Notas iniciais
E voltamos! Mais uma vez com um capítulo agendado! Boa leitura!

Charlote abre os seus olhos e aproveita os segundos onde ainda não está totalmente consciente. A sua mente não faz perguntas e o seu corpo move-se sem pressa, mas também sem hesitar. Os seus pensamentos focavam-se na sua mãe enquanto ela executava a sua rotina de forma quase automática. As ações da sua mãe fizeram-lhe recuperar a sua calma, mas esse era exatamente o problema. Nora iria tentar parecer bem mesmo que se encontrasse na pior situação possível, o que apenas aumentava a preocupação de Charlote:

—Então foi daí que eu herdei isso...

Tudo estava incerto e Charlote não conseguia concentrar-se no que estava acontecendo na sua frente. Casa, transporte público, escola, transporte público e casa. Ela fisicamente passava por estes lugares, mas psicologicamente, ela não tinha saído daquele hospital desde ontem. Charlote termina de comer, lava o seu prato e prepara-se para visitar a sua mãe. Ela deixa a sua bicicleta no parque de estacionamento e aproxima-se da entrada. As portas abrem-se automaticamente e Charlote sente um ar mais frio e limpo encher os seus pulmões. Ela caminha no piso de azulejos brancos com mais calma do que ontem enquanto observa o ambiente à sua volta.

Existe um sistema de senhas que controla a ordem de atendimento. Charlote retira uma e senta-se numa das várias cadeiras disponíveis. Passados alguns minutos, a sua vez chega e ela é reconhecida pela recepcionista sentada atrás do balcão:

—Você é aquela menina de ontem, você veio visitar a sua mãe?

—Sim, ela está no mesmo quarto?

—Sim, eu vou te acompanhar até lá. -Diz ela levantando-se.

As duas caminham ao longo de um corredor até o mesmo lugar de ontem. Nora está sentada em cima da cama enquanto observa o mundo através da janela. Charlote bate na porta já aberta para chamar a sua atenção:

—Você não deveria estar deitada?

—Eu estou deitada há mais de vinte e quatro horas, ainda tenho forças para sentar durante alguns minutos. –Responde Nora. -Como foi o teu dia?

—Não aconteceu muito, apenas fui à escola e depois vim para cá. -Respondeu Charlote. -Já te disseram mais alguma coisa sobre a tua situação?

—Apenas confirmaram as suspeitas e também disseram que estão a escolher o melhor método de tratamento.

—Então você realmente tem câncer...

—Sim, foi uma grande surpresa, mas estamos todos fazendo o nosso melhor.

—”todos...” -Pensa Charlote encarando o chão. -Eu estou realmente fazendo alguma coisa?

Ela levanta a sua cabeça e decide expressar a sua opinião:

—Isso é ainda é bastante surreal para mim, não consigo aceitar que está realmente acontecendo.

—Está tudo bem, essa é a reação normal, tudo ainda é muito recente, só recebemos a notícia ontem.

—E como você se sente?

—Normal para ser sincera, sinto alguma dificuldade em respirar às vezes, mas isso não é nada novo. Já estou assim há vários dias.

—Você já avisou o teu trabalho?

—Ainda não expliquei bem a situação, mas disse que não iria poder comparecer durante alguns dias por motivos de saúde.

—Espero que seja realmente só alguns dias...

—Vai ficar tudo bem, você devia estar focada em outras coisas, por exemplo o teu aniversário essa sexta! Você já pensou onde vai fazer a festa?

—Vou começar a ter testes em breve então não sei se eu ou os meus amigos vão ter tempo para uma festa.

—Você realmente cresceu, Charlote. -Sorri Nora. -Andar com Andrew fez você se tornar uma pessoa muito mais responsável...

—Ei, foi MINHA ideia estudarmos juntos! Eu que deveria estar recebendo os créditos, não ele!
—Tudo bem, tudo bem, não vou fazer esse tipo de piadas. -Ri ela. -Você tem em mente algum presente que queira?

—Não temos dinheiro para gastar nesse tipo de coisas, você sabe disso.

—Não seja chata, eu gosto te dar alguma coisa de tempos em tempos.

—Eu quero que você melhore. -Responde Charlote com sinceridade. -Podíamos ir a um restaurante ou algo do gênero se você realmente insistir em dar um presente.

—Parece uma boa ideia. Fica combinado então, quando eu puder sair do hospital vamos sair para comer fora.

As duas conversam por vários minutos até que Charlote entende que está na hora de ir embora:

—Ainda tenho que fazer compras para casa e depois o jantar então acho que já estou indo.

—Tudo bem, filha. Cuidado no caminho de casa e se precisar de alguma coisa me ligue!

—Tchau, mãe!

Ela caminha para fora da sala repetindo o trajeto que havia feito para chegar ali. Charlote termina as tarefas que havia estipulado sem muito interesse. As suas pernas movem-se na bicicleta apenas para conservar a inércia, os seus braços escolhem a loja e ingredientes mais familiares e os seus olhos observam tudo com calma, mas sem nunca prestar atenção. Ela come porque sabe que precisa comer e mantém a casa limpa por hábito. Ela age sem sentir que tem motivos para agir. A sua mente vaga sem afastar-se, mas também sem encontrar um destino. Ela entende que a última tarefa do dia é dormir e assim o faz.

E tudo começa de novo:

—Apesar de ser um novo dia, existe algo realmente novo?

Ela acorda pensando na lista de ações que teria de fazer ao longo do dia:

—Por mais que os detalhes sejam diferentes, hoje será um dia como qualquer outro.

Talvez ela realmente acreditasse naquilo. Talvez fosse apenas uma forma de ver o mundo como um lugar conhecido e não hostil. Charlote prossegue o seu dia até que algo chama a sua atenção. Enquanto caminha no corredor entre uma sala e outra, ela é avistada por Andrew. Ele esquiva-se de outros alunos e aproxima-se:

—Bom dia, Charlote.

—Bom dia.

—Você ainda está irritada por causa daquilo...?

—Não, já nem lembrava que tinha acontecido.

—Bom saber, mas porque você não me chamou para estudar ontem então?

—Estive ocupada com outras coisas. -Responde Charlote.

—Hoje você também vai estar ocupada?

—Sim, provavelmente até o resto da semana.

—Espero que você consiga arranjar tempo para estudar, as provas começam na próxima semana. -Comenta Andrew.

—Eu sei que sim, eu vou dar um jeito.

Andrew observa-a incerto sobre o que estava acontecendo. Charlote era uma pessoa difícil de ler, mas ele conseguia entender que algo estava errado:

—Aconteceu alguma coisa?

—Não, só estou um pouco cansada.

—Oh, tudo bem.

Antes que Andrew tivesse tempo de fazer outra pergunta, Charlote começa a mover-se:

—Falta pouco tempo para a minha próxima aula então eu já estou indo. Tchau, Andrew.

Ele observa-a caminhar para longe enquanto abana a sua mão:

—Tchau, Charlote...

Ela aproxima-se da porta enquanto espera pelo professor. Alguns minutos mais tarde, todos os alunos entram na sala e sentam-se nos seus respectivos lugares. O professor dá início a aula: explica a matéria, acrescenta algumas curiosidades, faz perguntas à turma, indica alguns exercícios que deveriam ser resolvidos e outros que deviam ser feitos em casa. Enquanto ela e os outros alunos preparavam-se para deixar a sala, o professor aproxima-se:

—O seu comportamento tem vindo a melhorar bastante, Charlote. -Diz aquele homem de bigodes e barba bem definidos. -Se você participasse mais nas aulas acho que você aprenderia ainda mais.

—Obrigado, professor. -Responde ela levantando-se. -Vou tentar fazer isso de hoje em diante.

As suas respostas continham apenas a quantidade necessária de informação, não o suficiente para convencer todas as pessoas que ela estava bem, mas o bastante para não permitir a ninguém entender qual era o problema. Ela podia fingir o suficiente para não levantar suspeitas, mas a atitude que marcava a sua vida naquele momento era desinteresse. Mas mesmo indiferente, Charlote ainda fazia tudo o que considerava necessário.

Já acostumada àquela rotina, ela chegou no hospital alguns minutos mais cedo. Charlote puxou uma cadeira, sentou-se, colocou a sua mochila no seu colo e começou a procurar por algo:

—Você parece cansada, veio de bicicleta?

—Sim, o passe de ónibus não funciona nessa direção, apenas entre a nossa casa e a escola. -Respondeu ela tirando uma faca e uma maçã da sua mochila. -Onde tem um lixo?

Nora estende o seu braço direito e alcança um pequeno caixote de lixo ao lado da sua cama:

—Tem esse.

—Obrigada. -Diz Charlote começando a descascar a maçã.

—Eu aprecio o esforço, mas prefiro maçãs com casca. -Sorri Nora.

—Eu não disse que era para você... -Sorri ela.

—Maldosa...

—Desculpa, foi uma brincadeira, mas eu também vou comer e prefiro sem casca.

—Como foi o teu dia?

—O mesmo de sempre, um professor me disse que minha atitude estava melhor então acho que estou fazendo progressos pelo menos.

—Sim, realmente deveríamos agradecer ao-

Charlote encara a sua mãe com um olhar agressivo:

—A você! Sim, era isso que eu ia dizer. Você tem feito um ótimo trabalho, Charlote. -Continua Nora. -Mas você não pode negar que ele ajudou bastante.

—Eu sei que sim...só não gosto dessa coisa toda de pedir ajuda e ficar devendo a outras pessoas...

—Eu não acho que o Andrew pense que você deva alguma coisa a ele, mas você precisa dar valor ao que as pessoas fazem por você.

—Sim...é um problema que eu tenho. Bom, quer um pedaço? -Oferece Charlote cortando uma parte da maça já descascada.

—Obrigada. -Diz Nora estendendo a sua mão.

—Você tem alguma informação nova?

—Os médicos estavam falando sobre a possibilidade de quimioterapia e depois remover o restante com cirurgia.

Charlote suspira:

—Eu gostaria de ser inteligente para entender melhor a situação.

—Os médicos estão fazendo um ótimo trabalho, cabe a nós esperar e acreditar.

—Eles disseram alguma coisa sobre quando você pode ir para casa?

—Se a minha situação se manter como está agora, talvez possa ir para casa no fim de semana.

—Sério!? -Pergunta Charlote repentinamente animada. -Isso seria genial!

—É só um talvez por enquanto. -Ressalta Nora.

—Já é ótimo.

Elas terminam de comer a maçã, falam por mais alguns minutos e em seguida, Charlote levanta-se:

—Eu preciso ir embora mais cedo hoje para estudar.

—Sem problemas, filha, boa sorte.

—Obrigado, mãe.

Ela despede-se e inicia o seu caminho para casa. A pequena esperança de ver a sua mãe no fim de semana e reganhar o senso de normalidade da sua vida aqueciam o seu coração. Charlote dormiu com a impressão que amanhã teria um bom dia. Os seus olhos abriram-se pela manhã e mesmo que pouco, ela já se sentia capaz de desfrutar de todos os pequenos momentos do seu dia. Ela lembra-se de uma personagem de um jogo antigo ao ver o seu cabelo desarrumado no espelho, escuta música no ónibus, sorri ao perceber que o seu primeiro professor do dia está tão cansado quanto ela e decide procurar por Andrew.

Charlote podia ter ligado, mas sentiu que não era necessário. Com sorte, Andrew estaria no mesmo lugar de sempre. Ele vê aquela silhueta familiar aproximando-se sem a sua pressa habitual:

—Bom dia, Charlote! -Sorri Andrew.

—Bom dia, Andrew!

—Você parece melhor hoje, alguma coisa aconteceu?

—Os professores decidiram ser mais bondosos comigo já que o meu aniversário está próximo. -Mentiu ela. -E você, Andrew, o que vai me dar de presente?

—Calma, eu achei que aquela garrafa de vodca tinha sido o teu presente!

—Dependendo da cultura as pessoas têm de fazer até mesmo doação de propriedade para cortejar mulheres e você está achando que só uma vodca seria o suficiente?

—Era um presente de aniversário, não de cortejo...

—Sempre muito inteligente, Andrew. Porque você não usa toda essa inteligência para ganhar dinheiro?

—Eu já tentei, é mais difícil do que parece.

Charlote sorri enquanto genuinamente aprecia aquele momento:

—Você é uma pessoa divertida, Andrew.

—Obrigado, essa é a primeira vez que me dizem isso.

—Isso é um pouco triste...mas é estranho. Você não é diretamente divertido como eu, você é mais naturalmente divertido.

—Eu não entendo o que você quer dizer para ser sincero...

—É difícil de explicar, você não cria situações divertidas, mas as tuas reações são divertidas e você faz as pessoas se sentirem à vontade para serem divertidas.

—Fico feliz que você pense assim. -Sorri Andrew.

Sentados lado a lado enquanto observam a mesma direção, por alguns segundos tudo o que pode ser ouvido é a suave brisa do vento:

—Bem, eu acho que já vou embora. -Diz Charlote levantando.

—Você está livre no próximo intervalo?

—Uh, fazendo jogadas agressivas em mim, gosto da tua evolução, Andrew.

—Não é nada demais...Eu queria perguntar se você queria me encontrar aqui de novo no próximo intervalo.

Charlote sorri:

—Tudo bem, podemos ter um pequeno encontro no próximo intervalo.

—Não é nada disso...

Notas finais
As coisas parecem melhorar brevemente enquanto Charlote e Andrew aproveitam alguns momentos juntos.