God of Mischief | Loki
14 Capítulo 13: Asgard
Notas iniciais
Thor estava de volta a Midgard, Odin estava em seu sono e Loki estava no trono. Tudo como deveria ser.
Ou quase tudo. O Sono de Odin duraria cerca de uma semana, após esse período ele despertaria. O deus apenas entrara em seu torpor acreditando que Loki estava morto e Thor em missão, mas logo retornaria, mantendo Asgard segura. Loki havia se passado por Odin e permitira ao irmão retornar à sua humana, assumindo o trono em segredo. Ninguém poderia se opor, já que o herdeiro mais velho abdicara e o pai estava impossibilitado. Era o único disponível.
Tinha problemas em mãos, no entanto. O Tesseract estava fechado no cofre no qual apenas Odin poderia entrar. Ele havia cogitado simplesmente matar o velho, porém sabia que não conseguiria impedir uma insurreição se o fizesse. Todos o estavam tolerando no trono apenas na expectativa de que o Pai de Todos acordaria em breve e o colocaria para correr. Sabia que aconteceria se não conseguisse pegar aquele maldito Tesseract.
Loki tentara abrir o cofre, contudo tinha conseguido apenas ser arremessado contra a parede do corredor. Enquanto Odin estivesse vivo não conseguiria entrar e, no entanto, não podia matar o velho. Com o Tesseract seria capaz de manter Odin em seu Sono de Imortalidade e poderia matar Thor, fixando-se como soberano inquestionável de Asgard enquanto iria atrás das outras Joias do Infinito e teria poder sobre todo o universo. Então mataria o velho e ninguém se atreveria a desafiá-lo.
Os companheiros de Thor, Fandral, Volstagg, Hogum e a adorável Lady Sif agora ocupavam a cela que havia sido do próprio Loki, de forma a não poderem alertar o deus do trovão sobre os acontecimentos.
O plano teria sido perfeito se as coisas não tivessem acontecido rápido demais e o impedido de pensar como tiraria o Tesseract do cofre. Sempre tivera esperança de uma chance de reação, mas a situação não era a ideal.
Agora seu tempo estava correndo e não via saída. Se as coisas dessem errado, sua opção seria ir a Jotunheim e reclamar seu direito ao trono, já que Laufey estava mais do que morto. Então levantaria o exército dos Gigantes de Gelo contra Asgard e a tomaria à força. Precisaria fazer tudo antes de Odin despertar, pois se acontecesse sabia que reencontraria Laufey em breve. Entretanto, o príncipe não queria fazer essas coisas. Queria tomar o poder usando sua inteligência e não a força bruta. Para isso precisava se apressar numa forma de retirar o Tesseract do cofre. Seu tempo estava correndo.
*Midgard*
Meu tempo estava correndo e, no entanto, não parecia passar nunca. Estávamos há quase quinze horas no ar direto. Não fosse a energia usada pelo Reator Arc, precisaríamos ter pousado para abastecer e eu estaria mais que perdida. Nesse meio tempo Jarvis havia me alertado sobre treze tentativas de invasão de sistema, rechaçadas com tranquilidade. Por quanto tempo mais eu não sabia.
— Jarvis, falta muito? — quis saber, esticada na poltrona, segurando um cubo de gelo no corte fundo abaixo do olho direito.
—Na verdade, senhorita, estamos pousando nesse momento. Se quiser acompanhar pela janela — informou. Sentei e olhei pela janelinha, preocupada que houvessem agentes aguardando. Para meu choque, estávamos pousando numa vila muito pequena, no meio de uma floresta. A pista de pouso não era mais do que um grande espaço de terra batida onde o avião pudesse manobrar. Era o fim do mundo.
Quando o avião parou, desci e ele tornou-se visível novamente. Algumas crianças corriam para ver a nave que aparentemente havia surgido do nada. Todas tinham cabelos pretos e lisos e os olhos monólidos escuros. Eram muito bonitinhas e sorriam como se fossemos amigos de longa data falando rápido em um idioma desconhecido por mim. Não tinha uma ideia melhor além de encontrar Banner e contar a ele o que estava acontecendo e torcer para me ajudar a explicar as coisas. Ele era minha melhor chance. Perguntei a uma das meninas sobre ele, mas ela tampouco entendia meu idioma.
Numa tentativa ridícula de me fazer entender, me abaixei pronta para desenhar na terra algo que lembrasse vagamente o Hulk. Com sorte elas talvez soubessem o que eu queria. Assim que me pus na altura da menor, me abaixando, ela passou a mãozinha embaixo do corte no meu rosto e olhou para meus braços arranhados e cobertos com sangue seco. Segurou minha mão e começou a me fazer correr atrás dela gritando algo naquele idioma incompreensível aos meus ouvidos. Alguns adultos trabalhando por ali me olhavam de longe e acenavam simpáticos parecendo muito pouco surpresos com minha presença.
Fui conduzida até uma casa muito pequena de alvenaria, bem no centro da vila. A menina entrou na residência rindo e falando alto, me deixando na porta. Ouvi uma risada masculina e algumas palavras naquele idioma. O som de passos. Apertei forte o arco que ainda carregava nas mãos. Bruce Banner surgiu à porta, vestindo bermudas e uma camiseta de linho. Franziu as sobrancelhas quando me viu, parando na porta. Ficamos nos encarando durante uns dez segundos, antes que ele falasse.
— Liana Stark? — perguntou duvidoso. Ofereci um sorriso cansado. — O que você fez no rosto? — indagou tocando minha pele inchada com a ponta dos dedos, um olhar técnico me avaliando como se aquilo fosse a questão mais urgente a lhe ocorrer.
— Longa história — falei simplesmente. Ele fez um gesto com a mão convidando-me a entrar. Passei pela porta olhando ao redor com atenção. Estava esperando que Nick Fury caísse na minha cabeça a qualquer segundo. Banner puxou um banquinho de madeira me oferecendo. Sentei exausta e enquanto o assistia pegando água oxigenada, álcool, band-aids e algodão de um armário sobre a pia.
— Eu tenho tempo para histórias — comentou sem me olhar, embebendo o algodão com água oxigenada, e começando a limpar o sangue da pele em meus braços. Aquilo ardia, porém me senti tão grata que poderia tê-lo abraçado.
A menina a me levar até ele veio me trazendo alguns biscoitinhos e uma xícara com chá repousando-os na mesinha ao nosso lado falando algo. — Ela disse que é para você — esclareceu ainda concentrado. Sorri para ela e peguei um biscoitinho. Era bem gostoso. Me senti tão relaxada, que aquilo poderia ser um sonho. — Você tinha uma história para contar — me lembrou.
Banner era minha única saída. Comecei a falar tudo, tudo mesmo. Desde quando eu havia chegado à América, passando pelo meu nome, pelo ataque a Nova York, e para minha surpresa ele até mesmo riu quando disse ter escondido Loki no elevador. Segui falando do homem no beco, da praia e terminando no hotel. Achei que começaria a chorar quando falei de Steve lá contra mim, mas não derramei uma única gota.
— O Steve gosta de você — afirmou, puxando uma pinça comprida de dentro da gaveta e começando a puxar alguns caquinhos de azulejo tão pequenos que eu não havia notado. Banner disse aquilo com tanta certeza que só então me permiti chorar. Ele me alcançou uma folha de papel toalha e continuou remendando meus braços. Eram vários cortezinhos mínimos, mas doloridos e estavam cheios de pó de concreto.
— Eu sei... mas ninguém vai acreditar em mim. Ninguém vai querer me ouvir — choraminguei. Banner ergueu os olhos me encarando, uma expressão séria no rosto.
— Eu acredito em você. As pessoas têm medo de mentir para mim e você não viria até aqui apenas para mentir — concluiu com inteligência. Recomecei a chorar em silêncio. Ele começou a grudar band-aids nos meus braços. — Você fez coisas que a maioria não concordaria, mas olhando do seu ponto de vista, me parecem perfeitamente justas. Loki nunca te prejudicou diretamente e muito pelo contrário te ajudou quando precisou, algo que eu realmente não esperaria dele. No entanto, se você diz que foi assim eu acredito. Fury tem uma visão fragmentada da situação. — Eu costumava ter medo de Banner, bom ainda teria se ele ficasse verde, contudo naquele momento me parecia um dos homens mais gentis que eu conhecera durante toda minha vida. — A verdade é que a S.H.I.E.L.D tem medo de Loki, e saber que ele andou circulando de novo os deixa em pânico. Passa a impressão de que algo deu errado. Fury não deve confiar nem na própria mãe, quanto mais em nós. Nos considera armas e parece que viu em você e em Loki pessoas dispostas a usar essas armas contra ele. Me diga com sinceridade, se Tony tivesse que escolher entre você e Fury...?
— Eu — respondi sem hesitar. Ele podia não ser meu irmão, mas ao mesmo tempo era. Em uma lista de prioridades eu sabia que vinha logo atrás de Pepper. — Acha que por isso não falaram nada para ele?
— Acho. Ele tentaria te proteger. Entenda, de todos os Avengers, Eu, Tony e Thor somos os que a S.H.I.E.L.D não pode controlar — afirmou com um meio sorriso, revirando uma gaveta. Pareceu não achar o que queria, trocou algumas palavras com a menininha que saiu pela porta. Ele sentou em uma cadeira na minha frente. — Steve, Natasha e Clint são como marionetes nas mãos de Fury. Eles dependem da organização. Ela está ligada a quem eles são e quebrar esse vínculo os tornaria alvos de tudo o que conhecem. Seria alta traição. Sabem muito bem quais são os métodos para traidores e, mesmo podendo se garantir, seria muito arriscado para qualquer um que já tenha trocado mais de duas palavras com eles. Natasha e Clint nunca conversaram abertamente sobre o assunto. Se um desertar o outro precisa fazer o mesmo e não sabem fazer nada além de viver para a S.H.I.E.L.D. Fazer o que eu faço? Para eles soa como loucura, se esconder. Então, veja bem, Steve está entre a cruz e a espada — explicou pacientemente me olhando com bondade. Ele estava preso a S.H.I.E.L.D.
Me peguei sentindo um rompante de fúria. Por isso nunca haviam tentado ajudar Steve a se ajustar ao mundo moderno. Criaram uma relação de dependência que garantiria alguma lealdade. E agora com Fury na minha cola, a coisa tinha ficado ainda mais complicada para o Capitão. Se chegassem a me capturar e ele estivesse por perto poderia me proteger durante o interrogatório, de uma posição de dentro da organização. Teria o seu cargo para barganhar por mim. Eu estando lá ele não teria nada a perder, mas a S.H.I.E.L.D sim. Steve não estava no hotel por lealdade a Fury, estava por mim.
A menina voltou trazendo luvas de procedimento e um pequeno pacote. Ao abrir, Banner revelou um fio escuro e retorcido com uma agulha curva presa na ponta. Agradeceu, pegando uma pinça cirúrgica. Ai não. — Preciso que fique parada — advertiu segurando meu rosto para passar o algodão com álcool. O corte embaixo do olho iria precisar de pontos. Me peguei fazendo uma careta e ele riu. — Você mente para... o outro cara, hospeda Loki, foge da S.H.I.E.L.D e tem medo de uma agulha? — Eu ri baixo e permaneci imóvel enquanto ele começou a fazer os pontos, apertando os lábios com força. Apenas dois foram necessários, mas ruins o suficiente para me fazerem apertar as unhas contra minhas coxas.
— Obrigada por me receber e me explicar as coisas sobre o Steve. Ele é... importante — agradeci, vendo ele guardar as coisas e descartar o material usado. — E desculpe ter vindo de repente. — O homem sorriu pegando um biscoitinho do prato e se encostando na mesa.
— Na verdade, eu que agradeço. Moro aqui e trabalho como médico para me manter isolado da S.H.I.E.L.D., mas também de ambientes estressantes onde eu poderia machucar alguém. E assim eu faço alguma coisa boa, pelo menos.
— Achei que fosse físico nuclear…
— Também… Espero estar aposentado dessa área — afirmou num tom triste. — De toda forma receber alguém do outro lado do oceano, me procurando por ajuda, como se fossemos amigos, faz com que eu me sinta quase normal — concluiu. Senti meu estômago dar uma volta. Ele não se envolvia muito com ninguém por medo de que o Hulk viesse à tona.
— Nós somos amigos — garanti num tom de fingida indignação. Ele riu. Não éramos próximos assim, no entanto estava disposta a criar essa relação.
— E amigos podem se desentender. O que não seria uma boa ideia. — Suspirei derrotada. Bruce estava preso naquela condição absurda. Achei mais seguro mudar um pouco de assunto antes que se aborrecesse.
— Então, você resolveu ficar trabalhando aqui? Parece bem tranquilo.
— Às vezes até demais. E é um bom lugar para o Hulk estar — comentou com um sorriso gentil. — Escuta, Liana, pode ocupar o quarto dos fundos até resolvermos seu problema, ok? Temos pouco tempo até que venham te procurar. Eu preciso ir visitar alguns pacientes, mas volto daqui a pouco. A casa é sua.
— Obrigada mesmo — respondi, vendo-o pegar a maleta e ir para a porta, sendo seguido pela menininha. Fiz uma pergunta que estava curiosa. — Por que Khao Sawai?
— Tony é uma boa pessoa, ele acha que posso controlar, mas a verdade é que eu não tenho certeza disso. Ele achou o lugar para mim, até que eu resolva voltar. Se um dia eu resolver — explicou sem especificar demais. — E você? Como achou sem falar com ele?
— Jarvis foi projetado por uma boa pessoa que gosta de informações quando precisa delas. Então se Tony sabe, Jarvis também — ponderei prática. Ele sorriu e saiu. Banner era um cara bem legal quando não estava verde.
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Banner voltou de noite e trouxe comida. Não havia nada na casinha que eu pudesse ter preparado. Nos sentamos e repartimos arroz e uma galinha com um tempero agridoce e muita pimenta. A menininha falava animadamente e ele às vezes ria. Eu comi em silêncio. Assim que terminamos me ofereci para lavar a louça, porém ela não deixou tirando os pratos de mim, e balançando o dedinho numa bronca infantil.
— Quem é ela? — perguntei afinal, observando-a subir num banquinho para alcançar a pia.
— Se chama Anong. Os pais morreram de malária pouco antes de eu chegar. Ela se escondeu nos fundos da casa e foge de qualquer um que tente a levar. Tenho cuidado dela desde então — falou apoiando a testa em uma das mãos, preocupado, também a olhando. Aquela menina me lembrava muito de mim mesma. Cantarolava alguma coisa enquanto lavava os pratos.
— Não é perigoso?
— Claro que é — Bruce aquiesceu num tom denso. — Mas ela não tem ninguém que a queira.
— Posso imaginar — comentei de forma vaga. — Ela sabe sobre...? — deixei a pergunta subentendida.
— Sabe. Mostrei a ela em vídeo e disse que se acontecesse algo assim deveria correr para o meio da floresta. A resposta foi ‘‘você é bonzinho’’ — suspirou cansado. — Ela é muito pequena, não acho que entenda.
— Entende sim — me ouvi falando sem pensar. — Anong sabe que é perigoso, mas não tem nada a perder. Você deve ser a melhor coisa que já aconteceu a ela — concluí. Assim como Pepper fora para mim. Bruce me olhou agradecido. Anong terminou o que estava fazendo e veio para o meu lado com um pente nas mãos. Falou algo que eu não entendia.
— Ela perguntou por que seu cabelo é feito de fogo — Ele traduziu rindo baixo. Eu ri também. Talvez fosse a primeira pessoa ruiva que ela vira na vida.
— Eu não sei — falei simplesmente. Anong começou a mexer nas pontas e falou num inglês carregado.
— Pentear — Me mostrando o pente que tinha. Sorri para ela, assentindo. A menina subiu em um banquinho e começou a passar o pente em meio ao ninho de passarinho que meu cabelo havia virado. Era muito delicada.
— Está ensinando inglês para ela? — Bruce confirmou com uma expressão resignada.
— E a ler e escrever, a fazer cálculos e várias outras coisas, é uma menina muito inteligente. Então ela resolveu que limparia a casa — contou rindo com a simplicidade da ideia. — Se eu tentar arrumar alguma coisa, ela vem correndo e briga. Se eu insistir, ela chora — Ele deu de ombros reconhecendo sua impotência diante do pequeno furacão tailandês em sua vida. Eu sorri penalizada. A menininha possivelmente queria sentir-se útil, necessária. Eles eram algo muito próximo a uma família, com a pequena diferença que o pai poderia ficar enorme e verde e atirar tudo longe. Anong começou a encher meu cabelo de trancinhas.
Ficamos conversando sobre a rotina no lugar até pouco depois da meia noite, então Banner decidiu ser hora de Anong dormir e eu resolvi que também precisava de descanso. No dia seguinte Jarvis entraria em contato e negociaríamos.
*Asgard*
Loki acordou cedo naquele dia e foi direto para sua missão. Colocou o capacete de ouro e caminhou decidido pela Bifrost carregando Gungnir, a lança do pai. Não iria ficar esperando um milagre cair do céu. Todo aquele nascido de alguma criatura com o mínimo de poder, não conseguiria entrar no cofre sem uma autorização de Odin ou sem ser seu herdeiro. Loki não tinha como providenciar a segunda parte ainda, então não tinha uma ideia melhor além de arranjar alguém tão fraco que o cofre sequer notasse sua presença. E nada melhor que um humano para fazer isso.
Ele estava indo a Midgard para buscar quem realizaria o serviço. A única pessoa que imaginava não se apavorar com as ordens dele era Liana. Se tinha algo a falar de positivo era que de todos daquela escória humana, ela era a menos pior. Tinha alguma fibra. Por algum motivo sempre percebia quando ele tentava manipular sua mente, mas se a encontrasse sabia que não precisaria fazer nada disso. Ela o seguiria por vontade própria.
— Onde ela está? —perguntou ríspido a Heimdall. Não precisava especificar de quem falava.
— Em um país chamado Tailândia — o guardião respondeu a contragosto, o fitando com um semblante rígido. Devia lealdade ao regente, mesmo sendo Loki.
O deus da trapaça sorriu satisfeito. Não precisaria se preocupar em esbarrar no irmão em um país tão distante. Era perfeito.
Com um gesto indicando a espada de Heimdall, ordenou a abertura da passagem e a atravessou. Assim que se viu do outro lado, reparou estar em meio a uma floresta quente e bastante úmida. O que Liana estaria fazendo em um lugar como aquele nem podia imaginar.
Loki caminhou em meio às árvores por quase uma hora, seguindo a fumaça no céu, indicando a presença de população perto. Chegou à borda de uma vila. Mulheres carregavam metros de seda, caixas repletas de frutas, homens trabalhavam ao redor em plantações de arroz e na pesca. A fumaça vinha das chaminés das casas. Era um lugar isolado, embora agitado.
O deus subiu com facilidade até a copa de uma árvore. Havia um avião preto dentro do seu campo de visão, largado na pista de pouso. Esperaria o momento certo para agir. Não chamaria atenção antes da hora.
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Levantei às nove da manhã e a menininha Anong estava na sala arrumando a mesa. Havia chá, leite, pão e queijo de cabra. Me sentei ao lado dela.
— Bom dia! — me cumprimentou feliz. Respondi deixando a pronúncia bem clara para que pudesse entender. A menina sorriu e então reparei que lhe faltavam os dentinhos de leite bem na frente da boca. Sorri de volta e tapei meus dentes com dois dedos. Ela riu feliz, entendendo minha brincadeira. Anong era uma gracinha.
Banner entrou na sala e sorriu vendo-a brincar, seu sorriso não se estendia aos olhos, revelando a preocupação com a menina. Sabia que não poderia ficar em Khao Sawai para sempre e devia se questionar qual seria o destino da criança quando não estivesse mais ali. Agora tínhamos questões mais urgentes. Se sentou e comeu apressado. Iríamos ao avião, para Jarvis fazer a ligação. Assim que ele levantou, Anong correu para segurar sua mão. Saímos pela porta e as pessoas o cumprimentavam muito felizes. Banner era muito querido ali.
Abri a porta do avião, mostrando uma escadinha. A menininha subiu na frente gritando animada, devia ser a primeira vez numa aeronave. Banner a seguiu. No momento em que ia segui-lo me senti estranha. Como se alguma coisa estivesse me olhando. Me virei de costas para o avião, mas tudo à minha frente eram árvores. Dei de ombros e entrei. Jarvis estava falando algo em tailandês com Anong. Banner estava sentado em uma poltrona rindo.
— Bom dia, Jarvis.
— Bom dia, senhorita — respondeu, interrompendo a conversa com a menina, trazendo seu discurso de volta para o inglês. — Até agora temos oitenta e sete tentativas de invasão do sistema. O senhor Stark, reforçou as suas configurações de segurança, senhorita — informou. Eu e Banner trocamos um olhar surpreso. Tony estava sabendo e estava me acobertando até eu achar solução para aquilo.
— Obrigada pelo relatório — agradeci tensa. — Preciso de conexão por uma linha segura com o Capitão Steve Rogers — pedi, conforme tínhamos planejado. Ouvimos um único toque do celular chamando e ele atendeu de imediato.
— Liana, você está bem? — atendeu nervoso. Sua voz cheia de preocupação me fez soltar uma respiração entrecortada. Anong se sentou numa poltrona olhando cheia de atenção. Em qualquer idioma minha reação era clara.
— Steve, eu estou bem... Tanto quanto possível — garanti, minha voz soando grave. — Estou com Banner.
— Escuta, nós sabemos — advertiu com urgência. Banner franziu as sobrancelhas, parecendo tão surpreso quanto eu estava. — E é por isso que você precisa sair daí. Agora.
— O que? Como assim? — perguntei alarmada. Meu arco estava na casinha.
— Durante o tiroteio, o diretor Fury acertou seu avião com um rastreador. O sinal de Jarvis interferiu por isso a demora em te achar, pelo que entendi. Não conseguiram desligar o sistema, mas o contornaram. Estão indo atrás de você, Lia! Precisa sair daí! — podia notar a urgência em sua voz. Esperaria Steve normalmente sugerir negociar sob sua proteção e retornar aos Estados Unidos, mas entendi o problema. Se Bruce estava ali e os agentes viessem, as coisas quase certamente poderiam desandar e eu e toda vila estávamos expostos. Olhei para Banner que se pôs de pé de um salto, percebendo exatamente isso.
— Steve, eu quero me entregar — afirmei com urgência.
— Lia, o Fury não está no juízo perfeito dele! Quando você reagiu à prisão ele considerou aquilo como uma demonstração de periculosidade — falava aos tropeços. Eu não estava entendendo. — Eles vão atirar primeiro e perguntar depois! É por isso que não estou no grupo, não concordei com essa ação. Você precisa sair daí! Eu vou te achar, ouviu? Eu vou te achar e vamos resolver isso juntos. É tudo uma completa insanidade. Só fique viva até eu chegar, por favor… — Ele pediu numa voz derrotada. Agora eu entendia a proporção do nosso problema. Banner pegou Anong no colo e correu para fora do avião, eu os segui gritando um agradecimento a Steve. Precisava buscar meu arco, não podia ser pega desarmada, só esperava não precisar realmente me defender.
Não nos afastamos nem sequer dez passos e surgiram dois caças pretos no céu, largando agentes que desciam por cordas nas laterais. Estavam fortemente armados, pude reparar. Meu Deus, o que aquilo estava virando? Fury estava completamente maluco?
Banner passou Anong para o meu colo e ficou entre nós e os agentes. Uma voz metalizada soou acima de nossas cabeças, vinda do avião.
— Doutor Banner, afaste-se — ordenou a voz. Banner riu.
— Se eu fizer, vocês vão atirar. Sempre tive problemas com valentões. Ainda mais quando incomodam mulheres indefesas — falou numa voz muito mais grave que a habitual. Olhei para Anong com urgência. Ela me disse uma única palavra naquele seu inglês carregado. ‘‘Correr’’. A coloquei no chão, atrás de mim.
— Doutor, se não se afastar será considerado um alvo também — a voz informou calmamente. Que loucura era essa? — Liana Schroeder resistiu à primeira prisão e precisa ser contida.
— Vocês ameaçaram tortura — alegou revoltado. Mal sinal. Mal sinal. Eu não deixaria ele nervoso se estivesse no lugar daquela gente. Já deviam saber que era uma péssima escolha. Mas alguém ali devia ser muito, muito, muito burro mesmo, pois um tiro foi disparado. Acho que pensaram poderem atirar em Banner antes do Hulk estar totalmente ali.
Com um grito de surpresa percebi que o verdão havia chegado e segurava a bala disparada em uma das mãos. Ele soltou um rugido gutural, atacando o primeiro grupo de agentes. Vi pessoas sendo atiradas longe, enquanto corria para entrar na floresta, puxando Anong por uma mão. Os tiros nos seguiam pelo caminho. Então a menininha soltou um grito. Senti meu sangue gelar. Ela estava caída no chão chorando e apertando a perninha que sangrava. Soltei um grito de frustração e raiva, tentando pegá-la no colo, contudo Hulk olhou em nossa direção e a viu caída no chão. Pela expressão dele eu percebi que aquelas pessoas estavam com um grande problema. Ele olhou para mim e então para a floresta. Eu devia deixá-la e correr. De alguma forma, como no dia do ataque em Nova York, havia algum discernimento nele. Anong não seria um alvo.
Estiquei a mão na direção da casinha, convocando meu arco e corri. Podia ouvir passos e disparos me acompanhando. Hoje eu era a caça e podia entender como os animais conseguiam ser tão rápidos. Praticamente deslizava em meio à mata. Estava surpresa por não ter sido atingida por nenhum tiro ainda, mas os galhos estavam se agarrando às minhas roupas e me atrasando, não podia perder o ritmo, precisava deixá-los para trás. Eu saltava sobre raízes elevadas, me abaixava para passar por galhos, ainda assim eles estavam vindo atrás de mim. De repente, um impacto quase tirando meu ar me atingiu pela lateral provocando desequilíbrio. Minha aljava havia chegado. Faltava o arco. Recuperei o ritmo e continuei correndo até entrar numa clareira, onde a população local costuma levar os animais para pastarem. Ali eu conseguiria ganhar velocidade.
Então sem aviso alguém saltou de cima de uma árvore à minha frente. Por um segundo achei que fosse algum agente. Parei derrapando alguns metros afastada. Olhei em choque para ele. Loki. Com armadura e tudo.
O deus me encarou com uma expressão vazia e sem falar nada puxou meu pulso para trás de si. Quando olhei, ele apontava um cetro dourado na direção dos três agentes que me perseguiam e eles foram arremessados longe por um golpe de energia saído da arma. Loki virou de frente para mim, eu ainda o olhava aturdida. Ele dobrou os joelhos alguns centímetros para igualar nossas alturas encarando meu rosto, os olhos correndo pelos meus, verificando se o cérebro ainda funcionava. Eu sabia que devia estar parecendo um bichinho assustado, porque sentia meus olhos arregalados e a boca entreaberta.
— Vou te tirar daqui — avisou firme olhando para mim. Assenti sem dizer nada. Ele se endireitou e olhou para cima. Eu sabia o que faria e segurei a manga de couro da cota.
— Espera! — gritei o surpreendendo. Olhei para um lugar qualquer. — Anda logo porcaria! — esbravejei, o braço direito esticado no ar, a palma da mão aberta, meu cérebro concentrando cada sinapse naquela tarefa. Ele olhou de mim para o ponto que eu encarava, impaciente. Logo mais agentes surgiriam. Meu arco apareceu por entre as plantas, já inteiramente montado e se chocou contra a palma da minha mão com um som tão alto como o de um trovão.
A questão é que não foi meu arco o responsável pelo som. Thor aterrissou com um impacto ensurdecedor no meio da clareira. Olhei dele para Loki e de volta para o recém chegado. A expressão de Thor foi de choque, passando por alegria e enfim chegando à raiva. Soltou um urro e atirou o martelo. Loki me puxou para si pela cintura e gritou o nome de Heimdall. Fomos envolvidos em uma luz colorida, antes que o martelo nos atingisse. E tudo ao meu redor sumiu.
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