Glass Humans

25 Vermelho Carmesim


Notas iniciais
Boa leitura!

Apesar da presença de Andrew e de estar numa posição de conforto, Charlote não conseguia adormecer. Antes que ela percebesse, o sol já tinha nascido no horizonte e feixes de luz atravessavam a sua janela. Tudo o que ela fazia era pensar sobre a situação da sua mãe. Felizmente, alguns minutos mais tarde, ela sente o seu telefone vibrar e percebe que recebeu uma mensagem do hospital. Ela senta-se na cama e lê a mensagem. Lágrimas lentamente escorrem pelo seu rosto enquanto o seu peito enche-se de alivio, era como se todo o peso que estava nas suas costas tivesse sido diminuído pela metade:

—Ainda bem...

Andrew ainda bastante sonolento percebe os movimentos de Charlote:

—Está tudo bem?

—Sim...a cirurgia deu certo...

—Isso é ótimo, Charlote! -Diz ele tentando manter os seus olhos abertos.

Charlote deixa o seu corpo exausto cair de volta na cama. Sem preocupações, ela começava a sentir a sonolência que estava desaparecida até o momento:

—Sim, estou realmente feliz...

Andrew aproxima o seu corpo dela e volta a fechar os seus olhos. Ela aceita o seu afeto e rapidamente consegue dormir. Várias horas mais tarde, já passado do meio-dia, Charlote volta a abrir os seus olhos. Ela percebe a presença de Andrew já acordado observando o teto e com um braço à sua volta:

—Boa tarde.

—Boa tarde... -Responde ela bocejando.

—Você pode dormir mais se quiser.

—Não tenho muito sono. -Diz ela colocando a sua cabeça sobre o peito de Andrew. -Mas estou bastante confortável aqui.

Andrew sorri ao sentir o corpo de Charlote próximo do seu:

—Sabe, tudo isso que estamos vivendo ainda é bem surreal para mim.

—Porque? -Pergunta ela.

—Nunca achei que fosse dormir na casa de uma menina, muito menos que essa menina fosse ser você.

—Você é tão inocente... -Ri Charlote.

—Acordar de manhã, olhar para o lado e perceber que você está aqui...parece um sonho...

Charlote levanta um pouco a sua cabeça e encara-o com um sorriso no rosto:

T-Para ser sincera, não achei que ter esse tipo de intimidade com alguém fosse tão divertido assim.

Andrew sente o seu coração acelerar enquanto tenta entender as palavras de Charlote:

—É até um pouco injusto...eu sinto que é desproporcional o que nós temos para oferecer nessa experiência.

—O que você quer dizer com isso?

—Tipo...você é tão bonita que eu sinto que não estou oferecendo muito em troca...

—Não é tão unilateral assim, eu também aprecio a tua presença...as tuas expressões tímidas, a gentileza com que você me abraça...-Explica Charlote enquanto move as suas mãos pelos braços de Andrew. -Principalmente a forma como você hesita, mas segue tentando.

Andrew sorri. Escutar aquelas palavras e apreciar aquele momento com Charlote lhe trazia muito mais felicidade do que palavras conseguiam explicar:

—Obrigado...por estar aqui, Charlote...

—Eu que deveria estar dizendo isso...

Para ambos, às vezes era difícil entender se estavam fazendo o que era certo no momento em que viviam. Era normal para eles se distraírem e questionarem o valor das ações que tomavam, mas naquela situação nada disso existia. Mesmo que brevemente, tudo parecia fazer sentido:

—Você acha que vamos nos lembrar disso daqui há dez anos? -Pergunta Charlote interrompendo o silêncio.

—Eu tenho certeza que sim. -Responde Andrew. -Mesmo que não falemos mais um com o outro, eu vou guardar esse momento comigo durante muito tempo.

Charlote parece satisfeita com a resposta. Ela presta atenção na respiração e pequenos movimentos que Andrew faz durante vários minutos. Ela nunca tinha se sentido tão viva antes. Charlote observa o seu telefone e entende que horas são:

—Uau, já é super tarde, acho que temos de levantar.

—Como você quiser. -Sorri Andrew. -Devíamos sair para fazer compras hoje de novo.

—Acho que temos de falar sobre isso. -Comenta ela se lembrando da realidade da situação.

—Sobre o que?

—Você precisa ir para casa, hoje é sábado e você está aqui desde quarta. Além de ter faltado dois dias de aulas, você ainda vai ter que explicar a situação para os teus pais.

—Eu não posso ir embora e te deixar aqui sozinha.

—Você já fez o bastante, eu não quero te causar mais problemas. Eu agradeço muito pelo tanto que você me ajudou, mas eu já estou melhor.

Andrew pensa durante alguns segundos:

—Eu vou embora, mas apenas se você fizer uma promessa.

—O que?

—Você vai voltar a ir para escola a partir de segunda.

—Ahn? Porque?

—Você não pode continuar se isolando dessa forma, isso é muito mau para a tua saúde mental.

—Tudo bem...eu vou voltar para a escola...

—Promete?

—Sim, eu prometo.

—Então eu não me importo de ir embora, mas posso voltar quando você quiser.

Charlote abraça-o:

—Obrigado por tudo, Andrew.

—Não há de quê. -Diz ele devolvendo o abraço.

Os dois se afastam um pouco, apenas o suficiente para conseguirem ver os olhos um do outro:

—Já agora, quando você disse que éramos namorados para o médico... -Continua Andrew tentando evitar corar.

—Eu queria ver qual seria a tua reação.

—Ah...então...não?

—Não vou dizer que é impossível, mas eu acho que ainda é muito cedo.

—Tudo bem, eu não me importo de esperar.

Andrew afasta-se e caminha em direção ao banheiro:

—Vou mudar de roupas, não posso ir com as tuas para casa.

—Tudo bem. -Responde Charlote também saindo da cama.

Ele veste as suas roupas antigas, calça os seus ténis e caminha até a sala onde encontra Charlote:

—Acho que já vou embora, sinceramente, os meus pais talvez achem que eu esteja morto.

—Você consegue ser bastante irresponsável às vezes. -Ri Charlote.

—Com quem você acha que eu aprendi isso?

—Espero que você não esteja insinuando que foi comigo! Eu só te ensinei a cozinhar e beber!

—Claro que sim, Charlote.

Os dois observam-se por alguns segundos enquanto tentam interiorizar que estes dias tinham realmente chegado ao fim. Com alguma dificuldade, Andrew balança a sua mão:

—Tchau, Charlote.

—Tchau, Andrew.

Ele caminha até a porta e em seguida até uma paragem de ónibus. Andrew espera alguns minutos e inicia a sua viagem para casa. Charlote lembra-se do quão sozinha se sentia ao vê-lo ir embora, mas ela não podia fraquejar depois de ter recebido tanto suporte. Ela faz compras, prepara o almoço, toma um banho e decide ir visitar a sua mãe no hospital. Dessa vez de bicicleta já que não tinha o privilégio da ajuda financeira de Andrew, mas isso não a incomodava, as coisas tinham apenas retornado ao normal.

Após repetir os vários procedimentos necessários e esperar alguns minutos, ela finalmente consegue chegar ao quarto onde a sua mãe está. Ao ver a porta aberta sem nenhum médico ou enfermeiro próximos, Charlote decide entrar. Os seus olhos começam a lacrimejar quando ela vê a sua mãe ainda conectada a várias máquinas, mas de olhos abertos:

—Mãe!! -Diz Charlote num impulso enquanto aproxima-se rapidamente.

—Oi, filha, que bom te ver por aqui. -Responde Nora com uma voz bastante rouca.

—Eu achei...que não ia conseguir falar com você de novo... -Continua Charlote agarrando a mão de Nora.

—Desculpa ter te preocupado...

—Está tudo bem...O que importa é que você está aqui agora...

Um médico entra na sala e percebe a presença de outra pessoa além de Nora:

—Boa tarde. -Diz ele chamando a atenção de Charlote.

Ela é pega de surpresa e tenta limpar as suas lágrimas antes de virar o seu rosto:

—Ah...boa tarde.

—Eu ia pedir para a recepção te avisar que Nora estava consciente, mas parece que não foi preciso. -Explicou o médico.

—Qual é o estado dela, doutor?

—Melhor do que antes, precisamos continuar monitorando-a para ter certeza que não surgirão complicações, mas a cirurgia foi um sucesso.

—Fico feliz em saber isso...

—Nora continua bastante frágil, eu vou deixar vocês sozinhas, suponho que vocês tenham bastante para falar, mas dê-lhe algum tempo para descansar. -Diz ele saindo novamente do quarto.

—Tudo bem.

—Como foram estes últimos dias, Charlote? -Pergunta Nora.

—Nem sei por onde começar, tantas coisas aconteceram. Você pelo menos sabe quantos dias esteve inconsciente?

—Pelo o que os médicos me disseram, mais de uma semana.

—Sim...estar sozinha em casa foi se tornando cada vez mais difícil...

—Sinto muito...por ter feito te passar por isso...

—Não é culpa tua e Andrew acabou por passar alguns dias comigo também então não estive completamente sozinha.

—Ele é um bom rapaz.

—Sim, ele é realmente é. -Respondeu Charlote. -Eu acabei por não ir trabalhar estes dois últimos fins de semana.

—Wanda é uma pessoa compreensível, tenho certeza que ela vai entender se você explicar o que aconteceu.

—Eu também peguei o teu cartão. A comida em casa tinha acabado e eu precisava de dinheiro para comprar mais.

—Tudo bem. E como foram os teus testes?

Charlote hesitou um pouco em responder:

—Eu...não fui à escola durante vários dias...

—Eu entendo como você se sente, Charlote, mas você tem que continuar se esforçando. Eu sei que você sabe disso.

—Sim... -Responde ela um pouco desanimada. -Mas está tudo bem, eu prometi a Andrew que vou à escola a partir de segunda.

—Vejo que ele realmente tem te ajudado.

—Sim, ele dormiu na nossa casa durante alguns dias e até mesmo veio comigo te visitar ontem.

—Entendo, tenho que agradecer a Laura por ter criado um filho tão gentil quando vê-la de novo.

—Você também tem que dizer a ela para deixá-lo fazer algumas atividades domésticas em casa, aquele menino não sabe fazer nada!

—Você sempre parece estar se divertindo quando fala dele. -Sorri Nora.

—Mãe, é estranho quando você diz isso.

—Porque?

—Sei lá, parece que você está insinuando alguma coisa...

—Vocês adolescente complicam tanto por razão nenhuma...

Nora tosse um pouco, mas volta ao normal rapidamente:

—Acho que talvez vou embora. -Diz Charlote. -O médico disse que você precisava descansar.

—Tudo bem, filha. Foi muito bom poder te ver, volte de novo quando tiver tempo. Boa sorte com a escola. E eu tenho certeza que Andrew diria “sim” se você fizesse aquela pergunta.

—Mãe!! -Cora Charlote. -Você está entendendo a situação errado! Ele gosta de mim, mas eu não gosto dele.

Nora sorri mais uma vez:

—Sim, sim. Até a próxima, Charlote.

—Tchau, mãe.

Charlote caminha para fora do quarto e faz o caminho de volta para casa. Mesmo estando sozinha de novo, após ter falado com a sua mãe, ela não se sentia mais sozinha. Ela lentamente voltava a ter esperanças para o futuro, imaginando quando veria a sua mãe de novo e como elas passariam tempo juntas:

—É melhor ela não ter esquecido daquela promessa de irmos jantar fora.

Charlote come o resto que sobrou do almoço, assiste televisão até sentir sono e depois anda até o seu quarto. Um novo dia começa sem pressa e ela recupera as horas de sono que tinha perdido na noite anterior. Charlote levanta-se animada e baseado na melhora do estado da sua mãe, começa a pensar na possibilidade de ela sair do hospital em breve:

—Acho que vou arrumar a casa.

Ela tira algumas horas do seu dia para ter certeza de que a sala, a cozinha, o seu quarto, o banheiro, o corredor e o quarto da sua mãe estavam em ótimas condições. Em seguida, sabendo que hoje não precisava fazer compras, ela começa a preparar o almoço. O seu foco é interrompido quando ela percebe que recebeu uma mensagem de Andrew:

—Boa tarde, Charlote, como a tua mãe está? -Lê ela.

—Eu consegui falar com ela ontem! Estou muito feliz! -Responde Charlote.

Ela continua a fazer o almoço até receber outra mensagem minutos mais tarde:

—Que ótimo! Também estou feliz por você e por ela!

—E como estão as coisas por aí? Os teus pais ficaram muito irritados? -Escreve Charlote.

—Aparentemente estou de castigo por um mês...não posso sair de casa a não ser para ir para a escola.

Charlote ri um pouco com a mensagem de Andrew:

—Pensa pelo lado positivo, você dormiu várias noites com alguém tão bonita quanto uma modelo.

—Realmente...bom, eu tenho que ir, nem podia estar usando o meu telefone. Te vejo amanhã na escola!

—Até amanhã! -Responde Charlote.

Ela volta a sua atenção para a tarefa diante dos seus olhos e termina-a em alguns minutos. Charlote em seguida almoça, toma um banho e decide novamente visitar a sua mãe. Ao chegar na recepção do hospital ela é confrontada com uma péssima notícia:

—Infelizmente você não pode visitar a sua mãe hoje.

—Ahn? Porque não? -Pergunta Charlote sentindo o seu coração acelerar.

—De acordo com as notas que tenho aqui, a situação dela piorou e os médicos estão fazendo o possível nesse momento para mantê-la num estado estável.

—Como...isso é possível? Ela estava bem ainda ontem! -Afirma Charlote perdendo a sua paciência e aumentando o tom da sua voz.

—Eu vou pedir que você espere alguns minutos e enquanto isso vou chamar um médico que possa te explicar melhor a situação.

—Tá. -Responde Charlote respirando ofegantemente enquanto procura um lugar para sentar.

Aquela situação era surreal:

—Eu sou tão estúpida...Só porque as coisas pareciam boas durante um segundo...eu enchi a minha cabeça de expectativas...de planos...de ideias...eu devia ter imaginado que isso ia acontecer...claro que as coisas iam dar errado...as coisas sempre dão errado...eu sou tão burra...tão idiota... -Pensava ela pressionando as suas duas mãos contra o seu rosto.

—Boa tarde, você é Charlote, não é? -Pergunta um médico se aproximando.

—Sim, eu sou.

—Desculpe o atraso, estava ocupado com outro paciente.

—Não tem problema, mas vamos direto ao assunto, o que está acontecendo com a minha mãe?

—A cirurgia que fizemos foi para retirar algumas partes do tumor para evitar que ele se espalhasse para órgãos próximos. Nós achamos que tinha sido um sucesso, mas foi tarde demais, já tinha se espalhado. Nesse momento estamos tentando estabilizar a condição dela para podermos realizar outra cirurgia, mas Nora está num estado crítico. A possibilidade de ela superar isso é muito baixa...

Charlote observa-o durante alguns segundos tentando formar pensamentos positivos, mas rapidamente percebe que isso é impossível. Os seus olhos enchem-se de lágrimas e ela sente o seu corpo inteiro formigar:

—Porque nada dá certo? Porque ela? Porque eu? Porque nós temos de passar por isso?

A sua raiva ofusca a sua capacidade de tomar decisões. Ela descontrola-se e empurra aquele médico para longe:

—Merda! Como vocês podem ser tão inúteis?! Tudo o que vocês tinham que fazer era salvar ela!!!

—Eu entendo a tua frustração, mas nós-

—Cala a boca! Não quero mais ouvir. Estou cansada disso! Quero que vocês todos se fodam! -Grita ela enquanto sai do hospital.

Ela pega na sua bicicleta e começa a pedalar o mais rápido que os seus pulmões permitem enquanto lágrimas fluem pelo seu rosto sem parar. Charlote chega em casa e derruba tudo o que está no seu caminho, descontando a sua raiva em qualquer coisa que vê. Ela pula na sua cama e afunda a sua cabeça no seu travesseiro. Enquanto chora, tudo o que ela deseja é dormir e acordar desse pesadelo.

Notas finais
Nem tudo são rosas, mesmo fazendo o seu melhor, Charlote vê-se novamente sem esperanças.