Notas iniciais
Outro capítulo agendado! Boa leitura!

Conforme o combinado, Andrew e Charlote encontram-se novamente no mesmo lugar:

—Então, quais são os teus planos para esse encontro?

—Eu já disse que não é um encontro... -Responde Andrew. -Eu queria te mostrar um lugar.

—Você vai me mostrar um lugar dentro da escola? Andrew, eu não sei o que poderia haver de interessante na biblioteca.

—Não é a biblioteca! E existem livros muito interessantes na biblioteca!

—Sim, sim, da mesma forma que existem banheiros muito limpos nessa escola.

—Só me segue...

Os dois caminham para dentro do edifício da escola e começam a subir as escadas para os pisos superiores. Lentamente Andrew é ultrapassado por Charlote:

—Não era suposto você estar guiando o caminho? -Pergunta ela.

—Só continue subindo... -Responde ele ofegante. -Eu não tenho o teu nível de energia...

Eles continuam aquele trajeto até o quarto piso onde deparam-se com uma porta fechada que leva ao terraço. Charlote continua à espera de uma explicação enquanto Andrew tenta recuperar o seu fôlego:

—Tudo bem, chegamos nessa zona isolada da escola, ninguém vem aqui....espera...não me diga que o teu plano era me afastar de outras pessoas para...

—Não diga coisas estranhas!

—Então porque viemos aqui?

—Lembra daquela história vergonhosa que eu te contei sobre ter perdido um molho de chaves que uma professora minha me deu? Então, eu na verdade achei esse molho há algum tempo atrás . -Explica Andrew. -Ele tem várias outras chaves, talvez até mesmo a chave dessa porta.

Andrew aproxima-se da porta e tenta destrancá-la:

—Andrew, desculpe por duvidar de você, a tua ideia para esse encontro é genial!

—Eu já disse que não.... -Suspira ele. -Tanto faz...

—Eu nunca vim aqui antes! -Disse Charlote animada. -Isso vai ser tão incrível!

—É só um terraço, vamos ter uma boa vista, mas nada fora do normal.

—É um lugar só para nós! Só nós temos acesso! É muito mais mágico do que só um terraço.

—Quando você coloca dessa forma...talvez seja mágico mesmo...

—Sim, agora você pode abrir a porta?

—Eu estou tentando! Tem mais de dez chaves diferentes nesse molho! Está sendo....ah...consegui.

A porta abre-se e imediatamente uma forte corrente de vento é formada. Os cabelos de Charlote dançam no ar enquanto os dois atravessam para o outro lado e fecham a porta. O sol aproxima-se do meio-dia e aquele parece ser o ponto mais alto da área. É possível observar as árvores que crescem à volta da escola, assim como os edifícios auxiliares, o portão de entrada e a rua de asfalto conectada a este:

—Uau, eu me sinto no topo do mundo. -Comenta Charlote abrindo os seus braços e sentindo o vento.

Andrew olha os seus arredores ainda incrédulo da beleza que ele não tinha sido capaz de ver até agora:

—Eu vejo tudo isso todos os dias, mas nunca tinha reparado nos detalhes que vejo agora. É estranho pensar em como uma simples mudança de perspectiva afeta a beleza do mundo.

—Boas palavras, Andrew. -Sorri Charlote. -Eu acho que você tem toda a razão. Viver é uma questão de perspectiva. O mundo é o mesmo para todos nós, a única coisa diferente é a nossa perspectiva.

Andrew lembra-se de ter uma conversa semelhante com Charlote alguns meses atrás durante uma festa:

—Você me perguntou uma vez o que eu achava que a vida era e eu acabei por não te responder. Mas atualmente eu acho que a vida é isso: descobrir coisas novas, conhecer pessoas e juntar o máximo possível de boas memórias para te ajudar a superar os momentos difíceis. Para continuar vivendo e continuar descobrindo.

Charlote ri:

—Você mudou tanto nesses últimos meses, como você consegue fazer isso?

—Eu tenho certeza que você entende, eu quero ser o protagonista da minha vida, não um figurante. -Ri Andrew. -Isso foi bastante poético, não foi? Na verdade, eu apenas conheci alguém que me deu a motivação necessária para mudar.

—Você é tão puro, Andrew...

—Você não é?

Charlote pensa durante alguns segundos antes de responder como se estivesse a lembrar de um momento específico:

—Não mais...

Andrew expressa algum choque ao ouvir aquilo, mas tenta dar uma reação apropriada:

—Eu não me importo com isso…mas tenho alguma curiosidade, com quem foi a tua primeira vez?

—Não é isso, seu burro!! -Grita Charlote envergonhada. -Eu não estou falando de sexo, pare de ter pensamentos pervertidos!

Andrew cora e desvia o seu olhar:

—De que tipo de pureza você estava falando então?

—Era uma metáfora! No sentido de estar ou não corrompido pelo mundo!

—Eu ainda não entendo...

—Esquece, deixa para lá.

Os dois permanecem parados perto um do outro enquanto evitam fazer contato visual:

—Calma, isso quer dizer que você não teve-

—Andrew, eu vou te empurrar lá para baixo se você fizer essa pergunta.

—Tudo bem, vou ficar calado.

Eles ouvem o sino que marca o fim do intervalo:

—Temos de ir. -Comenta Charlote.

—Sim, temos. -Responde ele.

Os dois deixam aquela visão para trás, trancam a porta e começam a descer as escadas. No segundo andar, Andrew muda de direção e os seus caminhos separam-se:

—Até amanhã, Charlote!

—Até amanhã, Andrew.

Ela caminha até o próximo lugar onde teria aulas sem conseguir tirar tudo o que aconteceu no terraço da sua cabeça. Após mais algumas horas de aulas, o seu dia escolar tinha chegado ao fim. Agora Charlote tinha de regressar a casa e depois ir conferir o estado da sua mãe. Nada anormal se sucedeu no percurso e ao ver a sua mãe deitada naquela cama, ela percebeu que tinha chegado ao seu objetivo:

—Oi, mãe.

A sua mãe parece um pouco mais pálida e desatenta, demorando alguns segundos para responder e falando com calma:

—Oi, Charlote. Como foi o teu dia?

—Foi normal...até eu encontrar o Andrew...

Nora esboça um leve sorriso no seu rosto:

—O que ele fez de errado dessa vez?

—Ele me convidou para ir até um lugar com ele, o que foi bem divertido para ser sincera, já que ele nunca toma a iniciativa. Mas a mente daquele menino é mais suja do que os banheiros da escola! Eu estava falando sobre umas coisas super inteligentes e ele achou que eu estava falando de sexo!!

—Acho normal ele pensar sobre isso. -Ri Nora.

—Sim, ele pode pensar sobre isso, mas eu não quero escutar ele falando sobre isso!

Nora tenta responder, mas é interrompida por uma crise de tosse. Ela usa a sua mão para tapar a sua boca e demora dezenas de segundos para recuperar a sua compostura. Já conseguindo respirar um pouco melhor, ela observa a sua mão e vê um pouco de sangue:

—Você está bem? -Pergunta Charlote.

—Tenho tossido um pouco mais. -Responde Nora escondendo a sua mão por de baixo da coberta que cobria o seu corpo até à cintura. -Mas não deve ser nada preocupante.

—Você parece um pouco mais pálida, o que os médicos disseram?

—Devo fazer mais alguns exames hoje e talvez comece o tratamento em breve.

—Se alguma coisa acontecer, me avise!

—Eu sinto que a mãe deveria ser a pessoa que diz isso. -Ri Nora.

—Quando você melhorar podemos discutir sobre isso, até lá eu sou a pessoa responsável em casa.

—Está tudo bem, vai dar tudo certo.

—Eu espero que sim, você tem que voltar para casa logo. É solitário estar sozinha lá.

—Você vai fazer dezoito anos em dois dias, outros adolescentes da tua idade já devem estar pensando em sair da casa dos pais.

—Outros adolescentes ricos só se for, não dá para viver sozinha, estudar e pagar as minhas contas tudo ao mesmo tempo sem ajuda. Você também precisa da minha ajuda então não estou pensando em sair de casa tão cedo.

—É bom saber que tenho uma filha tão prestativa e atenciosa.

—Sim, sim, isso tudo e muito mais. -Diz Charlote passando os seus dedos pelo seu cabelo numa postura debochada.

—Você precisa estudar hoje também, certo?

—Sim, mas eu trouxe os meus livros então posso estudar aqui e ir para casa mais tarde.

—Tudo bem, eu estou me sentindo um pouco cansada então vou dormir durante algum tempo. -Comenta Nora tentando atingir uma posição confortável.

—Vou tentar estudar sem fazer muito barulho então. -Responde Charlote indo buscar vários materiais na sua mochila.

Nora permanece parada na mesma posição durante horas, apenas tossindo com alguma regularidade. Charlote concentra-se nos seus livros enquanto ocasionalmente confere o estado da sua mãe. Começa a ficar tarde e Charlote coloca todos os seus utensílios de volta na mochila:

—Você já vai embora? -Pergunta Nora abrindo os seus olhos.

—Sim, não posso ir dormir muito tarde.

—Tudo bem, cuidado no caminho para casa e boa sorte na escola amanhã.

—Obrigada, mãe. Até amanhã!

As duas olham-se por alguns segundos e Charlote começa a caminhar em direção à porta. Apesar do seu corpo estar cansado, ela sentia que hoje tinha sido um bom dia. Coisas boas tinham acontecido e Charlote esperava que amanhã também fosse assim. Ela chega à casa, toma um banho, prepara uma pequena refeição, janta, lava a louça e depois dirige-se para a sua cama. Por algum motivo a sua mente regressa aos momentos que passou com Andrew hoje enquanto o seu corpo descansa:

—Porque será que estou pensando nele?

Mas rapidamente os seus pensamentos dão lugar a uma intensa sonolência. Charlote abre os seus olhos ao ouvir o seu despertador e entende que mais um dia começou. Por mais que ela tivesse boas expectativas para o dia, os primeiros minutos da sua manhã sempre a deixavam rabugenta:

—Ainda é quinta...merda...

Charlote força o seu corpo a levantar-se e começa a sua rotina. Ela faz todo o trajeto até a escola e alguns minutos antes da sua primeira aula decide mandar uma mensagem a Andrew: “Próximo intervalo terraço?”. Após uma longa e entediante hora onde Charlote fez o seu melhor para prestar atenção e absorver informação, o primeiro intervalo começa. Ela se dirige com alguma pressa para as escadas que levam ao terraço, e passados alguns minutos, Andrew também aparece:

—Você está atrasado!

—Eu tive aula de educação física...Estava morto...vim o mais rápido que pude...

Ele abre a porta e os dois são atingidos pela atmosfera daquele lugar. Charlote aproxima-se de uma das grades de proteção próximas à beira do edifício e olha para baixo:

—É bastante alto.

—Acho que é por isso que alunos são proibidos de vir aqui.

—Sim, provavelmente era morte instantânea.

—Prefiro não pensar nisso... -Responde Andrew se aproximando.

—Você prefere pensar no que então?

—Recentemente por ter entrado no quarto dele tenho pensado no meu irmão.

—Eu sei do acidente, mas não sei muito sobre o teu irmão.

—Matthew era uma pessoa bastante divertida, eu sinto que você e ele iam se dar bem caso tivessem tido contacto. Ele tinha uma banda, gostava de ir a festas e estava sempre animado sobre alguma coisa. Ele era a pessoa que melhor me entendia e apoiava em casa. As coisas ficaram bastante difíceis quando ele morreu, mas eu acabei por me adaptar.

—Entendo, ele parece ter sido um bom irmão.

—Ele foi. -Responde Andrew encarando a linha do horizonte. -Ah, uma curiosidade, eu comecei a fumar porque achei um maço de cigarros no quarto dele e decidi experimentar.

—Okay, agora você desceu na minha consideração.

—Como assim? Porque?

—Você tem que fumar por razões egoístas ou você não pode ser um gangster.

—Mas eu não sou um gangster?

—Então não somos mais amigos, você tem que ser um gangster para ser meu amigo.

—Uau, tudo bem, então qual seria uma boa razão para fumar?

—O clássico seria não ter apego a vida ou querer morrer mais cedo, você dizer que começou a fumar cigarros apenas para experimentar drogas mais pesadas também era aceitável.

—Você parece conhecer pessoas bastante perigosas quando fala dessa forma...

—E quem disse que eu não conheço? -Sorri Charlote de forma convencida. -Eu conheço um cara chamado Vicente que tem uma arma.

—Eu não sabia que você se associava com esse tipo de pessoas... -Responde Andrew um pouco chocado. -E o que ele já fez com essa arma?

—Nada para ser sincero, o pai dele tem licença para caçar então existem algumas armas na casa dele.

Andrew encara Charlote decepcionado:

—O que? Você realmente esperava que eu conhecesse algum tipo de mafioso?

—Talvez? Não sei! Não consigo entender quando você está fazendo piadas ou não. Você já viu uma arma de verdade sequer?

—Boa pergunta. -Responde Charlote um pouco pensativa. -Não tenho certeza se era de verdade porque eu era pequena na época, mas uma espécie de padrasto meu tinha uma. Um revólver prateado. Era bem assustador para ser sincera, principalmente porque ele era um homem instável de merda então eu sempre sentia que havia o risco daquela arma ser usada.

—Isso parece uma situação bastante complicada para uma criança experienciar.

—Sim, minha infância não foi a melhor coisa de sempre.

—Posso te fazer uma pergunta?

—Vá em frente.

—Eu fui à tua casa algumas vezes, mas sempre vi só você e a tua mãe, o que aconteceu com o teu pai?

—Eu nem sei quem ele é para ser sincera. -Responde Charlote lembrando do passado.

Os dois continuam apoiados na grade de proteção enquanto observam a imensidão do mundo. Andrew abaixa a sua cabeça pensando que talvez tivesse ido longe demais:

—Desculpa, talvez não devesse ter perguntado.

—Tudo bem, se eu não quisesse explicar poderia ter mentido ou não respondido à pergunta. -Continua Charlote. -Minha mãe ficou grávida de mim durante a adolescência. Supostamente nem a família dela nem a família do meu pai lidaram bem com isso, então ela decidiu sair de casa, parar de estudar, arranjar um emprego e tentar cuidar de mim sozinha. Mas como é óbvio isso não deu muito certo então acabamos por passar por várias casas diferentes, umas melhores, outras piores, mas nada que nós realmente pudéssemos chamar de nosso. Até eu ter idade para conseguir ajudar a minha mãe, a partir daí as coisas melhoraram. Mas talvez já fosse tarde demais, não dá para simplesmente ignorar tudo o que aconteceu antes e tentar ser feliz. Mas eu admiro a minha mãe, por tudo o que ela lutou e por tudo o que ela fez por mim, ela é a minha única esperança nesse mundo.

—Vocês parecem ter uma boa relação então eu espero que as coisas continuem a dar certo daqui em diante.

—Eu também.

Andrew faz uma pausa e pensa no que deve dizer:

—Obrigado por me contar isso, saber mais sobre você me ajuda a te entender.

—Acha que me entende agora? -Ri Charlote.

—Um pouco mais, claro que não completamente.

Charlote reflete um pouco sobre a situação e entende a importância daquele momento:

—Para ser sincera, acho que essa é a primeira vez que falei disso com tantos detalhes com alguém. Eu não te disse tudo o que aconteceu, mas disse muito mais do que costumo dizer à outras pessoas. Eu normalmente evito o assunto ou dou explicações muito abstratas. Mas eu me sinto estranhamente confortável falando com você. Então...de certa forma, obrigado por ouvir.

Andrew sorri:

—Estou feliz que posso ser útil de alguma forma, eu sinto que você já me ajudou de tantas formas então gosto de retribuir o favor.

—Eu? Te ajudei? Como? Te fazendo ficar bêbado em dias de semana? Ou alimentando o teu vício?

Ele é pego de surpresa por aquelas palavras e acaba por rir:

—Me fazendo dar risada é o único exemplo que você aceitaria. Se eu dissesse coisas mais profundas, você ficaria negando, dizendo que você não é tão incrível assim ou que não são coisas difíceis de fazer.

—Tudo bem, então só para te contrariar, eu vou concordar com tudo o que você disser de mim!

A conversa é repentinamente interrompida pelo fim do intervalo:

—Ah, temos de ir embora. -Comenta Charlote.

—Eu te digo no próximo intervalo.

—Minhas aulas acabam um pouco mais cedo hoje e depois vou direto para casa.

—Então amanhã?

—Sim, fica para amanhã.

Os dois afastam das bordas do terraço, caminham para dentro do edifício, trancam a porta e depois seguem caminham separados:

—Até amanhã, Charlote!

—Até amanhã, Andrew!

Notas finais
Mais momentos entre Charlote e Andrew! Gosto de escrever essas cenas, especialmente quando eles falam sobre assuntos mais pessoais. Espero que estejam gostando.