Gimme More
37 Hidden
Notas iniciais
Hidden 4 – Chris Rodrigues
Ele nunca se importara com os ventos do fim de dezembro. Sim, eles eram particularmente gelados, mas Chris se negava a vestir algo mais quente que camisas de manga comprida. A janela de seu quarto estava aberta, o vento açoitava suas costas nuas, no entanto, ele nem percebia. Sua cabeça estava naquela morena sexy, naquela menina-mulher tão insegura de si, mas tão senhora de todos...
Algo em seu âmago dizia que ele era capaz de cruzar os sete infernos atrás dela, não que ele tivesse consciência disso. Chris seguira Clarisse durante uma semana atrás de... Bom, não sabia o que procurava até encontrar. Ele vira-a entrando em um orfanato tarde da noite, quis segui-la, confrontá-la na escola, mas desde que transaram na sala de mecânica ela se mantinha distante.
Ouvia os pais discutindo no cômodo ao lado, pegou uma camiseta e saiu do quarto. Na sala o irmãozinho tapava os ouvidos. Chris bagunçou-lhe os cabelos castanhos e saiu pela porta, descendo dois degraus de cada vez. Longe do apartamento sentiu a culpa por deixar o irmão sozinho. Nem sequer sabia para onde ia. E quando não sabia para onde ir, deixava os pés e o coração guiá-lo. Surpreendentemente chegou a escola. As câmeras funcionavam mesmo depois do fim das aulas, mas não todas; entrou pelos fundos e seguiu para a quadra aberta. Pensava em “bater uma bola” e se acalmar e depois pensaria no que fazer; ouviu o quicar de uma bola. Ele não era o primeiro ali.
Clarisse.
O coração acelerou de tal modo que ele mal conseguiu se mover, a visão escurecendo e clareando logo depois. Pelo o que podia ver, ela também ignorava o frio: usava uma calça justa que se agarrava a sua bunda com perfeição. Chris estava louco para passar as mãos naquele corpo... A blusa de tecido fino e estampa esportiva em cor vermelha. O suor descia por seu rosto, contornava o pescoço e desciam pelo interior da blusa, os cabelos presos em um rabo alto e os fios soltos grudando ao rosto. Estava muito sexy.
Bateu a bola, correu e arremessou. Uma cesta muito bem feita. Continuou sem perceber que ele observava-a com interesse, paixão. Chris foi se aproximando devagar, não fez qualquer ruído, também não deu a entender que se escondia, pegou a nos braços, surpreendendo-a e ouvindo-a ofegar.
–Chris! – suspirou seu nome no instante em que ele aproximou o rosto da curva do pescoço, o cheiro salgado do suor o seduzia bem mais do que colônias caras de marca francesa.
–Por que sempre nos encontramos na escola? Fora do período das aulas...
–Eu sou atraída pelo proibido e solitário e você...
–Sou atraído por você – sussurrou ao pé do ouvido da menina; sentiu-a tremer em seus braços, efeito que não teve nada a ver com o vento gelado que cantou pelos arredores. Ela virou-se encontrando os olhos castanhos intensos que Chris tinha.
–Não devia ter dito isso.
–Por que não? – apertou a cintura dela contra si; os narizes quase se tocavam.
–Porque eu não... – suspirou e se afastou para pegar a bola.
–Clarisse! Você não vai me deixar sem uma resposta.
Ela gargalhou com maldade, de um jeito sádico e frio, como as gargalhadas dos vilões dos bons filmes. Chris ficou arrepiado e não no bom sentido. Não esperava algo assim vindo dela. Clarisse era uma pessoa boa. Não era?
–Está pensando que é quem para exigir alguma coisa de mim? – o rosto congelado em frieza, nada mais passava pelos olhos que segundos atrás o atraiam.
–Não estou pensando em nada. Você não pode dizer uma coisa dessas e sair andando!
–Quer apostar?
–Não!
–Oras...
–Porque sei que vai cumprir e a última coisa que quero é ver você se afastando de mim.
Silêncio. Aqueles dois metros que os mantinham separados pareciam quilômetros, o vento ergueu aqueles cabelos escuros e os olhos dela suavizaram... Logo em seguida expressaram dor. Balançou a cabeça e começou a dar lentos passos para trás.
–Não devia dizer essas coisas. Não para mim.
Ela caminhava pelo gramado se afastando devagar quando na realidade ela queria correr e sumir. Chris correu e se colocou na frente da linda moça.
–Por que não deveria dizer? Você não percebe o quão espetacular é? Será que não percebe o quanto eu...?
–Aquela tarde foi só sexo. Não invente mais. Vai se machucar desse jeito, Rodriguez.
–Eu duvido – agarrou-a pela cintura antes que ela pudesse pensar em fugir – Eu conheço seu segredo, querida...
–E o que vai fazer com ele? Vai me ameaçar? Conheço um ótimo jeito de lidar com os que descobrem meus segredos – ela sorria de forma insana – nenhum deles vai poder te contar o que aconteceu.
–O que aconteceu com eles?
–Eles não respiram mais – riu e se livrou dos braços dele quando o viu distraidamente incrédulo.
Começou a correr fugindo dele, mas não pode ir tão longe: o gramado era extenso e Chris recuperou-se rápido; prendeu-a contra seu corpo mais uma vez.
–Você tem medo.
–O que disse? – a surpresa na voz dela não era em nada comparada ao verdadeiro choque; era mafiosa! – Eu não tenho medo.
–Tem sim. Por que nunca disse que é órfã? – a confusão, logo depois o medo seguido da dor passou pelos olhos castanhos da moça, ela desviou o olhar envergonhada – Não existe nada demais em...
–Como é que você sabe? – sussurrou.
–O que?
–Como descobriu isso? Nem a direção da escola sabe. A menos que... – seu rosto se contorceu em indignação – Você me seguiu? – como não respondeu ela tentou afastá-lo – Meu deus!
–Você continua com medo. Com medo do que eu penso de você. Por que será que não nota o quanto é especial, diferente... Clarisse – sussurrou o nome com dor e desejo – Você tem medo de não ser aceita, não é? Tem medo que não te amem... Deixe-me te amar. Por favor – sussurrou contra o pescoço dela.
O vento foi cortante. Ela virou-se lentamente os olhos faiscando... Não foi lento ou gentil; ela puxou-o com força e agressividade tomando-o num beijo intenso e violento. Caíram sobre a grama úmida devido a última tempestade de neve, ele sobre ela, num vai e vem de mãos e apertos e mordidas e gemidos. Clarisse mordeu-lhe o lábio com força fazendo com que soltasse um gemido de dor, os olhos ainda reluzindo em prazer... Afastaram-se minimamente quando as primeiras gotas caíram: fortes, grossas e inacreditavelmente frias. Mas aquilo não era empecilho, era um incentivo.
As mãos hábeis dela soltaram o botão e desceram o zíper sem que ele sequer notasse, as mãos dele escorregaram pelas costas dela ultrapassando os limites do tecido da calça e calcinha ao mesmo tempo, sentindo a pele suave e macia daquela linda bundinha em mãos; foi a vez de ele morder os lábios dela. Chris abaixou a calça dela até pouco acima do joelho enquanto ela arriava as calças dele. A primeira estocada foi rápida e funda, dolorosa para Clarisse que soltou um gemido alto. Ele não se intimidou, sabia que ela aguentava. Meteu nela por tempo indefinido, o prazer prevalecendo, ele precisava provar que não a deixaria, que não se importava e ela precisava sentir que era querida, desejada, importante... Quando o prazer chegou ao ápice, estavam ambos encharcados, e tremendo tanto em deleite como em frio. Olharam-se por longos e intermináveis minutos, mas era difícil dizer o que viam devido a força da chuva que logo deveria se tornar geada; um beijo calmo e aquecedor deu-se início e teve fim precoce...
–Hey! Vocês ai! – a voz era grave e masculina. Os dois ajeitaram as roupas e correram de mãos dadas passando pelo pequeno bosque que a escola mantinha, pularam o muro e correram pelas ruas até encontrarem um toldo onde se abrigaram, três segundos depois estavam rindo, parando ocasionalmente para tremerem e tossirem. Estava muito frio.
–Vamos para minha casa. Ela não fica longe – ele sussurrou para ela.
–Seus pais não se importam?
–Não. – ele tentou colocar uma mecha do cabelo enregelado dela para trás. – Precisamos de um banho bem quente – ela compreendeu o duplo sentido daquilo. Correm de mãos dadas até o apartamento, escorregando pelas escadas e rindo no caminho. Chris ignorou os gritos dos pais vindos da cozinha e sorriu para o irmãozinho de queixo caído vendo-o todo molhado puxando uma menina logo atrás. Ele trancou os dois no banheiro e só então notou os lábios arroxeados de Clarisse. Já embaixo da água, não houve tanta malícia como ele imaginou, era tudo gentil, lento, carinhoso, predominavam longos e profundos beijos. Ele emprestou roupas quentes à “namorada” e deitaram-se lado a lado sob o peso do cobertor.
–Chris... – sussurrou baixo demais, forçando-o a prestar atenção nela – O que nós estamos fazendo?
–Nós – ele apertou-a contra si ao sussurrar de volta – Estamos fazendo o que todos um dia farão. Estamos completando um ao outro, e espero que isso dure porque preciso de você e acho que sempre vou precisar.
–Você é certinho demais para mim – disse ela sorrindo; lembrando-se de já ter dito algo assim numa tarde na sala de mecânica...
–Então amanhã vou te mostrar um lado bem errado meu. Mas você precisa prometer não contar a ninguém, nem as suas amiguinhas ricas.
Clarisse olhou-o durante longos instantes, tomada pela curiosidade; o que um menino como Chris Rodriguez poderia esconder.
–Claro.
[...]
Clarisse não teve sonhos; normalmente tinha pesadelos pensando em como poderiam ter sido seus pais e porque a deixaram em um orfanato. Quando acordou percebeu-se em um quarto que não era seu, com roupas que não eram suas... Chris entrou no quarto trazendo consigo uma caneca nas mãos e um sorriso charmoso e envolvente nos lábios.
–Bom dia – disse com a voz rouca.
–Bom dia – respondeu ela ainda sonolenta, aceitando a caneca de chocolate quente. – Vai me dizer o que tem de errado em você agora ou...
Ele sorriu.
–Vou te mostrar um lugar onde eu, bom, onde trabalho.
Clarisse deixou que ele se vestisse, e cobriu-se com suas próprias roupas. No lado de fora, não nevava, mas o ar estava bem frio e úmido. Ela guiou-o até o orfanato, não que precisasse, ele sabia bem onde era. Subiram juntos até o quarto da moça ignorando as perguntas das velhas Parcas; ela vestiu uma calça jeans, um moletom e calçou as botas, estava pegando uma jaqueta quando sentiu o celular vibrar. Uma mensagem de Marcos. Droga! Será que teria de dispensar Chris? De fato ela não conseguiria fazê-lo... Marcos podia esperar sua ligação.
–Aonde vamos?
–Você vai ver.
–Chris! – Implorou ela – Vai me matar de curiosidade!
Ele riu.
Pegaram dois ônibus e andaram vários quarteirões sempre de mãos dadas, não era como se as luvas impedissem que aquele gesto fosse menos significativo. Quando ela estava a ponto de bufar e perguntar mais uma vez, pararam no que parecia ser uma garagem, talvez uma mecânica, ou... Não! Não pode ser...
–Chris?
–Eu trabalho lá dentro. Quase nunca deixamos as portas abertas – ele tirou uma chave do bolso e abriu um portãozinho quase discreto demais. Lá dentro havia barulho e movimento. Era quase um paraíso: diversos modelos de carros e motos; desde os mais luxuosos até os mais comuns. Um desmanche. Um desmanche quase a nível profissional.
–Eu não acredito – murmurou chocada.
–Quem é a garota, Chris? – a voz veio do lado direito, ela nem se deu o trabalho de virar e procurar o dono da voz.
–Minha namorada. – também não se incomodou com Chris.
O celular vibrava de novo.
–Há quanto tempo esse lugar existe? – ela perguntou sorrindo olhando para todos os lados notando detalhes, reparando nos mínimos erros cometidos.
–Faz dois anos e meio. – respondeu o amigo de Chris, parando em frente à moça – Você parece ter gostado daqui, moça.
Ela riu.
–É uma graça. – ele ergueu a sobrancelha. Chris apertou-a pela cintura e beijou-lhe o pescoço – Se importa se eu fizer uma ligação?
–Fique a vontade.
Ela se afastou um pouco dos dois e finalmente ligou para seu rei:
–Por que demorou tanto? – resmungou Marcos.
–Você não acreditaria – ela quase riu; Marcos com certeza notara o sorriso na voz dela.
–Tem uma garagem especializada em desmanches que precisamos destruir. Estão a mais ou menos dois anos funcionando de acordo com nossas pesquisas. Não nos pagam taxas e não tem qualquer apoio de fora.
–Onde fica? – quando ele pronunciou o endereço, ela finalmente riu e se explicou – Posso dizer que eles não são ruins no serviço, claro que não estão no nosso nível, mas é razoavelmente um nível bom.
–Como sabe tudo isso?
–É exatamente o lugar onde estou.
–Como...
–Explico depois. Tem muitos olhos focados em mim agora... Mas se eu dissesse que posso trazê-los para o nosso lado? Claro que melhoraríamos os padrões, mas e se conseguisse?
–Estaria provando ser a princesa que eu sei que é. – agora ela sentia o sorriso na voz dele – Vou deixar em suas mãos, princesa. Divirta-se.
Retornou para junto de Chris que ainda conversava com o rapaz; abraçou-a de lado e logo foi envolvida.
–Então isso é errado o bastante para você? – ela beijou-o em resposta – Nossa! Devia ter trago você aqui há muito tempo.
–Conte mais sobre como esse lugar funciona. – os dois rapazes falaram por vinte minutos contando a história do lugar, o como surgiu, o porquê surgiu, o para que... – Então vocês não têm um patrocinar de fora? É tudo dependente de vocês? – ela olhou de um a outro – Vocês não têm nenhum porto seguro?
–Não é assim tão fácil, garota – resmungou o desconhecido – Mas claro que meninas não tem um conhecimento...
–Cuidado com o que vai falar, querido. Você não sabe quem eu sou. – ela sorriu assumindo metade da sua pose de mafiosa; assim como suas amigas ela sentia-se mudar quando era dominada pela ação, pelo sentimento de superioridade que era dela por mérito próprio. Era uma princesa e mesmo que o pivete não soubesse, saberia a partir de agora – Já ouviram falar da Máfia? Nunca tentaram entrar em contato com eles. Aposto que seguro melhor do que o deles não existe.
O menino riu com desdém. Chris suspirou e respondeu a namorada:
–Não é assim que funciona, Clarisse. A Máfia não é encontrada ao acaso. De qualquer forma, não tem como eles se interessarem ou se incomodarem com um negócio como o nosso.
Clarisse não conseguia esconder o sorriso.
–Acredite, Chris: a Máfia não vai deixar vocês vivos se não se juntarem a eles.
–Seria incrível nos juntar a uma organização daquele nível, mas como conseguiríamos isso? Sempre achei que podíamos conseguir bem mais do que temos aqui...
–Eu consigo. Se você quiser é claro.
–O que uma menininha como você sabe sobre a Máfia.
–Muito do mais do que você sonhou saber – respondeu ainda sorrindo ao estranho – A pergunta é: vocês estão dispostos a se juntarem a Máfia?
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