Give me love.
11 Capitulo 11
Notas iniciais
Jogada na cama e encarando o teto, sua cabeça estava a mil. Não havia conseguido dormir direito, seu celular estava lotado de mensagens e mapas que ela havia ignorado na noite de ontem e continuava ignorando durante todo esse sábado, sabia que depois iria levar uma bronca de seu pai, mas no momento isso não a preocupava. Sua cabeça tinha outras coisas que no momento pareciam mais importantes para ela, como a ideia de Flora, que parecia bem tentadora para a garota, e sua situação com Arth que precisava ser resolvida rapidamente.
Pegou o celular e buscou pelo grupo que tinha com os irmãos Louis e Ian.
“Preciso de ajuda. Dos dois. ” Digitou e enviou.
Logo a resposta de Ian, que estava sempre conectado, chegou.
“Diga, meu bem. ” E Una conseguiu ler com a voz do garoto e sorriu com isso.
“Preciso que você me ajude com uma questão social. Acho que quero entrar na escola. ”
“Ai deuses! Não acredito que esse dia finalmente chegou! ”
“Então você acha que eu devo ir? ”
“Com certeza. ” Una sorriu com a resposta do irmão, agora então só precisaria conversar com seu pai.
“Oi?? Desculpa maninha, eu estava estudando. ” Louis chegou na conversa e Una revirou os olhos, era típico do garoto estar com o nariz enfiado em algum livro.
“Obvio que você estava. ” Ian disse e Una riu. Ela estava com muitas saudades dos irmãos.
“Haha. Então, o que precisa pequena Una?”
“Pequena? Eu sou mais de mil anos mais velha que você, seu francesinho da revolução industrial. ” Respondeu fingindo estar ofendida. Ela era a mais velha dos dois, e uma das mais antigas de todos os outros.
“KKKKKKKK só não vou rir muito porque sou o mais novo. ”
“Enfim. Louis, preciso que você me ajude com uma situação peculiar. ”
“Diga. ”
“Tem um garoto que ‘tá me dando certo trabalho. A flecha dele se partiu e ele faz parte do pequeno círculo social que ando interagindo nos últimos dias. Lembrei que uma fez você me contou sobre as flechas da paixão, aquelas que causam uma paixão repentina e forte que pode retirar a sensação de flecha partida e essa busca por amor, dando conforto para esse coração machucado. Você acha que ela funciona mesmo? ”
“Olha, você sabe que essas flechas são um tanto quanto delicadas de se manusear. Elas podem causar paixões repentinas e que podem mais confundir e machucar do que uma paixão duradoura que vai curar o coração quebrado. Não possui garantia de que vai funcionar e são difíceis de confeccionar. ” Una leu a mensagem e mordeu o lábio, pensativa.
“Acho que vale a pena arriscar. Você me ensina a confeccionar? ”
“Se você acha mesmo que vale a pena, sim, é claro que eu te ensino. Podemos fazer um vídeo chat depois e confeccionamos uma juntos. ”
“Ei, eu quero participar também. ” Ian entra na conversa novamente.
“Fique à vontade. Mas prometa que não vai passar todo o tempo tirando uma com a minha cara. ” Louis pediu.
“Eu não prometo é nada! ”
Una riu dos dois que logo começariam uma discussão e troca de ofensas, coisa que fazia parte das conversas dos três.
“Obrigada pequenos! Sabia que poderia contar com vocês! Agora vou dar uma descansada. Depois ainda preciso encarar o papai. ”
“Ai. Boa sorte maninha. ”
“É, papai não está lá em seu melhor humor essa semana. ”
Una respirou fundo e encarou novamente o teto. Precisaria ter uma longa conversa com o pai mais tarde, mas agora que conseguira resolver as ideias que permeavam sua cabeça ela só queria dormir.
***
Acordou inquieta, seus sonhos não haviam sido agradáveis, cheios de memorias de flechas quebradas e cenas trágicas das pessoas que Una havia decepcionado ao não encontrar concerto para seus corações. Como aquela garota que tomou remédios demais após um termino. Uma chacoalhou a cabeça para tirar a imagem da menina de sua cabeça um pouco perturbada e se levantou, as asas já se abrindo em suas costas como se estivessem se espreguiçando, então ouviu um barulho vindo do balcão da cozinha que ficava fora de sua visão, suas penas se eriçaram e sentiu um arrepio percorrer sua espinha, seu corpo entrando em alerta, seus ouvidos tentando captar o som e os olhos cerrados. Levantou-se da cama em todo o silencio do mundo e em passos curtos grudou suas costas na parede, caminhando assim até chegar a extremidade que dava visão para o balcão, ao mesmo tempo em que ouviu a chaleira emitir um assovio e seus olhos encontraram com o de Eros. Soltou o ar preso em seus pulmões em um suspiro.
—Você me assustou. – Declarou, se recompondo e indo até o pai.
—Não era minha intenção, querida. – A garota rolou os olhos para ele, que agora estendia os braços como se esperasse que ela corresse para eles.
—O que o traz aqui? – Sua voz saiu ríspida e em seus lábios um sorriso frio.
—Intuição paterna. – Ele abriu um sorriso e Una riu sarcasticamente.
—Você só pode estar brincando. – Cruzou os braços, esperando que o pai revelasse o real objetivo da visita.
—Você acha que é brincadeira, mas eu realmente consigo sentir quando meus filhos buscam minha ajuda. – Ele sentou em uma das cadeiras do balcão enquanto servia duas canecas de chá.
Una caminhou até o pai em passos lentos e sentou na cadeira ao seu lado, tomando a xicara quente em suas mãos.
—É, eu tinha pensado em ligar para você hoje. – Admitiu encarando a geladeira que estava na parede da frente, evitando o olhar do pai. – Mas não estou buscando sua ajuda.
Ouviu o pai suspirar e com a visão periférica conseguiu vê-lo bebericar o chá.
—Eu quero entrar em uma escola. – Disse rapidamente e pode ouvir Eros quase engasgar com o liquido quente, a fazendo segurar um sorriso.
—Como é? – Ele estava surpreso. – Eu tento lhe convencer a entrar em uma escola desde... – pensou, tentando se lembrar quando fora a primeira vez que havia feito tal sugestão. – Bom, desde que você atingiu a aparência de uma criança de dez anos.
—Isso foi em 1945, pôs guerra. Mas antes disso você já havia sugerido que eu participasse de estudos. Enfim. Mudei de ideia, agora quero me relacionar com mortais. – Ela engoliu em seco ao dizer as últimas palavras, e sua mente a levou instantaneamente para o garoto Arth e ela se xingou mentalmente.
—Se você quer isso agora, não posso fazer nada além de apoiar. Tudo para minha filhinha. – Ele sorriu e Una bufou irritada. – Você precisa que eu faça alguma coisa? Ou depois você me entrega os papeis para assinar matricula e coisas assim?
—Pode deixar que eu cuido de tudo. Assim que precisar me materializo em seu escritório na Grécia.
—Er, querida, faz mais de cem anos que o papai fica em Nova York. Meu templo na Grécia foi totalmente destruído.
—Deuses. – Resmungou, pensando em quanto tempo fazia que não visitava o pai.
Encarou o pai que terminava o chá, aquele característico liquido vermelho que ele sempre servia. Tinha gosto de ferrugem e rosas. Seus lábios estavam avermelhados pelo liquido e sua pele rosada pela temperatura, os olhos faiscantes que mudavam constantemente de cor e os cachos dourados que emolduravam seu rosto perfeitamente o deixava com a aparência de um adolescente talvez um pouco mais velho que Una. Ele sorriu para ela perante a análise que a garota fazia e ela rolou os olhos para aquele rostinho de bebe angelical. Suas asas douradas se abriram atrás dele quando o mesmo se levantou da cadeira.
—Espero que você recupere todas as chances que te enviei durante essa madrugada. É bom vê-la se envolvendo mais com a vida, só cuide para não o fazer demais. – Ele a encarou de forma doce antes de se fechar em um casulo de penas e sumir no meio do ambiente, deixando um bom tanto de pó dourado no chão de madeira.
Una respirou fundo e terminou seu próprio chá, fazendo certa careta para o gosto horrível. Não era permitido nem ao menos adoçar aquele maldito chá que seu pai produzia. Levantou em passos pesarosos e prendeu seus cabelos brancos em um rabo mal feito, antes de pegar o celular e avisar seus irmãos que tudo dera certo, iria para a escola.
Segunda feira ela resolveria aquilo. Faria sua matricula no colégio dos amigos e flecharia vários corações adolescentes, deixando Eros satisfeito pela escolha da garota. Além, claro, de resolver o problema Arth. Mas por enquanto ela teria uma grande missão de resgatar todas as oportunidades perdidas na noite passada, hoje seria um longo dia.
***
Passou as costas da mão pela testa, como se para limpar o cansaço do fim de tarde. Havia rodado praticamente toda a cidade em busca dos casais que deveria ter flechado antes, e admitia ter sido um trabalho duro. Se pegou imaginando mais de uma vez durante o serviço se teria de fazer aquilo mais vezes se começasse a sair sempre com Flora e os meninos, e até sorriu com esse pensamento. Agora ela estava sentada em um parapeito consultando o gps pela milésima vez no dia, esperando que algo entrasse em sua mira. As pernas balançavam no ar em impaciência pela demora do próximo casal, olhou para o céu que começava a escurecer após uma tarde ensolarada. Havia sido um dia lindo, cheio de miras pelos parques da cidade, casais fazendo piqueniques, turmas em festas na represa e encontros no cinema e cafés, e agora que a noite caia, Una podia deduzir o caminho que viria com ela, em uma clássica noite de sábado. Alçou voo para o fast food mais próximo para pegar um lanche, não iria perder tempo indo para casa, teria de ir direto para a primeira festa que aparecesse em seu mapa. Hoje não deixaria escapar uma pessoa sequer.
Pelo menos era o que a garota tinha em mente, até sentir o celular vibrar em seu bolso com uma mensagem de Flora.
“Oii! Já tem planos pra hoje? ” A garota não conteve um sorrisinho ao ler a mensagem.
Ficou um tempo encarando a tela brilhante do celular, enquanto mordia o lábio pensativa. Ela gostaria sim de sair com os amigos hoje, mas havia prometido para si mesma que recompensaria todo o trabalho perdido. Mas se a garota a chamasse para alguma festa movimentada seria uma oportunidade boa, e assim conseguiria fazer o trabalho e sair com eles.
“Oii, então eu tenho uns trabalhos para terminar, mas dependendo do que tiver em mente posso aderir seus planos. ” Enviou e esperou ansiosa pela resposta da amiga que logo veio.
“Arth quer ir até um clube subterrâneo que ele gosta. Tecnicamente não podemos entrar, mas ele é um velho amigo do segurança do lugar. ”
Una sorriu. Ela conhecia o lugar, era um dos melhores da cidade para boas flechadas. Inclusive já havia cruzado com o garoto naquele clube, foi quando descobriu seu nome.
“Tudo bem, posso encontrar com vocês lá depois que terminar aqui. Me mande o endereço e avise quando estiverem indo. ” Não queria mostrar que sabia exatamente aonde iriam.
Com um lanche agora em mãos, caminhou pela rua movimentada do centro da cidade, as lojas fechando suas portas aos poucos e as pessoas caminhando sem pressa com as mãos carregadas de sacolas. Parou em frente a uma das lojas já fechadas encarando seu reflexo no vidro da vitrine escura, estava com uma típica camiseta larga e meio rasgada com um jeans por baixo, com a mudança de planos para a noite ela precisaria de uma roupa mais adequada. Torceu o nariz ao perceber que estava se importando com o que vestir, algo que geralmente não a incomodava e se repreendeu pelo ato, mas mesmo assim começou a caminhar em direção a seu apartamento para pelo menos trocar aquela roupa.
No caminho consultou a lista das festas mais movimentadas da noite que seu pai já havia enviado, o clube subterrâneo estava lá, Una agradeceu aos deuses por isso e seguiu os olhos pela lista conferindo depois suas localizações e mapeando o caminho que teria de percorrer durante aquela noite. Prometeu que visitaria pelo menos cinco e enviou os nomes de seus amigos para o pai, pedindo que os colocasse nas listas Vips de todos, que prontamente respondeu a filha feliz por ela estar socializando com mortais. Respirou fundo, Eros tinha muito apreço pelos mortais.
Chegou em seu pequeno apartamento e deixou o lanche quase por terminar em cima do balcão, onde as duas xicaras da visita de seu pai ainda estavam, como uma lembrança. Foi direto para o armário e o escancarou, seus olhos indo de seu interior para a arara, esta que exibia as roupas mais usadas pela garota. Pegou uma camisa cinza manchada de respingos vermelhos e uma regata preta curta, as colocou em cima da cama e encarou as peças. Desejou que Flora estivesse ali, ela saberia exatamente o que colocar. Volto para o armário e foi passando os dedos pelos cabides, até que seus olhos pousaram sobre uma saia azul como o céu noturno, ela nunca havia usado a peça pois ela era de paetê e fazia muito brilho, que gerava a atenção tão indesejada pela garota. Mordeu o lábio encarando a peça em suas mãos, pensativa, e pôr fim a levou para a cama junto com as outras. Analisou as roupas dispostas por ali por um tempo e depois finalmente as vestiu.
Foi para frente do espelho e ajeitou a camisa, fechando apenas o primeiro botão, ela era um modelo masculino então caia larga e comprida pelo seu corpo, deixando à mostra a regata preta e a saia brilhante. Passou os dedos pelos cabelos bagunçados e marcados pelo dia preso tentando ajeita-los, sem muito sucesso, suspirou pela rebeldia dos fios e acabou fazendo um rabo bagunçado meio na lateral da cabeça, quando estava razoavelmente satisfeita com o resultado fez um delineado forte nos olhos violetas e um batom vinho escuro nos lábios. Ao encarar sua imagem pronta no espelho rolou os olhos para si mesma toda arrumada. Calçou os coturnos pretos com meias altas da mesma cor e reabasteceu as flechas, pendurando a bolsa nos ombros.
Saiu pelas ruas sentindo o vento frio da noite ganhar espaço, passou as mãos pelos braços para afastar o frio e seguiu em direção a uma festa adolescente que havia lá perto, segundo a mensagem recebida pelo pai o anfitrião do lugar encontraria sua alma gêmea. Una rolou os olhos em tedio assim que avistou a casa cheia de pessoas, não eram nem nove horas da noite e eles já estavam claramente bêbados. Adentrou o lugar ganhando alguns olhares que a deixou desconfortável, não estava acostumada a receber atenção.
Procurou com os olhos o garoto que deveria ser sua mira de hoje, utilizando de seus instintos para encontra-lo, uma aura rosa se encontrava em torno do garoto. Una andou até ele, que conversava com uma garota de bochechas coradas, ela correspondia perfeitamente ao garoto. Sorriu e preparou a flecha, essa seria fácil. Disparou uma seguida da outra acertando em cheio e observando o efeito em seus olhos.
Virou as costas em direção a saída, mas antes pegou uma cerveja do balde de gelo que havia ao seu lado, dando um longo gole, sentindo o gosto amargo descer pela sua garganta. Saiu da casa e conferiu o celular, checando o próximo lugar que deveria ir antes de embarcar na lista de festas, um bar nas proximidades onde pessoas adultas tomavam bebidas caras e se conheciam.
Respirou fundo quando visualizou o ambiente iluminado e arrumado, as pessoas lá dentro podiam ser vistas pelas grandes janelas de vidro e todas continham sorrisos nos lábios. Entrou no lugar e começou a preparar suas flechas, depois de uma volta pelo lugar havia conseguido quatro flechadas extras, comprou um drink colorido e caro para comemorar e saiu com um sorriso nos lábios do lugar.
Quando o relógio bateu meia noite Una já havia visitado mais três festas fechadas que seu pai havia mandado, conseguindo uma bebida por cada uma que passava. Checou seu celular e havia uma mensagem de Flora dizendo que estavam a caminho do clube então começou a seguir na direção do local, voando para ir mais rápido.
Já estava meio alta quando adentrou o lugar, descendo pelas escadas mal iluminadas e com paredes ásperas, os dedos passando por ela como uma forma de apoio, logo as luzes coloridas e o som alto chegaram até ela que piscou forte para que os olhos acostumassem com o ambiente. Avistou o bar e caminhou na direção do balcão para pegar qualquer coisa alcoólica, ao debruçar-se no mesmo sentiu uma mão em seus ombros e revirou os olhos ao encontrar o sorriso de lado característico de Arth.
—Parece que tivemos a mesma ideia. – Ele encosta no balcão ao seu lado.
—Nós e a festa inteira. – Ela sorriu seca para ele, o que apenas aumento o sorriso esperto do garoto.
—Então, o que vai querer? – Ele se inclinou na direção dela, quase roçando seu nariz em sua bochecha. Ela sentiu a mesma esquentar.
—Não sei ainda, mas você deveria pegar uma dose de vergonha na cara. – Ela se afastou dele e buscou com o olhar a placa que tinha as bebidas servidas escritas em giz.
Ouviu a risada anasalada do garoto e precisou se segurar para não o olhar, ao invés disso chamou a atenção do garçom e pediu uma dose de vodca, a virando com uma pressa fora do normal e dando as costas para Arth.
—Vou procurar Flora e Thom. – Ela disse seca e saiu andando torcendo para que o garoto não a seguisse.
Estavam indo em uma direção perigosa dada a última vez em que ficaram muito próximos com álcool envolvido, Una não poderia deixar que a cena se repetisse. Até porque não saberia se conseguiria resistir aos charmes do garoto por muito tempo, e se odiou por isso.
***
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