Notas iniciais
Acho que quando chegarmos no último arco, eu vou fazer as postagens dos capítulos serem duas vezes por semana. De qualquer forma, esse capítulo aborda alguns temas mais pesados envolvendo saúde mental então leiam com precaução!

—Mãe, precisamos ir a uma loja comprar roupas novas para mim. -Diz Charlote.

—Filha, esse mês está difícil até mesmo pagar as contas de casa, não acho que dê para comprar roupas. -Responde Nora lavando a louça.

—Todos os meus amigos andam sempre de roupas novas e as pessoas fazem piada de mim porque às vezes uso a mesma roupa durante vários dias.

—Talvez no próximo mês, filha.

—Eu nunca te peço nada, porque você não pode fazer pelo menos isso por mim?

—Charlote, eu estou fazendo o meu melhor. -Responde Nora aumentando o tom da sua voz. -Se eu te comprar roupas novas esse mês não vamos ter dinheiro para comprar comida.

—Você não pode trabalhar mais? Eu estou sempre te ajudando aqui em casa! Nenhum dos meus amigos faz isso! Porque você não pode fazer o que eu quero pelo menos uma vez?

—Porque não dá! Eu faria se pudesse, mas não dá! Você já é grande o suficiente para entender como as coisas funcionam.

—Você nunca me dá nada! -Reclama Charlote indo embora. -Você é uma péssima mãe.

Ela abre os seus olhos e percebe que estava apenas sonhando com um momento do passado. Charlote foca a sua atenção no seu celular e vê que são onze horas da manhã. Ela não tinha a intenção de ir à escola, mas agora mesmo que quisesse era tarde demais. Ela levanta-se do sofá e sente uma grande falta de energia no seu corpo. É difícil manter-se de pé e o seu senso de equilíbrio está desajustado:

—Preciso comer alguma coisa...

Charlote caminha até a cozinha, abre a geladeira e come os restos que encontra. Sentindo que tinha saciado a sua única necessidade, ela retorna para o sofá. A televisão está ligada, mas ela não podia importar-se menos com o que estava sendo exibido. Sem motivação para fazer algo, o seu corpo lentamente volta a dormir. Dessa vez uma memória recente é revivida. Era sexta-feira, o fim de uma semana exaustiva. Charlote tinha seguido a rotina de ir à escola, manter a máscara de uma pessoa alegre e empolgada, andar vários quilómetros de bicicleta até uma loja de conveniência, trabalhar durante quatro horas, retornar à casa, dormir e começar tudo de novo.

A sua relação com a sua mãe andava complicada. As duas passavam o dia inteiro ocupadas, chegavam à casa e ainda tinham de dividir as tarefas domésticas, o que gerava conflitos. Mas pelo lado positivo, ela tinha acumulado uma boa quantia de dinheiro e podia aproveitar o fim de semana sem preocupações. Já estava ficando tarde, mas por algum motivo a sua mãe ainda não tinha retornado à casa. Charlote começa a fazer as suas preparações para ir dormir quando ouve o barulho da porta de entrada abrir. Nora senta-se na mesa da cozinha enquanto respira fundo e tenta se acalmar:

—Está tudo bem? -Pergunta Charlote.

—Não, nem um pouco. -Responde Nora.

—O que aconteceu?

—Tanto faz, Charlote, vá dormir.

—Olha a ignorância! Parece ter sido alguma coisa importante então eu gostaria de ouvir já que deve me envolver.

Nora suspira:

—Aquele homem tinha feito alguns empréstimos no meu nome, mas eu não lembrava disso! Os juros acumularam e agora o banco veio cobrar. Eu não tenho condições de pagar aquilo e ainda ter dinheiro para sobrevivermos esse mês.

—Você não pode pegar dinheiro emprestado de alguém? Tipo a tua mãe?

—Charlote, nós não estaríamos aqui se a tua avó fosse uma pessoa confiável. Eu não sei o que fazer...No pior dos casos, eles vão levar tudo o que temos aqui dentro para limpar a dívida.

Charlote lentamente entende a situação e tudo o que ela consegue sentir é nojo. Independente de quão longe elas fugissem era impossível escapar ao passado. Não lhes era permitido ter nada. Não importava o quanto elas criassem, sempre haveria alguma coisa para destruir. Era um ciclo infinito de tortura. Sempre voltando à estaca zero. Sempre tendo de recomeçar. Sempre tendo de sacrificar tudo para tentar viver como um ser humano normal. Nunca mudava. Desde que Charlote lembrava estar consciente esse era o mundo à sua volta.

—Está tudo bem, mãe. -Sorriu Charlote. -Eu tenho dinheiro.

—Você tem o dinheiro?

—Sim, estou economizando o dinheiro do meu trabalho há uns três meses então deve ser o suficiente.

Lágrimas começam a escorrer no rosto de Nora enquanto o seu corpo enche-se de alívio:

—Charlote...muito obrigada...eu prometo que vou te devolver esse dinheiro, não importa quanto tempo demore.

—Não é preciso, você está sempre fazendo coisas por mim e nunca pede para eu te pagar.

—Filha...você não tem noção de quanto isso ajuda...

—Eu vou deixar o dinheiro em cima da mesa amanhã, mas vou dormir por hoje. Estou bastante cansada.

—Tudo bem, filha, boa noite.

—Boa noite, mãe.

Charlote caminha até o seu quarto, fecha a porta e senta-se na sua cama. Lágrimas começam a escorrer pelo seu rosto enquanto a sua respiração fica progressivamente irregular. Ela agarra o seu travesseiro e usa-o para abafar a sua voz:

—Merda, merda, merda, merda, merda, merda...

Por mais que tente pensar em outra coisa, a sua mente parece ter tomado uma decisão quando ela decidiu dar aquele dinheiro. Não era a primeira vez que ela tinha tido aquele pensamento, mas ele nunca tinha sido tão intenso como agora. Ela continua os seus murmúrios por alguns minutos até conseguir acalmar-se, mas a sua decisão continua a mesma. As coisas parecem estranhamente claras, como se aquele fosse o caminho certo a ser seguido. Ela ouve a sua mãe caminhar pelo corredor, entrar no seu quarto e fechar a porta. Charlote pega uma caneta e uma folha de papel. Ela pensa em como explicaria aquilo, mas rapidamente percebe que não existe explicação.

Charlote decide ser simples e direta: “Desculpa, sei que não deveria ter feito isso, mas não sou tão forte quanto você. Não se culpe. Espero que as coisas deem certo daqui em diante, com amor, Charlote.”. Ela tira um amontado de dinheiro de dentro de uma gaveta, caminha até a cozinha, coloca a nota e o dinheiro em cima da mesa, pega uma faca e se dirige ao banheiro. Charlote fecha a porta, tira a sua roupa, senta-se dentro da banheira e deixa a água correr.

Parece merecido. Como se fosse o descanso que ela precisava. Tudo o que ela passou para chegar até aqui, todos os momentos horríveis que ela enfrentou, todas as vezes que ela caiu, mas se levantou e continuou a lutar:

—Eu fiz o suficiente, né? Acho que outras pessoas teriam desistido muito mais cedo, mas eu continuei tentando e tentando. Todos os dias. Eu nem tinha motivos. Eu nem estava tentando atingir algum objetivo. Eu só queria sobreviver, chegar ao fim do dia...ter uma vida normal. Mas é difícil demais. Eu estou cansada. Não quero acordar amanhã acreditando que vai ser um dia melhor, porque nunca é. As coisas pioram ou se mantêm a mesma coisa. Isso tudo...é demais para mim. Eu não quero mais ter que fazer isso...

Mais lágrimas escorrem pelo seu rosto enquanto as suas mãos tremem, mas a sua expressão facial mantem-se a mesma. Ela segura a faca com mais força. A dor aguda faz com que ela tenha de se controlar para não gritar. Sangue escorre e muda a cor da água enquanto ela troca a faca de mão. Sem força na sua mão direita, o segundo corte é muito mais difícil de ser executado com profundidade. Ela faz o seu melhor até não conseguir mais suportar a dor. A faca cai dentro da banheira enquanto ela deixa os seus braços afundarem na água e encosta a sua cabeça para trás.

Ela tenta não pensar no que a sua mãe ou amigos diriam enquanto a sua visão fica cada vez mais desfocada. Nora está quase dormindo quando sente uma sensação estranha no seu corpo. Ela consegue ouvir o som da água vindo do banheiro, mas acha isso estranho já que Charlote havia dito que ia dormir. Ela levanta-se e decide investigar a situação. Nora bate na porta do banheiro:

—Charlote, você não disse que ia dormir?

Charlote consegue ouvir a voz da sua mãe, mas não tem energias para responder:

—Charlote?

Nora bate mais algumas vezes e fica impaciente:

—Eu vou entrar.

A porta abre-se e os olhares delas encontram-se. Charlote fica com a expressão de desespero no rosto da sua mãe marcada na sua memória. Ela, abre os seus olhos, agitada como quem acorda de um pesadelo e olha à sua volta. O seu corpo continuava deitado naquele sofá. Percebendo que está de volta à realidade, um pensamento surge na sua mente:

—Porque será que eu não tranquei a porta do banheiro?

Apesar de fazer a pergunta, Charlote não consegue pensar numa resposta definitiva. Talvez ela tivesse simplesmente esquecido ou talvez ela tivesse a esperança de que alguém tentaria impedi-la. De qualquer forma, ela estava cansada de dormir e ainda mais cansada de pensar sobre o passado. Charlote levanta-se do sofá, caminha até o seu quarto, abre a sua mochila e confere o seu maço de cigarros:

—Isso deve ser o suficiente para o fim de semana.

Ela volta ao mesmo lugar de antes e acende um cigarro. Charlote pensa nas consequências que teria de sofrer caso a sua mãe descobrisse aquilo, mas ao mesmo tempo, ela não se importava de ter de sofrer se isso implicasse a sua mãe voltar para casa naquele momento. A realidade infelizmente não era tão agradável. Charlote termina o seu cigarro e vê-se sozinha como antes. Ela pensa em visitar a sua mãe no hospital, mas não sabe se isso é uma boa ideia. Talvez ir visita-la assumindo que o estado dela continua o mesmo fosse a melhor opção. Charlote já tinha o seu psicológico bastante abalado e não queria ter de enfrentar outra decepção:

—Ou posso ficar sentada aqui o fim de semana inteiro. Duvido que faça alguma diferença.

Notas finais
As coisas ficam cada vez mais negras conforme a narrativa progride e entendemos a história de Charlote, enquanto encara o abismo a qual conclusão ela chegará? Numa nota a parte, hoje é natal! XD Um pouco triste um capítulo mais para baixo como esse sair no natal, mas espero que vocês estejam aproveitando e se divertindo! Bom natal!