Glass Humans
20 Tempestade
Notas iniciais
Charlote aproxima-se da recepção após seguir o procedimento habitual:
—Boa tarde, minha mãe está no mesmo quarto?
—Hoje não, ela foi mudada para um quarto diferente no fim da noite de ontem. -Responde aquela mulher de roupas brancas e longos cabelos negros encaracolados.
—Tudo bem, você pode me mostrar o caminho?
—Com certeza, me siga.
As duas caminham até o segundo piso do hospital e Charlote percebe uma pequena aglomeração de pessoas próximas à porta:
—Boa tarde, eu gostaria de ver a minha mãe. -Diz ela aproximando-se.
Vários olhares focam-se na sua direção:
—Você é...Charlote, não é? -Pergunta aquele médico com o rosto conhecido.
—Sim, vim aqui ver a minha mãe.
A atmosfera é um pouco desconfortável:
—Porque há tantas pessoas aqui? -Pensa Charlote tentando se manter calma. -Porque a minha mãe foi mudada de quarto?
—Sim, a sua mãe está nesse quarto. -Explica o médico fazendo uma pausa. -Mas ela está dormindo neste momento. A situação dela agravou-se desde ontem e tivemos que mudá-la de quarto.
—Eu posso pelo menos vê-la?
—Nesse momento estamos ocupados a realizar alguns procedimentos, acho que você tem que voltar mais tarde.
—Quanto tempo vocês vão demorar a realizar esses procedimentos?
—Algumas horas.
—Tudo bem, eu vou esperar aqui do lado de fora então.
Aquele homem observa a seriedade no olhar de Charlote:
—Vamos tentar ser o mais rápido possível.
Charlote entende que não deveria ver aquelas pessoas como inimigos, no fundo, ela sabia que a culpa não era de ninguém:
—Obrigada.
As pessoas ali presentes dirigem-se junto daquele médico para dentro da sala e começam a trabalhar na situação. Charlote encosta-se na parede e a sua mente começa a vagar:
—Porque isso está acontecendo? Minha mãe não fez nada para merecer isso. O mundo é tão injusto. E de alguma forma, é esperado que continuemos a seguir em frente. Me sinto cansada. Muito cansada...
O mesmo médico de antes sai da sala onde Nora está e entrega uma cadeira à Charlote:
—Você vai ficar cansada se estiver de pé durante todo esse tempo.
—Obrigada pela consideração. -Sorri ela.
Charlote senta-se e o doutor retorna à sala. O tempo passa e ela desce cada vez mais fundo nos seus pensamentos. Por falta de estimulo, os seus olhos começam a pesar e ela acaba por fechá-los. Uma memória de muitos anos atrás vem à superfície. Nítido como se fosse a realidade a frente dos seus olhos, Charlote vê as suas duas mãos, pequenas e macias, brincarem com um pequeno carro de brinquedo e um dinossauro de plástico:
—Ataque super velocidade! Oh, não, você quebrou a minha pata! Não vou conseguir fazer jantar para os meus filhos! -Diz ela dando vozes aos seus brinquedos.
Ela está sentada no chão, na sua frente existe uma grande caixa de plástico com vários brinquedos enquanto que à volta dessa caixa está caído uma pequena ambulância, um camião, um crocodilo e um polvo de pelúcia. Um homem está sentado num sofá à direita de Charlote enquanto assiste televisão com uma lata de cerveja na mão. Ele levanta-se incomodado e caminha na direção de Charlote:
—Não fique fazendo tanto barulho! Olha essa bagunça, guarde esses brinquedos!
—Mas a minha mãe disse que eu podia brincar...
—Pare de ficar retrucando! Nora! -Grita ele. -Porque a tua filha é tão mal-educada?
—Ela é só uma criança, deixe ela brincar, você só tem que pedir para ela falar mais baixo. -Diz Nora tentando apaziguar a situação.
—Eu passo o dia inteiro trabalhando para chegar em casa e não poder descansar em paz? Vocês devem estar brincando comigo!
—Eu também passei o dia inteiro trabalhando-
—An? Não tente comparar o teu trabalho ao meu! Não se esqueça que eu sou a pessoa que paga grande parte das contas da casa! O teu trabalho nem te dá dinheiro o suficiente para sobreviver!
Nora suspira e cede:
—Tudo bem, não quero discutir por conta disso. -Diz ela aproximando-se de Charlote e guardando os brinquedos espalhados pelo chão. -Vamos, filha. Vamos guardar isso e brincar no quarto com a mãe.
—Mas eu queria brincar aqui...
—Por favor, filha, agora não.
Charlote acaba por ceder e as duas afastam-se da sala. A porta do quarto onde ela costumava dormir é aberta, mas a sua mente viaja para uma data diferente. A casa é a mesma, Charlote abre os seus olhos e percebe que o seu corpo está maior. Era de noite, ela estava deitada e coberta, mas algo a impedia de dormir. Um pequeno ruído vinha da sala. Charlote levanta-se, caminha pelo corredor e encontra a sua mãe deitada no sofá da sala:
—Mãe, está tudo bem?
Nora tenta esconder as suas lágrimas e o hematoma no seu rosto:
—Sim, está tudo bem, filha.
—Porque você está chorando então?
—Não foi nada demais, eu caí e me machuquei.
—Eu vou fazer como você faz nos meus machucados então, vou dar um beijo para sarar mais rápido.
Nora sorri:
—Sim, isso é uma boa ideia.
Charlote aproxima-se e beija a bochecha da sua mãe:
—Está melhor?
—Sim, muito melhor, filha, obrigada.
—Posso dormir aqui com você?
—Sim, você pode, filha.
Ela coloca-se entre os braços da sua mãe e lentamente a sua consciência se dissipa. Ela abre os seus olhos e vê-se num lugar completamente diferente. Charlote carrega uma mochila nas costas enquanto segura a mão da sua mãe, que também carrega malas:
—Essa vai ser a nossa nova casa daqui em diante, Charlote. -Diz Nora. -Vamos lá conhecer a vovó e as suas tias.
Nora abre o portão negro e anda entre o jardim até a porta de entrada daquela grande casa bege. Charlote olha à volta e vê várias plantas em vasos assim como flores a crescer no jardim. Nora toca a campainha e passados alguns segundos a porta abre-se. Charlote consegue ver uma senhora com acentuadas rugas de expressão vestindo um robe. O olhar apático dela rapidamente foca-se na sua direção:
-Então essa é a tua filha, Nora? Ela não é muito bonita, mas pelo menos é magra e tem uma boa pele. Com sorte ela talvez ela seja mais inteligente do que você é.
Nora suspira
—Bom te ver de novo também, mãe. E por favor, não fale assim na frente de Charlote, ela só tem sete anos.
Charlote permanece calada sem entender a situação:
—Essa é a tua avó, Charlote. Dê oi para ela.
Ela observa aquela mulher ainda confusa. Charlote sabia o que o termo avó significava, mas não conseguia associar nenhuma emoção àquilo:
—Oi, vó.
A velha não se dá ao trabalho de responder, apenas abre passagem para Nora e Charlote:
—Venha, filha, vamos guardar as nossas coisas no nosso quarto. -Diz Nora entrando pela porta e trazendo Charlote.
Charlote limpa o pé no tapete e observa o hall de entrada. Existe um cabide à direita que é usado para suportar casacos, guarda-chuvas e outros objetos. Próximo a isso está um pequeno móvel com algumas gavetas. O chão de cerâmica juntamente de paredes brancas está presente naquela divisão da casa assim como nas restantes. Em frente há uma pequena área que serve como divisão entre a cozinha, sala de estar e um corredor que dá acesso aos quartos. Charlote foca o seu olhar na sala de estar e vê uma pequena mesa de vidro entre um sofá de couro e uma grande televisão. No sofá está sentada uma mulher que parece ter a idade da sua mãe.
Mais ao fundo, está uma mesa de madeira com seis cadeiras, e atrás disso uma divisão de vidro que leva ao jardim atrás da casa. Nora vira à direita e segue o corredor. Existem quatro portas, duas à esquerda e duas à direita. Nora entra na segunda porta à direita e Charlote segue-a. O quarto é pequeno, com uma cama, uma mesa de cabeceira, um guarda-roupas e uma janela de onde é possível ver a rua. A quantidade de pó e lixo espalhado pelo chão era insuportável. Também haviam roupas jogadas por cima da cama e outros objetos espalhados pelo quarto. Nora suspira:
—Foi aqui que morei grande parte da minha vida, mas não sinto nenhuma nostalgia em retornar. Elas podiam ter pelo menos conservado o quarto no estado que eu deixei...
Charlote olha para o seu lado e percebe que a presença da mulher que estava sentada no sofá. Ela tem estatura média, cabelo ruivo, mas com um tom que não parece natural e veste roupas leves e descontraídas:
—Nora, que bom te ver. -Sorri ela sem emoção. -Se você for limpar o quarto, depois coloca as minhas roupas que estão aí na minha cama, por favor, te amo fofinha.
Antes mesmo de Nora ter tempo de dar uma resposta, aquele ser humano retorna do lugar de onde veio:
—Aquela é a tua tia Patrícia, Charlote...
De um segundo para o outro, o mundo à sua volta começa a oscilar e as coisas ficam menos claras. Charlote abre os seus olhos e percebe que está sentada no corredor do lado de fora do quarto da sua mãe:
—Charlote, já terminamos o que tínhamos de fazer. -Diz o médico tocando o seu ombro para acordá-la. -Ela ainda está inconsciente, mas você pode vê-la. Está tarde, tente não ficar muito tempo.
Charlote balança a sua cabeça para mostrar que tinha entendido e entra na sala. A sua mãe tem várias máquinas ligadas ao seu corpo e está deitada na cama com a expressão mais pacifica que Charlote já vira:
—O que será que eu estou fazendo aqui? O que eu vim te dizer? Nada faz sentido. Você tinha que escutar. Você tinha que responder. Você tinha que estar aqui para as coisas fazerem sentido.
Charlote consegue ver que os batimentos cardíacos e respiração da sua mãe mantêm-se normais, apenas o ruído das máquinas pode ser ouvido. De alguma forma, ela não se sente triste. É algo muito mais vazio, talvez a ausência de um sentimento fosse o que ela sentisse:
—Passamos por tantas coisas juntas. Não pode acabar assim. Você não pode deixar acabar assim. Eu sei que você já lutou demais...mas por favor...continue lutando...eu preciso de você aqui...
A porta do quarto abre-se e uma enfermeira aparece:
—Desculpa, mas você tem que ir embora, o horário de visitas do hospital vai acabar em breve.
Charlote caminha calada até o primeiro piso, depois até a saída e em seguida até o estacionamento. Ela vai de bicicleta até à sua casa, liga a televisão e senta-se no sofá. O seu corpo quer apenas estar imóvel numa posição confortável. Ela não sente fome nem cansaço, apenas apatia. Várias horas se passam e ela percebe que o dia já é sexta-feira. Ela levanta-se e caminha até o banheiro. Charlote acende a luz e olha-se no espelho:
—Estou bastante decepcionada para ser sincera. Não sei o que está faltando, mas esperava algo a mais. Alguma espécie de magia. Um brilho característico nos meus olhos. Alguma coisa que desse a impressão de que sou especial.
Ela finalmente entende o erro do seu raciocínio e não consegue evitar rir:
—É isso. Não é especial. Dezoito ou vinte ou cem, um ano é só um ano. Um dia é só um dia. Minha vida é só mais uma vida. Não há nada de especial.
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