Glass Humans

24 Vermelho Escarlate


Notas iniciais
Boa leitura!

—Achei! -Diz Charlote levantando o cartão da sua mãe ao ar.

—Bom trabalho! -Sorri Andrew. -Você vai fazer almondegas hoje?

—Provavelmente não. Já comemos esse tipo carne ontem, hoje estava pensando em fazer arroz, bifes e salada.

—Tudo o que você faz provavelmente é uma delícia então para mim não faz muita diferença.

—Você também não tem muitas opções, era comer a minha comida ou passar fome.

—Eu estou tentando te elogiar, por favor, só aceite.

—Tudo bem...muito obrigado...Andrew... -Diz Charlote com uma expressão facial e tom de voz desinteressados.

—Deixando isso de lado, eu queria tomar banho antes de irmos ao mercado.

—Tudo bem, você pode usar o banheiro, eu vou esperar por você na sala.

Os dois caminham para fora do quarto de Nora e Andrew dirige-se para o banheiro. Ele olha os seus arredores e percebe que existe uma toalha. Sabendo que teria como se secar, ele tira as suas roupas e começa a tomar banho. Alguns minutos mais tarde, Andrew já estava quase a terminar quando ouve Charlote bater na porta:

—Vou deixar algumas roupas aqui do lado de fora.

—Eu ia simplesmente continuar usando as mesmas roupas. -Responde ele.

—Isso é nojento, Andrew, esse já é terceiro dia que você está aqui.

—Mas mesmo se você me emprestar roupas, eu vou ter que continuar a usar a mesma roupa íntima.

—Desculpa por não poder te emprestar uma das minhas?

—Ah...não sei onde queria chegar com aquilo...

—Só aceite as roupas que eu estou te dando.

Ele abre a porta enrolado na toalha para agradecer a gentileza de Charlote e pegar as roupas, mas a sua perspectiva da situação muda quando ele percebe o que ela estava propondo que ele usasse:

—Charlote...

—Sim? -Sorri ela.

—Eu aceito a t-shirt rosa com um coração, mas sério mesmo? Uma saia? Eu nunca nem vi você usar saias!

—Elas ficam mal em mim, mas você tem boas pernas. E outra, hoje em dia homens usarem saias é visto como lutar contra os padrões da sociedade.

—Nada contra homens usarem saias, mas eu pessoalmente prefiro ter bolsos. E também temos o problema do vento, não gosto da ideia de ficar exposto de um segundo para o outro.

—Existem saias com bolsos.

—Mas essa não tem! Esse não é o ponto de qualquer forma... -Andrew suspira. -Você realmente quer que eu use isso?

—Não, era só uma brincadeira, vou trazer algo mais adequado para você.

—Obrigado...

—Tipo leggings.

—Eu sabia que isso não era uma boa ideia...

Charlote volta e realmente traz leggings. Andrew entende que é tarde demais para voltar atrás e aceita que terá de ir vestido daquela forma ao mercado. Ele caminha com alguma vergonha e percebe que Charlote está alguns passos atrás:

—Porque você não está andando ao meu lado?

—Desculpa....ah...eu estava apenas...observando a paisagem... -Responde ela claramente distraída.

—Charlote...?

—Para alguém magro, você tem uma parte traseira...bastante desenvolvida...

—Obrigado...? Essa é a primeira vez que elogiam a minha bunda...

Ela aproxima-se e abraça o braço de Andrew:

—Eu não me importava que as pessoas pensassem que somos namorados nesse momento.

Andrew é incapaz de entender o que estava acontecendo ou de decifrar as intenções de Charlote:

—Eu sinto que estaria muito feliz numa situação normal, mas agora não faço a mínima do que dizer. -Responde ele. -Você gosta de homens que usam leggings? Eu estou muito confuso...

—Era mais uma piada e um pretexto para estar perto de você. -Diz Charlote com honestidade. -Mas eu gosto de pessoas que se vestem de forma excêntrica. Eu acho que roupas são uma forma de expressar a tua personalidade, e usar o que você quer sem se preocupar o que as outras pessoas pensam é ousado e corajoso.

Andrew sente que Charlote é sempre uma caixa de surpresas, existe profundidade e outras intenções em quase tudo o que ela faz:

—Para ser sincero, nunca me preocupei muito com a minha aparência. Não acho que tenha um bom senso de moda e quem compra as minhas roupas normalmente é a minha mãe.

—Eu acho moda um tópico bastante interessante, você consegue mudar a percepção que as pessoas tem de você ao mudar de roupas. Para mim é quase como se transformar numa personagem diferente. Usar roupas mais formais para parecer uma pessoa mais séria ou usar roupas de uma cor específica para arrasar corações.

—Eu não acho que exista uma cor que me faça arrasar corações.

—É mais uma questão de confiança. Se você usar a tua cor favorita, você provavelmente vai se sentir mais confortável e agir com mais confiança.

—Não sei se fico bem de amarelo.

—Interessante, porque amarelo é a tua cor favorita?

—Ahm..Não sei, eu acho bonito talvez porque me lembra do nascer do sol.

—Entendi, eu consigo imaginar roupas amarelas que ficariam bastante boas em você.

—Você que é especialista em moda aqui, se você diz que sim então eu acredito que seja verdade. -Responde Andrew. -E qual é a tua cor preferida?

—Vermelho, sem sombra de dúvidas.

—Porque?

—Por vários motivos. Por um lado positivo, é o amor pelas pessoas importantes na tua vida que leva a seguir em frente e superar qualquer obstáculo. Pelo lado negativo, é o ódio por aquilo que você considera injusto que te dá forças para continuar lutando. Ambas essas emoções representam vermelho na minha mente. O sangue corre nas minhas veias também é vermelho. E eu fico linda em vestidos vermelhos.

—Uau, você realmente pensou nisso.

—Dar respostas complexas para perguntas simples é o que te faz parecer inteligente, você devia aprender comigo, Andrew.

—Em falar em aprender...eu não acho que podemos continuar a faltar à escola dessa forma.

—Sim, você tem um futuro, você devia voltar a estudar.

—Você também, Charlote.

—Eu perdi uma semana inteira de testes, provavelmente já reprovei o ano nessa altura do campeonato.

—Se você for ao hospital talvez eles te deem um atestado ou se você explicar a situação na escola, talvez eles te deixem repetir os testes.

—Eu duvido. -Responde Charlote desconfortável com aquele assunto. -Não existe atestado para um familiar de uma pessoa hospitalizada, foi só irresponsabilidade minha, não vou fugir às consequências.

—Você está sendo muito dura consigo mesma...

—Estou sendo realista.

Os dois percebem que chegaram ao mercado. Andrew ajuda Charlote a comprar os ingredientes necessários e eles em seguida retornam à casa. Charlote prepara o almoço enquanto dá instruções a Andrew e eles em seguida aproveitam a refeição. Andrew lava as louças do almoço e eles sentam-se no sofá. Charlote parece um pouco inquieta:

—Está tudo bem?

—Eu acho que quero ir visitar a minha mãe.

—Tem certeza?

—Sim, acho que está na hora.

—Tudo bem, em qual hospital ela está?

—É um pouco longe daqui, o nome é Extensão de Saúde C.

—Eu ainda tenho algum dinheiro, podemos ir de ónibus.

—Eu normalmente vou de bicicleta, mas não acho que conseguiria te levar comigo então parece uma boa ideia.

—A que horas você quer ir?

—O horário de visitas acaba logo depois de anoitecer então acho melhor irmos daqui a pouco. -Responde Charlote. -Vou só tomar um banho primeiro.

—Tudo bem.

Andrew permanece sentado no sofá enquanto Charlote levanta-se e caminha até o seu quarto. Apesar destes dias com Charlote serem um dos melhores momentos da sua vida, ele entendia quão difícil aquilo tudo era para ela. Mesmo querendo ajudá-la, Andrew sentia que não estava fazendo o suficiente ou talvez que não existisse muito o que ele pudesse fazer. Ele podia dar conforto e dizer palavras gentis, mas apenas Charlote sabia o que ela sentia. Apenas Charlote podia carregar o peso da sua vida. Enquanto pensava no que mais podia fazer por Charlote, Andrew percebeu que já estava na hora de sair:

—Vamos? -Perguntou Charlote aproximando-se.

Ela usava uma saia preta, uma camisa vermelha que destacava a sua silhueta e tênis também pretos:

—Ah...s-sim...

—O que foi?

—Nada, apenas...não imaginei que você fosse ficar bonita assim usando uma saia.

—Sinta-se privilegiado, só estou usando uma porque você disse que nunca me viu usar uma saia.

—Obrigado...?

Ela agarra o seu braço e começa a puxá-lo em direção à porta:

—Vamos logo, se perdemos esse ónibus vamos ter que esperar meia hora até o próximo.

Ser levado por Charlote fazia o lembrar dos vários momentos no passado onde isso havia acontecido. Por um segundo parecia que tudo tinha retornado ao normal. Eles caminharam para fora, utilizaram o transporte público correto, andaram alguns minutos até chegar ao hospital, pegaram uma senha e esperaram até serem atendidos. Poucas palavras foram ditas e Charlote esforçava-se para manter uma atitude positiva. Andrew ao perceber que está sendo mais uma vez observado pelas pessoas à sua volta decide fazer um comentário:

—Eu me sinto um pouco desconfortável... -Resmungou ele.

—Porque?

—Você está linda...e eu...

—Também está lindo?

—Eu queria algo...menos colado na minha pele...

—Você devia ter aceitado a saia, teríamos roupas a combinar.

A vez deles de serem atendidos chega e eles dirigem-se até o balcão:

—Boa tarde, em que posso ajudar? -Pergunta a usual recepcionista.

—Eu gostaria de visitar Nora de Witte.

—Tudo bem, vou acompanhá-los até o quarto onde ela está.

Eles seguem aquela mulher até o segundo piso e encontram uma enfermeira ao lado da porta do quarto:

—Boa tarde, eu vim visitar a minha mãe.

—Boa tarde, ela está dormindo neste momento, mas você pode entrar no quarto. -Explica a enfermeira. -Eu vou chamar um médico num instante para te explicar a situação.

Charlote tinha feito o seu melhor até o momento, mas ao escutar aquilo, os seus olhos finalmente demonstram tristeza:

—Tudo bem...

Andrew segura a sua mão enquanto os dois entram dentro do quarto onde Nora dorme. Charlote respira fundo enquanto observa o rosto da sua mãe. Nenhum dos dois consegue achar as palavras certas naquele momento, eles permanecem em silêncio até o médico de Nora atravessar a porta:

—Boa tarde, Charlote, é muito bom te ver por aqui.

—Boa tarde, doutor.

—Posso perguntar quem é o jovem que te acompanha hoje?

—Esse é Andrew...ele é o meu namorado.

Andrew engasga com a sua própria saliva e começa a tossir. Ele retoma a sua postura o mais rápido possível e cumprimenta o médico:

—Boa tarde, prazer em conhecê-lo.

—O prazer é meu, Andrew. -Continua o médico.

—E como está a situação da minha mãe?

—Nos dias que você não pôde vir, infelizmente a situação dela veio gradualmente a piorar. -Explica o médico. -Por causa disso, eu preciso pedir a tua opinião num assunto, Charlote. Podemos realizar uma cirurgia para retardar o progresso da doença e ganhar tempo para realizar outras formas de tratamento. A cirurgia é complexa e Nora está num estado bastante frágil, existe a possibilidade de ela não resistir.

Charlote sente-se cansada como se estivesse vivendo um pesadelo sem fim. Mas infelizmente aquela era a realidade. Ela tinha vindo até aquele lugar ciente das possibilidades cruéis que teria de enfrentar. Aquele não era um momento do qual ela podia fugir. Charlote aperta a mão de Andrew com mais força:

—O que acontece se ela não fizer a cirurgia?

—No estado atual em que ela está, eu não diria que ela tem muito tempo de vida sobrando.

—Então eu quero que vocês façam a cirurgia.

—Tudo bem, iremos iniciar os procedimentos o mais rápido possível. Deixe o teu número de contacto na recepção e até amanhã de manhã você terá uma mensagem informando o resultado da cirurgia. -Continua o médico. -Eu recomendaria que vocês fossem para casa e aguardassem o resultado.

—Tudo bem...

Os dois caminham para fora do quarto e Charlote permanece perplexa:

—Mesmo não sendo fácil, você veio até aqui para visitá-la. Você está fazendo o teu melhor. -Diz Andrew. -E ela é a tua mãe, não é? Você tem que acreditar nela.

Charlote apenas balança a cabeça para sinalizar que concorda enquanto eles andam até a recepção. Lá ela deixa a informação necessária e em seguida os dois fazem o caminho de volta à casa. Eles jantam e depois sentam-se no sofá. Charlote abaixa a sua cabeça e não consegue mais adiar as suas lágrimas. Andrew abraça-a mais uma vez. Observá-la naquele estado causa-lhe muito mais dor do que ele podia imaginar.

Notas finais
Tons de vermelho progressivamente escuros e no meio da instabilidade, Andrew e Charlote acham conforto na presença um do outro. Não pode permanecer assim, precisa haver mudança...quanto tempo falta para o fim?