Gimme More
67 Capítulo 57
Notas iniciais
Capítulo cinquenta e sete –
—Está tudo bem? – a voz do desconhecido era distante na minha cabeça e distorcida pela música.
Por favor, me ajude! Quis dizer, mas nada saiu. Minha língua parecia estar presa, enrolada. Se eu não tivesse bebido antes, a droga teria feito efeito mais tardiamente e eu teria tido alguma reação melhor do que apenas quebrar o copo.
Que droga, Thalia! Você podia ter ficado mais atenta!
—Tudo sob controle – Pablo disse me amparando; eu já não conseguia falar! – Minha namorada já se excedeu essa noite – disse em tom aborrecido/divertido e me pegou no colo como se eu fosse uma boneca de pano.
Não sei como explicar a raiva, o nojo que senti ao ser chamada de namorada por ele. Era grotesco, errado... Senti meu corpo balançar, os braços moles, até ser colocada num carro. Ali, eu apaguei.
[...]
Despertei ao som de alguém praguejando em espanhol. Mas despertei zonza, completamente desnorteada; de uma forma que nem meu nome eu estava conseguindo lembrar; “sentir” meu corpo era pedir demais e, muito honestamente, eu tinha medo.
—... Família renomadíssima! Ela não me parece nada do que você diz ser.
—Todos viram o jeito dela com os carros. Ela sabe o que faz, acho que sabe demais e pareceu se conter para não demonstrar tanto. Ela deve ter alguma relação com...
—Com a Máfia? – a voz desdenhou – Claro, meu filho. Inclusive eu me esqueci de te contar que eu sou o Peter Pan. Sim, aquela é uma organização impecável, mas você não pode supor toda maldita vez que esbarrou num legítimo mafioso.
—Tenho quase certeza de que ela é autêntica!
—Quase! Você não tem certeza nenhuma. Essa garota é irmã de um dos maiores chefes das Forças Armadas dos USA, filha de um renomado empresário e de uma grande atriz. Ela tem nomes importantes na árvore genealógica, mas é só.
—Não! Você não chegou a vê-la!
—Gostar de rachas não é grande coisa. Ela me parece uma garotinha bem de vida que por acaso se relaciona com algum marginal. Ou não é? Ela não estava com um namoradinho medíocre quando você a seguiu pela tarde? Num almoço de casais?
—Estava – o rosnado de Pablo foi animalesco.
Palavras, palavras, palavras... Elas só machucavam e não faziam sentido algum. Doía ouvi-las imagine só se eu tentasse interpretar!
—Pois bem. Não nego que ela tenha talentos, qualidades. Com um corpo desses... Seria uma boa dançarina na pior das hipóteses. Mas, meu filho, ela é nova demais para fazer parte de algo tão grandioso quanto a Máfia.
—Então o que quer fazer, pai? Já sequestrei a menina...
Alguns instantes de silêncio, de pausa para que meu cérebro pudesse descansar daquela conversa tão acelerada.
—Podemos interrogá-la quando ela acordar ou entrar em contato com o pai dela e pedir um resgate. Deixo isso com você. Só não se suje desnecessariamente. Lembre-se que ela já sabe seu nome.
—Isso não é nada.
—Para alguém inteligente, um nome é muito.
O som de uma porta fechando agrediu meus ouvidos de tal forma que rangi os dentes e encolhi os ombros com alguma dificuldade.
Minha cabeça estava pesadíssima, mas meu corpo não parecia dolorido ou machucado, apesar de eu sentir muito frio nas pernas e braços expostos. Graças a deus! Ou qualquer outra entidade religiosa, tanto faz, eu estava vestida: vestido, saltos, joias. Abri os olhos com dificuldade e me deparei com um quarto simples, sem grandes pretensões, parcialmente iluminado; a cama onde estava era igualmente discreta, e ao meu lado...
—Você dá muito trabalho, Thalia – rosnou ele apertando minha mão contra a sua – Pensei que podia ser minha garota por livre e espontânea vontade e comandar o subterrâneo comigo – minha mente turbulenta se lembrou das palavras de Júniper: ele tinha uma áurea. E subterrâneo... Subterrâneo era uma das gírias para... Meu deus! Ele era um criminoso! Membro de destaque das quadrilhas do Caribe!
Gemi alto quando tentei me levantar e minha cabeça pareceu que ia explodir. Um som esquisito ao fundo, algo como gritos e ameaças, então tiros...
—É melhor deitar, querida – disse me empurrando para baixo – Uma garota com seus talentos, com a sua beleza... Não estou disposto a te deixar ir sem ganhar algo. Talvez seu pai pague um bom resgate, talvez pague mais se eu ousar... – senti sua mão andando por meu corpo, apertando meu seio e descendo...
Mexi-me inquieta para me afastar de seu toque asqueroso, mas requereu muito esforço: meu corpo ainda estava mole, pesado, lento... E pensar que ele tinha ganhado pontos comigo porque soubera ouvir um não. Me enganei. Talvez eu jamais pudesse ter férias, estava óbvio que elas não funcionavam para mim.
Os sons pareceram ficar mais fortes e intensos. Pablo pareceu se levantar, se afastar de mim, resmungando e xingando em espanhol ou francês; não identifiquei o idioma.
Fechei os olhos com força como se isso pudesse afastar a dor de mim. Uma sucessão de barulhos, algo tão insuportável, tão... A dor foi mais forte que minha vontade de entender o que estava acontecendo: desmaiei de novo.
[...]
—Você está cheio de sangue, Luke! – a voz era feminina, conhecida; mesmo assim foi uma agressão ouvi-la – Se limpe rápido antes...
—Ela está acordando – disse outra voz.
Estava bem melhor do que antes, mas ainda me sentia bem longe do meu estado normal. Eu nem tinha a pretensão de assumir a postura de mafiosa ou da perfeita Grace. Eu só queria ser Thalia de volta. Ainda me sentia uma boneca frágil, quebradiça.
Meus cílios pareciam chumbo, mas consegui abrir os olhos. Eu estava quase deitada, escorada em Annabeth e em Percy; parecíamos estar numa praia, pois ouvia as ondas ao fundo. A minha frente vislumbrei – bem longe – duas mafiosas se lavando no mar.
Ele aproximou-se e se agachou na minha frente. Luke tinha a camisa respingada de carmim, os braços vermelhos de sangue... Seus olhos, porém, estavam preocupados apenas comigo. Era como se aquele tom de azul gritasse...
Quis perguntar se alguém estava ferido, o que tinha acontecido... Tombei a cabeça no ombro de Annabeth, sentindo o mundo inteiro rodar e escurecer apesar de não ter desmaiado. Senti a preocupação no ar, pesando ao meu redor.
Perdi totalmente a noção do tempo, mas compreendi que eles se revezavam entre se limpar, vigiar e me apoiar. Deus! Eles não podiam se colocar em risco, não podiam ter se expostos...
—Como vamos voltar para a boate?
—Por mim, nós vamos direto para o hotel – a rudez na voz de Luke me surpreendeu. Um timbre bem mafioso.
—Temos que agir o mais naturalmente possível.
—Não nos viram sair da boate, só precisamos entrar discretamente pelos fundos e sair pela porta da frente com um dos monitores e...
—E como vamos explicar...
—Eu consigo andar – disse baixinho, abrindo os olhos, mas sem focar em ninguém.
—Thalia – senti a dor na voz de Luke e o peso do olhar dos demais. Era claro que ali o maior medo era que eu me machucasse mais, mas eu não conseguia deixar de pensar neles, de me preocupar com eles. Era essa a função de princesa, não? Cuidar dos demais.
—Eu só preciso de apoio – disse a contragosto; a voz penando para sair.
Não tinham nem como retorquir ao meu pedido. Para mim estava óbvio, pelo pouco que eu havia percebido do comportamento deles: eles haviam se expostos demais, de uma forma que poderia nos complicar tão estrondosamente aqui quanto futuramente; estava óbvio que eles temiam prejudicar a Máfia.
—Marcos disse o mesmo que Thalia – interveio Bianca – Precisamos passar naturalidade. Mesmo assim temos restrições: ninguém mais fala nada com ninguém de fora da viagem.
—Nós vamos voltar a pé? – a voz de Percy era incrédula – Se não pudermos chamar um taxi ou um ônibus...
—Somos um grupo grande, chamamos muita atenção.
—Marcos pediu a alguém de confiança que viesse nos buscar – Bianca tentou acalmar a todos, ela ainda segurava o celular contra a orelha, mas eu não me prendi a detalhes.
Uma van discreta, bem comunzinha parou próxima de nós. O motorista desceu para abrir a porta e nos saudou com o punho sobre o peito. Entramos todos; Luke inclusive recebeu uma camisa nova – idêntica ou muito similar; eu ainda não conseguia distinguir!— enquanto se livravam daquela outra machada. Nos fundos da boate, um funcionário foi subornado para nos ajudar a voltar para dentro, mesmo assim, tínhamos que ir aos pouquinhos e não o grupo todo de uma vez.
O plano era que Luke entrasse comigo quando tivesse o mesmo – ou próximo – número de mafiosos dentro e fora da boate para uma maior proteção. A atmosfera como um todo estava me deixando mole, morrendo de dor, mas quando entramos pareceu piorar. Agarrei Luke escondendo meu rosto em seu peito para que nenhum desavisado visse minha cara de dor devido aquele som altíssimo. Castellan me apertou contra si tentando me proteger com seu corpo; eu não poderia pedir mais dele, esperar mais dele.
Não faço ideia de como chegamos a uma área de descanso, num daqueles sofás confortáveis pertinho da saída já esperando pelo próximo ônibus; eu confortavelmente no colo de Luke, abraçada a ele, sentindo seu corpo me envolver protetoramente. Alguns mafiosos já se juntando a nós, outros fazendo cena, ainda dançando e indo aos poucos se sentando, nos cercando. Dentro do transporte, meu namorado tirou os meus sapatos e literalmente me pegou no colo assim que saímos em frente ao hotel. Eram inegáveis os olhos apaixonados de Luke focados em mim, mas a preocupação ainda estava muito gritante naqueles olhos lindos.
Rachel e Annabeth me ajudaram a tomar banho e a vestir o pijama. No quarto estava quase impossível transitar: entre as camas estavam colchões extras de algum outro quarto e todos os mafiosos ali, esperando por mim. Sentei com as pernas cruzadas, deixando que Luke desembaraçasse meus cabelos, enquanto eu bebia água e observava o movimento silencioso dos demais: alguns se preparando para tentar dormir, outros já montando a vigília. Todos muito atentos aos meus movimentos.
Somente quando Castellan aposentou a escova e abraçou meu corpo por trás que tomei coragem de perguntar:
—O que aconteceu?
—Você foi sequestrada...
—Dessa parte eu lembro, Percy – tentei sorrir, mas não deu muito certo.
—Você demorou muito para voltar do bar – a voz de Rachel estava pesada; aquilo era esquisito: ela sempre levou tudo tão de boa, de uma forma tão leve... – Luke foi atrás...
—Eu vi a taça quebrada – Luke me apertou mais – Sabia que algo estava errado. Quando estava entrando em pânico vi você nos braços de um homem, na saída.
—Roubamos dois carros – relatou Chris – Foi tudo muito rápido já que estávamos seguindo você. Seu sequestrador foi burro a ponto de não lhe tirar o celular – coçou o pescoço – Nós explodimos os carros.
—Eu tinha uma arma na bolsa – disse Bianca – dei-a para Luke e roubamos as demais dos que deixamos pelo caminho. Tiramos você de um quartinho... Não parecia... Você não... Estava sozinha e...
—Não fizeram nada. – murmurei fechando os olhos, sentindo os braços de Luke pesarem, me envolverem mais – Vocês correram tanto perigo...
—Hey – Percy exclamou – Você vale a pena, Lia. É mais do que nossa princesa. E por mais ridículo que isso soe, acho que ninguém se arrepende de nada. Você faria o mesmo numa situação dessas.
Demorei meus olhos em Perseu, então os segui pelos próximos, desvendando as almas dos meus amigos, muito mais devagar pelas drogas que ainda me corriam no sangue. Por último inclinei-me para o lado, olhando para cima, para os olhos do homem por quem eu estava apaixonada, o homem que passara por cima de todos para me ter de volta.
Eu consegui sorrir para todos, olhando para todos. Ali naquele quartinho de hotel, tão longe de casa... Não podia me sentir mais protegida.
—Eu adoro vocês – confidenciei baixinho.
[...]
Acordei sentindo os carinhos de Luke: sutis, suaves, apaixonados. Mas não abri os olhos, nem me movi. Queria voltar e dormir e apagar o fim da noite. Senti o instante em que ele se foi e me forcei a não “acordar”.
Quando desisti da moleza, sentei-me devagar vendo as meninas, Bia e Annie, começarem a organizar as coisas para jogá-las na mala. O quarto já ao seu aspecto “normal”.
—Hey, princesa – sorriu a loira.
—Bom dia – respondi.
—Tomara Deus – Bianca sentou-se ao meu lado e começou a trançar os negros cabelos – Temos uma longa lista de restrições e afazeres para hoje, mocinha.
—A começar pelo café da manhã! – Annie segurou minhas mãos.
Subimos de pijamas mesmo e nos sentamos as cinco – encontramos as outras duas já guardando nossos lugares. Havia um cuidado enorme ao meu redor, mesmo elas disfarçando absurdamente bem com aquela conversa sobre a nova coleção de bolsas da Prada.
—Sobre ontem... – tentei me desculpar, mas o rumo da conversa se desviou totalmente.
—Lia, você perdeu! Mas nem sei como poderia ver se não imagino sequer outro bom motivo...
—Ah?
—Castellan – Clarisse esclareceu o discurso e Rachel continuou.
—Eu nunca tinha visto nada parecido antes. Ele que nos guiou, nos conduziu a noite toda. Começou a dar ordens, dizer o que cada um faria, como faria... – a ruiva balançou a cabeça negativamente com lentidão – E não foi ofensivo, entende? Foi...
—Foi prazeroso – completou Annie.
—Ele foi tão frio, tão seguro, tão apaixonado... Não tinha tempo para erros, para cuidados extremos – Bianca tinha o olhar espantado – Foi como eu sempre imaginei Marcos em ação – ela olhou ao redor e viu as outras conformarem.
—De madrugada... Para ele não foi o bastante saber que você estava bem, que estava protegida por todos nós – disse Clarisse – Ele não dormiu nada. Ficou muito bem acordado, velando seu sono como se tivesse medo de você parar de respirar por culpa da droga ou sei lá.
—Acho que nunca vamos conseguir te passar a sensação de segui-lo durante a madrugada, mas só tenho a agradecer por ele ser um dos nossos.
Fiquei com aquelas palavras na cabeça por muito tempo.
Arrumamos as malas quase em silêncio, já que ainda me restavam alguns resquícios de dor, e vestimos o uniforme como pediu a professora. Foi terrível tirar o pijama. Mais terrível ainda era minha mente me culpando pelo o que ocorrera.
—Não se culpe – ele sussurrou em meu ouvido quando finalmente nos sentamos lado a lado no avião. Os mafiosos todos aglomerados – Pode dormir, anjo – seus dedos se entrelaçaram aos meus – Você ainda está cansada...
—Você também.
Seu sorriso era cansado, mas firme em sua decisão. Era lindo.
—Não me canso de te proteger, princesa. Acho que nunca vou cansar.
E contrariando todos os meus desejos, eu realmente dormi em seu ombro a viagem toda; nossas mãos sempre juntas, os dedos entrelaçados frouxamente. Chris me confidenciou depois que Luke também cochilara apoiado em mim; melhorou muito meu dia.
Do aeroporto para o colégio – pegando aquele trânsito que destrói humores – novamente separados por turmas e no colégio os pais/responsáveis nos esperando. Foi quando o tema/pesadelo chamado minha família voltou com força. Tudo o que eu fizera, o que causara. Fora minhas fotos da viagem e os muitos vídeos em que eu fora marcada; vídeos esses do pedido que Luke me fizera. O clima na mansão devia estar péssimo e eu não teria a menor paz.
Para piorar de vez a situação, meu desconfiometro de mafiosa já estava alerta e eu senti olhos sobre mim, uma vigilância que quase me assustou. Foi quando vi dispersado e bem camuflado pelo meio o próprio Ramiro e não um de seus ajudantes. Para ser ele ali, Ramiro devia ter se preocupado horrores. Ele devia estar mandando imagens e/ou vídeos para o meu verdadeiro pai. Isso me trouxe uma saudade tão forte que meu peito doeu e foi muito difícil desviar meu olhar mesmo sabendo que era o melhor a se fazer.
—Anjo – Luke abraçou-me por trás – Clarisse e eu vamos pegar um taxi até minha casa e de lá vamos falar com Marcos, ver o que dá para fazer para ajudar a arrumar a bagunça.
—Já vão? – virei já envolvendo seu pescoço com meus braços. Concentrando nele toda a carência pela falta da Máfia e pela falta que ele me faria em questão de minutos.
—Só depois que eu ver você segura num carro da sua família – ele me olhou profundamente – Acho que você não vai poder sair esse fim de semana, não? – disse já adiantando os movimentos dos meus parentes. Aquilo era apenas a ponta do iceberg do que eu esperava de Zeus e seus robôs.
—Provavelmente. Só vamos nos ver segunda-feira – lamentei brincando com a gola da camisa.
—Bom. Assim sei que vai estar segura até que tudo fique resolvido por lá. – o tom profissional sumiu dando lugar a uma voz carente, sua mão apertando minha cintura – Não fica legal eu ir te ver...
—Não. É muito cedo para eles...
—Eu quero muito te beijar agora – seus lábios já estavam pertinho dos meus e mesmo estando constrangida com aquela leva de pais e alunos e alguns professores, eu queria aquele beijo.
—Thalia! – afastei-me no susto, mas a voz... – Vamos, seu irmão já está impaciente.
—Tchau – disse acariciando aquele lindo rosto uma última vez naquele fim de semana. Seja forte, garota!Esperou tantos anos para beijá-lo, consegue aguentar uns três dias a mais.
—Sorte sua que fui eu que te vi – disse Ariadne.
—Sorte você me poupar de todo um escândalo – abracei-a conforme caminhávamos – Obrigada por vir.
—É um gosto para mim. Mas e o rapaz? Sabe que vários vídeos...
—Eles vão ter que entender, Ariadne. Não é de hoje que eu venho dizendo o quão importante ele é – disse firme, logo depois sorri – Se bem que eu acho que eles esperam por isso há meses.
A mulher apenas sorriu; era como se visse em mim o reflexo da palavra paixão. Me toquei de que ela era casada com meu irmão menos emotivo e não devia ver olhares radiantes e entusiasmados com um romance como o meu naquele instante – a não ser que ela olhasse no espelho, o que era difícil – Devia ser gostoso ver um sentimento tão real e intenso nos olhos de outra pessoa, principalmente naquela família tão fria e artificial, como que uma confirmação de que não se está louco ou sem razão.
Gostei mais dela naquele instante. Tive muita pena inclusive.
O que me fez pensar no que eu planejava fazer para meu irmão. Não era uma hipótese, agora então era muito menos: tirar Ariadne dele. Apesar de não ser nada difícil – no sentido emocional – para eu separá-lo dela, eu não seria capaz de machucá-la. Ela não merecia e contrariando todas as minhas expectativas, a mulher realmente amava aquele louco embriagado.
Finalmente avistei Dionísio dentro do carro.
[...]
Ai, a mansão Grace! Gelada como de costume. Não senti falta daquela casa. Nenhum um pouquinho. Na sala estavam meus irmãos, pai e madrasta todos reunidinhos como a família perfeita, prontos para receber a caçula.
—Se divertiu muito, não é? – Zeus sequer esperou eu entrar no cômodo direito. De certo sentar estava proibido para mim.
—Sim – não neguei um sorriso.
—E quanto isso tem haver com Luke Castellan? – ele foi ríspido.
Pensei na pergunta.
—Muito – sorri para ninguém em especial.
-Isso...
—Nada de “Como foi a viagem de volta?” ou “Sentiu nossa falta?” – fechei os olhos e tentei me acalmar – Pai, estou cansada e não me sinto bem...
—Pegou alguma turbulência? – disparou Hefesto, preocupado.
—Não sei, dormi o vôo todo. – voltei os olhos para o dono da casa – Posso subir pro meu quarto?
Zeus ficou pasmo; por muitos segundos – longos e demorados – ele ficou em silêncio profundo, incomodado com a pergunta. Fazia muito tempo que eu não pedia algo, pedia por sua permissão. Não precisava olhar para saber que Hera devia estar irritada com “outro golpe da filhinha insuportável da atriz medíocre”. Tentei não desviar o olhar mesmo me coçando para analisar bem o estado dos meus irmãos. Aquele azul tão intenso quanto o meu cedeu.
—Descanse – disse com a voz inexpressível – Conversamos depois do jantar.
Aquela era nova. Depois do jantar. Ele sempre discutia durante, talvez porque gostasse do show, de me constranger na frente dos meus irmãos e madrasta. Parecia que agora eu fora muito mais além.
—Obrigada – murmurei.
Antes de seguir em direção as escadas, fui até os sofás. Beijei a bochecha de cada irmão – como se fosse uma boneca das histórias falsas da Barbie – e aproveitei para sentir bem o clima. Apolo estava pálido, resultado de dias sem sol, os cabelos desarrumados apesar das roupas impecáveis. Ares era uma casca grossa, muito mais grossa que o normal, o que fez a certeza ser clara: ele fora abatido com sucesso. Hefesto não estava pálido, mas tinha grandes e fundas olheiras roxas. Hermes estava tranquilo, quase indiferente aos demais irmãos. Precisava pensar urgente no que fazer com ele para lavar toda aquela calma de sua face.
Passei reto por Hera como se ela não existisse, despedi-me de Ariadne e Dionísio e segui em direção ao meu pretenso pai. Zeus recebeu um beijo seco naquela barba áspera... E toda a minha vontade inexplicável de ser amada por aquele homem retornou.
É, Grace... As férias acabaram.
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