Glass Humans
7 Conclusão
Notas iniciais
Andrew entrou no carro com os seus olhos visivelmente inchados e vermelhos. O seu pai dirigiu-os até a casa onde eles moraram e nenhuma palavra foi dita durante o caminho. Todos estavam lidando com a situação da forma que sabiam. Já em casa, Andrew caminhou para o seu quarto sem dizer nada. Ele deitou-se na sua cama porque queria dormir. Queria apenas parar de existir. Queria parar de pensar.
Mas, pelo contrário, ele acabou por passar por um dos momentos mais miseráveis da sua vida. Não havia vontade de dormir no seu corpo e tudo o que ele podia fazer era pensar. Era arrepender-se das suas decisões. A dor no seu peito era tão angustiante que nada podia aliviá-la. Mais lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto enquanto ele abafava os seus gritos com um travesseiro.
Nada daquilo fazia sentido. O que ele tinha feito errado? Porque ele estava sendo punido daquela forma? Ele tinha verdadeiramente feito o seu melhor e era assim que os seus esforços eram recompensados? Que tipo de mundo cruel e injusto era esse? O seu irmão era a única luz na sua vida e agora ele havia sido apagado de um momento para outro. O que ele deveria fazer para superar isso? Qual era a moral dessa história?
E sua mente não parava de pensar, não importando o quanto ele suplicasse. Gerando mais e mais pensamentos distorcidos, fazendo-o se afogar nos seus próprios sentimentos e torturando-o sem pausas. Ele levantou-se, exausto e desgastado, e olhou-se no espelho. Horas já haviam se passado, mas aquilo não parava. As lágrimas continuavam a cair dos seus olhos enquanto a dor latejava intensamente.
Ele cambaleou de volta para a sua cama e sentou-se. Andrew colocou a sua mão sob o seu peito e tentou acalmar-se, mas foi inútil. Ele não tinha controle nenhum sob o seu estado atual, tudo o que lhe restava era sofrer calado. E aquilo continuou até a manhã, só aí, as suas lágrimas secaram, os seus olhos fecharam e lhe foi permitido descansar. Quando ele voltou a abri-los, já era noite de novo.
Ele não queria levantar, não havia motivos para o fazer. Simplesmente continuou a encarar o teto do seu quarto à espera que uma resposta surgisse. Subitamente, ele ouviu algumas batidas na porta:
—Andrew, o jantar está pronto, vem comer.
—Não tenho fome, obrigado.
—Filho...Eu entendo como você se sente, mas isolar-se dessa forma apenas piora a situação. Vamos ficar à tua espera.
Andrew percebeu que talvez a sua mãe estivesse correta e levantou-se sem muita vontade. Ele saiu do seu quarto, caminhou até o banheiro, lavou o seu rosto e dirigiu-se para a cozinha. Por um segundo, até pareceu que as coisas estavam de volta ao normal. Ele serviu um pouco de comida para si mesmo e sentou-se à mesa. Os seus pais conversavam sobre algo, mas ele não se deu ao trabalho de prestar atenção. Até que o foco da conversa mudou:
—Andrew, eu recebi um telefonema da escola...
—Querido, eu não sei se esse é exatamente o melhor momento para falar disso. -Interrompeu-o Laura. -Talvez outra hora, quando estivermos todos mais calmos.
—Não o proteja. Isso não tem nada a ver com esse ser o momento certo ou não, ele é um homem então ele deveria entender que é responsável por todas as suas ações, e estar triste não diminui essa responsabilidade. -Disse Sérgio virando-se para Andrew. -Andrew, eu recebi um telefonema da escola sobre você ter faltado a um exame ontem, você poderia me explicar essa situação?
Com tudo o que tinha acontecido no dia anterior, até mesmo Andrew já havia esquecido do exame. Ele já tinha esquecido que teria que confrontar os seus pais sobre isso:
—Eu... -Ele fez uma pausa na tentativa de organizar as suas palavras. -Eu acordei tarde demais porque meu celular não despertou.
—Você está me dizendo que vai ter que repetir aquela disciplina apenas porque foi incapaz de ter um pouco de responsabilidade?
—Eu...
—Colocar o seu celular para despertar é algo que você faz todos os dias e mesmo assim você arranjou alguma forma de errar isso?
—Foi por causa da eletricidade! -Retrucou Andrew. -Você demorou muito para pagar a conta de eletricidade, por isso eles cortaram a eletricidade e o meu celular ficou sem bateria!
—Então você está dizendo que você ter faltado é culpa minha?
—Não...mas...
—”Mas” O quê? Até quando você vai ficar inventando desculpas? Eu quero saber o que você vai fazer agora? Ficar mais um ano na escola para terminar essa disciplina?
Andrew instintivamente já sabia quais eram as próximas palavras do seu pai e ele odiava ouvi-las. Cortavam o seu coração sem misericórdia. Faziam-no sentir envergonhado de estar vivo:
—Eu estou decepcionado contigo, não foi assim que eu te criei.
Ele apenas abaixou a sua cabeça e começou a chorar o mais silenciosamente que podia:
—Pare de chorar e coma a tua comida.
—Querido, você está indo longe demais...
—Eu adoraria saber onde é que eu errei com os meus dois filhos para eles crescerem dessa forma...
Aquelas palavras fizeram o estômago de Andrew revirar e nem mesmo ele conseguia entender bem o que era aquele sentimento. O seu rosto e pele pareciam estar mais quentes, e antes que ele percebesse a sua boca já havia se movido por conta própria:
—Não fale mal do Matthew...
—Quem te deu o direito de...
—Não fale mal do Matthew! -Gritou Andrew batendo as suas mãos contra a mesa. -Você não entende absolutamente nada. Você não tem o direito de dizer nada!
O seu pai imediatamente repreendeu-o com um tapa no seu rosto. Andrew sentiu o calor no seu corpo aumentar ainda mais, era como se o sangue nas suas veias estivesse fervendo. Ele levantou-se bruscamente e encarou o seu pai enquanto respirava com força. Passados alguns segundos, ele finalmente foi capaz de voltar a si mesmo e começou a caminhar de volta para o seu quarto:
—Onde você pensa que está indo, Andrew? -Perguntou o seu pai também se levantando da mesa.
—Você ainda não está satisfeito? Quanta mais confusão você pretende criar? -Perguntou Laura tentando segurar as suas lágrimas. -Apenas...pare...por favor...
Andrew entrou no seu quarto e imediatamente começou a distribuir o seu ódio em todos os objetos que entrassem no seu caminho. Após finalmente ter esgotado a sua energia, ele deitou-se na sua cama e sentiu a realidade desabar em cima da sua cabeça:
—Porque tem que ser assim? Porque tem que ser tão difícil? Eu continuo fazendo meu melhor...mas nada dá certo...nada...
Lágrimas mais uma vez escorreram pelo seu rosto, mas lentamente ele estava se tornando acostumado com o sofrimento. Sabendo que passaria a noite inteira acordado de novo, dessa vez, ele não se deu ao trabalho de tentar dormir. Ele sentiu saudades do seu irmão e decidiu visitar o seu quarto. Andrew abriu a porta devagar e viu que tudo o que pertencia a Matthew já não estava ali.
Ele sentou-se na cama e percebeu o quão vazia aquela casa parecia sem ele. Mas sabendo que ficar naquele lugar por muito tempo apenas iria deixá-lo mais triste, ele começou a andar em direção à porta. O Seu pé acabou por chutar algo para longe e apenas por curiosidade, ele decidiu investigar o que era. Embaixo da cama, estava uma carteira de cigarros e um molho de chaves.
—Então eram aqui que as chaves da professora estavam... -Pensou ele agarrando o molho e o maço de cigarros.
Andrew abriu aquilo e dentro viu alguns cigarros junto de um isqueiro. Sem pensar muito sobre a situação, ele guardou-o no seu bolso e voltou para o seu quarto. Ele deitou-se novamente na sua cama e deixou a sua mente perder-se em pensamentos. Mais algumas horas haviam se passado, mas ele ainda não sentia sono. Andrew virou-se na sua cama e sentiu a carteira de cigarros ainda dentro do seu bolso. Como uma espécie de homenagem ao seu irmão, ele cogitou acender um.
Mas ele sabia que definitivamente não podia fazer aquilo dentro do seu quarto, caso os seus pais descobrissem, ele estaria morto. Andrew pensou em fumar pela janela, mas isso ainda pareceu arriscado. Sair pela porta principal era impossível porque ela estava trancada e a chave devia estar no quarto dos seus pais. Foi então que ele percebeu que podia sair pela sua janela, caminhar em cima do telhado até uma árvore próxima e descer através dela.
Ele considerou se aquilo realmente valia todo o esforço que ele teria que fazer, mas tudo era melhor do que ficar parado dentro daquele quarto. Andrew abriu a janela silenciosamente, fez o seu melhor para não tropeçar em cima do seu telhado e quase caiu ao pular para a árvore. Já no chão, aproveitando que era uma noite agradável e que ele não queria fumar perto da sua casa, ele decidiu dar uma volta.
Enquanto andava sem destino pela rua da sua casa, ele pegou um cigarro, pôs na sua boca, acendeu-o e tentou fumar. Andrew imediatamente começou a tossir e considerou se estava realmente fazendo aquilo de forma certa. Não era como se ele estivesse interessado na sua saúde então ele decidiu continuar a fumar. Quando o cigarro finalmente chegou ao fim, ele entendeu que estava na hora de voltar para casa. Tinha sido uma aventura interessante e agora ele já era capaz de sentir algum sono.
Ele acabou adotando aquilo como rotina enquanto tentava organizar melhor os seus pensamentos. Os dias passaram muito mais rápido do que ele esperava e num piscar de olhos o enterro do seu irmão havia chegado. A maioria dos amigos de Matthew não estavam presentes já que tudo havia sido organizado pelo seu pai. Mesmo naquele momento, vendo aquele corpo sem vida, aquilo ainda não parecia real. Apenas uma piada de mau gosto.
Algumas palavras sem significado foram ditas, mas Andrew permaneceu em silêncio todo o tempo. Ele entendia que era tarde demais para fazer algo, agora só lhe restava viver com os seus arrependimentos até o dia da sua morte. E quando começaram a cobrir o caixão com terra, ele finalmente foi capaz de interiorizar o que tinha acontecido. Matthew tinha morrido. Andrew não se deu ao trabalho de impedir as suas lágrimas de caírem:
—Adeus, Ma...
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