Gimme More

43 Capítulo 35


Capítulo trinta e cinco –

Não curto esse negócio de depressão. Entendo perfeitamente como é e o que as pessoas sentem ou devem sentir, mas me nego a passar pelo mesmo. Nico e suas palavras simplesmente acabaram comigo. Sempre parti do principio de dominar meus medos para que eles não me dominassem, e sempre funcionou bem. Aí chega esse pirralho e...

Amar.

Nunca entendi ao pé da letra o que isso significa e talvez não haja uma resposta concreta. De qualquer forma, tenho medo dela e de seu significado. Acho que é porque nunca o senti de quem realmente importasse. Não sei se chega a ser isso... Não, é algo bem maior. Era a sensação de vazio com a ausência de Zeus, a tristeza com a indiferença de meus irmãos, até mesmo a falta de tentativas (sinceras) de Hera... Foi naquele instante que compreendi: sentada na minha cama, com o diário aberto e jogando palavras no papel, tão aleatoriamente quanto faço aqui, e respirando profundamente...

Meu maior medo não era amar. Meu maior medo era não ser amada.

Foi aí que minha cabeça doeu devido às memórias que voltavam rápidas e vorazes: sentia o calor de seu corpo, de seu peito como se fosse real, sentia seu perfume e podia ouvir seu coração descompassado; “vou te esperar a vida inteira” as palavras me chicoteavam, enquanto seu hálito parecia me inebriar.

–Luke. – o murmúrio de seu nome escapou dos meus lábios sem permissão, e foi quando senti o sabor doce e perigoso do meu tom de voz, um tom nunca antes usado e tão...

Talvez o contrário também fosse verdadeiro: eu tinha medo de ser amada.

Isso explica tanta coisa... – sussurrei fechando o diário e guardando-o em segurança antes de me deitar confortavelmente. Antes de adormecer, fiz uma listinha mental:

1º — eu precisava falar com Nico;

2º — eu precisava de alguma emoção na Máfia, o que diretamente envolvia Marcos;

3º — gostando ou não gostando, eu precisava, eu ansiava por mais tempo com Castellan.

Evidentemente eu não verbalizaria essa listinha jamais. Sobre o último item: acontecia que o loiro não saía da minha cabeça; meus pensamentos se voltavam para ele que parecia ser o único a não se importar com meu silêncio. Ele vinha sendo minha base de apoio, meu porto seguro e mais uma vez eu precisava dele, de seu ombro, das suas palavras, das nossas gracinhas...

Quarta-feira. Meio da semana. O calor retornava aos poucos no mês de março; não era como se o vento frio e as tardes nubladas tivessem passado, mas eu pelo menos já sentia a mudança. Na escola ainda havia as cores além do uniforme escolar seja nas meias seja nos casacos. Luke sorriu para mim e eu sorri para ele, mas não parei para conversar ou mesmo apreciar sua companhia; eu queria outro.

Nico me viu e saiu do pátio indo para fora, para o jardim deserto devido o frio. Segui-o e me sentei ao seu lado no banco de cimento. Ficamos por um bom tempo apenas olhando para frente pensando nas próximas palavras que diríamos.

–Me perdoe – murmurou ele – Eu não quis...

–Quis sim – esbocei um sorriso; continuávamos sem qualquer contato visual ou físico – Acho... Eu precisava ouvir aquilo.

–Fui tão insensível! Não devia ter dito nada! – ele ainda sussurrava, as mãos no bolso, os olhos vidrados nos pés.

–Nico... – sussurrei com a voz doce e suave; ele finalmente ergueu os olhos – Me perdoe se o magoei, se o machuquei... – fiquei tanto tempo durante a noite refletindo suas palavras e pensando nele que compreendi tudo – Agora eu entendo o seu silêncio, seu distanciamento das pessoas.

–Entende?

–Sim, afastar as pessoas para não se envolver, não se decepcionar. Você tinha medo de se machucar e eu o machuquei tanto... – lamentei fechando os olhos e tomando fôlego.

–Eu te amo – suas palavras sussurradas chegaram aos meus ouvidos acompanhadas de gilete. Eu me senti ruir naquele segundo. Eu sabia, mas não esperava que ele verbalizasse, pois, sabia que se o fizesse ambos sairíamos machucados. Mas errei a proporção da dor. Era bem maior que o esperado. Talvez porque eu realmente me importasse com aquele menino... Senti uma lágrima cair, mas não a tirei do meu rosto; tirá-la seria desprezar os sentimentos dele e isso eu não queria – Eu... Eu amo vocês duas, você e Bianca, e eu sei que é um erro enorme querer qualquer uma de vocês, mas eu não consigo evitar e sei que jamais poderia ficar realmente junto com minha irmã então você apareceu, e não se pode escolher quem amar...

Ele falava rápido como se precisasse jogar fora as palavras e seus significados.

–Querer não é um erro, Nico, nunca será. Suspeito que amar também não seja. – voltei meus olhos para seus olhos escuros e lacrimosos e disse com toda a sinceridade da minha alma – Eu sinto muito, Nico, por não corresponder aos seus sentimentos. – ele segurou minhas mãos, sua pele fria me arrepiou – Eu também te amo, mas não da mesma forma...

–Lia – ele esboçou um sorriso; acho que era primeira vez que eu via aquilo, um sorriso tão bonito que deveria aparecer mais vezes – Por favor, não se culpe por um erro meu. Eu sei que isso vai passar.

Acabamos nos contentando com “apenas amigos” e voltamos para dentro quando o sinal soou. Sei que tínhamos nossas expressões normais, mas isso não significa que não estávamos machucados. Na saída eu parei subitamente olhando por entre a multidão que passava, Zeus havia recomeçado a vigilância: havia dois homens de terno e de rosto conhecido parados ao lado do meu carro. Cretino! Tentei dar um passo para trás para fugir do campo de vista dos “amigos” de Zeus, mas não fui tão longe. Senti ao algo as minhas costas, definitivamente o peito de alguém, e, a julgar pelo calor que senti, eu sabia quem era.

–Algum problema? – a voz de Luke soou em meus ouvidos enquanto suas mãos desciam acariciando e esquentando meus braços. Virei-me para ele decidida.

–Podemos ir a algum lugar?

–Onde? – ele tentava esconder o sorriso, mas não era assim tão bom.

–Qualquer lugar.

Luke olhou para fora e acho que encontrou meu problema. Puxou meu corpo com gentileza para um canto longe da multidão que ainda passava; olhou mais uma vez para fora e então sussurrou:

–Me encontra na saída dos fundos. Chego lá em menos de cinco minutos.

Logo saiu pela porta com o restante de alunos que ainda saíam rumo a suas casas. Eu me aproveitei desses colegas e voltei para dentro da escola, correndo pelos corredores em direção contrária a qual eu antes seguia. Todo e qualquer aluno “esperto” sabia o que significava saída dos fundos: era tipo um rito de passagem do 8º ano; claro que para alunos escolhidos a dedo, a galerinha popular, os metidos a besta, os riquinhos. A intenção era matar aula e a “porta dos fundos” era um teste para se encontrar um meio de sair sem ser notado. Eu e as Princesas descobrimos a melhor passagem e eternizamos o local.

Passava andando rápido por uma infinidade de corredores quando ouvi gemidos baixinhos vindos de uma sala não utilizada. É necessário que se diga que sou uma pessoa extremamente curiosa, o que é uma qualidade Mafiosa, claro que tenho meus limites para não ser desagradável com isso, mas enfim... Abaixei-me para espiar sobre o buraco da fechadura como Alice fez no filme da Disney, mas o conteúdo não era infantil, era bem impróprio. Dois professores num tipo de amasso que pessoas mais velhas não deveriam ter fora do quarto a portas e janelas fechadas. Não sabia se ria ou se vomitava, então me levantei e corri até a minha saída.

Não sei bem como dizer o que aconteceu quando passei a “porta”. Meu coração parecia estar numa maratona quando ele tirou o capacete e bagunçou os cabelos loiros. Não sei explicar o que foi aquilo, desacelerei camuflando aquela nova manifestação do tufão dentro de mim.

–Por que demorou, anjo? – seu tom de voz era suave, mas não meloso, divertido, mas sem perder a seriedade. Alguma coisa estava errada com meu peito.

Franzi as sobrancelhas.

–Eu não sei bem o que eu vi, mas te conto quando nós sairmos daqui. – disse de forma quase sedutora; ele sorriu, estendeu o capacete a mim e lá estava eu segurando sua cintura e seu ombro, em algum segundo deslizei a unha sobre seu peito. Luke suspirou.

–Para onde quer ir? – sua voz rouca e baixa me arrepiou. Não pensei para responder, deixei que minha alma falasse por mim: naquele momento, com Luke, eu simplesmente não me importava...

–Para onde você quiser me levar.

[...]

–Que nojo! Eu não acredito! – disse com a cara contorcida em uma careta, mas ele riu assim que meu riso ecoou.

–Eu sei! – disse ainda risonha. Havia contado a cena embaraçosa na qual eu pegara os professores.

Caminhávamos por um bairro comercial, Luke um pouco mais a frente ditando o caminho, embora no geral estivéssemos lado a lado. Eu até já podia ter passado por ali, contudo não me lembrava ao passo que ele sabia bem onde estava e o que procurava.

–Vem aqui – chamou ele, tomando minha mão na sua e me puxando até um restaurante pequeno e simples – Aposto que você nunca esteve em um lugar assim.

Ele estava certo. O lugar era bem organizado, mas rústico, agradável e... Deus, como eu gostava daquela simplicidade. Observava cada canto desprovido de detalhes luxuosos com os quais estava acostumada. Luke me conduziu até uma mesa e como um cavalheiro puxou a cadeira; não neguei um risinho por isso.

–Você gostou daqui – ele disse sorrindo radiante.

–Como não gostaria? – retruquei.

Depois de segundos de silêncio, ele disse que iria pedir o almoço para nós dois. Percebi de cara que ele conhecia bem o lugar e o gerente. Luke parou para trocar palavras com o gerente enquanto os pratos não chegavam. Estava com fome, mas no instante em que meu celular vibrou, ela sumiu no mesmo instante. Era Dionísio. Rejeitar a ligação era um perigo, atendê-la era um perigo ainda maior. Rejeitei.

–O gerente gostou muito de você – disse olhando quase rancoroso para o homem que recebia a outros clientes.

–Isso é ruim?

–Depende. Você prefere a companhia dele ou a minha?

–Que pergunta idiota, Castellan – eu sabia que ele perguntara brincando, mas meu rosto estava sério o suficiente para que percebesse que minha resposta era óbvia e sincera. Eu preferia ele, entre tantos eu escolhera ele. Luke levou uns instantes para entender e quando entendeu os olhos claros reluziram com uma intensidade linda.

–Você está bem? Parece pálida. – ele disse preocupado. Inconscientemente levei a mão ao rosto, então para disfarçar empurrei uma macha de cabelo para trás da orelha.

–Não importa.

–Lia...

–Mesmo. Foi só um dos cachorros de Zeus tentando me localizar pelo celular – eu sentia o rancor na minha voz, a aspereza de uma lixa.

–Cachorro? – ele tentava não sorrir. Joguei meus cabelos para o lado.

–Família é um saco, Castellan, quanto maior, pior.

–Então eu sou um homem de sorte á seus olhos?

–Não sabe o quanto eu te invejo – sorri.

Antes que ele pudesse responder uma mulher colocou dois pratos a nossa frente. Eu não me lembrava de ter visto tanta comida em um prato de restaurante. Tentei disfarçar a gargalhada, mas o sorriso era inevitável. Aquele foi, em poucas palavras, o melhor almoço da minha vida. Pensem comigo: você chega da escola esgotada e faminta e espera uma refeição quente com aqueles que te ama, junto a conversas e sorrisos. E não faltou nada. Uma companhia agradável, uma comida gostosa e diferente...

O gerente, um homem jovem e de aparência comum, veio pessoalmente perguntar como fora o atendimento; a todo o instante ele sorria de forma galante para mim, mas passados uns instantes abandonou a formalidade e revelou ser um bom amigo de Luke.

–E você querida? O que é de Luke? – o sorriso ainda era brincalhão, mas os olhos reluziam em desejo; ele temia ouvir uma resposta e ansiava por ouvir outra.

–Somos amigos – respondi tendo o cuidado de não olhar para Luke; de repente havia algo de errado com a palavra, era como se ela não dissesse tudo o que eu sentia por ele.

–Amigos coloridos – Luke destacou bem lançando inclusive um olhar impactante ao amigo. O gerente virou-se para mim com uma sobrancelha erguida esperando uma confirmação. Claro que qualquer mocinha decente negaria, mas eu não era decente e não queria negar.

–Ah é?

–É – respondi – Muito coloridos – especifiquei mais.

–Com atitude, hein Luke? Você não perde tempo – e se afastou, não sem antes deixar transparecer sua decepção. Luke insistiu em pagar a conta, disse que a ideia de me levar naquele lugar havia sido dele, portanto as despesas eram sua responsabilidade. Achei que ele fosse tirar a carteira da mochila, mas apenas nos levantamos e caminhamos para fora quando ele virou o rosto por sobre o ombro e gritou para o amigo colocar na conta. Aparentemente ele almoçava ali diariamente.

–Você não para muito em casa, não é? – perguntei enquanto andávamos pela rua sem pressa, as mãos se esbarrando suavemente conforme andávamos.

–Não sei se...

–Ah qual é, Castellan? Você pode saber da minha relação conturbada e eu não? – lá estava minha curiosidade falando mais alto; mais que isso, eu queria ajudar. – Você me disse que sua mãe nunca se recuperou, quão ruim é situação dela?

–Por que quer saber? – não foi grosso nem nada, tinha apenas uma nota de curiosidade, um fio de esperança parcialmente oculto em seus olhos.

–Talvez eu possa ajudá-la – minha voz saiu baixa. Luke aproximou seu corpo do meu, entrelaçou nossos dedos e parou de andar. Como naquela noite em minha casa, suavemente beijou minha mão, a grande e maior diferença era a rua parcialmente movimentada com umas 20 pessoas aproximadamente de platéia.

–Obrigado... Por se importar – sussurrou aparentemente emocionado. Em resposta, apertei minha mão na sua, delicadamente, apenas para mostrar que estava ali caso precisasse – Minha mãe tem muitas crises, nem sei bem como explicá-las, mas elas parecem serem bem piores quando estou perto.

–Então você se distancia?

–Por nós dois. Desde pequeno ela me assustava, ainda assusta, mas de uma forma diferente eu suponho. Acho que sempre vou culpá-la por ser fraca, mesmo compreendendo-a, isso ainda dói.

A emoção na sua voz me atingiu. Nem sei bem como, mas acabamos abraçados, enroscados nos braços um do outro em um abraço sincero, nos apoiávamos um no outro e... Eu sentia algo mais naquilo, era algo inominável e que eu não conseguia decifrar, entretanto era agradável. Então lá estávamos nós, eu respirando suavemente em seu pescoço escondendo meu rosto ali ao mesmo tempo em que apreciava seu perfume, e Luke deixava as mãos em minhas costas e cabelos pressionando-os, enquanto deslizava o nariz em meu pescoço. O mínimo que nos afastamos foi para que os azuis se encontrassem; meus olhos e os dele em um contato inquebrável. Deslizei uma de minhas mãos por seu braço até que chegasse a seu rosto onde me deleitei com a pele um tanto áspera pela barba que crescia, ao passo que ele também detinha minha bochecha em mãos e... Meu celular vibrava.

–O que eu faço? – sussurrei pegando o telefone e vendo a foto de Zeus.

–Atenda. Vai ter que enfrentá-lo de qualquer forma, não? – sua voz era suave e vinha de tão perto. Vire-me de costas para ele e atendi.

–Alô.

–Onde você está garota? O que pensa que está fazendo? O...

–Respire se quiser continuar a fazer perguntas – disse inabalável.

–Onde você está?

–O senhor não conhece. Estou bem, perfeitamente saudável e não existe nada suspeito ao meu redor. Não precisa se estressar...

–Como saiu da escola? Por que não voltou com seu carro...?

–Isso não te interessa. Não vou sair com sua escolta, não importa o quanto tente, eu já lhe disse, não vai conseguir me dobrar a sua vontade.

–Sua rebeldia não tem mais limites! Hera estava certa, vou agora mesmo olhar as opções mais viáveis e...

–Por que não leva sua namoradinha pro quarto e me deixa em paz? Ou as ameaças que te fiz não foram o bastante? – meus ombros estavam tensos, contudo só os notei quando Luke pousou suas mãos ali, exercendo pressão e massageando os músculos doloridos, tentando me transmitir calma.

– Thalia...

–Não me ligue mais. – e encerrei a ligação. Respirava de forma ligeiramente irregular, então fechei os olhos e me permiti relaxar, aproveitar a disposição de Luke em me agradar. Seus dedos eram hábeis, sabiam bem o que estavam fazendo e não demorou em que eu sentisse apenas uma calma prazerosa. Luke deslizou suas mãos por meus braços e me puxou para trás, prendendo-me contra seu peito.

–Mais calma? – sussurrou; apenas assenti, os olhos cerrados ainda em fúria, ainda em calma. – Já sei onde podemos ir, onde posso distraí-la – foi aí que o olhei com olhos ligeiramente mafiosos.

[...]

Luke parou a moto e nós dois descemos. Eu não conhecia bem aquele bairro, digo, Thalia Grace filha perfeitinha de Zeus não conhecia, mas a filha de Marcos, a Thalia Mafiosa, princesa herdeira daquele enorme empreendimento sabia bem que lugar era aquele. Um bairro onde havia uma galera da pesada, talvez fosse aquele bairro ou mesmo um próximo, onde os Di Angelo mataram gatos.

–Sei que esse não é o tipo de lugar que você costuma frequentar...

–Você precisa parar de me subestimar, Castellan. O que viemos fazer aqui?

Ele sorriu de forma astuta, um sorriso que poderia ter feito minhas pernas tremerem. Senti-o se aproximar e dizer baixinho.

–Nós vamos brincar.

–Brincar de quê, Luke?

Ele sorriu ao pegar na minha mão e me guiar pela causada até chegarmos a um barzinho. O dono ou barman, não sei dizer, era um homem de aparência bruta, apenas acenou com a cabeça para Luke e manteve os olhos fixos em mim por segundos longos demais. Qualquer um teria se intimidado com aqueles olhos frios, mas eu não. Encarei com a mesma intensidade e passado um tempinho ele esboçou o que seria um sorriso e assentiu. Luke me conduziu até os fundos onde uma escada estava bem escondida. Ele me deu um sorriso maroto e desceu a minha frente, ainda tendo a delicadeza de puxar minha mão.

O porão, subsolo ou como aquilo fosse chamado era uma sala de jogos. Havia ao alcance de meus olhos quatro mesas de sinuca, seis de pebolim e várias máquinas de jogos antigos como PAC MAM. Meus olhos percorriam as paredes, o piso e passavam rápido pelos poucos homens e então os cravei em Luke.

–Acertei?

Não consegui confirmar com a voz; estava admirada com a capacidade de Castellan de me surpreender e me agradar. O ambiente suavemente na penumbra parecia me seduzir.

–É incrível... – murmurei.

Logo estávamos disputando quem conseguia fazer mais pontos no PAC MAM, rindo um do outro, nos desafiando e curtindo à tarde. Claro que nos destacávamos naquele ambiente: ainda uniformizados e sendo mais jovens chamávamos atenção dos outros presentes, mas não os incomodávamos.

–Quero ver se me ganha no pebolim – desafiou ele. Eu não tinha qualquer talento para aquilo; Luke era bom, marcava gols, enquanto eu ria e apenas tentava, mas não me esforçava. Eu gostava de ver aquela atenção em seus olhos, distraia-me com sua felicidade e com a agilidade em suas mãos, a testa ligeiramente franzida, os lábios puxados em um sorriso... Mesmo que eu quisesse, e não era o caso, não conseguiria superá-lo. – Qual é, Lia? Tem que tentar. – ele riu no milésimo de segundo em que ergueu o rosto para o meu.

Foi inacreditável. Eu sabia que já estava a horas na companhia de Castellan, e não havia pensado em minha família em nenhum momento, tirando as duas ligações nas quais eu fora forçada a me lembrar da existência deles, Luke apagara minhas angustias e minhas raivas. Eu apreciava tanto a companhia dele que não me importaria se o mundo acabasse ali. Mas a questão era que eu sabia que Zeus iria cumprir sua palavra: ele teria internatos em mente e já os orçamentos para o ano que vem. E ponto não era mais sobre o ciúme doentio de Hera ou o descaso do meu pai: eu não saberia lidar com a ausência de Luke.

Dei um passo para trás me afastando da mesa, me sentindo um tanto aérea. As palavras de Nico ecoavam em minha cabeça e Zeus pairava sobre meus olhos. Afastei-me indo em direção a mesa de bilhar mais afastada.

–Lia?

Afinal o que diabos eu andava fazendo comigo mesma? Havia acontecido tanta coisa nesse último ano...

–Thalia – Luke chamava-me baixinho, segurou minha cintura virando-me de frente para ele. Estávamos tão perto que eu sentia sua respiração em minha testa; meu rosto voltado para baixo me impedia de ver seus olhos – O que houve?

–Eu queria que todos os dias da minha vida fosse assim – sussurrei angustiada – Mas eu sei que nunca vão ser.

–Se depender de mim...

–Mas não depende de você – ergui os olhos e toda a minha melancolia, toda a minha dor foi refletida nos olhos dele – Nunca dependeu, Luke.

–O que Zeus fez dessa vez? Com certeza ele passou dos limites dessa vez. – ele ergueu a mão e acariciou meu rosto, tomando-o, estava quase entregue... – Você não está bem.

Ele era o primeiro a perceber isso. Perceber que meu psicológico já não aguentava mais as tramas debaixo dos panos naquela casa enorme.

–Diga, Lia. Diga o que ele fez.

–Ainda não fez. Ele quer me mandar para um internato na Europa.

O choque foi visível no seu rosto. Depois de um segundo eu pude senti-lo ruir; o aperto em minha cintura se intensificou e os olhos perderam o brilho.

–Não... Ele não pode fazer isso! – seus olhos se fixaram nos meus e ali ficaram pelo que poderia ser a eternidade – Você pode fugir...

–Quantas vezes eu já sonhei com isso – e desviei o olhar – Mas gostando ou não minha imagem é publica. Vou ser livre quando completar 18. Até lá sou uma prisioneira.

Eu tinha consciência de que havia acabado de traumatizar Luke. Ele simplesmente tentava disfarçar sua dor para me animar. Jogamos sinuca com os outros frequentadores daquele lugar e tomamos cerveja antes de sairmos pela noite de volta a mansão Grace. Não permiti que entrasse, pois sabia que ele sofreria nas mãos dos meus irmãos, então ali nos portões de ferro enquanto o porteiro abria passagem para mim, Luke desceu da moto já sem o capacete e pela última vez naquela noite me prendeu em seus braços.

O calor de seu corpo contra o meu naquele início de noite me acalmava ao mesmo tempo em que me deixava elétrica. Seu coração batia tão rápido quanto o meu e seu hálito me acariciava o rosto. Eram os olhos quem detinham a força e a intensidade de salvar ou arruinar minha noite.

–Eu não vou deixar você ir embora tão fácil. – então aproximou bem o rosto do meu, até haver apenas um fio de cabelo nos separando – Não vou perdê-la.

A última coisa que senti foi seus lábios em meu nariz em um beijinho suave. Ainda estava atônita enquanto o via desaparecer pela rua.