Glass Humans
4 Acontecimento
Notas iniciais
Andrew realiza os seus trabalhos de casa, revê o que foi abordado nas aulas, faz resumos da matéria e exercícios extras com a maior velocidade que pode. Tudo para conseguir ter um dia livre na semana e ir ao lago tirar fotos. Esse dia finalmente chega e ele percebe que o problema talvez seja maior do que tinha antecipado:
—Lembro de escutar a Daniela dizer que o lago era próximo da escola...mas exatamente onde isso fica?
Ela tenta procurar por algum lago nas redondezas em mapas na internet, mas infelizmente não encontra nada relevante:
—Não deve ser grande o suficiente para aparecer em mapas...
Andrew decide andar à volta da escola para ver se conseguia achar alguma coisa. Uma hora depois, ele continuava sem pistas da localização do lago e quase sem energias para continuar a procura. Ele decide sentar-se num banco próximo e pensar sobre o que podia fazer. Enquanto reflete sobre a situação, Andrew vê passar um casal de adolescentes carregando lancheiras e um longo tapete quadriculado:
—Se eu tivesse que adivinhar o que essas pessoas vão fazer, eu diria que é um piquenique. -Pensa ele enquanto lentamente um sorriso se forma no seu rosto. -E o melhor lugar para fazer um piquenique...é próximo a um lago!
Ele surpreende-se com a sua inteligência e decide seguir aquele casal. Após andar durante alguns minutos, aqueles dois aproximam-se de uma árvore, estendem o tapete no chão e sentam-se. Andrew observa-os com tristeza nos seus olhos:
—Fui muito otimista...
Já sem saber o que fazer, ele continua seguindo o caminho que o casal fazia antes de parar e percebe que várias pessoas seguem naquela direção. Sem aumentar muito as suas expectativas e sem nunca pensar na possibilidade de pedir indicações à outras pessoas, ele continua se movendo. Para a sua sorte, Andrew consegue encontrar o lago. Ele sorri e não perde tempo em começar. Com alguma paciência ele consegue capturar uma grande diversidade de seres vivos em fotos: pássaros em árvores, formigas, outros pequenos insetos embaixo de pedras, alguns peixes no lago, diversos tipos de árvores e flores e até mesmo um cachorro:
—Não sei se devia incluir o cachorro... -Pensava ele. -Mas ele era tão fofo...
Andrew tira o maior número de fotos que consegue para não ter de voltar naquele lugar uma segunda vez. Conforme o sol afasta-se, a qualidade das fotos diminui e Andrew começa a ficar preocupado em perder o último ónibus para casa:
—Acho que está na hora de ir embora.
Ele chega em casa cerca de trinta minutos depois, janta com a sua família, toma um banho e deita-se na sua cama. Andrew estava bastante cansado e tinha perdido um dia inteiro para conseguir fazer aquela parte do trabalho:
—Pelo lado positivo, só tenho que falar com Daniela para saber o que ela vai querer acrescentar e depois posso terminar o PowerPoint. -Pensa ele enquanto abraçava o seu travesseiro e fechava os olhos. -Deve dar para terminar tudo a tempo se eu perder uma noite de sono.
Andrew acorda de manhã, lava o seu rosto, come alguma coisa e faz o seu caminho para a escola. As suas aulas da parte da manhã decorrem sem preocupações e na hora do almoço ele vai até a biblioteca. Daniela tinha proposto que o grupo se encontrasse novamente já que faltava apenas uma semana para a entrega do trabalho. Andrew chega lá e percebe que está sozinho. Alguns minutos mais tarde, Daniela aparece:
—Boa tarde, Andrew.
—Boa tarde, D-daniela.
—Você não viu Renato ou Aline por aí?
—Não...
—Acho melhor esperarmos por eles então.
Vários minutos se passam e não há nem sinais do restante do grupo. Daniela suspira:
—Uau, acho que chegar uma vez no horário certo já foi demais para eles.
Andrew repete-se discursos motivacionais dentro da sua cabeça até conseguir iniciar um assunto:
—Daniela...
—Sim?
—Eu tinha uma...pergunta sobre o PowerPoint...
—Pode dizer.
—Quer dizer não é bem uma pergunta... -Dizia Andrew tentando buscar as palavras certas. -Tipo...Eu precisava saber quais animais vamos incluir...
—Tudo bem, quando eles chegarem vamos ver as fotos que eles tiraram e decidir isso.
—Ahm...Eu já tenho várias fotos...
Daniela encara-o confusa:
—Você tirou fotos?
—Sim, Renato me pediu para fazer isso no lugar deles.
—Você pode me mostrar as fotos? -Pergunta ela se aproximando.
—Sim, sem problemas. -Responde Andrew tirando o seu celular do seu bolso.
Ele passa pelas várias fotos enquanto faz os comentários que acha necessário:
—Uaaau, você fez a parte toda deles.
—Sim...Achar o lago também foi um pouco... complicado...
—Você não sabia onde ficava?
—Não...
—Porque você não me perguntou?
—Eu não... -Diz Andrew enquanto tenta pensar numa desculpa. -Sei o teu número...
—Estudamos na mesma turma, nos vemos todos os dias.
—E-eu não queria te incomodar...
—É um trabalho de grupo, você não estaria me incomodando.
Andrew permanece calado sem saber o que responder:
—De qualquer forma você não é o culpado aqui, são eles por serem preguiçosos e ficarem jogando o trabalho deles nas costas de outras pessoas. Mas você podia ter falado sobre isso comigo mais cedo, eu podia ter te ajudado.
—Tudo bem...mas o que fazemos sobre o resto do trabalho?
—Fazemos só nós os dois e não colocamos o nome deles no grupo.
—Eles não vão ficar irritados se fizermos isso?
—Eu pouco me importo, se eles acham que não vão fazer nada e ficar com os créditos estão muito enganados.
Apesar de não conseguir expressar isso, Andrew sentia algum nível de admiração por Daniela naquele momento. Talvez pelo mesmo motivo que admirava o seu irmão, por eles serem capazes de tomar decisões que ele não era:
—Temos bastante a fazer ainda, Andrew. -Diz Daniela tirando um computador portátil da sua mochila.
Os dois permanecem na biblioteca por algum tempo enquanto trabalham juntos na organização da informação que tinham. Andrew percebe que horas são e começa a guardar os seus materiais com alguma pressa:
—Ah, eu tenho que ir...tenho aulas à tarde.
—Tudo bem, acho que o resto dá para fazermos separados. -Diz Daniela. -Vou te passar o meu e-mail, assim você pode me mandar uma mensagem se precisar de alguma coisa.
—Tudo bem, tchau, Daniela.
—Até a próxima, Andrew.
Ele caminha até o edifício escolar principal e assiste a sua última aula do dia. Andrew em seguida retorna para casa e passa o resto do dia estudando. Ao longo da semana, ele e Daniela trocam e-mails onde tentam atingir algum consenso na realização do trabalho. Os dias passam e a aula de apresentação chega. O professor entra na sala, senta-se e pergunta quem gostaria de ser o primeiro. Daniela se oferece então ela e Andrew são chamados até o quadro negro. Enquanto os dois fazem as preparações para projetar o trabalho, Renato levanta-se indignado:
—Professor, eu também faço parte do grupo da Daniela.
—Eu também! -Interfere Aline.
—Eu não tenho os vossos nomes incluídos neste grupo, você tem algo a dizer sobre isso, Daniela?
—É realmente estranho, professor. -Responde ela com uma expressão cínica no seu rosto. -Se eles realmente fazem parte do grupo então eles devem ter alguma parte do trabalho com eles, certo?
Renato irrita-se ainda mais com a situação, mas não encontra uma resposta:
—Eu tenho a nossa parte do trabalho em casa. -Mente Aline.
—Tudo bem, façamos assim, você e Renato entregam o trabalho como um grupo separado e fazem a apresentação na próxima aula. -Sugere o professor. -O que acham?
—Tudo bem... -Responde Aline frustrada, mas sabendo que aquilo era melhor que ter zero no trabalho.
—Sigam em frente com a vossa apresentação, Andrew e Daniela.
—Tudo bem, professor! -Sorri Daniela projetando a capa do seu trabalho.
Apesar de não terem conseguido aproveitar toda a informação que os dois tinham recolhido, o trabalho abordava diversos tipos de seres vivos com bastante profundidade e clareza, além de ser um exemplo local de ecossistema. Andrew e Daniela terminam a apresentação e apesar do professor não dizer a nota que eles obtiveram, ele parece bastante satisfeito:
—Muito bem, qual é o próximo grupo?
Os dois se encaram e sorriem com orgulho do que fizeram antes de voltarem a se sentar. Sem nenhum grupo se oferecer para apresentar e o professor sorteia nomes até o fim da aula. O sino toca e os alunos caminham para fora:
—Bom trabalho, Andrew! -Diz Daniela passando por perto dele.
—Você também fez um bom trabalho.
—Sabe eu nunca tinha falado com você antes, mas agora te considero uma pessoa interessante.
—Eu também achei bastante....interessante quando você argumentou contra o Renato. -Disse Andrew desviando o seu olhar por vergonha, mas falando com sinceridade.
—Sabe, eu não gosto nem um pouco desse tipo de pessoas então não consigo ficar calada. Mas você também tem que se impor um pouco mais!
—Tudo bem...eu vou...tentar fazer isso.
—Até mais, Andrew!
—Tchau, Daniela.
Andrew sorri ao perceber o quão mais confortável ele se sentia em falar com Daniela atualmente. Apesar de não serem verdadeiramente amigos, ele estava orgulhoso de si mesmo por estabelecer uma relação com alguém. Ele caminha com um pouco mais de confiança até a sua próxima sala e espera que o intervalo acabe. A última aula do dia decorreu normalmente, o sino soou mais uma vez e ele começou a arrumar seus materiais. Sem que Andrew percebesse, a professora aproximou-se:
—Andrew, poderia fazer um favor para mim?
—S-sim. -Respondeu ele um pouco surpreso.
—Eu preciso levar esses papéis até a sala dos professores, mas eu estou atrasada para um outro compromisso. Você se importaria de levá-los para mim?
Andrew ainda tinha algum tempo até o ónibus passar e por isso não viu motivos para recusar:
—Sim, tudo bem, professora.
Ela tirou um molho de chaves do seu bolso e colocou em cima da mesa de Andrew juntamente de vários papéis:
—Muito obrigado, Andrew. Use essa chave para abrir a sala dos professores caso não tenha ninguém lá e coloque os papéis em cima da minha mesa.
Ele terminou de arrumar a sua mochila enquanto pegava a chave e os papéis:
—Ah, professora, o que eu faço com as chaves depois?
Ao olhar à sua volta, Andrew viu a sua professora já saindo pela porta da sala com alguma pressa:
—Ela não deve ter ouvido...Ah, tanto faz, eu amanhã entrego as chaves para algum professor.
Ele caminhou sem pressa até a sala dos professores, destrancou a porta, entrou, colocou os papéis em cima da mesa correta, saiu e trancou a porta. Algum tempo mais tarde, ele finalmente chegou à casa. Andrew examinou os seus arredores e concluiu que não havia ninguém ali. Ele subiu as escadas e decidiu bater na porta do quarto de seu irmão apenas para ter certeza.
Após alguns segundos sem resposta, ele seguiu para o seu quarto, mas uns grunhidos foram emitidos do outro lado da porta:
—An?
—Sim, sou. Está tudo bem com você aí dentro? -Perguntou Andrew. -Sua voz parece estranha.
—A porta está destrancada. -Afirmou Matthew. -Pode entrar.
Andrew, um pouco receoso, abriu a porta e entrou. Mas para a sua surpresa, o quarto do seu irmão estava bastante arrumado e perfumado. Em contraste com o quarto, Matthew estava numa situação deplorável, roupas sujas e exalando um forte cheiro a álcool. Mas o mais fora do comum era a mulher que dormia ao lado dele enrolada numa coberta:
—Eiii...tudo bem, não vou atrapalhar... -Diz Andrew envergonhado enquanto fecha a porta.
—Porque você está fugindo? Estamos vestidos, não está acontecendo nada.
—É estranho na mesma! Porque você me disse para entrar?
—Eu achei que você queria dizer alguma coisa.
—Eu só queria saber se você estava em casa.
—Como você pode ver, eu estou parcialmente em casa, uma boa parte de mim ficou na festa.
—O que aconteceu ao teu quarto? E... a você?
—Eu arrumei, né? Não ia trazer alguém para cá naquelas condições.
—Os nossos pais sabem disso?
—Claro que não...Ah...minha cabeça dói...eu sabia que não era uma boa ideia começarmos a jogar jogos com bebidas...as coisas saíram do controle tão rápido... eu nem sequer sei como cheguei aqui. Eles já estão em casa?
—Não, ainda não.
—Tudo bem...eu devia levantar e levar Tatiana à casa antes que eles cheguem...
— Você devia tomar um banho primeiro. -Respondeu Andrew caminhando em direção a porta.
—Bom conselho, adeus por enquanto então.
—Adeus.
Andrew fechou a porta e saiu do quarto. Ele não sabia explicar o porquê, mas essas breves conversas com o seu irmão eram revigorantes. Eram os únicos momentos da sua vida onde ele se sentia na presença de um amigo. Ele desceu as escadas, andou até a cozinha, procurou algo para comer e retornou para o seu quarto.
Depois do jantar, ele colocou o despertador para o próximo dia e se enrolou nos seus cobertores. Ela já sentia saudades de poder dormir oito horas e não estar constantemente sufocado por trabalhos. O seu despertador toca, ele abre os seus olhos muito menos cansado do que ontem e inicia a sua rotina. Mas quando achava que não tinha nenhuma preocupação, a sua mente lembrou-se de um pequeno detalhe:
—Onde estão as chaves da sala dos professores?
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