Notas iniciais
O preto é a cor mais escura, sendo o resultado da mistura de todas as cores ou bem, o resultado da falta parcial ou completa da luz.

Andrew abraça Charlote com mais força enquanto lentamente percebe o que aconteceu. Lágrimas se formam nos seus olhos enquanto ele é consumido por desespero:

—Isso não pode estar acontecendo. E agora? O que eu faço? -Pensa ele movendo os seus olhos rapidamente à procura de uma solução. -O que eu posso dizer? O que eu posso fazer? Como eu posso ajudar?

A sua mente continua produzindo incontáveis pensamentos, mas ele entende que qualquer esforço seria inútil quando encara o abismo daquela situação. Ele tenta falar, mas a sua voz falha:

—Vai dar tudo c-

Antes mesmo de terminar a sua frase, ele percebe a sua própria arrogância:

—Como eu sei que vai dar tudo certo? Será que as coisas vão dar certo? Será que tem como superar isso? Eu não sei...eu não sei...

Ele sente a sua respiração ficar instável enquanto percebe estar ficando sem alternativas:

—Merda...merda!!! Porque eu sou tão inútil? Porque eu não consigo dizer nada? Porque eu não consigo ajudá-la?

Eles lentamente abaixam-se e sentam-se no chão. Charlote afasta-se um pouco e vira-se de costas para Andrew. Ele observa-a inquieto, a sua boca abre e fecha múltiplas vezes sem encontrar as palavras certas. O aperto que sente no seu coração faz com que seja difícil respirar, mas aquele silêncio é excruciante demais:

—Charlote...eu...quero te ajudar.

Ela limpa as suas lágrimas enquanto tenta controlar a sua respiração:

—Eu sei que sim... -Responde Charlote tentando não chorar mais. -Mas é difícil...é muito difícil...nem mesmo eu sei o que fazer...

Andrew também tenta se controlar, mas ver Charlote naquele estado é muito mais do que ele podia aguentar:

—Nós podemos...eu não sei...mas se nós estivermos juntos...deve haver algo que possamos fazer...

Ela vira-se novamente na sua direção e o abraça mais uma vez:

—Andrew, você é uma pessoa incrível.

Eles escutam o som que marcava o fim do intervalo e percebem que tinham de sair daquele lugar:

—Podemos ficar aqui, ainda não terminamos de conversar e isso é importante. -Sugere Andrew.

—Acho melhor voltarmos aqui no próximo intervalo. -Responde Charlote. -Eu...preciso pensar um pouco...

—Tudo bem...Mas se você precisar de mim, me mande uma mensagem ou ligue. Não importa se eu estiver numa aula ou não, eu vou até onde você estiver.

—Muito obrigada, Andrew. -Sorri ela.

Os dois levantam-se e atravessam a porta que leva ao interior do edifício escolar. Um pouco antes de se separarem Charlote faz uma pergunta:

—Posso ficar com a chave do terraço? Provavelmente vou sair mais cedo na próxima aula e assim posso ficar te esperando lá.

Andrew pega a chave no seu bolso e entrega-a para Charlote:

—Sim, tudo bem, até daqui a pouco, Charlote.

—Até mais, Andrew.

Charlote dá alguns passos em outro sentido com calma e logo em seguida olha na direção em que Andrew foi. Percebendo que ele já tinha ido embora, ela começa a subir novamente as escadas que levam ao terraço. Charlote destranca a porta, aproxima-se da grade de proteção e olha para baixo. Ela gostava de Andrew como nunca tinha gostado de alguém antes, mas ela entendeu que uma vida sem a sua mãe não era uma vida que valesse a pena viver.

Ela não tinha mais forças para continuar tentando. Aquilo tinha se tornado difícil demais, muito mais do que ela podia suportar. A sua visão estava turva por causa das suas lágrimas e a dor que percorria o seu corpo era tão surreal que Charlote se questionava se aquela era realmente a realidade.

Talvez se ela tivesse conhecido Andrew mais cedo, se ele fosse importante o suficiente para ser o pilar da sua vida. Talvez se ela fosse mais forte. Talvez se o mundo fosse mais justo. Talvez se ela não tivesse que ter passado por tantos outros desafios antes disso. Talvez se as coisas tivessem sido diferentes. Talvez aquilo fosse tudo um sonho. Talvez a sua mãe fosse estar ao seu lado quando ela abrisse os olhos. Talvez em outra realidade ela tenha sido capaz de viver até o fim dos seus dias ao lado de Andrew. Charlote suspira enquanto o vento balança os seus cabelos:

—Isso é extremamente egoísta, não é? -Fala ela consigo mesma. -Mas eu sempre fui uma pessoa egoísta. Ele vai chorar quando descobrir. Eu preciso realmente fazer isso?

Charlote tenta ver a situação de diferentes perspectivas, mas a resposta continua nítida na sua mente. Mais lágrimas caem dos seus olhos:

—Porque? Qual é o ponto de ter esperança quando mais cedo ou mais tarde tudo dá errado? Desprezível. Nojento. Tão injusto que sinto vontade de vomitar. Sim, sou estúpida por esperar lógica ou justiça desse mundo. Mas! Mas ela não...contanto que eu tivesse ela...eu era capaz de continuar tentando...ela era a única coisa que eu não aceitaria perder...Mas quem se importa com o que eu quero ou deixo de querer, certo? Todos fingem serem boas pessoas, mas quem realmente estava lá quando eu e a minha mãe precisávamos? Ninguém. Ninguém se importa. Ninguém entende.

No meio da sua narrativa autodestrutiva, um rosto surge na sua mente:

—Andrew se importa...ele entende...

Ela não consegue controlar o seu choro e deixa os seus joelhos tocarem o chão:

—Desculpa...desculpa por não ser a pessoa que você achou que eu fosse...desculpa por ser egoísta...desculpa por só pensar em mim mesma...desculpa por não ser forte o bastante para continuar tentando...mesmo quando você fez o teu melhor para me ajudar...eu sinto muito...

Ela tira o seu telefone do seu bolso e começa a escrever uma mensagem. Enquanto isso, Andrew espera que o professor apareça para abrir a porta da sala e dar início à aula. Ele sente o seu telefone vibrar e percebe que recebeu uma mensagem:

—Não pense muito sobre isso, não foi culpa tua. Obrigado por tudo o que você fez por mim. Continue sendo a pessoa incrível que você é, adeus, Andrew.

Andrew imediatamente deixa o seu telefone cair no chão e começa a correr pelo corredor. Se movendo o mais rápido que pode, ele em poucos segundos se vê nas escadas que levam ao terraço. Ele acelera ainda mais enquanto respira ofegantemente. Com a porta dentro do seu campo de visão, ele usa as suas últimas energias para atravessá-la.

O vento faz os cabelos de Charlote balançarem. Ela encaixa-se no horizonte como se fizesse parte de uma pintura. Os tons de amarelo da luz do sol que iluminam a sua pele fazem-na parecer um anjo. Ela ouve o barulho da porta sendo aberta bruscamente e vê Andrew. Charlote sorri e move os seus lábios:

—Desculpa.

Andrew, sem fôlego, continua correndo enquanto tenta alcançá-la. Ele estica a sua mão e Charlote talvez por reflexo faz o mesmo. Os seus dedos se aproximam, mas não se tocam. Andrew continua o seu esforço na tentativa de tocá-la, mas já era tarde demais. A gravidade é irreversível. Ela cai de cima da proteção e desaparece do seu campo de visão. Andrew grita completamente desesperado. Antes que ele tenha tempo de olhar para baixo, Andrew ouve o barulho de algo a bater contra o chão:

—Não, não, não, não, não, não, não, não, não!!!!

Ele dá socos no chão até as suas mãos sangrarem, mas não sente nenhum alivio. Ele não chegou a tempo. Ele não esteve lá para pará-la. Ele não conseguiu salvá-la. Lágrimas escorrem pelo seu rosto enquanto o mundo à sua volta perde a cor:

—Como eu deixei isso acontecer? Como eu não percebi antes?

O seu corpo perde a força e a sua cabeça toca o chão:

—Eu não pude ajudar...a pessoa que mais me ajudou...

Aceitar aquela realidade era uma tarefa mais do que impossível para Andrew. Ele deita-se no chão e encara o céu:

—Porque tinha que ter acabado dessa forma? Tudo estava indo tão bem...

Andrew permanece imóvel durante vários minutos:

—Insano. Esse mundo é insano. Incompreensível. Nojento. Nada disso faz sentido algum.

Ele consegue ouvir gritos ao longe e em seguida o barulho da sirene de uma ambulância, mais pessoas tinham descoberto o que tinha acontecido. Andrew levanta-se e começa a caminhar em direção à porta do terraço. Ele vê a chave que deu a Charlote ainda na maçaneta e tem um pensamento terrível:

—É minha culpa...se eu não tivesse dado a chave...Charlote ainda...

Espontaneamente, ele bate a sua cabeça contra a porta na intenção de impedir a sua mente de terminar aquele pensamento:

—Não, não posso me transformar na vítima dessa situação. Talvez...ainda haja esperança...

Ele desce as escadas e caminha até o lugar onde Charlote caiu. A frágil expectativa de que talvez ela pudesse estar viva é destruída quando ele vê a quantidade de sangue no local. Para o bem da sua saúde psicológica, o corpo dela já havia sido recolhido. Andrew aproxima-se da ambulância e toca o braço de um dos seus tripulantes que estava do lado de fora:

—Ela...

—Desculpa, estamos investigando a situação no momento. -Diz aquela mulher usando roupas vermelhas e luvas. -Eu aconselharia você a ir para casa.

—Eu a conhecia...ela ainda está viva...?

Ela percebe o quão terrível aquela situação era para Andrew e numa expressão de empatia toca o seu ombro:

—Eu sinto muito, a queda foi fatal.

Andrew afasta-se dela sem responder, afinal de contas o que poderia ser dito? Ele agora tinha certeza da verdade, mas esse não era nem o primeiro passo de uma longa e árdua jornada. Andrew conseguiu chegar à casa apenas por conhecer o caminho como a palma da sua mão, porque os estilhaços da sua mente estavam longe de serem reunidos. Ele entra em casa e vê a sua mãe preparando-se para sair:

—Boa tarde, Andrew, vim à casa buscar algo durante a minha hora de almoço, mas já estou saindo de novo.

Ele entende como uma resposta normal seria pronunciada, mas o seu cansaço é excessivo demais para permitir que isso aconteça. Laura rapidamente percebe que algo está errado quando vê o vazio nos seus olhos:

—O que aconteceu?

Lágrimas voltam a escorrer pelas suas bochechas enquanto a sua expressão estática é substituída por uma de desespero:

—Charlote...caiu...

A sua mãe pousa a bolsa no chão e se aproxima:

—Caiu? Como assim?

Andrew começa a lembrar-se do momento e formar palavras torna-se difícil:

—Ela caiu...do prédio da escola...

—Ela está no hospital?

Andrew balança a sua cabeça lentamente:

—Não...ela está morta...

A sua angústia intensifica-se enquanto o seu choro é a única coisa emitida da sua boca. Laura abraça-o com força, mas ele não reage. Com os seus olhos semiabertos, ele observa as suas próprias mãos. Ele ainda consegue sentir o calor de Charlote, ele ainda consegue vê-la sorrindo, mas agora aquilo eram apenas memórias. Coisas que nunca voltariam a se repetir. Alguns minutos se passam e Andrew para de chorar. É exaustivo expressar aquela quantidade de emoções então ele volta a sofrer silenciosamente:

—Eu vou ligar para o meu trabalho para avisar que não vou voltar hoje. -Diz Laura. -Vou ficar o resto do dia contigo.

Andrew senta-se no sofá enquanto Laura faz uma ligação. Os seus olhos são incapazes de encarar o mundo real, a sua visão consegue apenas ver os momentos que ele passou com Charlote. Ele queria queimar aquelas imagens nas suas retinas para nunca mais esquecer. Laura termina a ligação e senta-se ao seu lado:

—Você acha que consegue explicar tudo o que aconteceu?

Andrew fecha os seus olhos por alguns segundos e lembra-se com a maior nitidez possível. Era o seu primeiro dia de trabalho, Andrew observava o cardápio até que percebe a presença de uma pessoa. Era uma jovem de olhos castanhos e pele clara que usava uma camisa branca e calças pretas com um avental também preto por cima. Os seus cabelos eram negros na raiz e se tornavam loiros conforme cresciam. A mera presença de Charlote parecia trazer-lhe conforto. Andrew abre os seus olhos e responde à sua mãe:

—Sim...eu acho que consigo...