Glass Humans
2 Incidente
Notas iniciais
—Três minutos e quarenta segundos, bom trabalho, Christian. -Dizia o professor dando um fraco tapa nas costas do seu cansado aluno.
Era um dia ensolarado com poucas nuvens e altas temperaturas, mas nada que impedisse a realização daquela aula de educação física. O professor era um homem de pele e olhos escuros, lábios grossos e um olhar distraído. O seu corpo musculoso era destacado pelas suas roupas curtas e para proteger-se do sol, ele usava um boné.
Na sua mão ele tinha um cronómetro e parado à frente da linha de chegada, ele marcava o tempo dos alunos anotando-os em seguida num papel. Praticamente todos os alunos haviam terminado e andavam à volta do professor enquanto respiravam ofegantemente. A única pessoa que ainda estava na pista de corrida era Andrew.
Ele corria, respirando de forma extremamente irregular e com os seus olhos semicerrados. Passado algum tempo, Andrew finalmente cruza a linha de chegada:
—Cinco minutos e sete segundos, você tem que se esforçar mais na próxima, Andrew.
O seu corpo magro e frágil estava extremamente cansado, por mais que ele se esforçasse era bem possível que os resultados não fossem mudar. Sem forças para dar uma resposta apropriada, ele simplesmente balançou a cabeça mostrando que tinha entendido. Um outro aluno aproximou-se dele enquanto ria:
—Você está indo rápido demais, Andrew. Assim ninguém consegue te acompanhar.
Comentários maldosos não eram raros, mas não era como se Andrew estivesse orgulhoso da sua condição física ou algo do género então ignorá-los não era difícil. A aula prosseguiu com o pior acontecimento imaginável para ele: um esporte em equipes. Agora quando fracassasse, ele teria que lidar não só com a sua frustração, mas como também com a frustração do restante da sua equipe. De certa forma, ele até considerava aquilo justificável. Andrew conseguia entender como sua a participação medíocre poderia afetar o aproveitamento e diversão das outras pessoas.
Após vários minutos de tortura, a aula finalmente chega ao fim. A turma recolhe os materiais que haviam sido usados durante a aula e desocupa aquele lugar enquanto Andrew permanece deitado no chão. Ele estava fisicamente e psicologicamente exausto:
—Porque educação física é uma disciplina obrigatória?
Após descansar por alguns minutos e conseguir recuperar o seu fôlego, ele levantou-se e foi embora daquele lugar antes que a próxima turma chegasse. Andrew tirou as suas roupas molhadas de suor, tomou um banho rápido e caminhou para fora do pavilhão:
—A sala do teste é no primeiro piso se não me engano. -Pensa ele entrando no edifício escolar principal.
Ele queria ter tido tempo de revisar algumas coisas antes da prova que teria, mas mesmo assim sentia-se relativamente seguro. O seu maior inimigo era o seu nervosismo. A ansiedade que tomava o seu corpo naquele momento havia se tornado frequente recentemente. Enquanto caminhava para a sala, a sua respiração ficava ofegante e o seu coração começava a bater mais rápido.
—Calma, você estudou para esse teste. Você está preparado, tudo vai dar certo. -Sussurrava ele para si mesmo.
Ele colocou a sua mão sobre o seu peito e fez força na tentativa de se acalmar. Andrew finalmente chegou na porta da sua sala, mas ao esticar a mão para tocar a maçaneta, um pensamento correu a sua cabeça como um relâmpago:
—E se tudo não der certo? E se eu esquecer o que estudei?
A sua mão imediatamente recuou e ele perdeu a confiança necessária para abrir aquela porta. Mesmo que soubesse que aquilo tudo eram apenas inseguranças da sua mente, era fácil perder o controle da situação e entrar num ciclo de pensamentos negativos. Ele recua ainda mais enquanto tenta acalmar-se, mas isso parece ter o efeito contrário. A sua visão começa a ficar turva, a sua cabeça pesada e o seu corpo sem equilíbrio:
—E se eu fracassar?
Ele observa como as suas mãos tremem e lentamente suor frio forma-se no seu rosto:
—Preciso me acalmar...
Enquanto tenta pensar em algo positivo, os seus esforços são abafados por mais dúvidas. Com a sua mente confusa, o seu coração começou a bater ainda mais rápido do que antes e uma sensação de desconforto começou a se alastrar pelo seu peito:
—Todo o meu esforço vai ser inútil...O meu pai vai ficar decepcionado comigo...
Ele sentiu como se houvessem espinhos na sua garganta e não conseguiu controlar-se. Andrew apoiou a sua mão na parede, abaixou a sua cabeça e vomitou o pouco que havia no seu estômago. Ele esperou que ao fazer aquilo as coisas melhorassem pelo menos um pouco, mas ele estava errado.
A dor na sua cabeça começou a tornar-se insuportável, os seus olhos queimavam, os seus braços e pernas pareciam perder força e as vertigens ficavam cada vez mais fortes. Ele afastou-se da porta e não conseguiu manter-se de pé. O seu corpo magro chocou-se contra o chão sem fazer muito barulho enquanto ele perdia a consciência.
Tudo permaneceu negro por um bom tempo. Ao abrir os olhos novamente, ele viu-se deitado numa cama de hospital. Não muito longe dele estavam sentados os seus pais. Andrew tentou mover o seu braço e percebeu que o seu corpo estava fragilizado. Os seus pais, ao perceberem que ele tinha abertos os olhos, sorriram:
—Filho, que bom que você está bem. -Abraçou-o a sua mãe.
Andrew apenas permaneceu com um olhar confuso no seu rosto enquanto tentava entender a situação:
—Se você estava se sentindo mal, podia ter ficado em casa -Disse o seu pai com a sua seriedade padrão.
—Entendo, então eu desmaiei naquele momento. -Pensou ele.
Mesmo naquele estado, ele sentia-se bastante feliz por ter sido alvo da preocupação dos seus pais:
—Não se preocupe, já falamos com o teu professor e você pode repetir o teste amanhã. -Continuou Sérgio.
A sua felicidade foi instantaneamente expurgada da sua mente. Andrew fechou o seu punho com força para tentar aliviar o seu nervosismo:
—Ah, sim, o teste...
Ele escutou o barulho da porta sendo aberta e viu um médico vestindo um jaleco entrar naquele quarto com uma folha de papel apoiada numa prancheta na sua mão:
—Fizemos algumas análises e vimos que está tudo praticamente bem. Apenas cuide melhor da sua alimentação e medicação não será necessária. O que provavelmente aconteceu hoje foi insolação.
—Podemos levá-lo para casa então?
—Sim, não há problema. -Respondeu aquele homem.
Andrew e a sua família levantaram-se enquanto ele era auxiliado no seu caminho até o carro. Todo esse procedimento havia feito ele perder todas as suas restantes aulas do dia, mas o seu pai e a sua mãe ainda tinham que trabalhar. Andrew foi levado à casa e em seguida eles prosseguiram com as suas vidas. Ele ainda sentia algum cansaço e desconforto no seu corpo, por isso, subiu as escadas com cautela. Quando estava quase na porta do seu quarto, ele ouviu a voz do seu irmão:
—An, está tudo bem contigo?
—Mais ou menos.
O seu irmão abriu a porta do seu quarto e exibiu o seu costumeiro visual despreocupado:
—Entra aí, vamos conversar.
—Eu não tenho tempo, Ma. -Respondeu Andrew visualmente abatido. -Eu já perdi as aulas de hoje, isso tudo vai atrapalhar o meu cronograma.
Matthew sorriu e arrastou o seu irmão mais novo para dentro do seu quarto. Aquela divisão da casa estava totalmente bagunçada, a cama próxima da parede tinha os lençóis e travesseiros desarrumados, o guarda-roupas estava aberto com o seu conteúdo jogado pelo chão, o computador em cima da escrivaninha estava enrolado em fios e um violão estava caído perto da janela.
Ele puxou uma cadeira e fez Andrew sentar-se enquanto aproximava-se da janela:
—An, eu já te disse. Eu não tenho tempo para isso.
—Você sabe que não vai sair daqui enquanto não contar o que aconteceu. -Retrucou Matthew abrindo a janela.
Matthew tirou um maço de cigarros do seu bolso e carinhosamente pegou um cigarro. Com a sua outra mão, ele buscou um isqueiro do seu outro bolso e acendeu o cigarro. Andrew observava o quarto do seu irmão enquanto suspirava:
—Está tudo tão bagunçado e cheira mal. Eu já te disse, você deveria parar de fum-
Antes mesmo que pudesse terminar a sua frase, Andrew foi atingido por algum projétil. Ao olhar para o chão, ele percebe que Matthew havia atirado uma borracha:
—Só pessoas legais podem entrar no meu quarto, não seja chato, o pai e a mãe já fazem isso.
Andrew abaixa-se e pega a borracha no chão:
—Eu vou ficar com essa borracha como vingança.
Matthew colocou o cigarro na sua boca e depois exalou a fumaça para fora do quarto pela janela:
—Mas vamos, me conte o que aconteceu.
Andrew suspirou mais uma vez:
—Tudo bem...
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