto circular onde Steve me beijava na pista de dança. Aquilo parecia ter sido em alguma vida passada.
Lembrei de Frigga e sua expressão triste, vendo o filho preso. Devia estar arrasada. Apertei a boca e puxei o ar com força. Pobre Frigga. Eu adoraria encontrá-la mais uma vez.
Quase três horas se passaram e eu continuava deitada naquela cama sem me mover. Sentia que se mexesse um músculo me quebraria em pedaços. Meu celular tocou.
—Alô — atendi pelo comando de voz.
— Senhorita Schroeder. — Era a voz de Nick Fury. E nem isso me tirou daquele torpor. — Estamos aqui no saguão do seu hotel. Gostaríamos muitíssimo de conversar sobre sua visita à Dra. Jane Foster, mas não queremos ter que subir a força. Seria de bom tom, que nos convidasse a subir.
— Estão me seguindo — conclui como uma idiota. — Quem veio?
— Apenas as pessoas que a senhorita já conhece. A Viúva, o Gavião e o Capitão — falou num tom frio.
— Steve veio?! — Aquilo repentinamente me tirou a razão. Sentei na cama e olhei ao redor procurando por algo para bloquear a porta. Não havia nada. — O que está acontecendo, Fury?! — gritei no telefone.
— Autorize a subida e podemos conversar. Ou eu mesmo terei que autorizar — respondeu e desligou. Peguei o telefone do quarto e liguei para a recepção, autorizando que subissem. — Jarvis, preciso de um plano para sair daqui e depressa — pedi, puxando um fone da ponta do celular e o colocando na orelha. Era imperceptível.
— Sim, senhorita — confirmou, ao mesmo tempo em que Nick entrou seguido pelos outros. Natasha não parecia mais a bonequinha feliz que me acompanhara às compras, Clint nada disse apenas me cumprimentou com um aceno e um sorriso ínfimo nos lábios. Steve nem sequer olhou para mim. Todos estavam armados. Me senti acuada. — Senhorita, procure ficar de costas para a porta do banheiro — instruiu Jarvis. Me perguntei se ele fazia planos de fuga para Tony ou somente eu pediria algo assim. Era óbvio que Tony não precisava disso. Pensava muito mais rápido que eu e era bom de improviso.
Nick puxou uma cadeira e sentou me olhando. Apoiou um tornozelo sobre o joelho da outra perna e cruzou as mãos à frente do rosto. Não lhe dei atenção, olhava para Steve. Ele vestia o uniforme de Capitão, o que significava que estava em missão. Eu era a missão. Por quê eu não sabia.
— Steve? — chamei num tom de voz baixo. Ele não olhou para mim. — O que está acontecendo aqui? — insisti nervosa. O tapete puído parecia muito mais atraente do que eu naquele momento.
— O que está acontecendo, senhorita, é que você está sendo presa sob a acusação de associação com um criminoso de guerra — Fury informou numa seriedade muito profissional.
— Eu, o quê? — Me ouvi soar exasperada, até mesmo indignada. A voz de Jarvis soou na minha cabeça.
— Recue em direção à porta, senhorita. —Fiz o que ele disse. Estava apavorada, podia sentir minhas mãos tremendo incontroláveis.
— Quando o Stark mudou seus registros, não nos importamos porque não guardamos dados de simples civis. Isso era um problema da CIA que aparentemente nunca notou. Sabíamos das alterações porque Tony Stark é o Homem de Ferro e obviamente acompanhamos as movimentações dele desde antes disso, pelo fornecimento de armas ao governo — Fury explicava com calma para que eu pudesse entender. — Mas quando a batalha de Nova York aconteceu, Banner nos relatou sobre a destruição do apartamento. Ele chamou minha atenção para você. Não nos importamos, novamente. Contudo eu conhecia o seu rosto, sabia quem era. Então semanas depois você foi filmada pelas câmeras da Stark Industries entrando no prédio, seguida por um homem e depois... Loki. Em seguida, dados das câmeras do seu prédio nos mostraram que vocês retornaram juntos para seu apartamento — Meu Deus. Eu estava muito ferrada. — E depois o jornal. Aproveitamos a cirurgia que Tony faria e o convencemos a enviá-la para um lugar seguro com nossos melhores agentes. — frisou esse último detalhe. Olhei acusadoramente para Steve. Ele sabia que eu estava sendo vigiada. Ele sabia de tudo. Havia me beijado naquela ocasião. Ainda assim, Steve permaneceu encarando o tapete.
— Tony não sabia de nada? — perguntei numa voz falhada.
— Ainda não sabe — Clint afirmou. A voz dele soava estranhamente mansa. Quase um afago. Fury continuou.
— Você não esperava convencer uma agente de que achara que Loki era um patrocinador, não é? — inquiriu irônico. Realmente havia sido ridículo. — Você não precisa de patrocínio. Sabíamos do seu hábito de dispensar novos patrocinadores para não se comprometer com contratos. Já era a atleta modelo da Stark Industries e continuaria sendo a inspiração de vários outros, como esperavam que fizesse e isso bastava. — Aquelas palavras soaram como um chicote. Eu era a atleta modelo? — Você apenas conseguiu chamar ainda mais a atenção. Te adverti na festa, para ficar próxima, para se manter entre os Avengers. Natasha e Barton ainda te convidaram para se unir a nós. Isso foi feito apenas em consideração ao trabalho do Stark — esclareceu com uma voz indiferente. Eu tinha entendido aquela parte, porém não entendia porque Steve havia me dito para não entrar para a S.H.I.E.L.D. se aquilo parecia ser um apaziguador de ânimos. — Então, quando Thor surgiu em Londres, o que você fez assim que soube? — Uma pergunta retórica. Todos sabíamos o que eu tinha feito, mas não era como se tivesse aplaudido o comportamento de Loki e o apoiado, era?
— Eu não fiz nada — afirmei em um tom estranhamente esganiçado. Nick riu de pura descrença. Steve fechou as mãos em punhos.
— Nada? Você abrigou um criminoso de guerra! Não o denunciou, mas sim o acobertou! E acha que não fez nada? — Bom, eu tinha feito tudo isso. Mas ele havia sido bom para mim. Nunca me fez nada e enquanto esteve comigo, não fez nada de ruim a ninguém. Talvez eu tivesse alguns conceitos errados sobre gratidão. — O que você veio perguntar à Doutora Foster? Ela ainda não sabe como abrir a passagem dimensional pelo nosso lado. A menos… — pareceu ponderar por alguns segundos. Isso eu já imaginava. — A menos que Loki tenha ensinado como fazer isso — insinuou de forma absurda. Isso significava que eles deduziram que eu estava apoiando Loki. Que eu abriria alguma daquelas passagens para ele passar. E certamente temiam que não viesse sozinho. Talvez achassem que eu estava envolvida em Greenwich de alguma forma.
— Eu não sei de nada disso — falei sincera. Steve finalmente ergueu os olhos para mim. Feridos e magoados. — Olha, sei que parece algo totalmente errado, mas foi um conjunto de coincidências.
— Isso nós vamos decidir depois de um interrogatório oficial na S.H.I.E.L.D. — afirmou imperativo. Senti minha espinha gelar. Todos olharam bruscamente para Fury. — E temos nossos próprios métodos para fazê-la cooperar. — Meu queixo caiu. Estava sendo ameaçada, descaradamente, sem aviso prévio e sem ressalvas. Achei que fosse desabar no chão e começar a chorar.
— Você não vai encostar a mão nela! — Steve advertiu pela primeira vez, repentinamente exaltado apesar do tom baixo. Senti algo próximo à gratidão por aquela resposta. Ele ainda parecia me ter em alguma consideração. Senti vontade de abraçá-lo ali mesmo, mas Jarvis me impediu de fazer isso. Meu arco e a aljava vieram para mim, se encaixando com perfeição aproveitando a distração dos outros. Não era distração o bastante para agentes como aqueles.
Natasha sacou duas glocks do coldre e as apontou para minha cabeça. Clint tinha uma flecha mirada em meu peito. Fury e Steve se encaravam, porém o chefe virou a cabeça lentamente na minha direção.
— Senhorita, recomendo que largue a arma. Isso pode não ser bom para sua saúde.
— E pensar que acreditei que realmente fossemos ter uma amizade — comentei para Natasha, amargurada com minha própria ingenuidade. Na verdade estava ganhando tempo, para o que quer que Jarvis estivesse preparando. Nenhum deles me olhou nos olhos.
— Nosso trabalho é parecer o que quiserem que pareçamos — falou a espiã, sem nenhuma preocupação mais profunda. Por que não me olhavam?
— Steve, era tudo mentira? — indaguei num tom alto e magoado, um pouco dramático demais.
Ele me encarou meneando a cabeça em negativa, com uma expressão séria.
— Não… — respondeu numa voz morta. — Eu vou explicar com calma… — Jarvis voltou a falar comigo.
— Senhorita, prepare o arco. Ao meu sinal dispare contra a parede à suas costas. — Na parede? Eu queria enfiar uma flecha na cabeça do Fury! Mas eu precisava lembrar que aquele era um software de Tony e devia ter calculado tudo o que poderia ser feito. Eu confiaria cegamente em Jarvis. Ninguém ia me levar para lugar nenhum. ‘‘Eu posso fugir de quem eu quiser’’ Esse tinha sido meu mantra durante muitos anos. Seria meu mantra hoje novamente.
— Abaixe o arco — disse Clint numa voz firme. Armei-o apontando para o olho que restava em Fury. Clint esticou ainda mais a corda da arma em suas mãos.
— Pelo amor de Deus, Liana! — Steve falou nervoso, uns dois tons acima do normal. — Abaixe a arma!
— Senhorita, quando quiser disparar fique à vontade — ofereceu a voz de Jarvis quase como se sugerisse biscoitos para o lanche. Olhei para o Capitão e apertei os lábios dolorosamente. Me virei num giro rápido e disparei. A parede explodiu completamente, pedaços de concreto e azulejos voando, algum cano estourara, espalhando água. Corri para o buraco, o eco da explosão reverberando em meus ouvidos. Ouvi dois tiros às minhas costas e a flecha de Clint passou zunindo, exatamente onde eu estivera meio segundo antes. Me lancei pelo buraco em direção a uma escada pairando no ar. Me senti ligada a ela assim que a toquei. O jatinho começou a se deslocar comigo ainda na escada. Ouvi disparos atrás de mim. Entrei na nave, fechei a porta e comecei a gritar:
— Jarvis, me tira daqui! Me tira daqui!
— Para onde, senhorita? — perguntou, devolvendo a decisão para mim. Eu não sabia.
— Algum lugar seguro. Isole a parte do sistema que trabalha para mim, assim como Tony faz com a armadura. Não deixe ninguém acessar os dados. Nem mesmo ele — orientei me sentando no banco. — Ative os defletores. — Aquilo nos tornaria invisíveis, por um tempo. — Algum lugar onde não vão me procurar. Jarvis, rastreie o lugar que você considera mais improvável de me procurarem e nos leve para lá — comandei tirando cacos de azulejo da pele. Clint e Natasha não atiraram para matar, não atiraram sequer para acertar. Se fosse assim eu estaria morta. Eles de alguma forma queriam me dar tempo.
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Estava estranhamente calma agora. Contei as flechas na aljava e estavam todas ali. Precisava provar não ter planejado trazer Loki e um exército imaginado pela cabeça lunática de Fury para a Terra. Mas a única pessoa que poderia ter falado algo em meu favor estava morta. Finalmente comecei a chorar. Peguei um guardanapo do bar e comecei a limpar o sangue escorrendo dos braços e do rosto, se misturando às lágrimas. Estava ferrada e não sabia como sair daquela situação. E Steve? Ele acreditava em mim? Parecia estar cumprindo ordens a contragosto. Senti raiva e gratidão. Ele queria que eu saísse dali da melhor maneira possível e ainda assim estava a serviço. Eu soluçava com raiva.
— Senhorita, as recomendações foram seguidas. Tomei a liberdade de escolher uma rota área fora da malha comercial — informou Jarvis, como sempre mais eficiente do que eu poderia pedir. Estávamos momentaneamente seguros.
— E para onde estamos indo?
— Para Khao Sawai na Tailândia — explicou. Realmente não seria minha primeira opção ir para lá.
— E o que tem em Khao Sawai, que te fez escolher como o lugar menos provável?
— É onde o Doutor Banner reside atualmente — esclareceu.
Engoli em seco. Realmente ninguém me procuraria onde o Hulk estivesse. Não parecia a decisão mais sábia do mundo, mas no momento era a pequena possibilidade de tempo à minha disposição. Me encostei na poltrona e adormeci, exausta depois de duas viagens internacionais em menos de 24 horas. Apenas em sonhos eu encontraria quem eu realmente precisava achar.
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