Glass Humans
6 Dor
Notas iniciais
—E essa é toda a matéria que vocês precisam saber para o exame final. -Concluiu o professor.
Todos os alunos na sala suspiram aliviados enquanto o professor termina de escrever no quadro negro e senta-se na sua cadeira:
—Vocês sabem que o exame final vale uma boa porcentagem da vossa nota então não deixem para estudar na última hora.
Andrew sequer prestava atenção aos conselhos do professor, a sua mente estava ocupada demais calculando se iria conseguir estudar o suficiente para cada uma das disciplinas:
—E por favor, não se atrasem, eu já vi mais alunos do que gostaria não poderem fazer os exames por causa de atrasos.
Aquele homem conferiu o relógio no seu pulso e decidiu que ainda havia bondade no seu coração:
—Podem sair mais cedo.
A turma comemorou de forma muito emotiva e foi imediatamente repreendida pelo professor. Depois de aprenderem com o erro, os alunos, dessa vez calmamente, arrumaram os seus materiais e saíram da sala. Andrew fez o mesmo já pensando no que faria ao chegar à casa. Essas últimas semanas tinham sido especialmente desgastantes.
Quando não estava ocupado comendo, dormindo ou estudando, ele estava pensando no que deveria estudar. Andrew sentia que não podia desperdiçar um segundo sequer e punha mais pressão em si mesmo conforme a data dos exames se aproximava. Ele chegou à casa e se trancou no seu quarto até perder a noção de tempo.
Como o habitual, uma mão aproximou-se da porta do seu quarto e bateu suavemente algumas vezes:
—Filho, o jantar está pronto, vem comer.
Andrew voltou à realidade e ponderou a decisão durante alguns segundos:
—Já estou indo mãe, me dá só um pouco mais tempo.
A sua mãe ouviu a resposta, concordou e retornou silenciosamente à cozinha. Andrew, sabendo que seu o pai não gostava que os seus filhos não participassem dos jantares de família sem razões devidamente justificáveis, fechou os seus livros e desceu para a cozinha. O seu pai e a sua mãe já estavam sentados como de costume.
Ele pegou um prato, retirou algumas almôndegas acompanhadas de massa e juntou-se a eles:
—Querido, eu recebi um aviso da companhia de eletricidade a dizer que a conta não tinha sido paga, você sabe de alguma coisa em relação a isso? -Perguntou Laura.
—Eu tive alguns problemas com a minha conta bancária, mas está tudo bem, eu resolvo isso quando tiver tempo. -Respondeu Sérgio.
—Obrigada, mas não se esqueça disso, se acabarem por cortar a nossa eletricidade é preciso pagar uma taxa para religá-la.
Andrew comia sem muito entusiasmo enquanto ouvia a conversa dos seus pais. Sem se dar ao trabalho de apreciar a comida, a sua mandíbula mastigava de forma quase automática:
—Como vão os estudos, Andrew?
—Vão bem. -Respondeu ele sem fazer contacto visual com o seu pai.
—Ótimo.
Finalmente tendo terminado a sua refeição, ele levantou-se da mesa, pousou o seu prato na pia, despediu-se dos seus pais e retornou ao seu quarto. Andrew focou-se novamente nos seus livros e continuou repetindo aquela mesma rotina durante uma semana. Finalmente o dia do seu primeiro exame final havia chegado e o seu nervosismo não podia ser maior.
O aperto no seu coração era constante e nada aliviava-o. As suas mãos suavam e o seu corpo parecia pesado. Mas tudo o que ele podia fazer era tentar distrair-se. Andrew sabia que mesmo se estudasse agora não seria capaz de absorver mais informações. Tentar relembrar o que já tinha estudado no seu estado atual apenas deixava-o mais confuso e pensar sobre o exame aumentava a sua ansiedade.
Ele não tinha dormido quase nada durante a noite, mas com tantas emoções à flor de sua pele, ele também não sentia cansaço. Andrew fez os procedimentos padrões de todas as suas manhãs e partiu para a escola. Às vezes, imagens do dia em que ele havia desmaiado no corredor retornavam à sua mente e deixavam-no ainda mais preocupado. Ele tinha medo que aquilo acontecesse de novo, mas sabia que dessa vez as consequências seriam muito piores.
Ele cerrou o seu punho enquanto tentava acalmar a sua mente:
—Vai dar tudo certo...pensar muito apenas piora a situação...calma...
Andrew respirou fundo mais vez e se aproximou da sala do exame. Ele entrou sem fazer barulho, sentou-se, recebeu um teste do professor e começou a fazê-lo. Mesmo que tivesse mais dificuldade em responder coisas que em situações normais seriam simples para ele, Andrew foi capaz de realizar o exame de uma forma que o deixava satisfeito.
Havia sempre um pequeno medo na sua consciência, de que talvez ele tivesse feito tudo errado, mas o pouco de confiança que ele possuía em si mesmo fazia-o ignorar aquilo. Não valia a pena refletir sobre o assunto de qualquer forma, ele tinha apenas que esperar pelo resultado dos exames agora.
Andrew chegou à casa muito mais psicologicamente desgastado do que nunca aquele dia. A concentração necessária para realizar os exames exigiam bastante da sua mente. Mas ele não tinha o privilégio de perder tempo. Andrew rapidamente estudou o que considerou necessário para o próximo dia e deitou-se mais cedo, pois sabia que precisava descansar mais.
Juntando toda a sua determinação e força de vontade, Andrew conseguiu chegar ao penúltimo dia dos exames vivo e satisfeito. Completamente exausto e à beira do colapso, ele arrastou o seu corpo de volta para o seu quarto, mas no caminho ouviu uma voz conhecida:
—An? -Disse Matthew abrindo a porta do seu quarto.
—Ma. -Respondeu Andrew com os seus olhos semicerrados.
—Uau...você parece morto, tudo bem contigo?
—Sim...só...um pouco cansado.
—Tudo bem, eu vou embora amanhã de manhã então não sei se vou ter tempo de me despedir, por isso decidi fazer isso agora.
—Já era essa semana? -Perguntou Andrew surpreso.
—Sim, eu te avisei semana passada.
—Desculpa, por causas dos exames eu esqueci completamente.
—Não tem problema. -Sorriu Matthew.
Os dois simplesmente permaneceram em silêncio enquanto se encaravam:
—Sim, esse momento é um pouco constrangedor. Mas vamos, não tenha vergonha, seu irmão mais velho vai finalmente sair de casa, é uma ocasião especial então podemos nos abraçar e não sermos julgados por isso.
Andrew riu e se aproximou de Matthew. Os dois abraçaram-se e Andrew fechou os seus olhos. No meio do seu cansaço, o abraço do seu irmão parecia muito mais aconchegante e quente. Matthew, percebendo que ele estava quase dormindo de pé, bagunçou o seu cabelo:
—Você está completamente morto. -Riu ele. -Mas tudo bem, descanse bem, boa sorte com os teus exames e vê se responde às minhas mensagens!
Andrew balançou a cabeça para mostrar que tinha entendido e caminhou de volta para o seu quarto. Por estar tão cansado, talvez ele não estivesse tão consciente da situação quanto gostaria de estar. Sem dar muita importância ao facto de que não veria o seu irmão durante algum tempo, ele deitou-se na sua cama, conferiu que tinha o alarme para o dia seguinte, três vezes, e colocou o seu celular para carregar.
Ele sentia-se cansado demais para estudar hoje então o mais sábio era apenas dormir. Os seus olhos pesados rapidamente fecharam e em questão de segundos, ele adormeceu. Ele abriu os seus olhos passado muitas horas e sentiu-se renovado, talvez até renovado demais. Andrew pegou no seu celular para conferir as horas, mas por algum motivo ele não ligava:
—Será que ficou sem bateria? Mas eu coloquei-o para carregar ontem...
Ele levantou, tentou acender a luz do seu quarto e deparou-se com outra surpresa:
—Não funciona...
Lentamente unindo as peças do quebra-cabeça na sua mente, ele abriu a porta do seu quarto e correu para a cozinha, o único lugar da sua casa com um relógio de parede. O seu maior medo tinha se concretizado. Ele tinha dormido demais, o seu exame havia começado há uma hora. Andrew não sabia o que fazer, a sua mente estava completamente em branco. Ele sentou-se numa cadeira na cozinha e tentou entender o que estava acontecendo:
—Ficamos sem eletricidade...e o meu celular não despertou por causa disso...
Aquilo não parecia real, aquilo não podia ser real. Todo o tempo que ele tinha desperdiçado estudando, toda a ansiedade que ele teve que suportar e todos os seus esforços foram descartados de uma forma tão estúpida. Ele bateu os seus dois punhos contra a mesa de vidro enquanto gritava. Lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto enquanto a sua respiração ficava progressivamente mais irregular.
—Não...não...não...não...Isso não pode ser verdade...
O seu cérebro tentava pensar em soluções para o assunto, mas bem no fundo ele sabia que tudo era fútil, já não havia nada que ele pudesse fazer. Acabou. Ele gritou de novo e chutou uma cadeira próxima. Os seus olhos não paravam de pingar e as suas emoções saíram fora de controle. Após alguns minutos de sofrimento, ele caminhou lentamente de volta para o seu quarto.
Já deitado na sua cama, algo que ele não queria lembrar surgiu na sua mente:
—Como eu vou contar isso para os meus pais?
Ele ignorou aquele pensamento, afundou a sua cabeça no seu travesseiro e chorou até dormir de novo. Algumas horas mais tarde quando acordou, Andrew ainda não tinha recuperado a sua vontade de estar vivo. Ele não queria sair da sua cama e o seu corpo estava cansado de uma maneira estranha.
Andrew reuniu o restante das suas forças e bateu na porta do quarto do seu irmão. Depois de chamar e esperar alguns segundos sem resposta, ele lembrou-se que ele já não estava mais ali. Andrew retornou à sua cama silenciosamente enquanto pensava que em breve os seus pais estariam em casa.
Ele percebeu que a eletricidade havia voltado quando a luz do seu quarto acendeu repentinamente. Andrew aproveitou essa oportunidade para conferir o seu celular. Após alguns segundos à espera que ele ligasse, ele percebeu que tinha várias ligações perdidas do seu irmão. Entendendo que talvez fosse algo importante, ele rapidamente retornou as ligações. Alguém atendeu, mas ele não reconheceu a voz:
—Matthew?
—Não, eu sou uma amiga dele, Tatiana, você é irmão do Matthew, certo?
—Sim. -Respondeu Andrew confuso. -Aconteceu alguma coisa?
—Esse foi o único número de um familiar do Matthew que eu consegui encontrar, fique calmo e escute bem, o Matthew sofreu um acidente e foi levado para o hospital da Cruz Vermelha, avise os teus pais e vão para lá.
O cérebro de Matthew não conseguiu processar aquela situação:
—Matthew sofreu um acidente? Calma, isso é algum tipo de piada?
—Não, claro que não. Isso é sério! Vocês precisam ir vê-lo, eu estava com ele no acidente, mas ele foi levado por uma ambulância até o hospital.
—Tudo bem. -Respondeu Andrew desligando a ligação.
Ele sentou-se na sua cama e apoiou a sua cabeça nas suas mãos:
—Nada disso faz sentido...eu não entendo o que está acontecendo...
Andrew ouviu o barulho da porta da sua casa abrindo. Ele instintivamente saiu do seu quarto e desceu as escadas. O seu pai e a sua mãe entraram sem muita pressa e encontraram-no com um olhar perdido nos seus olhos:
—Tudo bem, filho? -Perguntou a sua mãe preocupada.
—Matthew...sofreu um acidente e está no hospital...
—Matthew sofreu um acidente? O que aconteceu? -Perguntou ela ainda mais preocupada.
—Eu não sei...uma amiga dele me ligou e disse isso...mas ela não explicou a situação...
—Ela pelo menos disse qual hospital?
—Sim...
—Vamos para lá então, temos que saber como ele está.
Os três rapidamente entraram no carro do pai de Andrew e dirigiram-se para o tal hospital. Durante o caminho, Andrew sequer era capaz de formular pensamentos coesos devido à confusão de emoções que sentia. A sua mãe também parecia preocupada, mas ela sabia lidar muito melhor com a situação. Enquanto o pai de Andrew mantinha a sua expressão típica.
Eles finalmente chegaram no hospital e após passarem pelos procedimentos padrões, um médico convidou-os para o seu escritório com a intenção de explicar o que acontecera. Mas algo estava errado. Aquele silêncio era ensurdecedor. O médico tinha uma expressão de decepção no seu rosto e hesitava um pouco em começar a falar.
Andrew ouviu apenas o que precisava ouvir, enquanto o médico ainda acrescentava detalhes, ele, sem mudar a sua expressão facial, levantou-se e dirigiu-se para fora do escritório:
—Com licença, eu preciso respirar um pouco.
—Andrew, onde você está indo, não seja desrespeitoso assim. -Advertiu seu pai.
—Querido, deixe-o ir, é melhor assim...
Ele saiu do escritório e caminhou para fora do hospital. Andrew sentou-se num lugar sem pessoas e respirou fundo:
—O que é suposto isso significar?
Os seus olhos rapidamente encheram-se de lágrimas:
—Como assim... Ontem mesmo, você me abraçou...Ontem mesmo, você estava ali. Isso não faz sentido...isso não pode ter acontecido...
Aquilo era surreal. Andrew sequer conseguia entender o que as palavras do médico realmente significavam. Ele nunca mais veria o seu irmão? Aquela tinha sido a última vez? Isso era cruel. Ainda havia tanto que ele queria conversar com ele, havia tanto que ele queria contar e havia tantos conselhos que ele precisava. Andrew odiava tudo aquilo. Odiava a si mesmo por ter perdido a última oportunidade de dizer como se sentia. Odiava o mundo por permitir que algo tão triste acontecesse. Odiava quão frágil a vida humana podia ser.
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