Glass Humans
1 Prólogo
Notas iniciais
Tudo estava escuro e silencioso, mas era um vazio estranhamente confortável. Um ruído começou a soar, imperceptível no começo, mas conforme ficava gradualmente mais alto, ele entendeu que se tratava de uma voz. As palavras eram incompreensíveis e pareciam extremamente distantes:
—Andrew! Andrew! Acorde!
Ele, assustado, abriu os seus olhos rapidamente enquanto olhava os seus arredores:
—Já não é a primeira vez que isso acontece, eu vou ter que reportar isso aos teus pais. -Disse aquela mulher adulta, que tinha curtos cabelos grisalhos. O seu rosto, com rugas que demonstravam a sua idade, tinha uma expressão bastante séria e decepcionada.
—Por favor, professora, eu te peço que não faça isso. Eu não me importaria de fazer algum trabalho a mais e também prometo que isso não irá voltar a acontecer, mas por favor, não há necessidade de levar isso até aos meus pais.
A mulher balançou a sua cabeça enquanto fitava-o com os seus olhos negros:
—Vou pedir que você faça um trabalho sobre a matéria que eu expliquei nesta aula, mas se isso voltar a acontecer, não hesitarei em contactar quem quer que seja necessário. Estamos entendidos?
—Sim, com certeza. -Suspirou ele aliviado. -Obrigado.
A professora retornou ao quadro e prosseguiu com a aula. Ele esfregou as suas mãos nos seus olhos enquanto bocejava. Olheiras eram bem visíveis no seu rosto:
—Tenho que começar a gerir melhor minhas horas de sono. -Pensou Andrew. -Agora o problema é: como eu vou fazer esse trabalho se não ando tendo tempo livre nenhum? Parece que vou ter que perder mais algumas horas de sono...
Ele abandonou os seus pensamentos e decidiu focar-se no restante da aula, escrevendo as anotações que achasse necessárias e tentando absorver o máximo possível daquelas informações. Não demorou muito para aquele som típico indicar que aquela aula tinha chegado ao fim e que o intervalo começara. Andrew apenas deixou a sala de aula porque era obrigatório, já que ele não tinha nada para fazer lá fora.
Haviam quatro pisos naquele edifício escolar não incluindo o terraço que estava fora do alcance dos alunos. Andrew estava nesse momento no segundo andar. Ele caminha até o fim do corredor e usa as escadas para descer até o térreo. Após passar pela entrada principal daquele edifício, ele vê-se no pátio entre o pavilhão, lugar onde os alunos praticavam atividades físicas e o prédio da administração, sede da biblioteca, secretária, direção e outros serviços escolares.
Andrew dirige-se para a biblioteca, senta-se numa mesa e finge que está lendo um livro. No momento em que percebe que ninguém está o vigiando, ele apoia os seus braços na mesa, a sua cabeça em cima dos seus braços e tenta dormir. Com sorte, ele poderia descansar durante alguns minutos e evitar adormecer na próxima aula.
A sua consciência rapidamente desmanchou-se e só voltou quando o toque de entrada soou. Ele guardou o livro que fingira ler e retornou para a sua sala. Os alunos reuniam-se em grupos na frente da sala à espera do professor, enquanto ele mantinha-se um pouco afastado do resto. O professor finalmente chegou e os alunos puderam entrar.
O tempo voou e quando ele percebeu já tinha chegado ao seu próximo objetivo. O seu dia até agora havia sido extremamente cansativo, mas tudo tinha apenas começado. Ele caminha ao longo da negra cerca metálica que delimita a sua casa até o portão. Andrew tira uma chave do seu bolso, abre-o, anda no pequeno caminho de pedras de mármore que divide o seu jardim ao meio e destranca a porta da sua casa. Ele limpa os pés no tapete e entra. No hall de entrada existe apenas uma pequena estante com algumas gavetas e espaços para vários objetos. O chão é feito de azulejos quadrados que formam losangos negros nos seus vértices e se espalha pelo restante da casa.
Andrew dá alguns passos e à sua direita consegue ver a porta da cozinha aberta juntamente de alguns ruídos que vêm daquela direção:
—Pai? Mãe? -Perguntou ele levantando o tom de sua voz.
—Sim, sou eu, filho. -Respondeu uma voz feminina. -Saí um pouco mais cedo do trabalho e já estava pensando em fazer o jantar.
Ele aproxima-se e entra na cozinha. No centro daquela divisão estava um lustre com vários ornamentos e cinco lâmpadas. Abaixo disso, uma mesa de vidro com quatro cadeiras. A parede à direita de Andrew é onde está encostada a geladeira e mais ao fundo a máquina de lavar roupa, todas as restantes paredes são preenchidas com armários inferiores e superiores. Na parede à esquerda dele, existe uma lacuna nos armários inferiores onde está a pia e uma máquina de lavar louça.
De frente a porta e a Andrew está a sua mãe, Laura, uma mulher de meia idade, com cabelos longos, lisos e castanhos. Ela vestia uma saia preta de tamanho médio junto de saltos altos e uma camisa vermelha, que era apertada e destacava a sua silhueta. Era um pouco menor que Andrew, magra, com modestas proporções e esbanjava lindos olhos verdes. A frente dela estava o fogão encaixado entre vários armários junto de um balcão de granito preto.
—São só seis horas ainda, não é muito cedo? -Perguntou ele.
—Tenho certeza que o seu pai vai chegar cansado e com fome do trabalho. -Respondeu ela com sua voz tipicamente suave e agradável. -Também é melhor para você, já que pode jantar e depois concentrar-se nos seus estudos até a hora de dormir sem preocupações.
Ele simplesmente concordou, retornou ao hall de entrada e continuou seguindo em frente até as escadas que davam acesso ao primeiro andar. Ele caminhou ao longo do corredor e passou por uma porta à esquerda, o quarto dos seus pais, e duas portas à direita, a primeira sendo o quarto do seu irmão e a segunda sendo o seu. Andrew abre-a e entra no seu quarto. Este era uma boa representação de sua alma, simples e preenchido apenas com o necessário. À esquerda da porta ficava a sua cama, à direita, encostado a parede, havia uma estante com vários livros e uma cómoda com roupas, seguindo a parede e próximo à janela estava a sua escrivaninha com alguns livros, papéis, canetas e outros materiais juntamente de uma cadeira.
Ele pousou a sua mochila num canto da parede, puxou a cadeira e sentou-se, dando continuidade ao que estava fazendo no dia anterior. A sua mente focou-se completamente no que acontecia em cima daquela mesa e a sua percepção de tempo perdeu-se. A sua concentração foi interrompida com algumas batidas na porta de seu quarto:
—Andrew, o jantar já está pronto, vamos comer. -Disse aquela familiar voz feminina.
Ele levantou-se e respondeu:
—Tudo bem, mãe, estou indo.
Andrew saiu do seu quarto, desceu as escadas e sentou-se no lugar na frente do seu pai, Sérgio, na mesa. Aquele homem tinha pele escura, junto de uma barba e bigode grossos. Robusto e com um olhar sério no seu rosto destacados pelos seus olhos negros, ele trajava uma camisa azul e o restante do seu vestuário era escondido pela mesa:
—Como foi o teu dia, Andrew? -Perguntou ele com a sua voz grave.
—Foi bastante normal.
—Entendo, e quando começam os teus testes?
Andrew sentia a pressão vindo daquelas perguntas e por isso sentia-se desconfortável em responder:
—Na próxima semana.
—Você sabe que tem de se esforçar e conseguir bons resultados, certo?
—Sim, eu sei, pai. -Respondeu ele evitando fazer contato visual.
—Sabe, eu e a sua mãe temos bastante expectativas em você, Andrew. Você tem demonstrado um esforço honorável então tenho certeza que tudo dará certo, não é mesmo, Andrew?
Ele sabia que estudava em uma escola prestigiosa e que o seu pai estava investindo no seu futuro, mas essa fixação por resultados por vezes era demais.
—Sim, pai.
A sua mãe trouxe a comida para a mesa e sentou-se também:
—Andrew, poderia fazer o favor de ir chamar o teu irmão para vir jantar? -Pediu ela.
Ele levantou-se e andou até ao quarto do seu irmão. Ao aproximar da porta, ele era capaz de ouvir diversos sons característicos de um violão. Ele bateu com força na porta e ao perceber que não tinha sido ouvido, chamou pelo nome do seu irmão:
—Ma.
O ruído parou e ele escutou alguns passos em direção à porta, logo em seguida, ela abriu:
—Ah, desculpa, eu estava tocando e não te ouvi chamar. -Sorriu ele. -O que você quer, An?
A porta estava apenas parcialmente aberta por isso não era possível ver todo o quarto. O irmão de Andrew parado à porta era um jovem adulto que tinha os olhos verdes e pele clara da sua mãe. Mas ele transmitia uma energia muito diferente do resto da família, vestia shorts e chinelos junto de uma camiseta. O seu cabelo apesar de liso, estava totalmente bagunçado. As suas roupas estavam amassadas e tudo isso contribuía para uma sensação de desleixo.
—Ma, a mãe está te chamando para vir jantar. -Repetiu Andrew.
—Agora não vai rolar, eu estou ocupado. Depois eu vou.
Andrew suspirou porque sabia que tudo aquilo que ouviu não passava de uma mentira:
—Eu estou sentido o cheiro de cigarro vindo do teu quarto, se a mãe ou o pai descobrir, você sabe que eles vão encher o teu saco.
Matthew sorriu, colocou a mão na cabeça de Andrew e bagunçou o seu cabelo:
—Valeu pela dica, cabeçudo.
Andrew sorriu e logo em seguida, tirou a mão do seu irmão da sua cabeça enquanto voltava para a cozinha. Ao chegar lá, ele foi recebido pela ira do seu pai:
—Onde está Matthew? -Perguntou ele.
—Ele disse que estava ocupado... e que vinha jantar mais tarde. -Respondeu Andrew
—Ele podia deixar essa atitude infantil de lado e vir jantar com a família dele. Mas é como dizem, não criamos filhos para nós, criamos para o mundo.
—Vocês discutiram ontem então talvez seja melhor assim por enquanto. Vamos apenas deixar isso de lado e comer antes que a comida esfrie. -Comentou Laura.
Sérgio suspirou e começou a comer. Andrew juntou-se à mesa e fez o mesmo. Todos jantaram silenciosamente enquanto o clima na mesa deixava-o inquieto. Ele podia perceber claramente que o seu pai não estava nada feliz e por isso queria apenas sair o mais rápido possível daquele lugar. Ele terminou de comer, levantou-se, colocou o seu prato na pia e despediu-se:
—Obrigado pelo jantar, eu estou voltando para o meu quarto.
—Não vá dormir muito tarde. -Sorriu a sua mãe.
—Boa sorte nos estudos. -Disse o seu pai.
Ele saiu da cozinha e regressou ao seu quarto, mergulhando novamente nos seus livros. Andrew estudou até adormecer em cima da sua mesa e só acordou quando o seu despertador indicou que era a hora. Com os seus olhos ainda meio fechados, ele dirigiu-se até o banheiro e lavou o seu rosto.
As suas olheiras estavam ainda mais visíveis e o seu corpo ainda mais cansado do que ontem. Ele suspirou:
—Com sorte consigo sobreviver até o fim de semana.
Fale com o autor