Gimme More
40 Capítulo 32
Notas iniciais
Capítulo trinta e dois –
Vesti o suéter, a saia e as meias 7/8 como de costume, antes de sair do meu quarto peguei ainda um sobretudo para cobrir meu corpo dos ventos gelados do fim de janeiro. Meu pai e irmãos mal desembarcaram do avião já foram para seus empregos, então pedi que nosso motorista fizesse a gentileza de me levar até a escola. Ele deixou-me na porta e logo sumiu pelas ruas. Entrei já sacudindo meu corpo tentando me esquentar, então segui para meu armário; não compreendi por que estava recebendo vários olhares atravessados. Na frente do meu armário as quatro me esperavam, mas começaram a falar todas de uma só vez!
–Calma! Pelo amor de Deus... Uma de cada vez – disse aos risos. Retirava o pesado sobretudo e o guardava no armário enquanto elas “brigavam” para decidir quem contaria o que quer que fosse. Estava pegando o livro de matemática avançada quando Bianca falou:
–Notou que esse povinho ta olhando muito pra você.
–Notei – disse me virando devagar – Aconteceu alguma coisa?
–Você perdeu uns dias de aula, Lia – comentou Clarisse – É claro que aconteceu alguma coisa.
–Mas como posso estar envolvida nisso?
–Vocês enrolam demais! – Rachel jogou os cabelos para trás – Até os professores estão comentando, é tipo, o bapho do ano!
–Falem logo!
–O Luke deu o maior fora na Kelli. – Annabeth disse em voz baixa e impactante – E você foi o motivo do término.
–Eu?
–Ah querida, todo mundo já percebeu que o Castellan come na sua mão – Bianca resfolegou em superioridade, jogando o cabelo por sobre o ombro. – A questão é que a vadia não aceitou muito bem.
–Luke não largou do nosso pé para saber de você.
–Mas diz aí, pegou alguém na Austrália? – Rachel ergueu uma sobrancelha; eu sabia qual era o jogo dela: tínhamos um código de nunca mentir para as outras, omitir talvez, mas mentir jamais.
–Não, mas...
–Ai que gracinha! – a ruiva se fingiu de romântica e sonhadora; Bianca gargalhou.
–Parem com isso! Vocês estão me deixando nervosa!
–Ah Lia, meu bem... Ih, ele vem vindo aí.
Elas estavam certas. Luke caminhava pelo corredor, os olhos cravados em mim, ele parecia melhor do que no dia da prova, mas ainda não estava em seu melhor físico. Ainda havia olheiras sob seus olhos, mas a palidez podia ser culpa do inverno. Não consegui piscar ou mesmo me mover, eu sabia que as meninas estavam ainda sussurrando, falando comigo, mas não ouvi. Simplesmente não conseguia prestar atenção em algo que não fosse ele... O sinal bateu e o máximo que aconteceu foi passarmos lado a lado em direções opostas, os ombros esbarrando-se.
–Que inferno! – sussurrei fazendo as quatro rirem andando ao meu lado.
As aulas em si foram um tédio e o intervalo foi tenso, sentia o olhar furioso de Kelli em minhas costas, mas também senti os olhos dele. Foi tenso, mas as meninas aliviaram aquilo. Bianca me cobrou mais uma vez o presente de Nico e eu lhe prometi que não teria falta. Na última aula sai da sala para ligar para casa e pedir que o motorista viesse me buscar, pois eu me esquecera de pedi-lo de manhã. Depois que o sinal do fim das aulas ecoou, voltei ao meu armário peguei o casaco e sai sem olhar para os lados.
Era um milagre, mas a casa estava vazia se não fosse por mim e pelos empregados. Apenas eu! Não contive minha gargalhada. Não me livrei do uniforme e fui direto para a sala de jantar onde meu prato já estava feito. Agradeci Teresa e liguei a televisão para assistir Bob Esponja, afinal era um desenho atemporal. Estava levando meu prato para a pia quando a voz de uma empregada me parou.
–Senhorita – virei-me depois de deixar a louça na pia – A senhorita tem visitas.
–Mande-as embora. Não estou animada para ver alguém.
–Senhorita, eu... – foi quando ele entrou na cozinha passando pela empregada nervosa. Luke mal piscava, a postura firme, a expressão congelada.
–Por que veio aqui? – perguntei segurando o mármore frio; precisava manter-me firme.
–Não pode me evitar para sempre.
–Talvez eu possa. – apertei a pedra sentindo as unhas rasparem por ela, provocando um arrepio involuntário em meu corpo.
–Eu duvido. – ele se aproximou e quase não notei a empregada saindo às pressas – Será possível que a menina perfeita não compreende o que está acontecendo?
–Do que diabos você está falando? – agora exatamente na minha frente ele me olhava com aqueles frios olhos azuis, endurecidos, mas... – Eu de fato não entendi por que todos ficaram olhando para mim hoje na escola. Eu espero que não seja verdade o que os rumores dizem, porque...
–E se forem? O que há de mais em meu relacionamento com a Kelli ter acabado?
–O fato de meu nome estar entre o de vocês, talvez?
–O seu nome sempre esteve no meio!
Eu não pensei, simplesmente peguei o copo sobre o escorredor e o joguei na direção dele; Luke desviou e apenas o som dos cacos retinindo no chão se fez ouvir por meio segundo. Comecei a jogar nele tudo o que se encontrava sobre a bancada de mármore, a maioria acertava seu corpo, mas houve muitas coisas que quebraram; o chão agora era um campo minado. A última coisa que peguei foi uma faca, uma peixeira sendo especifica. Luke parou imóvel, eu também parei. Dois segundos e ele se encontrava com o corpo junto ao meu, sua mãos sobre a minha, delicadamente livrando a faca do aperto frouxo de meus dedos. Eu me encontrava agora presa em seus braços, sentindo o coração dele bater tão acelerado quanto o meu. Minhas mãos sobre seus braços sentindo a firmeza daqueles músculos, seus olhos tão fixos nos meus, o rosto descendo vagarosamente para o meu, uma lentidão angustiante, mas prazerosa.
–Eu estou preso nas suas mentiras. Não consigo mais sair de perto de você – ele sussurrou; o hálito colidindo com meus lábios – Eu amo o jeito que você mente e amo ainda mais essa dor sempre que você vai embora.
–Então você é masoquista – sussurrei de volta, cerrando os olhos assim como fechou os dele.
–Só por você.
Quando pensei que sentiria a pressão de seus lábios nos meus, me enganei, não senti nem o mais suave dos roçares. Ouvi apenas passos rápidos vindos em nossa direção e abri lentamente os olhos. Luke me olhava com intensidade, um brilho sereno nos olhos que eu não soube como nomear.
–Senhorita, algum... Algum problema? – havia um segurança não longe de nós e muitas empregadas assustadas próximas a ele.
Eu estava quase ofegante, ainda me segurando, ainda estando presa nos braços de Luke, ainda sentindo o calor do corpo dele chegando ao meu corpo mesmo com as camadas de roupa. Fechei os olhos com força, suspirei e neguei. Só então percebi que antes de jogar utensílios nele, nós estivemos gritando.
–Desculpe tê-los preocupado – disse olhando carinhosamente para eles todos – Não era minha intenção. Está tudo bem – Senti Luke apoiar seu queixo em minha cabeça e seu aperto ao meu redor se estreitar ligeiramente, mas de um modo extremamente carinhoso. Senti-me protegida e querida como só senti quando estava na Máfia com os meus. Não notei quando fechei os olhos deixando-me ser embalada por Luke, ou mesmo quando nossa adorada platéia dispersou-se.
–E eu que acreditava que você só era protegida por sua família. – senti o sorriso em sua voz; sua mão subindo e descendo pelas minhas costas; senti-o suspirar – Vai me afastar de novo?
Eu ainda podia sentir aquele tufão dentro de mim, inconstante, irrefreável, incontrolável. Mas ao mesmo tempo senti uma paz que nunca antes havia sentido, com ninguém, em nenhum lugar... Que eu me lembrasse. Eu queria mandá-lo embora? Eu realmente desejava o distanciamento? Ou sentia medo? Sim, senti um medo tolo e cruel que me apertava à garganta com um gigante e sufocante nó. Eu não queria saber a extensão daquilo, daquela sensação de impotência, mas eu... Ergui meu rosto para o seu, os meus olhos úmidos e neguei incapaz de pronunciar as palavras. Uma gota escapou-me percorrendo rapidamente minha bochecha. Ele enxugou-a primeiramente traçando o mesmo caminho que ela com o dedo indicador, então me surpreendendo levou os lábios a minha bochecha; foi a minha vez de suspirar. Impulsionei-me contra seu peito, me prendendo ainda mais no seu abraço.
Luke tomou-me nos braços com uma amabilidade que eu jamais esperaria dele, enquanto passava o braço ao redor de seu pescoço mantendo seus olhos fixos nos seus lembrei-me da festa de Grover, do seu carinho e teimosia, da sua afeição... Do início dos meus tormentos. Ele subia as escadas sem pressa alguma, caminhava com a segurança de quem sabia para onde estava indo. Deixou-me deitada em minha cama, deitando ao meu lado e puxando o cobertor sobre nós.
–Suas amigas contaram o que aconteceu? – perguntou ele baixinho – Quer saber o que houve? – ele deslizou a pontinha do nariz sobre minha testa em um carinho tão singelo... Apenas assenti – Você tinha razão sobre Kelli me trair – esbocei um sorriso irônico – Pode rir, mas acho que eu não me importo.
–Que eu ria?
–Não. Kelli. Ela nunca significou nada – balançou ligeiramente a cabeça – Nem sei como acabamos juntos. – disse acariciando meus cabelos.
–Onde eu me encaixo nisso? – sussurrei.
–Você sempre esteve ao meu lado, Lia, mesmo que você não saiba – murmurou baixinho demais – Kelli simplesmente deduziu e gritou no intervalo que a culpa era sua, e qualquer boato envolvendo o seu nome corre duas vezes mais rápido. – ele riu – Mas a única culpa que você tem foi me fazer enxergar que estávamos nos enganando, nada mais que isso.
–Então não passou de um escândalo de Kelli?
–É – o murmúrio prolongado deixou-me tão tranquila que nem sei bem descrever – Tentativas falhas de chamar atenção.
Em algum momento assistimos a qualquer filme que estava passando, não prestei atenção, concentrei, ou melhor, perdi-me naqueles braços ao meu redor, na sensação prazerosa de segurança e carinho. Em algum instante adormeci... E voltei a sonhar com ele.
Estava na penumbra, meu corpo infantil escondido em uma das divisões do playground do parquinho, consegui distinguir a calça jeans e a camiseta das Meninas Super Poderosas. Estava trançando duas folhas em minhas mãos quando senti seu corpo sobre o meu.
–Te achei! – disse fazendo cócegas em minha barriga, enquanto a menininha ria e se contorcia debaixo dele.
–Para, para, por favor! – pedia entre os risos. Quando finalmente parou estavam próximos de mais: os corpos colados, braços e pernas entrelaçados, os rostos a milímetros. As bochechas ruborizadas e os olhos cintilando relatavam a inocência da ocasião. Não era como se soubessem o que estava acontecendo, o que havia acontecido ali. Ficaram ali ainda ofegantes até a respiração se acalmar – Por que você brinca comigo?
–Porque você é minha amiga – o menininho parecia confuso.
A menina que fui balançou a cabeça.
–Com certeza você tem amigos mais legais, meninos...
–Eu tenho você. – ele entrelaçou os dedos dos dois – Não preciso de ninguém mais.
Abri os olhos confusa e ofegante.
–Lia? – a voz de Luke me trouxe de volta a realidade. Ouvi os sons de luta do filme Karate Kid e senti suas mãos em minhas costas, me trazendo para mais perto de si – Tudo bem? – seus olhos claros pareciam brilhar, o calor do seu corpo me embalava protetoramente; ele inclinou-se sobre mim, afastando uma mecha de cabelo delicadamente do meu rosto e logo acariciando minha bochecha – Teve outro daqueles seus sonhos?
–Foi – disse rouca – Mas dessa vez não foi tão ruim.
–Não?
–Não – sorri, fechando os olhos e respirando fundo; pude senti-lo rir e definitivamente colocar-se sobre mim.
–Parece que eu tenho o dom de te dar sonos tranquilos – ri sarcasticamente, mas deixei-o com sua ilusão – O que acontece nesses seus sonhos? Você me disse que eram pesadelos... – ele de alguma forma parecia meio tristonho.
Desviei o olhar e suspirei.
–Normalmente eu sonhava com Hera. – sussurrei.
–Sua madrasta?
–Graças a Deus – Ramiro! – ela foi embora e não deve voltar mais.
–O que ela fazia, Lia?
–Não é suficiente ela tomar o lugar da minha mãe? – me fiz de inocente, mas ele me olhava intensamente cobrando a verdade – Não importa. O que ela fazia, com toda a certeza já não pode fazer mais.
–Thalia... Me diz... – ele suspirou em meu pescoço. Eu deveria contar?
–Você não acreditaria – não era mentira, ninguém acreditara nas maldades de Hera; para todos eu era a menininha que estava assombrada com as histórias da Branca de Neve e Cinderela.
–Como pode saber? – ele tentou disfarçar, ainda tentava e fingi não perceber, mas... Desde o início da conversa, desde que o nome de Hera fora citado seus punhos estavam cerrados como se sentisse raiva e uma inexplicável vontade de socar alguém.
–Ninguém nunca acreditou, por que você acreditaria?
–Porque eu sempre acreditei em você, Lia – segurou minha mão e levou-a até seus lábios marcando-a com um beijo singelo – Sempre vou acreditar.
Então contei, contei como ela quebrara a boneca, como me queimara a pele, como jogara meu corpo escada abaixo... Luke ouvia, se enfurecia e enterrava ainda mais o punho no colchão ao meu lado a medida que eu relatava os danos físicos.
–Claro que não acreditaram em mim – continuei o relato sem emoções, me concentrando nas emoções dele – Mas eu estava doente e machucada, inventaram motivos ridículos como que caí de uma árvore e que andei descalça pela casa. Lembro que a partir daí eu costumava ir ao parquinho com meus irmãos – esbocei um sorriso me lembrando do sonho – mas essa mordomia também não durou muito.
–Não te deixaram mais sair?
–Zeus foi pessoalmente trancar-me nesta linda e espaçosa prisão – lembrei então dos meus últimos instantes na praça, no parquinho, aqueles instantes inocentes com o qual iniciei esta história.
–Então por isso que você... Ah, bem, é assim?
–Suponho que sim. Por quanto tempo eu dormi? – disse olhando pela janela, estava escuro, mas eu não sabia se vinha uma tempestade ou se já era noite. Luke riu.
–Duas horas e meia apenas – ele levantou-se – Para alguém que voltou de viagem você dormiu bem pouco.
Brincamos como fizemos em uma noite no galpão de Abelle: colocamos clássicos para tocar e dançamos juntos, sozinhos, rimos e cantamos... E eu não me lembrava de sentir tanta paz naquela mansão em tanto tempo. Como a porta do meu quarto estava aberta consegui vislumbrar empregadas passando a cada instante; eu devia me sentir incomodada com tamanha proteção, mas não conseguia.
–Então, se eu disser que somos amigos você vai parar de me encher o saco, não? – perguntei sorrindo, enquanto envolvia seu pescoço com meus braços e Luke nos girava por meu quarto. Seu sorriso malicioso parecia responder a muita coisa.
–Amigos coloridos e eu paro, apenas amigos jamais!
Estávamos jogando baralho na sala quando meus irmãos, um a um, foram chegando. Cada um deles, individualmente falando, reagiu à presença de Luke, uns mais outros menos. Limitei-me a sorrir. Não foi difícil convencê-lo a ficar para jantar, na verdade acho que nem precisei pedir. De qualquer forma meus irmãos e Luke não se davam tão mal, conseguiram conversar por um bom tempo, já a mesa, enquanto Zeus não chegava. Estava tudo tão, tão, tão perfeito... Mas aquele filho da puta sempre, indiscutivelmente sempre estragava meu dia.
Zeus caminhava com um semblante estranho, bem diferente ao qual não consegui nomear, cumprimentou Luke e sorriu para os filhos. Aquilo era uma anormalidade! Mas se fosse apenas sorrisos... Lá vinha ela caminhando sobre seus saltos com uma postura de rainha, o semblante tão majestoso quanto o do dono da casa. Eu prendi a respiração, o garfo vazio ainda no meio do caminho entre minha boca e meu prato.
–Meus filhos e caro convidado – meu paizinho teve a coragem de sorrir – Venho informar nesta noite feliz que renovaremos nosso casamento em uma grande cerimônia... – o garfo caiu fazendo um estridente barulho ao colidir com a porcelana, eu não consegui puxar o ar de volta para meus pulmões traumatizados, fechei os olhos com força, apertando as unhas contra a palma da mão até sentir finas linhas de sangue manchando minha mão. Olhei diretamente para Hera, meus olhos deviam estar flamejantes, porque eu mesma os senti faiscar.
–Pensei que fosse mais esperta – a crueldade em minha voz me surpreendeu. Eu sentia a mafiosa dentro de mim lutar para sair, emergir da minha pele com um calibre 32 mirado para o ridículo casalzinho na minha frente – Mas te julguei mal – a casa estava num silêncio digno de cemitérios; eu sentia cada empregada, cada segurança espreitando pelas paredes tentando escutar aquele novo escândalo; virei-me para Zeus – Você deve ser muito bom de cama, porque não consigo pensar em nada, em nenhuma outra qualidade que a faça querer ficar do seu lado.
–Thalia, não ouse...
–Me poupe – levantei e dei as costas para aquela ridícula farsa e segui para meu quarto. Ainda enterrava as unhas em minhas palmas, sentindo não apenas o sangue, mas também a leve ardência cauda pelos cortes. Minha raiva precisava ser extravasada e eu não via outra forma que não implicasse na morte de alguém. Ainda pensava na possibilidade de me mudar... E para onde iria? Ainda era uma Grace 24h vigiada dando adeus à chance de ficar na Máfia sem comprometer alguém... Eu novamente não conseguia respirar. Deuses! Será que eu tinha asma ou qualquer outra doença respiratória, porque, francamente... Empurrei a porta, mas eu não ouvi o baque dela.
Luke entrou como um raio me prendendo contra seu peito enquanto meu corpo tremia em fúria, em ódio... Estava tudo tão perfeito! O fluxo de sangue em minhas mãos pareceu crescer, pois não eram mais tão finos os filetes. As mãos dele desceram desde meus ombros, percorrendo os braços até encontrarem meus punhos cerrados; ele tentava soltar meus dedos, livrar-me daquilo...
–Ah Thalia, eu sinto muito – ele disse entrelaçando nossos dedos, forçando-me a apertar suas mãos – Sinto mesmo. – estava quase histérica; precisava de todos os meios me encontrar com Marcos, precisava do meu pai, eu queria o meu pai!
–Luke – ofeguei ainda com falta de ar – Me passa a almofada – disse apontando para minha poltrona.
–Você não vai se matar com isso, vai?
–Me passa... A almofada...
Ele entregou relutante, no que eu forcei a almofada fofinha contra meu rosto realmente dificultando minha respiração, mordi-a com tanta força que senti meus dentes gastos, a mandíbula doer... Joguei-a do outro lado do quarto e abria as portas que me levavam até minha sacada.
Estava frio, muito frio. Foi quando percebi que ainda usava o uniforme da escola meus braços cobertos apenas pelo suéter... Então senti seus braços novamente deslizando pelos meus, seu peito firme em minhas costas.
–Sabe, minha casa não é tão grande quanto essa, mas... – senti-o nervoso, e isso me acalmou – Você é muito bem vinda. Sempre que quiser. Por quanto tempo quiser.
–Isso é muito gentil – suspirei meio rindo, me aconchegando mais no calor do seu corpo – Eu sem duvida aparecerei lá algum dia desses.
–Vou te esperar a vida inteira – virei-me lentamente tomando seu rosto em minhas mãos. Seus lindos e claros olhos azuis brilhavam em tristeza, uma tristeza tão genuína por mim que eu fiquei instantes sem lembrar o real significado do que aquilo queria realmente dizer. Novamente aquele redemoinho girava em minha barriga, mas era... Bom, era estranhamente agradável.
Luke ficou até por voltar das 23h00min, graças a todos os santos minha família nos deixou em paz. Sem qualquer graça, qualquer malícia ou gracejo, ele apenas me confortou com carinhos singelos e suaves, com palavras sinceras sobre o que poderíamos fazer longe das mordomias da enorme mansão Grace... Acompanhei-o até a porta, onde ele tomou minha mão na sua e murmurou com os olhos reluzindo em agonia.
–Você ainda vai ser muito feliz, Lia – e beijou meus dedos com doçura e lentidão. Vi ainda que, no que dependesse dele, minha felicidade estaria toda posta naqueles ombros que agora se afastavam de mim. Então fiquei ali, ao lado da janela, escorada na parede, a mão sobre o peito onde um errante coração pulsava, vendo-o partir na noite fria. Não notei que era observada de imediato, mas quando virei-me para seguir ao meu quarto a vi.
–Você está entrando em um campo minado, princesa – disse ela com zombaria. Hera saiu das sombras desfilando até estar de frente a mim.
–O que quer dizer com isso?
Ela olhou longamente pela janela e riu.
–Você ainda não percebeu, não? Não se preocupe. Logo, logo, o mundo tratará de abrir seus olhos e uma dor excruciante a fará se contorcer.
Ignorei-a e voltei ao meu quarto, mas suas palavras me perturbaram. Peguei a chave, o baú e então o diário. Na metade da folha, logo abaixo a minha narração sobre o processo de liberdade de Crio, comecei então a escrever: primeiro com ódio, depois com suavidade enquanto pensava e sonhava com ele.
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