Gimme More
68 Capítulo 58
Capítulo cinquenta e oito –
Impressionante: só entrar no banheiro para ser atingida pela TPM. Graças a deus, minha viagem fora tranquila sem ela. Saí da suíte vestida apenas com as peças íntimas e me deparei com Teresa desfazendo minha mala. Ela não disse nada por um tempo, além de dispensar minha ajuda, só que ela encontrou uma peça que obviamente não era minha, mesmo meus gostos não sendo tão femininos assim.
—Então? – ela sorriu segurando a camiseta de Luke.
—Então? – repeti tomando a blusa de suas mãos calejadas. Ainda tinha o cheirinho dele. Cheiro dele, de amaciante e o meu perfume fraquinho. Foi inevitável recordar de sair do quarto vestindo apenas aquela camiseta, depois de uma madrugada quente... A lembrança foi mais além para o decorrer do dia, para o segundo beijo e todas aquelas confissões e o pedido mais lindo que nunca seria superado.
—... Tão apaixonada...
—Teresa! – exclamei constrangida por me deixar ficar aérea na presença de alguém.
—Mas está – ela riu e eu vesti a camiseta – E não fique encabulada desse jeito, pequena. É lindo e normal. Sua felicidade é tudo o que nos importa.
—Você sabe que isso não importa para eles – disse apontando para a porta.
—Importa sim. – ela insistiu sem me olhar nos olhos; ela claramente não acreditava no que dizia o que só me deixava triste – Cama, mocinha. Você tem até o jantar para sonhar com seu amor.
Deitei-me abraçando a mim mesma. Meu amor. O gosto do medo invadiu minha boca, a dúvida amargou todos os meus sonhos doces. Eu não queria rotular aquele sentimento, não conseguia! Ainda era doloroso pensar em amor. Abelle, Zeus, Hera. Eram figuras muito fortes, muito presentes e não faziam mais do que me atrapalhar.
Despertei com Apolo me sacudindo o corpo sem qualquer gentileza.
—Jantar – disse quase ríspido – É melhor tirar essa camiseta.
E foi assim que começou a rodada de ciúme. Peguei qualquer coisa fácil e confortável de se vestir e desci. A mesa bem colocada, já cheia de falsidade poluindo meu ar. Sentei ao lado de Zeus já que o mesmo gesticulava para que eu o atendesse.
—Dionísio...? – comecei a perguntar.
—Saiu com a esposa – disse ríspido – Kate está fazendo um trabalho escolar na casa de uma amiga.
Trabalho escolar... Evitei sorrir. Que truque velho, Kate! Mas pelo visto ainda era eficiente com ela; comigo já seria uma história bem diferente.
O jantar em si foi silencioso como se alguém tivesse morrido. Nem mesmo Hera – sempre falante – abrira a boca. O clima estava tão pesado e constrangedor e qualquer barulho acidental – o tinir dos talheres, uma eventual tosse ou espirro, o baque surdo da taça na mesa – parecia incomodar. Era como se todos ali soubessem que Zeus estava à beira de um surto de raiva tremenda e que qualquer deslize, por menor que fosse, causaria um desastre.
—Thalia – chamou, levantando-se sem provar da sobremesa – Meu escritório.
Decidi não contrariar ainda. Levantei educadamente, sem barulhos, sem queixas; segui dois passos atrás dele sem me importar com os murmúrios que irromperam quando saímos da sala de jantar. Queria saber qual era a situação do terreno no qual eu pisava. Então o plano era ouvir mais e falar menos, tentar refrear as respostas prontas e os ataques diretos. Seria difícil? Sim, bastante. Mas era necessário.
O escritório de Zeus Grace. Ambiente fechado, luxuoso, requintado. Aquele era um local proibido aos seus filhos, principalmente quando éramos menores, apenas crianças. E mesmo agora não tínhamos uma permissão direta para entrar naquele cômodo. E ser convocado ao escritório era um sinal claro de seriedade, de que todos os limites haviam sido ultrapassados.
Ele colocou-se atrás da escrivaninha, sentando-se na confortável cadeira. Sentei-me numa poltrona à sua frente e aguardei.
—Eu lhe dei permissão para sentar? – disse com a voz grossa, sem emoções.
Controlei todos os meus impulsos e consegui não demonstrar nenhuma emoção. Tão graciosa quanto solicita, levantei em silêncio e, novamente, aguardei.
Zeus colocou os óculos – que muito raramente usava – e voltou-se para o computador.
—Suponho que saiba o que aconteceu com essa família quando esteve fora. Uma praxe sua, não? Saber de tudo antes de mim.
Não se entregue!
—Não me preocupei em saber.
Meu pai ficou rígido como se soubesse exatamente o porquê de eu não me preocupar. Como eu, ele se controlou ao máximo para não mostrar mais do que não devia.
—Soube da modelo que teve vídeos íntimos vazados? A garota que você disse ser o interesse amoroso de dois dos seus irmãos.
—Ouvi algo a respeito.
—Ela veio nesta casa fazendo um grande show de drama e com ela duas dúzias de repórteres loucos pela matéria de destaque. Entendo perfeitamente a fúria de Ares, mas Hefesto foi muito mais sensato ao expulsá-la com classe. – Zeus suspirou e indicou a poltrona; finalmente eu poderia me sentar – Nosso nome tem estado na boca do povo por tempo demais, por motivos errados. Hera está furiosa porque o casamento em si mal é comentado...
—Então nós nos reunimos para falar dela? Da sua namoradinha – escapou antes que eu conseguisse me conter.
—Não.
—Não entendo...
Meu pai virou a tela, mostrando uma série de vídeos sem se incomodar em soltar o áudio. Todos eles eram pontos diferentes do pedido de namoro. Claramente romântico. Tão mais romântico que a tal renovação dos votos que eu estava ofuscando mais uma vez minha madrasta. Claro, dessa vez fora completamente acidental.
—Como se já não bastasse o escândalo dessa modelo, o surto de Apolo com faculdades de arte, você finalmente decide se atirar em cima desse rapaz sem berço! E tudo amplamente explanado nas mídias. Será que ninguém nessa casa consegue manter segredos?
Se você soubesse dos meus segredos, velho...
O clima era péssimo.
O terreno era tenebroso.
Não sabia se eu ria ou chorava.
—Eu não me atirei...
—Ah não? Tem testado minha paciência o ano todo, especialmente nos últimos meses. Arrasta esse moleque para dentro da minha casa, foge com ele do colégio, dançam em público como dois devassos e agora isso – aponta para a tela – Não vou ser mais indulgente com você, Thalia.
Quieta, fique quietinha, mantenha toda a calma que você não tem.
—Nada a dizer? Isso é novidade – debocha.
—Por que você o detesta? – perguntei baixinho, me controlando ao máximo.
—Desde que ele apareceu nas nossas vidas tudo tem desandado. Você em especial. Esse tem sido...
—Não, pai. Nossos problemas são bem mais antigos do que minha relação com Luke. E para falar bem a verdade, a grande maioria dos problemas nessa casa é culpa sua, culpa de seus atos egocêntricos de décadas atrás.
—Lá vem você com o mesmo discurso vitimista de sempre. Essa sua mania de me colocar como o vilão da história já me cansou há tempos, menina.
—Então vamos parar de brincar? Vamos começar a ser honestos e admitir nossos erros? É isso o que está me pedindo?
—Não tente me enrolar com as palavras.
—Não tento.
O silêncio caiu pesado como chumbo. Ficamos apenas nos encarando, azul contra azul, numa luta silenciosa, uma batalha feroz para saber quem cederia primeiro.
—Lembra aquele jogo que eu costumava brincar com você e meus irmãos? Um jogo de perguntas e respostas, que só valiam respostas claras e diretas. Respostas honestas.
Esse “jogo” fora desenvolvido quando eu era somente uma garotinha, naquela fase chata/irritante em que a criança não para de fazer perguntas das mais variadas possíveis. Minha família tornara isso um jogo com regras, limitações de temas e horário permitido para brincar.
—Lembro.
—Vamos jogar agora? – pedi.
Se eu tivesse pedido para ele cuspir fogo teria chocado-o menos. Estava farta de discussões e aquela conversa séria estava me deprimindo muito. Ficou claro que as restrições não valiam mais. Meus olhos estavam úmidos, mas ainda não eram lágrimas formadas. Droga de TPM! Estava sensível demais! Zeus tirou os óculos e esfregou as têmporas. Muito lentamente, ele assentiu.
—Qual foi o seu maior erro? – perguntei sabendo da resposta e não querendo ouvi-la. Precisava, porém. De qualquer forma, perguntas muito pessoais não eram permitidas.
—Abelle – peguei a indireta no ar: a falecida esposa e tudo o que a envolvia. Tudo. Zeus percebeu que eu entendi e desviou o olhar – Por que você odeia Hera?
—Porque ela terminou de tirar o meu pai de mim, o pouco que me restava – respondi sem pestanejar – Porque ela me deixou órfã de um pai vivo. Porque durante meses ela me torturou por lembrar Abelle, por ser sua filha. Porque mesmo depois de anos ela ainda me vê como sua rival. Por que Luke te incomoda tanto?
—Porque ele está tirando minha filha de mim. Porque ele é jovem e vai te machucar como eu machuquei tantas outras mulheres além da sua mãe e da sua madrasta. Desde quando minha opinião sobre esse garoto te importa?
—Nunca importou. Desde quando você se importa em me perder, me machucar? Vem fazendo isso há anos...
—Eu posso – respondeu quase agressivamente – Os outros não. Você é minha menina, gostemos disso ou não! Está com ele só para me provocar?
Consegui esboçar um minúsculo sorriso.
—Não. Estou com ele porque Luke me faz bem, me faz feliz, me faz humana. Com ele não importa se eu sou uma princesa perfeita, uma frágil boneca de porcelana ou uma garota incorreta. Não preciso de máscaras nem armaduras. Com Luke eu posso ser apenas eu, e isso basta – Zeus ficou um bom tempo calado absorvendo todo aquele sentimento que vazava pelo meu tom de voz – Desde quando você sabe? Desde quando você espera...?
—Temi da primeira vez que ele veio aqui, a forma como te olhava. Soube desde o nosso fracassado jantar, quando ele apareceu e você reagiu mal à presença da outra garota. Espero desde que ele invadiu essa casa e te levou nos braços até o consultório de Apolo e se negou a deixá-la.
Zeus jogou as costas para trás apoiando-se no encosto da cadeira.
—O que eu faço com você, Thalia? Como eu te afasto dele? – não respondi – Não me agrada em nada essa história de namorar, mas você já confessou que pulou etapas, então não sei o que pensar. Tantos rapazes melhores, bem nascidos e com futuros promissores. Sobrenomes importantes, alguns conhecidos seus como Jackson, Solace, Di Angelo se o menino fosse do seu gosto. Aceitaria até mesmo o garoto com quem você simpatizou na Austrália – ele balançou a cabeça em negativa, estava se preparando para alguma frase, algum golpe – O que você quer? Diga o seu preço, a sua condição para se afastar...
—Não.
—Thalia, você não sabe o que está fazendo. Não tem a menor noção do que acha que sente por esse pivete...
—Tem razão. Não tenho a menor noção da dimensão do que eu sinto. Escondi de mim mesma por tempo demais porque meu maior medo era ser fria e indiferente como o meu pai e eu fui exatamente assim. Foi meu erro; podia ter facilitado as coisas, podíamos estar juntos há muito tempo. Você diz que ele vai me machucar, mas o contrário é o mais próximo da realidade. É muito mais fácil e provável ser eu a partir o coração dele como já fiz tantas vezes antes. Então não se preocupe comigo.
—Isso é ridículo... !
—Não vou abrir mão dele. Não vou. Pode me deserdar, me mandar para um internato em outro continente como você já pretende, pode me ameaçar o quanto quiser. O máximo que você pode conseguir é que nós dois nos encontremos as escondidas. E você mesmo sabe o quanto assim é mais gostoso, o quanto as coisas andam muito mais rápidas dessa forma proibida.
—Está me ameaçando? Está dizendo que vai... Que vai...
—Transar na primeira oportunidade? Sem preservativos, sem cuidados? – conduzi as situações que ele não conseguia falar em voz alta – Talvez engravidar antes do vestibular?
—Thalia!
—Não é isso o que eu quero – continuei com a voz mais mansa – Não quero te ameaçar...
—Estou lhe dando a chance de me pedir qualquer coisa que queira. Viagem, roupas, joias, talvez algum curso de artes – disse com desgosto.
—Pai, por favor – apelei para não brigar – Não tente me comprar; não vai conseguir.
—Se eu prometer te dar mais atenção, estar mais presente...
Enxerguei em seus olhos o quanto aquilo custara a sair. E nem era sobre a questão de ser um homem ocupado, com muitos afazeres. Estava com medo da reação da minha madrasta, afinal, a condição daquele casamento era que eu sumisse para outro continente e não voltasse mais.
—Você tem prometido isso há anos e ainda não cumpriu e se seus planos com minha madrasta derem certo, não vai cumprir nunca. Acha mesmo que vou ceder a uma frase bonita e a uma promessa frágil e quebradiça? Sei que não tenho qualquer importância na sua vida além do que a mídia mostra, até porque sou um erro na sua vida, então não tente me convencer que vai me escolher em vez de Hera.
—Não é bem assim.
—E como é? – ele ficou mudo – Eu já desisti de você; não vale o risco. Mas eu também já disse isso antes, tenho certeza. Eu o quero. Quero Luke Castellan de todas as formas possíveis. E se para isso eu tiver que brigar não me importo.
—Suponho que não vamos chegar num acordo.
—Não um que você goste.
O silêncio foi tenso. Estava surpresa comigo, surpresa com Zeus por me dizer muitas verdades. Sentira bem o terreno completamente desestabilizado e pusera meus interesses sobre a mesa. Já conhecia as cartas de Zeus e ele as minhas. Era esperar para ver que movimento ele iria fazer e correr atrás do que eu queria a partir disso.
—Entregue seu celular – mandou.
—Por que estou sendo punida? – perguntei enquanto colocava o aparelho sobre a mesa entre nós dois.
—Não perdoei aquela ceninha ridícula que vocês protagonizaram, dançando numa rua deserta aquele ritmo tão... – pela expressão ficou claro que sensual e sua filha num mesmo assunto o incomodavam muito.
—Entendi – controlei o tom de voz – E sobre Luke?
—Ainda não decidi se aceito, se permito vocês dois.
Ignorei completamente o fato de que eu não me importava com aquilo, com a sua permissão, e fui direto para a parte que me interessava.
—Posso ir? – ele assentiu – Nós paramos de jogar, não? – perguntei na porta, apoiando meu corpo na mesma.
—É...
Travei um choro sem explicação alguma e fechei a porta.
[...]
O fim de semana foi um saco.
O tempo não passava; cada minuto parecia uma hora e cada hora parecia um dia. Fui difícil dormir porque a toda hora eu me pegava pensando nele, em seus beijos, em seu toque... E quando não estava pensando em Luke, estava pensando em Marcos, na Máfia. E pensando neles eu me lembrava da confusão que fora nossa saída do Caribe.
Num momento mais feliz em meio ao gelo que eu estava recebendo dos meus irmãos, Kate, Teresa e algumas outras empregadas se reuniram junto a mim para que eu contasse exatamente como fora o pedido de namoro, como eu reagira, as palavras que eu usara... Foi tão gratificante não ser criticada por agir como uma adolescente normal – sem classe, sem frescuras, sem mimos – foi gostoso me sentir normal: uma adolescente feliz por ter sido pedida em namoro de uma forma extremamente romântica. As reações também foram incríveis... Até Hera chegar ao aposento e as empregadas irem embora discretamente. Ela me lançou um olhar esquisito, como se quisesse conversar; convenientemente, segui com Kate para o jardim.
Foi terrível ficar sem o celular e minhas redes sociais estavam muitíssimo bem vigiadas, então não sabia de Luke, nem das meninas, nem da Máfia, nem nada! Kate ajudou bastante, mas tinha limites, claro.
Na manhã de segunda-feira mal consegui comer tamanha minha ansiedade para sair da mansão e ver gente querida por mim. Os poucos na mesa junto a mim evidentemente perceberam minha felicidade em ir para a escola. Claro que sabiam o motivo, por isso as caras fechadas.
Assim que saí do carro senti uma mão firme em meu braço e antes que percebesse estava presa nos braços de Luke. Ele literalmente tirou meus pés do chão e rodou comigo pelo estacionamento. Não consegui conter um riso feliz; ignorei que chamávamos muita atenção de alunos e professores, afinal, estava finalmente com quem queria estar. Voltei ao chão enlaçando seu pescoço e me deliciando com aquele sorriso lindo.
—Bom dia, princesa.
—Bom dia, soldadinho – brinquei adorando senti-lo pertinho de mim. Nem tive tempo de dizer mais nada.
—Que casal bonito! – ouvi a voz bem humorada de Rachel. A ruiva tinha os cachinhos curtos presos num penteado simples e adorável – Miga, sabe que seu motorista voltou para seu pai com uma cena linda para descrever, não?
—Sei – respondi me afastando ligeiramente de Luke. Até mesmo eu senti meu tom de voz oscilar.
—Você ta naqueles dias – disse com a voz de lamentação – Ai, me desculpa!
Eram anos de convivência; conhecíamo-nos até do avesso, por isso não foi surpresa quando ela declarou esclarecendo – até para mim mesma – o motivo daquela sensibilidade.
—Opa! – intrometeu-se Luke – Ruivinha, como você sabe que ela está...
—É bem óbvio. Ela está visivelmente mais sensível e não pense que isso tudo é só alegria em te ver – debochou – Então cuidado com o que você faz e fala se não quiser atiçar a mafiosa dentro dela – ela disse a última parte baixinho.
Luke olhou para mim em busca de uma confirmação. Apenas ergui o ombro como se dissesse que alguma hora ele próprio aprenderia a identificar meu humor. Ele me trouxe novamente para mais perto de si, abraçando-me com muito carinho. Então o restante da turma foi chegando e a conversa rolou solta com pausas para abraçar/cumprimentar Nico.
As aulas foram interrompidas por cada professor que perguntavam pela viagem e todos – todos mesmo – perguntaram sobre mim e Luke. Perdi a conta de quantas vezes tive que declarar que, sim, estávamos juntos. No intervalo, ele conseguiu me levar a um dos corredores mais vazios do colégio, completamente deserto. Colocou-me contra a parede e me beijou como queria fazer desde que me vira.
—Senti sua falta – confessei baixinho me deixando levar pelo clima saudoso do beijo.
Castellan me apertou contra si e afastou meus cabelos do meu rosto. O prazer em seus olhos claros era nítido, transparente. Apenas com três palavrinhas. Sua respiração batia firme em meu rosto e seu hálito me inebriava. Luke tomou minha boca outra vez num beijo lento e profundo, embora breve demais para o meu gosto.
—Eu também senti sua falta – confessou – Senti muito.
Não perdemos tempo discutindo outros assuntos, mesmo minha saída do colégio sendo importante. Muitos beijos furtivos e rápidos, quase sendo pegos por um inspetor, mas era o que queríamos. Beijar. Novamente aquela confusão no estômago, popularmente conhecido como borboletas, voltara a me perturbar... O ponto era que agora eu gostava. E gostava muito.
[...]
—O garoto parecia à procura de Mafiosos há bastante tempo – o tom profissional, porém gentil de Marcos era reconfortante, como voltar ao nosso primeiro encontro. Mas não era reconfortante o suficiente.
Havíamos acabado de sair de uma salinha extremamente privativa, similar aquelas salas de interrogatório, onde eu havia passado por um processo de hipnose ou algo similar a isso, para recordar da conversa de Pablo e seu pai que eu ouvira inconscientemente. Mafiosa como eu era, relatei cada detalhe minucioso que eu não percebera na hora, cada palavra exatamente como fora pronunciada, no mesmo idioma... Em segundos teríamos toda a ficha de Pablo e seu papai.
—E encontrou – disse rancorosa. Ainda não havia superado meu deslize, minha fácil queda num truque tão velho e bobo. Eu tinha que ser mais esperta. Era a princesa, a filha do chefe! Não podia me deixar cair assim.
—Não se castigue tanto – tentou me reconfortar; como se ouvisse os pensamentos torturantes em minha cabeça, indo e vindo. Luke, sentado ao meu lado, pareceu controlar a surpresa, o choque de ver Marcos mais sutil.
—Só o suficiente.
Estávamos, naquele instante, no seu escritório. Tão mais acessível que Zeus; não consegui deixar de comparar. Marcos, Luke e eu. Os três finalmente iniciando a discussão do assunto polêmico que fora meu sequestro e meu resgate. O que ainda restava a se fazer, as consequências, punições...
Claro que eu fora bem recebida antes de tudo isso, mas uma recepção até breve: um abraço daqueles emocionantes, digno de filmes, no meu pai de verdade. Todo o carinho de Adrian e Ramiro e tantos outros que eram como tios e padrinhos para mim. O beijo dos gêmeos, os risos das irmãs indianas... Era tão gratificante poder voltar para casa, para minha verdadeira família, ser recebida com todo o carinho que eles sentiam por mim.
—Quanto a Castellan – começou desviando o olhar do meu e focando no loiro que permanecia firme sob toda a tensão que retornava a voz do rei – Roubo, chacina, explosões, resgate – Marcos esfregou o queixo, os olhos brilhantes em algo que eu identificava como orgulho, indecifrável para os outros, porém; talvez eu contasse a Luke depois – Algo a dizer sobre todo esse risco?
—Thalia vem em primeiro lugar – a voz tão firme quanto a de meu pai; sem remorso.
Olhei discretamente de um para outro; estavam se entendendo de uma forma assombrosa, de uma forma que jamais ocorreria entre Luke e Zeus.
—Concordo – disse lentamente – E não posso deixar de dizer que eu teria feito o mesmo. Todos acreditam que nós, mafiosos, somos indiscutivelmente frios, mas é bem o contrário. Nossos membros e aliados sempre vêem em primeiro lugar – Marcos deu uma olhada rápida sobre os documentos e relatórios sobre a mesa – Toda a bagunça possível de ser ajeitada, já está devidamente corrigida.
—Então... – induzi.
—Então ninguém será punido – ele sorriu e eu sorri de volta em cumplicidade.
—E quanto ao cara? – senti o ódio na voz de Luke.
—Exatamente nesse ponto nós ainda não podemos mexer sem uma maior pesquisa. Thalia não prestou queixa e ele tampouco se manifestou sobre o assunto; o silêncio é conveniente para os dois.
—Mas Pablo faz parte... – nem precisei terminar.
—De uma família fortemente vinculada ao crime. Os tiras sabem, mas não tem força o suficiente para confrontá-los. Podem ser bons cães se bem treinados ou simples bodes expiatórios – travei um risinho; meu pai sabia me alegrar – Por enquanto, você foi salva pelo namorado barra pesada e não vai dar queixa para não expô-lo. Vamos esperar.
Ele apenas disse o óbvio. E a conversa terminou daquele jeitinho.
Saímos quietos, andando calmamente, sem encontrar muitas almas pelos corredores. Mesmo tendo muito que fazer, que checar, organizar, planejar... Puxei Luke para um canto no corredor discretamente oculto.
—O que foi? O que há de errado? – perguntei baixinho; ele desviou o olhar procurando observadores, tentando manter a pose – Não precisa fingir pra mim.
Sua postura ficou mais rija, mais tensa.
—O caribenho – rosnou.
Fiquei alguns segundos esperando, mas não veio uma explicação. Apertei sua mão.
—É mais do que ciúmes. O que te preocupa?
—Acho que ele está obcecado por você. Que vai te procurar – disse segurando-me delicadamente.
—Isso tem alguma base? – acariciei seu rosto.
—Só uma sensação – sussurrou – Aqui – e colocou minha mão em seu peito, sobre seu coração que batia firme.
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