Glass Humans

26 Vermelho Bordô


Notas iniciais
Esse capítulo não tinha sido agendado então não sabia quando ia postar! Estava tentando adiar o máximo possível porque só falta mais um capítulo e o epílogo. De qualquer forma, trago mais alguns momentos fofos entre Andrew e Charlote enquanto a história se aproxima do fim. Boa leitura!

Charlote abre os seus olhos de manhã e percebe que tudo aquilo que aconteceu não é um sonho. O seu rosto está inchado de ter chorado até dormir ontem e ela não tem vontade nenhuma de levantar:

—Eu realmente tenho de ir à escola? Eu prometi a Andrew...mas qual é o valor dessa promessa?

Ela vira-se para o lado, fecha os seus olhos e tenta voltar a dormir. Antes que a sua consciência se dissipe, as palavras da sua mãe surgem na sua cabeça:

—”Você tem que continuar se esforçando”.

Os seus olhos começam a lacrimejar e ela grita:

—Ah! Merda! Porque eu estou pensando nisso?!

Um pouco mais desperta, ela sente que vai se arrepender, mas decide levantar-se. Charlote caminha até o banheiro, lava o seu rosto múltiplas vezes na tentativa fútil de diminuir o inchaço, prepara alguma coisa para comer e caminha até a paragem de ónibus. Estar acordada tão cedo num dia frio onde as ruas estão quase vazias junto do cansaço que sente dá-lhe a impressão de não estar no mundo real. Mesmo já tendo feito aquela rotina várias vezes, tudo parecia um pouco distante e desfocado.

Ela entra no ónibus com calma e caminha à procura de um lugar enquanto observa os rostos das pessoas sentadas. Ela reconhece alguns e se pergunta se eles sabem quem ela é ou o que eles pensam sobre ela. Charlote senta-se e sente o seu corpo inquieto, mas não consegue entender exatamente o que está acontecendo. Ela recebe uma mensagem de Andrew a falar sobre um possível encontro no terraço durante o primeiro intervalo. Charlote pensa sobre o assunto, mas não responde.

Minutos mais tarde ela chega na escola e começa a caminhar em direção à sala onde terá a sua primeira aula. Ela percebe que algumas pessoas notam a sua presença com alguma surpresa e isso vai acontecendo com mais frequência conforme ela se aproxima do seu objetivo. Já na sala, antes da aula ter início, ela é aproximada por Clara e Daniel:

—Bem-vinda de volta. -Diz Daniel.

—Charlote, o que aconteceu? -Pergunta Clara.

Ela sente que não via aqueles rostos há muito tempo:

—Só foi uma semana, vocês sentiram tanto assim a minha falta? -Sorri Charlote.

—Era uma semana importante então ficamos preocupados. -Responde Clara. -Mas está tudo bem?

—Minha mãe estava doente durante alguns dias então tive que ficar em casa cuidando dela. -Mente ela. -Mas agora já está tudo bem. Fico feliz que vocês tenham notado a minha ausência.

—Eu acho que de uma forma positiva ou negativa, todos nós notamos a sua ausência. -Ri Daniel.

—O importante é que você está de volta! -Diz Clara. -E não se preocupe que nós não esquecemos do teu aniversário. Os testes acabam essa semana, então depois disso se você quiser combinar alguma coisa é só dizer!

Charlote sorri e talvez pela primeira vez dá valor às amizades que tem. Ela estava sempre focada em si mesma e apesar de buscar a atenção das outras pessoas, ela não lhe dava muita importância quando a conseguia. Ela sempre acreditou que seria capaz de superar todos os obstáculos na sua vida sozinha, mas agora depois de ter passado por um momento tão horrível, ela começou a entender a relevância do suporte de outras pessoas. Num impulso, Charlote abraça os dois:

—Vocês são bons amigos!

Eles são pegos de surpresa, aquele tipo de comportamento não era típico de Charlote:

—Wow, você fica uma semana fora e volta mudada? -Brinca Clara.

—Só aceitem o meu afeto!

Ao perceber o professor entrando na sala, eles retornam aos seus lugares e a aula tem início. Por mais que tentasse prestar atenção, a mente de Charlote acabava por viajar até um tópico distante do que acontecia na aula. Quando ela percebe, o sino de saída já havia tocado:

—Charlote. -Aproxima-se o professor. -Você faltou dias bastante importantes da semana passada.

—Sim, eu sei, minha mãe esteve bastante doente. -Responde ela. -Eu vou tentar ir ao hospital durante essa semana e trazer um papel que explique melhor a situação.

—Tudo bem, faça isso o mais rápido possível, caso contrário será difícil te dar a oportunidade de refazer os testes.

—Tudo bem, professor. -Diz ela levantando-se e caminhando em direção à porta.

Charlote em seguida traça o seu caminho até o terraço e encontra Andrew já lá à sua espera:

—Uau, você chegou primeiro que eu.

—Sim, eu saí um pouco mais cedo da aula. -Responde ele abrindo a porta.

Os dois sentem aquela típica brisa do vento ao atravessarem-na:

—Eu realmente me sinto confortável aqui em cima. -Comenta Charlote respirando fundo.

—Eu também.

Eles aproximam-se da grade de proteção e observam o céu. Charlote sente que o seu corpo está inquieto, como uma superfície de vidro trincado que pode quebrar a qualquer momento. Ela observa Andrew e lembra-se de todas as vezes que ele a ajudou. De todos os momentos que ele esteve lá por ela sem querer nada em troca. Charlote não consegue entender porque alguém tão honesto e puro como ele teria interesse nela, o mundo é realmente um lugar estranho:

—Como está a tua mãe?

Ela hesita um pouco em responder, mas decide que dar uma resposta honesta é o mínimo que pode fazer depois de tudo o que aconteceu:

—A situação dela piorou bastante para ser sincera, os médicos disseram que ela não tem muito tempo de vida.

Os olhos de Andrew se arregalam com a intensidade daquela surpresa:

—Meu deus...mas ela...

—Sim, ela parecia estar melhor no sábado. -Continua Charlote. -Mas as coisas não são tão simples assim.

—Eu...sinto muito, Charlote...

—Está tudo bem.

Os dois calam-se por alguns segundos. Charlote tenta imaginar o que Andrew poderia estar pensando e novamente entende que hoje é um dia peculiar. A sua atenção está focada em coisas inusitadas, como se ela fosse uma versão diferente de si mesma ou completamente outra pessoa:

—Eu sempre penso nisso, mas como eu posso te ajudar, Charlote?

Charlote sorri ao ouvir aquelas palavras, ela entende que Andrew é uma pessoa gentil até mesmo nos seus pensamentos:

—Eu acho que você já me ajudou mais do que qualquer outra pessoa nesse mundo.

—Mas eu não sinto que é o suficiente, você está sempre enfrentando obstáculos tão grandes. Eu queria poder dividir contigo o peso que você tem que carregar.

Ela sente um calor envolver o seu peito de uma forma que palavras falhariam em descrever. Andrew era muito mais do que ela achava merecer, ele era uma chama no meio de um mundo frio:

—Você pensar dessa forma já é bom o suficiente. -Responde ela. -Somos novos ainda, talvez no futuro você será capaz de me ajudar mais.

Ele lentamente segura a mão dela:

—Eu espero que sim, ainda quero viver muitos momentos contigo no futuro.

Aquelas palavras tocam o coração de Charlote de uma maneira para o qual ela não estava preparada:

—Você é fofo demais...

Andrew cora ao ouvir aquilo:

—Obrigado...

Enquanto encara o horizonte, Charlote continua pensando sobre Andrew. Mesmo sabendo que ele não esperava retribuição, Charlote ainda achava que ele merecia uma recompensa. Mas o que ela podia oferecê-lo? O que ela poderia dar que tivesse o mesmo valor que tudo aquilo que ela recebeu? Ela sabia o que Andrew queria, mas ela também sabia que não podia ser falso, tinha de ser genuíno.

Charlote ainda não tinha certeza sobre o que sentia então entendia que aquele não era o momento certo para avançar o seu relacionamento com Andrew. É nesse momento que ela tem um pensamento duvidoso. Andrew queria algo que parecesse genuíno então tudo o que ela tinha que fazer era agir como se fosse genuíno, sem hesitar:

—Porque estou pensando nisso?

Ela continua refletindo sobre o assunto sem conseguir esquecer a estranheza que habitava o seu corpo desde o começo do dia. Como uma espécie de mau pressentimento que lhe causava ansiedade, Charlote sentia que tinha de agir agora:

—Talvez Andrew considere isso errado...mas será que isso é realmente errado? Ele merece isso...ele merece muito mais para ser sincera, mas é só isso que eu posso oferecer... -Pensava ela. -Não me importo de me comprometer. Mesmo que o sentimento não seja genuíno agora, tenho certeza que vai ser no futuro.

Ela toma a sua decisão:

—Estou pensando demais, devia simplesmente fazer o que quero.

Charlote vira o seu rosto para Andrew e espera alguns segundos até os seus olhares se encontrarem. Os dois encaram-se enquanto observam os pormenores no rosto um do outro. Andrew sente o seu coração bater num ritmo acelerado por todo o seu corpo quando percebe que a distância entre eles está diminuindo. Eles fecham os olhos e lentamente os seus lábios se tocam. Charlote volta a abrir os seus olhos:

—Você não fugiu dessa vez.

—Parecia o momento certo... -Responde Andrew bastante envergonhado.

—Você está feliz?

—Sim...um pouco demais até...

Ela sorri enquanto vira a sua atenção para o céu:

—Então valeu a pena...

Eles ouvem o sino que marca o fim do intervalo e trocam olhares:

—Isso foi bastante rápido. -Comenta Andrew.

—Sim...eu estava me divertindo... -Suspira Charlote.

—Quer vir aqui de novo no próximo intervalo?

—Acho uma boa ideia.

—Fica combinado então!

Os dois caminham para fora e depois seguem caminhos separados. Andrew está em êxtase e nem consegue entender se aquele beijo foi real ou se tudo isso era um sonho. Charlote ainda sentia uma estranha inquietação correndo o seu corpo. Cada um deles assiste uma aula diferente, mas ambos pensam sobre o mesmo todo o tempo. O próximo intervalo chega e eles encontram-se novamente no mesmo lugar. Só de aproximar-se de Charlote, o rosto de Andrew fica vermelho e os seus pensamentos distorcem-se:

—O teu primeiro beijo foi muito mais romântico do que o meu. -Comenta Charlote. -A vista que nós temos agora é muito linda, parecia até uma cena de filme.

—Calma...como você sabia que foi o meu primeiro beijo?

—Podia não ter sido, mas pela forma como você age quando está comigo, eu assumi que essa era a sua primeira experiência romântica.

—Sim, eu sou um pouco desajeitado, mas tenho vindo a melhorar! Hoje tive uma conversa normal com pessoas da minha turma!

Charlote bate palmas enquanto ri:

—Parabéns, Andrew, você completou uma atividade humana básica.

—Nem todos nós fomos abençoados com o poder de ser um extrovertido.

—Mas tenho de admitir que você evoluiu bastante, você até consegue discordar de mim às vezes.

—Do jeito que você fala até parece que você é uma tirana ou que eu sou uma pessoa sem a capacidade de expressar a minha opinião.

—Talvez as duas sejam verdade ao mesmo tempo. -Sorri Charlote.

—Não é nada disso, eu apenas sei escolher as minhas discussões. Não vou ficar perdendo meu tempo brigando sobre coisas que não são importantes.

—De onde eu venho as pessoas chamam isso de medo. -Brinca ela.

—Eu não tenho medo de você. -Responde Andrew sem saber se acredita no que disse.

—Vou ser bem sincera, eu não sou muito boa em lutas, mas tenho certeza que te destruía no mano a mano.

Andrew reúne toda a coragem que tem no seu corpo e encara Charlote:

—Quer tentar então?

Charlote sorri:

—Gosto da tua audácia, mas você vai se arrepender.

—Tudo bem, vou contar até três e nós começamos. Um, dois-

Andrew é pego de surpresa por um pulo de Charlote e os dois caem no chão:

—Isso foi injusto! -Reclama ele enquanto tenta tirar Charlote de cima do seu corpo.

—Não existem regras na guerra!

Andrew com muita dificuldade consegue impulsionar o seu corpo para o lado e mudar de posição com Charlote. Agora por cima, ele segura os braços dela e aproveita a oportunidade para respirar:

—Você é muito agressiva...

—Calma, o meu telefone está vibrando.

—Isso é uma desculpa para você me pegar desprevenido, não é? -Responde ele não acreditando em uma única palavra de Charlote.

—Não, está realmente vibrando.

—Ah, tudo bem. -Diz Andrew levantando-se e ajudando Charlote a se levantar.

Charlote observa o seu telefone durante alguns segundos e toda a emoção no seu rosto desaparece. O seu mau pressentimento finalmente faz sentido e ela se desconecta do mundo à sua volta:

—O que foi? -Pergunta Andrew.

Ela não responde, a sua atenção parece não estar naquele lugar:

—Charlote?

Finalmente Charlote vira os seus olhos na direção de Andrew, mas ela não sabe quais palavras devia usar. Lágrimas lentamente escorrem pelo seu rosto:

—Ei, está tudo bem? -Diz Andrew se aproximando. -O que aconteceu?

Ela abre a sua boca, mas só emite murmúrios. Charlote abraça Andrew enquanto continua a chorar:

—Calma, respira... -Continua ele tentando também não entrar em pânico. -Eu estou aqui...

Ela move as suas mãos pelas costas de Andrew na tentativa de aliviar o seu sofrimento, mas é fútil. A dor no seu peito é dilacerante, algo que ela nunca tinha sentido na sua vida antes. Ela grita enquanto contorce o seu corpo e tenta recuperar o controle da sua respiração. Lágrimas descem pelas suas bochechas sem cessar e ela não consegue aceitar que aquela é a realidade:

—Minha mãe...não...não consigo acreditar...não pode ser verdade...

Notas finais
É possível procurar diferentes tons num mundo cinza? É possível achar calor na tundra? Mesmo que a resposta seja não, estamos todos fadados a tentar. Mas o que acontece quando todas essas tentativas falham? Como se o próprio destino estivesse certo em usurpar a nossa felicidade? Glass Humans chega a uma conclusão na próxima semana.