Girl on fire

1 I. A carta


I. A CARTA

A carta chegara naquela manhã enevoada no Distrito 12.

Primrose foi quem a pegou, com uma animação incontrolável ela correu até mim na cozinha precária de nossa casa — ou seria barraco? Escombro? Acho que não existe uma palavra adequada o suficiente para descrever —. Seus olhos claros cintilavam quando ela me estendeu ansiosamente o envelope de papel caro.

— É pra você, Katniss! Pra você! — ela cantarolava batendo palmas. Peguei o envelope e já sabia do que se tratava antes de ler, nunca recebíamos correspondência, e eu completara dezesseis anos vários meses atrás, assim como o Príncipe Peeta atingira a maioridade.

Suspirei pesadamente. Vinha pensando naquela maldita carta fazia semanas, minha mãe me fizera pensar nela, ver nela uma chance de nos tirar da desgraça, mesmo que por algumas semanas, qualquer coisa adiantaria.

Li e reli a carta inúmeras vezes, tive que lê-la em voz alta para que Prim se acalmasse um pouco. Ela urrou de felicidade, ela era apaixonada pela família real e qualquer coisa sobre ela a deixava em êxtase absoluto.

— Vamos, comece a preencher o formulário. — pediu Prim sentando-se na cadeira ao meu lado, ela trazia no rosto um sorriso tão inocente e vívido que me chateava pensar na possibilidade de tirá-lo dali, era tão injusto!

— Patinha, não sei se....

— Ah, por favor, por favor! — ela suplicava apertando as mãos umas nas outras. — A mamãe vem falando disso faz semanas, ela disse que seria bom para nós, pra você principalmente. Por mim, faça isso, é só um formulário!

Ela ia me ganhar, sempre ganhava com aqueles pedidos, eu era incapaz de lhe negar qualquer coisa que fosse possível ou impossível pra mim. Forcei um sorriso e ela pareceu convencida.

— Vamos logo com isso então, tenho muitas coisas para fazer ainda hoje. — eu disse e ela soltou gritinhos de animação, eu já sabia que valia a pena só por ela estar daquele jeito.

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— Boa garota. — disse minha mãe com aquele olhar vazio quando cheguei em casa ao final da tarde.

Coloquei a velha jaqueta de papai no cabide que ficava ao lado da porta de madeira velha e contive um suspiro. Eu não queria reconhecimento de minha mãe, eu não queria nada com ela, ela nos deixara no momento em que mais precisamos dela, e continuava ali, como se nada tivesse acontecido. Não exatamente, ela olhava para o além e falava daquele jeito esquisito, vazio, Gale me dissera que se chamava depressão, mas somos pobres demais para ter essas doenças tão....luxuosas.

Prim por outro lado correu ao meu encontro e pulou nos meus braços me dando boas-vindas com o melhor abraço que eu podia receber. Passara a tarde caçando além da cerca na companhia de Gale que achava tudo isso de Seleção uma grande idiotice e dizia que eu não deveria nem mesmo me inscrever naquilo.

— É só um formulário, Gale. Não vou ser sorteada....— eu dissera certa de minhas escolhas.

— Como vai saber, Catnip? — ele inquiriu ceticamente — E se for? O que vai fazer? Como vai dizer á Prim que não vai participar disso…?"

Aquilo me irritou.

— E se eu quiser participar? — disse pondo fim a conversa, ele deu de ombros e ficou encarando o imenso vale que se abria bem na nossa frente.

Abri um sorriso, tentando me esquecer de todos aqueles problemas, me concentrando apenas na felicidade de Prim, era isso que realmente me importava, sempre. Peguei os prêmios do dia, naquela noite eu levara um pão velho para dividir em três pedaços, alguns vegetais e também dois esquilos pequeninos, era tudo que tínhamos.

Minha mãe foi aprontar o jantar enquanto eu tirava minhas botas no sofá que rangia na nossa sala, Prim sentou-se ao meu lado e encheu-me de beijos, ela era sempre carinhosa mas naquele dia estava excepcionalmente.

— Katniss, amanhã nós vamos precisar ir a Praça Central, especificamente no Centro Distrital, para enviar seu formulário. — confessou Prim parecendo um pouco nervosa. Eu sorri-lhe, era por isso que havia tanto carinho! Mas eu não me importava, podia perder um tempo do dia de amanhã, Gale teria que compreender, ele sempre compreendia...

— É claro, Prim. — e digo e ela sorri abertamente.

Era bom ter um pouco de alegria naquela casa mal assombrada novamente.

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— Corra, Katniss! Corra — ordenava a voz desesperada de papai. Eu havia ido visitá-lo nas minas, levara seu humilde almoço como costumava fazer todas as manhãs, pusera uma fita azul nos cabelos escuros e uma roupa qualquer, me alegrava ser útil, mas parecia que eu escolhera dia e hora errados.

Eu conseguia escutar de longe os gritos dos companheiros de trabalho de papai, eu via o olhar desolado dele. Ele levantou-se e me pegou nos braços, correndo o mais rápido que conseguia, pedras e fragmentos grandes caiam das cavernas subterrâneas, eu só sabia enterrar meu rosto no peito de papai e abafar meus gritos em sua camisa velha e surrada.

— Papai, me...me desculpe. — eu digo com os olhos marejados de lágrimas brilhantes, nós paramos por um momento. Ainda falta um pouco até o elevador que seria nossa salvação, mas papai está cansado e tudo está um verdadeiro caos, pessoas sendo atingidas por pedras e sendo deixadas para trás, não poderiam ser salvas.

— Querida, vai ficar tudo bem. Não é sua culpa, eu é que não deveria deixar que viesse aqui, é tão perigoso.... — ele disse cheio de culpa, seus olhos me fitavam, ele beijou minhas bochechas e suspirou, voltamos a correr desesperadamente.

Foi quando ele tropeçou em uma pedra e caiu, lançando-me á frente, bati com as pernas em fragmentos de pedregulhos e consegui alguns arranhões pouco graves, havia um odor que começava a me sufocar, engatinhei até meu pai e ele começou a se debater.

— Vá, querida, eu não posso ir! — ele disse, havia uma pedra que prendia-lhe as pernas, eu podia ver o sangue subir pela sua roupa manchada, eu chorei ainda mais.

— Não, papai, por favor... — eu implorava.

— Se você me ama, por favor, vá. — ele retrucou, beijou minhas bochechas mais uma vez e eu corri.

Deixei meu pai para morrer.

— KATNISS! KATNISS! — chamava uma voz impaciente.

Dormira demais, algo atípico, geralmente era Prim que dormia até mais tarde. Pus-me de pé em um pulo, arrancando risadas de minha irmã mais nova. Aquilo me acalmou um pouco mas não totalmente. Pesadelos costumavam a me abandonar, principalmente aquele.

Eu tinha um formulário para entregar.