Notas iniciais
Esse capítulo foi agendado para sair no sábado!"Mas porque no sábado?" você pergunta. Porque estamos entrando na reta final da história eu quero postar os capítulos logo! De qualquer forma, boa leitura!

Charlote abre a porta da sua casa, apoia as suas mãos em cima da pia da cozinha e encara o vazio:

—Porque metade da cidade decidiu comer hoje naquele restaurante de merda? A comida nem é tão boa assim.

Ela olha à sua volta e percebe que a sua mãe não está em casa:

—Tenho que fazer o jantar...

O seu corpo ainda estava sentindo as consequências te ter bebido tanto ontem e o cansaço do trabalho não ajudava, mas não havia tempo para parar. Ela tirou a sua bolsa dos seus ombros, colocou-a em cima da mesa e começou a lavar as louças que se encontravam dentro da pia. Manter-se ocupada não era tão mal assim, impedia que a sua mente pensasse em coisas desnecessárias. E cansaço físico era facilmente resolvido com descanso. Talvez os testes que começaria a ter a partir da próxima semana fossem o real problema:

—Logo a semana que faço aniversário...agora vou ter que comemorar mais tarde se quiser ter um futuro...quanto mais da minha vida terei que desistir por você, escola?!

Ela passa por água os pratos, copos e talheres já lavados e coloca-os no escorredor de louça. Charlote seca as suas mãos, tira os ingredientes que considera necessário para fora da geladeira e começa a preparar o jantar. Não fazendo nada complexo, ela consegue terminar rapidamente e decide tomar um banho enquanto ainda tem tempo. Charlote olha-se no espelho e percebe que o seu cabelo cresceu o suficiente para as suas raízes negras estarem bastante visíveis:

—Tinha que pintar de novo...mas sinceramente não tenho dinheiro para isso no momento...

Nada atraía a sua atenção dentro do banheiro, tudo o que ela podia ver eram as paredes ou a sua imagem refletida. Nada a distraía, nada a entretinha e esses eram os momentos que ela menos gostava de viver. Estar sozinha consigo mesmo. Estar em silêncio. Ter que encarar a pessoa que ela realmente era, sem máscaras, sorrisos falsos ou elogios superficiais de outras pessoas.

—Porque eu sou eu? Porque eu estou aqui? Porque eu estou fazendo isso?

Fazer perguntas não é algo negativo, mas nunca estar satisfeita com as respostas é. Desde cedo, Charlote nunca entendeu o mundo à sua volta. Porque boas pessoas sofrem, mas más pessoas não são punidas? Estava claro que o mundo não seguia uma lógica, então fazer perguntas e esperar encontrar as respostas certas era loucura. Mas mesmo assim, vendo a sua vida desenrolar-se das arquibancadas, sentada, como uma mera espectadora, o que ela podia fazer senão perguntar?

—Porque eu estou pensando sobre isso? Porque eu estou lembrando disso? Porque eu continuo vendo essas imagens?

Era insanidade. Era tortura. Quanto mais perguntas fazia, mais afastada da realidade ela sentia-se. Mais corrompidos os seus pensamentos se tornavam, até o ponto onde eles nem refletiam mais quem ela pensava ser. Mas era ela. Aqueles pensamentos não eram de mais ninguém, eram dela. Encará-los era assustador, era ir contra a imagem que ela tinha de si mesma. Charlote lava o seu rosto e lembra-se que veio àquele lugar para tomar banho, não pensar sobre o passado.

Ela seca o seu corpo, enrola-se numa toalha, caminha até o seu quarto, coloca um pijama e depois segue até à cozinha:

—Olá, Charlote. -Diz a sua mãe.

Charlote percebe um tom mais pálido no rosto da sua mãe juntamente de uma aparência cansada:

—Olá, mãe, como foi a consulta?

—Só vou saber o resultado amanhã. Como foi o teu dia?

—O trabalho foi muito cansativo, haviam pessoas demais, mas o resto foi normal. Eu ainda tive tempo de fazer o jantar.

Nora abre um dos armários da cozinha e coloca dois pratos na mesa. Em seguida, abre uma gaveta e coloca também talheres. Charlote puxa uma cadeira e senta-se enquanto a sua mãe pega as duas panelas com comida e coloca-as em cima da mesa. Sentadas frente a frente, Charlote e Nora servem-se enquanto são iluminadas pela luz amarela vinda do teto. Aqueles costumavam ser os únicos momentos do dia que elas tinham tempo para estarem juntas:

—Você se lembra daquela vez que você começou a fazer penteados nos teus amigos da escola em troca de dinheiro para comprar um presente no meu aniversário?

—Mãe, porque você está lembrando dessas coisas vergonhosas?

Nora ri:

—Você realmente se tornou uma adolescente, você costumava ser tão carinhosa comigo e agora qualquer coisa te dá vergonha.

—Eu continuo sendo uma ótima filha!

—Sim, isso é verdade, você ajuda muito cuidando da casa e com o dinheiro que você ganha no trabalho. Muito obrigada, filha.

—É difícil para eu fazer piadas quando você é tão honesta assim... -Responde Charlote um pouco embaraçada.

—Não sei se te dou toda a apreciação que você merece então estava fazendo isso.

Os sentimentos de Charlote pela sua mãe eram óbvios, mas expressá-los era difícil:

—Eu gostaria de te ajudar tanto quanto você me ajuda. -Continua Nora. -Eu estou sempre aqui se você precisar, filha.

—Obrigada, mas eu sou incrível então não sei se preciso de ajuda. -Brinca Charlote.

—Você herdou a única coisa boa dele: o seu senso de humor.

—Eu acho isso ofensivo para ser sincera, o senso de humor é MEU.

—Tudo bem, tudo bem. -Sorri Nora levantando-se. -Eu acho que já vou dormir, estou um pouco cansada.

—Sem problemas, dorme bem, mãe. Até amanhã!

—Você também, filha. Até amanhã. -Diz Nora enquanto caminha com calma até o seu quarto.

Charlote acompanha a sua mãe com o olhar até não ser mais possível vê-la:

—Então até mesmo aquele merda tinha um ponto positivo...

Apesar de claramente odiar o seu pai, ela não o conhecia e nem tinha interesse em conhecê-lo. Ele era parte de um passado distante que apenas as histórias da sua mãe abordavam. Charlote terminou de comer e lavou o que estava dentro da pia. Ela apagou a luz da cozinha e foi até o seu quarto. Lá dentro, ela fechou a porta, abriu um pouco a janela e deitou-se na cama. O seu cansaço fez com que dormir não fosse um problema.

O nascer do sol marcava o início de um novo dia e poucas horas mais tarde ela teve que levantar-se:

—Dinheiro. Dinheiro faz o mundo girar. -Pensava Charlote ainda muito sonolenta se motivando a caminhar até o banheiro.

Ela repetiu os seus procedimentos matutinos habituais, agarrou a sua bolsa, pegou na sua bicicleta e começou a mover-se na direção do seu trabalho. Já nas proximidades do restaurante, deixou a sua bicicleta no estacionamento, prendeu-a e caminhou até a entrada:

—Bom dia, Charlote. -Disse Wanda.

—Bom dia, chefe! -Sorriu ela.

As primeiras horas do dia costumavam decorrer sem muitos problemas. Tudo o que ela tinha que fazer era atender os poucos clientes que ali tomavam café da manhã. Às vezes até surgiam conversas interessantes com as pessoas que frequentavam aquele lugar. Conforme o almoço aproxima-se caos começa a se instalar. Clientes entravam, escolhiam uma mesa e precisavam de ser atendidos. O pedido devia ser anotado sem erros e transmitido para a cozinha. Em seguida, a comida devia ser entregue. Cafés e sobremesas também eram pedidos com frequência. A conta devia ser paga e antes que mais clientes entrassem, as mesas deviam ser limpas.

Charlote recebia ajuda dos seus companheiros de trabalho, mas a constante pressão de ser rápida e eficiente nunca desaparecia. Ela coloca os pratos nas suas mãos dentro da pia, limpa o suor que escorre no seu rosto e retorna ao caixa. A sua atenção é interrompida pela vibração do seu telefone no seu bolso. Charlote tira-o do seu bolso e percebe que a ligação é da sua mãe. Ela afasta-se um pouco de todo o barulho do restaurante e atende:

—Oi, Charlote.

—Mãe, agora não posso, estou trabalhando.

—Sim, eu sei que sim, mas os médicos disseram que era importante ter algum membro da família presente, você tinha como vir até o hospital Extensão de Saúde C agora?

—Agora? As coisas estão muito movimentadas no restaurante.

—É importante, Charlote, por favor.

—Tudo bem...

Ela desliga a ligação, suspira e entra na cozinha de novo:

—Chefe, vou precisar sair mais cedo.

—O que aconteceu?

—Não sei, a minha mãe está no hospital e eu preciso ir até lá.

—Tudo bem, Charlote. -Responde Wanda. -Vamos dar um jeito de alguma forma aqui, você pode ir.

—Obrigado, chefe.

Ela tira o seu uniforme, caminha até o estacionamento, destranca o cadeado da sua bicicleta e percorre cinco quilômetros até chegar no hospital. Bastante cansada e suada, Charlote caminha até a recepção e explica a situação. Ela é acompanhada por uma enfermeira até uma sala onde a sua mãe está deitada numa cama enquanto fala com um médico:

—Ah, você deve ser Charlote. -Diz o médico percebendo a sua presença. -Sente-se, vou explicar-vos a situação.

Charlote entra na sala enquanto a enfermeira fecha a porta e caminha para longe. Ela aproxima-se da sua mãe ainda muito confusa sobre a situação. Nora tem uma expressão serena no seu rosto enquanto Charlote fica mais ansiosa a cada segundo:

—O que está acontecendo? -Pergunta ela sentando-se numa cadeira ao lado da sua mãe e mantendo a sua visão fixada no médico.

Ele abre a pasta de documentos que tem na sua mão e retira uma radiografia. O doutor entrega-lhes a imagem e começa o seu discurso:

—Não encontramos nada preocupante além disso, mas os exames que fizemos mostraram um aglomerado de nódulos nos seus pulmões, Nora. Precisamos fazer mais testes, mas existe a possibilidade de isto ser um tumor maligno.

O olhar no rosto de Nora não muda, ela entende aquelas palavras. A sua preocupação está centrada em Charlote, mas Charlote não diz nada. A sua mente anda em círculos tentando entender aquilo:

—Tumor maligno? -Repete Charlote.

—Sim. -Reafirma o médico. -Mas mesmo se for um tumor maligno, ainda não sabemos quão afetados os pulmões podem-

—Isso é câncer, não é? Você está me dizendo que a minha mãe tem câncer? Como isso é possível?

—Câncer tem várias causas e fatores hereditários também podem-

—Isso não faz sentido! -Nega Charlote aumentando o tom da sua voz. -Vocês não podem fazer mais testes para ter certeza que não erraram?

—Sim, isso é o que estamos fazendo nesse momento e eu também gostaria que esse fosse um erro da nossa parte.

—Está tudo bem, Charlote. -Diz Nora segurando a mão da sua filha.

—Não! O que você quer dizer com “está tudo bem”? Nada está bem.... -Responde Charlote não conseguindo conter as suas lágrimas.

Nora abraça-a:

—Eu estou aqui, filha. Nós vamos passar por isso juntas.

Mas Charlote não tem forças para devolver o abraço, ela apenas chora. O médico percebe a situação e acrescenta algo antes de ir embora:

—Amanhã teremos mais informações, mas Nora, você precisa dormir hoje aqui no hospital.

—Tudo bem...

Ele abre a porta, sai e fecha-a logo em seguida. Charlote continua incrédula daquela situação enquanto a sua mãe tenta providenciar o apoio necessário. As duas continuam naquela posição até o choro de Charlote diminuir. Nora afaga-lhe a cabeça e limpa-lhe as lágrimas:

—Charlote, querida, você é uma menina tão forte e sabe quem eu sou? A tua mãe. Tudo o que você tem que fazer é acreditar em mim.

—Mas...se você não estiver aqui...eu...

—Está tudo bem. Vai dar tudo certo. Nós já passamos por coisas muito piores juntas e você sabe disso.

—Mãe, por favor, não vá embora...eu te amo...

Nora sorri enquanto os seus olhos lacrimejam:

—Eu também te amo, Charlote. Então não se preocupe, vá para casa e durma, você tem aulas amanhã.

Charlote não queria sair daquela posição, ela não queria afastar-se do calor e conforto da sua mãe:

—Eu posso ficar mais um pouco?

—Tudo bem, só mais um pouco.

Notas finais
Uma nuvem negra se aproxima no horizonte, mas Charlote faz o seu melhor para continuar tentando. O que vocês acham que acontece daqui em diante?