Glass Humans
23 Vermelho Alizarina
Notas iniciais
Andrew abre os seus olhos de manhã e percebe que ocupa cerca de vinte porcento da cama enquanto usa dez porcento da coberta:
—Ainda bem que dormi no lado próximo à parede, senão teria caído da cama no meio da noite...
Charlote já está acordada enquanto usufrui da restante porcentagem dos recursos disponíveis:
—Bom dia, bela adormecida. -Diz ela.
—Bom dia...como você consegue fazer uma piada minutos depois de ter acordado?
—Porque diferente de você, eu já estou acordada há muito tempo.
—Eu fui dormir depois de você.
—Só ouço desculpas.
Andrew entende que às vezes é melhor simplesmente não questionar Charlote e decide mudar de assunto:
—Mas como você se sente?
—Melhor, contato físico sempre ajuda.
—Ótimo, fico feliz em ter ajudado.
Charlote encara o teto durante alguns segundos e sente que talvez o momento certo tenha chegado:
—Minha mãe está no hospital há mais de uma semana.
Ele hesita um pouco antes de perguntar:
—Mas...O que aconteceu com ela?
—Ela...tem câncer...
Dentro das possibilidades que Andrew havia imaginado, essa era bastante pior do que ele estava à espera. Era difícil encontrar palavras para dar uma resposta apropriada:
—Eu sinto muito...
Charlote vira-se na direção contrária de Andrew para esconder o seu rosto:
—A última vez que eu fui visita-la, quinta-feira passada, ela estava inconsciente e...nem conseguimos conversar...ela é importante demais para mim...eu não sei o que faria sem ela...
—Eu acho que você deveria ir visitá-la.
—Eu não quero...se ela estivesse melhor...ela teria me ligado...
—Eu não sei como você se sente, mas consigo imaginar que é difícil. Apesar disso ainda acho que você devia estar lá perto dela.
—É deprimente. Ver ela daquela forma...imóvel...muda...sobrevivendo a partir de máquinas...
—Quando ela abrir os olhos, quem você acha que ela vai querer ver? -Pergunta Andrew com uma voz calma. -É você, Charlote. Eu não sei se isso ajuda ou não, mas eu posso ir contigo.
—Não sei, me deixe pensar sobre isso durante mais algum tempo.
—Sim, tudo ao seu tempo.
Eles permanecem deitados por mais alguns minutos:
—Você não quer levantar e ir comer alguma coisa? -Pergunta Andrew.
—Tenho preguiça...
—Podemos ir no mercado comprar algumas coisas e depois eu faço uma refeição deliciosa!
—Você sabe cozinhar?
—Sim...claro que sim...
Charlote vira-se na direção de Andrew e encara-o:
—Mesmo?
Ele desvia o seu olhar:
—Tipo...macarrões instantâneos...
—Uau, nem coisas simples como omelete?
—Minha mãe sempre faz a comida em casa então...não...
—Ah, eu tinha esquecido que a tua família era rica e que você era mimado.
—Não somos ricos...somos classe média...
—Ainda bem que você não tentou negar a parte de ser mimado.
—Eu entendo que a minha situação é melhor do que a maioria das pessoas.
Andrew senta-se na cama:
—Vamos, não acho uma boa ideia passarmos o dia inteiro deitados.
—Eu acho! -Retruca Charlote.
Ele suspira:
—Tudo bem, você pode continuar deitada, eu vou levantar.
Sem pressa, ele move o seu corpo até a beira da cama e toca os seus pés no chão:
—Chato... -Reclama ela. -Não tem graça estar deitada sozinha...
Charlote acaba por ceder e levanta-se também. Os dois caminham até a porta do banheiro e reparam na situação onde se encontram:
—Ah, eu queria lavar o meu rosto. -Diz Andrew.
Charlote não demora para agir, ela abre a porta, entra e fecha-se lá dentro:
—Primeiro as damas.
—Sabe, se você tivesse dito que também queria usar o banheiro, eu provavelmente teria deixado você ir primeiro.
—Sim, mas porque eu ficaria à mercê da tua boa vontade quando posso simplesmente ir primeiro sem dizer nada?
—Okay, bom ponto.
—Primeiro a chegar, primeiro a servir!
—Eu já entendi...você ganhou...não precisa esfregar isso na minha cara...
—A melhor parte de vencer é esfregar isso na cara das outras pessoas. -Responde Charlote abrindo a porta. -Deus ajuda quem cedo madruga!
—Eu nem sei se esse ditado faz sentido nesse contexto... -Diz Andrew entrando no banheiro e fechando a porta.
Charlote encosta-se à parede do lado de fora e fica à espera que Andrew saia. Enquanto conversavam, ela conseguia retornar ao seu eu habitual, mas em silêncio, não demorava muito para os seus problemas voltarem à sua mente. A porta abre-se, Andrew sai e vê Charlote encarando o chão. Ele segura a sua mão tentando entender o que ela estava pensando:
—Vamos ao mercado então?
—Ah, sim, esse era supostamente o plano...
—Vai ser rápido, depois podemos voltar para cá e ficar assistindo televisão.
—Tudo bem, pode ser.
Os dois caminham juntos até um mercado próximo à casa de Charlote e começam a perceber as dificuldades financeiras que enfrentariam:
—Calma, quanto de dinheiro você tem? -Pergunta Andrew.
—Ah...cinco euros? E sinceramente não sei se queria gastar esse dinheiro em comida...tinha outras prioridades...
—Tipo o que?
—Cigarros...
—Charlote, vamos passar fome se não gastarmos esse dinheiro em comida. Eu tenho dez euros, meus pais não vão me dar mais dinheiro, mas talvez eu possa ir à minha casa roubar comida.
—Eu sei a senha do cartão da minha mãe, só temos que achá-lo e assim temos dinheiro para mais alguns dias.
—Parece uma boa ideia. -Responde Andrew. -O que vamos almoçar hoje então?
—Não sei, você que disse para virmos aqui.
—Tudo bem, onde eles vendem macarrão instantâneo nesse mercado?
—Esquece...eu vou cuidar disso. -Suspira Charlote.
—O que você vai fazer?
—Provavelmente espaguete à bolonhesa.
—Uau, isso parece complicado.
—Não é. Acho que tenho molho de tomate em casa então só temos que comprar massa, alho, cebola e queijo ralado.
Os dois pegam um carrinho de compras enquanto andam pelo mercado e reúnem os ingredientes necessários. Eles começam a se dirigir para o caixa quando Andrew percebe algo estranho:
—Porque tem uma garrafa de vinho no carrinho de compras?
—É para acompanhar a refeição.
—Você não podia comprar um refrigerante?
—Refrigerante não tem álcool.
Andrew tira a garrafa e retorna-a para uma prateleira:
—Você sabe que esse não é um bom momento para isso, Charlote.
—Chaaato...
Eles passam pelo caixa, efetuam o pagamento e retornam à casa de Charlote. Charlote pega a sacola com os ingredientes, coloca-a em cima da mesa e começa a procurar os utensílios necessários. Andrew observa-a com bastante atenção:
—O que foi?
—Eu queria ver você cozinhar para ver se aprendo. -Responde Andrew.
—Porque?
—Acho que cozinhar é uma habilidade bastante útil.
Charlote sorri:
—A profecia se concretizou, você é realmente o meu pupilo agora.
Andrew ri e entra na brincadeira:
—Sim, por favor me ensine, mestre. -Diz ele juntando as suas mãos e abaixando a sua cabeça.
Charlote liga o fogão e coloca uma pequena panela cheia de água em cima do fogo:
—Primeiro você tem que aquecer a massa até ela ficar mole, normalmente entre cinco e dez minutos.
—Sim.
Ela pega uma tábua de cozinha juntamente do alho e da cebola:
—Enquanto isso você pica o alho e a cebola.
—Sim!
Charlote coloca uma frigideira na outra boca do fogão junto de um fio de azeite:
—Agora você refoga o alho e a cebola até eles ficarem dourados.
—Sim... -Responde Andrew se sentindo um pouco intimidado pela quantidade de informação.
—Depois você junta a carne, sal e a deixa cozinhar por algum tempo.
—Okay.
—Quando a carne estiver boa, você junta o molho de tomate. Nesse ponto, a massa já deve estar boa então temos que escorrê-la. E já está pronto. Você pode acrescentar ou tirar ingredientes para fazer algo que agrade o teu gosto.
—Uau, você fez isso parecer super fácil.
—É bastante fácil, se você praticar algumas vezes tenho certeza que você consegue.
—Eu quero experimentar para saber como ficou!
Charlote coloca pratos e talheres na mesa enquanto Andrew traz as panelas. Os dois sentam-se, colocam massa, molho e depois salpicam queijo ralado por cima dos seus pratos. Andrew tira a sua primeira mordida e não se surpreende com o sabor:
—Está bastante bom! Não esperava menos do meu mestre!
Charlote sorri de uma forma arrogante:
—E isso é só o começo! Eu consigo fazer coisas muito melhores!
—Sério? O que você vai fazer de jantar então?
—Que tal almôndegas?
—Você consegue fazer isso? Você é incrível, Charlote!
Ela ri enquanto deixa aquele sentimento de superioridade dominar a sua mente. Charlote retorna à realidade no segundo seguinte e percebe o erro que fez:
—Merda...eu me responsabilizei por fazer o jantar...Não acredito que você conseguiu me enganar, Andrew...
Essa não tinha sido a intenção de Andrew, ele apenas estava genuinamente impressionado com as habilidades de Charlote, mas ele não deixou aquela oportunidade passar:
—Tola!!! -Gargalhava ele maleficamente. -Você caiu na minha armadilha!!!
—Isso é humilhante demais para mim...eu vou embora dessa casa... -Dizia Charlote continuando com a brincadeira.
—Não, por favor, Charlote, não vá!
—Porque eu ficaria depois desse vexame?
—Porque eu preciso de você para fazer o jantar. -Sorri Andrew com malícia.
—Okay, agora eu vou embora mesmo. -Afirma Charlote mudando o tom da sua voz e fingindo que vai levantar-se da mesa.
—Nãaaao! Era só uma brincadeira! Desculpa!
—Tudo bem, eu vou ficar.
—Sério? Por mim?
—Claro que não. Vou ficar porque essa é a minha casa, duh!
—Ah, sim...isso faz sentido...
Charlote ri com a estupidez daquela situação e os dois voltam a comer. Passados alguns minutos, Andrew dá a sua última mordida:
—Isso estava uma delícia. Eu estou completamente cheio.
—Ainda sobrou um pouco, deve dar para comer isso no jantar. -Comenta Charlote tirando os pratos da mesa e colocando na pia.
—Você não quer ajuda?
—Está tudo bem, eu estou acostumada a fazer isso.
—Você fez tudo praticamente sozinha então me sinto bastante inútil...
—Você pode ficar com a louça do jantar se realmente quiser fazer algo.
—Todos nós temos que começar em algum lugar.
—Você fala como se essa fosse ser a primeira vez que você lava louça.
Andrew permanece quieto:
—Sério? Você nunca lavou louça antes?
—Nunca me pediram para fazer...e temos uma máquina de lavar louça em casa...
—Incrível, pessoas ricas vivem numa realidade completamente diferente.
—Eu já disse que não sou rico...
Charlote termina de lavar a louça e coloca-a no escorredor:
—Finalmente posso voltar para o sofá.
Ela senta-se na posição mais à direita, pega o controle e começa a procurar algo interessante. Andrew senta-se ao lado dela:
—Está vendo, descansar depois de ter feito outras coisas é muito mais gratificante.
—A mensagem é boa, mas vindo de você parece um pouco irónico.
—Eu te ajudei a fazer compras...
Charlote move gentilmente a sua mão pela cabeça de Andrew:
—Está tudo bem, você fez o suficiente.
—Agora parece que você está sendo irónica...
Ela apoia o seu corpo nele enquanto continua a acariciar a sua cabeça:
—Sim, mas é só uma piada, você estar aqui ajudou bastante...
Andrew cora um pouco, ele ainda não estava acostumado a lidar com o afeto de Charlote. Mas da forma mais natural que consegue, ele coloca o seu braço a volta dela e puxa-a para perto. Talvez explicar com palavras o que eles sentiam naquele momento fosse difícil ou desnecessário. Eles permanecem em silêncio enquanto assistem televisão e aproveitam a presença um do outro.
—Eu queria que isso durasse para sempre... -Pensa Andrew.
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