Girl on fire
2 II. Selecionada
Notas iniciais
Quando nós finalmente chegamos para realizar a entrega do maldito formulário descobrimos que era necessário tirar uma foto. Aquilo deixou Prim bastante nervosa mas eu não me importei, fiz uma trança grossa costumeira e limpei um pouco a sujeira de minhas vestes. Eu estava usando uma calça jeans surrada e barata, botas sujas de lama já que andara além da cerca, e camiseta coberta pela jaqueta de meu falecido pai, me negava a tirar aquelas roupas, essa sou eu.
— Não precisa ficar decepcionada, Katniss, você é linda sem precisar de maquiagem na cara, ou de roupas caras. — disse Prim quando começamos a observar as garotas de castas altas. Como Torrey Vitt, uma Três, que usava um vestido preto de gala e tanta maquiagem no rosto que eu quase não a reconhecera, parecia produzida para uma festa noturna e não para um dia quente daqueles.
Prim ficou na mesma saleta que eu e ficou sorridente, por isso abri um sorriso involuntário par as câmeras.
Parecia que todas as garotas do Distrito Doze estavam ali. A maior parte era Seis ou Sete, todas tão 'arrumadas' quanto eu. Mas é claro que havia aquelas de castas mais altas, logo localizei Magde, uma conhecida, a filha do prefeito, com um vestido amarelo como o sol e um olhar ansioso e alegre.
Duas semanas se passaram, e não demorou para chegar o dia do anúncio das Selecionadas por isso naquela noite nós três nos reunimos ao redor da televisão empoeirada, ela fora dos pais de minha mãe — minha mãe era uma Três mas como casou-se com meu pai se tornou uma Seis, por isso a sua família nunca mais manteve contato, eles nunca aceitaram nada disso, contudo havia alguns pertences vindos deles espalhados pela casa, eram os únicos 'luxos' que possuíamos.
— É hoje que vão anunciar sua partida, Kat! — exclamou Prim enquanto dividíamos uma tigela de morangos frescos, Prim plantara algumas frutas nosso limitado quintal e aos poucos iam dando frutos que contribuíam para a nossa alimentação.
— Prim... — ia começar a censurá-la mas a televisão ganhou vida com as imagens do Jornal Oficial de Panem, o canal do país era o único que não era pago, por isso só podíamos assisti-lo, já que não tínhamos condições de pagar por nada além dele.
Gavril Fadaye começou a falar sobre a Seleção e o príncipe Peeta parecia pouco á vontade com tudo aquilo, ele ria nervosamente em alguns momentos e sorria nos instantes exatos, parecia tudo tão ensaiado que me dava nojo. Como eles podiam estar ali, com aquelas roupas caras, tudo exagerado, enquanto a população morria de fome? Era tamanha hipocrisia e ela me deixava a cada instante mais enraivecida.
— Ele é tão bonito quanto o pai. — disse minha mãe quietamente enquanto encarava fixamente o príncipe Peeta, ela estava envolvida por uma colcha quente.
— O Rei não é bonito. — disse Prim parecendo assustada com aquilo, eu achava o Rei bastante alegre, ele parecia ser muito mais acolhedor que a Rainha, aquela era uma verdadeira bruxa, sempre emburrada e destilando seu ódio.
— Vamos anunciar as Selecionadas. — disse Gavril ansioso, a tela ficou dividida entre as fotos que apareceriam das Selecionadas e a expressão do príncipe Peeta. — A primeira é..... Madge Undersee, Dois, do Distrito Doze!
Madge é a filha do prefeito e tem uma paixão platônica por Gale desde pequena, eu converso com ela nos momentos mais silenciosos na escola, e vendo morangos frescos para ela e seu pai.
— A Magde, olha, mãe! — exclama Prim exaltada.
A foto dela aparece na tela, os seus sedosos cabelos loiros e olhar animador, ela é extremamente bonita, é claro.
— Tessa Dunner, Quatro, do Distrito Doze! — prosseguiu, eles iriam do Distrito Doze ao Um. Cada Distrito precisava ter no mínimo duas Selecionadas, o resto era aleatório. Podia ver minha mãe murchar, dificilmente o Distrito Doze tinha mais de duas concorrentes, e quando tinha eram de castas altas, as minorias por aqui.
— Katniss Everdeen, Seis, do Distrito Doze! — anuncia Gavril Fadaye. Eu posso ver um olhar curioso vindo do príncipe Peeta, eu só consigo escutar os gritos de Prim, minha foto desleixada aparecendo na tela e parecendo péssima se comparada com qualquer outra que apareceu ou vá aparecer, meu sorriso genuíno e desajeitado, a trança deslizando pelos ombros.
O velho telefone fixo tocou pela primeira vez, e para meu desespero ele não parava mais de tocar.
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Na manhã seguinte eu fugi antes do nascer do sol e fui para além da cerca, era arriscado mas eu não podia me conter em um momento daqueles. Caminhei até o lugar em que sempre me encontrava com Gale e não foi surpresa quando encontrei ele sentado no lugar de sempre.
— Não consigo acreditar que vai participar disso. — ele resmungou assim que tomei o lugar ao seu lado. Nem mesmo uma fala de amizade, um conselho, nada disso. Apenas reclamações. Bufei impaciente, mas não queria perder os últimos momentos com Gale antes da minha partida para a Capital.
— Gale, você não parece entender que isso é pra minha família. Eu vou receber uma pensão semanal, pense no bem que isso fará pra nossas famílias. Eu sei que você vai começar a trabalhar seis dias por semana, qualquer coisa ajudaria....
— Não pense em me dar esse dinheiro sujo! — ele disse irritado. Aquilo foi a gota d'água, eu não iria mais aguentar Gale me ofendendo daquela maneira. O que ele estava insinuando com tudo aquilo?
— Pensei que fosse meu amigo! Não sei o que tanto te perturba na Seleção. — digo já me pondo de pé.
— Não percebe? Será apenas um dos trinta e cinco brinquedinhos do príncipe? Eles não ligam pra pessoas como nós, Katniss! Eles são a realeza e nós somos apenas nós. — diz Gale levantando junto comigo, seus olhos fixos nos meus.
— Eu não consigo acreditar no que está dizendo. — digo cerrando os punhos de raiva. — Eu não sou nenhum brinquedinho, seu idiota.
— Não é possível que você não enxergue, Katniss. — ele diz, eu viro meu rosto com bastante raiva e ele puxa para perto do dele, me surpreendendo.
E para bagunçar ainda mais toda a minha vida, Gale me beija.
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