Gimme More
22 Capítulo 20
Notas iniciais
Capítulo vinte –
Foi divertido para não dizer exaustivo convencer Zeus a me deixar passar um fim de semana no meio da maior concentração de miséria do mundo, mas consegui. Já havia conversado com Marcos, que me desejou uma boa viagem e disse já sentir saudades, e com Ramiro, orientei que ele seguisse não apenas Zeus, mas todo aquele comboio que eram seus filhos. Eu não podia perder um dia da vida deles!
Encontramo-nos as cinco no aeroporto, em uma aérea de vôos privados. Zeus havia conversado com os outros pais e afirmou que pelo menos os vôos de ida e volta seriam completamente seguros. O que preocupavam os outros ali eram as grandes possibilidades de adoecermos ou com coisa pior.
Já no avião, tomávamos refrigerante enquanto conversávamos sobre a dificuldade de sair...
–Meu pai é tão ridículo! – Rachel mal se conteve – Ele não se importou nem um pouco! Digo, com a minha oferta de ajuda. Ele quer mais é que aquelas pessoas morram e...
–Rach – repreendi. Seu rosto estava começando a ficar roxo. Ela respirou fundo três vezes até se acalmar.
–Bom, meu pai também não me deixou vir, tive que ligar para minha mãe – Annabeth deu de ombros, mas vi seus olhos brilharem; ela admirava a mãe embora nutrisse um forte ódio por Atena não se importar tanto.
–E você, Clari? – Bianca perguntou – Foi fácil sair de casa?
–Simplesmente não se importam se eu respiro ou não. Bia?
–Ai, vocês sabem como funciona para mim: tive que falar com a voz bem doce e piscar os olhos e jogar meu cabelo até Hades permitir – rimos.
[...]
Fazer a diferença começa aos poucos com pequenas ações. Seguimos logo que chegamos para junto da ONG na qual comandávamos. Distribuímos alimentos e roupas durante toda a manhã e tarde. Durante a noite todos os integrantes da viagem foram convidados a passar a noite junto deles em uma aldeiazinha muito rústica, mas “adorável”. Muitos recusaram, mas nós seguimos sem nunca olhar para trás.
Sentamos em rodas no chão tendo no centro uma fogueira, pois as noites eram tão frias quanto os dias eram quentes. Convidei crianças e adultos e se deitarem em meu colo e lhes oferecia carinhos enquanto todas nós contávamos histórias. Os adultos também nos contavam suas crenças logo que as crianças dormiam. Foi tremendamente agradável as duas noites e os três dias que passamos lá.
A viagem de volta foi tão monótona e entediante que não vale a pena contar. Todas dormiram. Para a surpresa de todas e alegria de Annabeth, Atena viera nos buscar com todo o seu estilo básico, mas superior. A mulher era linda: os mesmos olhos cinzentos da filha e os cabelos escuros como piche. Um corpo com curvas delicadamente delineadas que podia deixar qualquer homem babando... Agora compreendemos a quem Annabeth puxou.
O carro da mulher era branco e bem espaçoso. Annie foi à frente e o restante de nós praticamente adormeceu no banco de trás. Pegamos transito na metade do caminho para melhorar nossa vida. Estava tão exausta que quase não reconheci a casa. A arquitetura nos seus menores detalhes era impecável.
–Meninas, vocês querem dormir no quarto da Annie ou querem que a Aracne prepare os outros quartos?
Aracne era detestável. Ela provavelmente tinha esse nome (ou apelido?) por conta dos dedos longos como as pernas de uma aranha. Enquanto qualquer pessoa se disporia de muito boa vontade para trabalhar para Atena, Aracne simplesmente odiava a mulher e contava os minutos para uma fatalidade acontecer com ela. Na imaginação da coitada a patroa devia tropeçar em um dos tapetes e cair rolando escada abaixo. Seria uma pena se o andar da arquiteta fosse tão gracioso e leve e perfeitamente calculado...
–O que for melhor para vocês – falei olhando as outras. Annie nos olhava com um pouquinho de aflição. Por mais que fosse seu sonho morar com a mãe, ela tinha um medo terrível de Aracne que já ameaçara jogar milhares de aranhas vivas no quarto da menina. Cutuquei discretamente Bianca e ela também percebeu isso.
–Podemos dormir no seu quarto, Annie? Sabe, mais pratico. – Clarisse falou.
–Claro. Não precisa se preocupar, Aracne. – a loira dispensou a empregada com classe.
–O que querem jantar? Tenho certeza de que não comeram nada na viagem de volta. – Atena deixou a bolsa sobre uma mesinha e caminhou para a cozinha. Deixamos Annabeth decidir tudo. No fim comemos legumes cozidos no vapor e filé de peixe.
O quarto de Annabeth nesta casa era magnífico. Certo que as cores eram quase as mesmas das cores da casa do pai. Mas claro que o quarto desta casa não podia ser comparado. As paredes brancas tinham lindos adesivos que de tão perfeitos eram quase reais de flocos de neve e pequenas flores arroxeadas. O quarto em si era todo um mimo e elegância. Algo que conseguia transmitir a maturidade e elegância da moça e mesmo assim manter um ar inocente de garotinha. Nesse instante havia alguns colchões espalhados pelo chão.
–Os pais de vocês mandaram mochilas com uniforme e algumas outras coisas que acharam úteis. – Atena explicava enquanto nós cinco deixávamos nossas coisas em um canto isolado e íamos para nossas “camas” – Vou levar vocês amanhã e de tarde vamos ao shopping.
–Nossos pais concordaram? – Bianca perguntou em meio a um bocejo – Digo, meu pai quase morreu para me deixar sair de casa.
–Concordaram, Bia, desde que eu as leve de volta.
Adormecemos muito rápido e pela manhã tomamos banho juntas; não é como se nós fossemos nos estuprar ou nos comer com os olhos como a maioria dos garotos pensa. Na escola fomos o assunto, nós e nossa viagem. Os professores, em sua totalidade, não conseguiam deixar de nos perguntar sobre o que vimos, o que fizemos e se aprendemos com aquilo. Era gostoso contar sobre as coisas boas que fizemos naquele lugar porque era bom poder fazer a diferença.
Nos corredores esbarrei em Will que insistiu em me amparar o corpo e me atormentar:
–Princesa, quando vamos nos divertir de novo? Já faz muito tempo que eu espero um convite...
–Você ainda não entendeu, iludido? Eu não quero nada com você.
–Você... – seu choque estava suprimindo a raiva que eu sabia que viria.
–Não. Quero. Nada. Contigo. Entende-me?
–Thalia... – seus olhos brilhavam com raiva.
–Você não passou de um brinquedinho. Agora me solte, Will, e mantenha o resto da sua dignidade.
Ele me soltou? Claro que não. Mas eu já esperava por isso. Meu pulso estava ficando roxo e ele parecia um daqueles maníacos de filmes de terror. Seria cômico se eu não fosse a “vítima”. Estava prestes a revidar, mas, temendo mostrar força demais e me denunciar em relação à Máfia, não fiz nada. Também não precisei. Jackson entrou em foco primeiro e depois Castellan.
–Will, você ouviu o que ela disse – Percy parecia calmo, transbordando lerdeza, era quase como se ele não soubesse que eu estava sendo atacada. Ridículo para não dizer cômico.
–Solte-a – Luke por outro lado rosnou. Seus olhos faiscavam e por uma fração de segundos pensei no quanto aquele rapaz parecia um homem. Não um homem qualquer, mas um verdadeiro mafioso. Estremeci.
–Ou o que? – Will puxou meu pulso, forçando meu corpo a colidir com o dele com força. Doeu, claro que sim, mas não demonstrei. Os meus dois heróis trocaram um breve olhar como que decidindo o que fazer. Luke saltou em direção ao amigo com o punho fechado, socando-lhe o queixo. O aperto afrouxou e eu consegui me soltar. Percy me escoltou, por assim dizer, evitando que um dos dois loiros me machucasse por (ou não) querer. Como era a hora da saída quase não havia testemunhas.
–Thalia, Atena chegou. Vamos logo, gata! – ouvi o grito de Rachel.
Olhei para o estacionamento e vi as meninas animadas conversando com a linda arquiteta. Aqui dentro, os dois lutavam ora no chão ora de pé. Estavam muito entretidos na luta e logo o próprio Perseu partiu para luta também. Estava pasma para não dizer outra coisa.
Virei-me e corri em direção a Atena.
[...]
Atena estava vestindo um short verde claro curto na medida certa para uma mulher do calibre dela e uma camisa branca social impecável. Saltos sempre e acessórios de prata como seus olhos. Os cabelos negros e cacheados estavam soltos divando tanto quanto os nossos. Rodamos por todo o térreo antes de irmos para a praça de alimentação. Já tínhamos sacolas nos braços quando nos sentamos para saborear nosso lanche.
–Droga. – murmurei não baixo o suficiente, pois Clarisse ouviu. Com os olhos ela me perguntava o óbvio; apontei discretamente para um casal nem tão longe assim. A morena abriu a boca quase incapaz de fechá-la e logo todas as outras perceberam um novo grande drama.
–Thalia, você vai ter sérios problemas se isso for longe demais. – Annabeth disse antes de a mãe retornar do banheiro. Era mais do que claro que eu estava encrencada em diversos aspectos.
–Katie – chamei com um sorriso quase sugestivo. Minha adorável priminha não mais tão sonsa e muito mais bem cuidada agora, virou-se com surpresa, timidez e alegria. Uma mistura suspeita – Senti saudades, minha linda – levantei e abracei-a olhando com ódio para o garoto ao lado dela; disfarcei e voltei a sorrir – Quem é seu acompanhante? – perguntei olhando diretamente para o menino que eu conhecia bem demais. E eu não me referia exatamente à personalidade e segredos.
–Sou Travies. Muito prazer – ele estendeu a mão enquanto me sorria. Nossos olhos, no entanto, travam uma disputa indescritivelmente mortífera... Na qual eu o matava... Mas mesmo assim ainda perdia.
[...]
–Lia! – Hermes era o único em casa naquele horário. Agradeceu Atena e me abraçou forte. – Alguém sentiu muito a sua falta, sabia?
–Claro – sorri – Cadê o meu bebê?
Hermes riu e levou minha menor mala para dentro enquanto alguns empregados se encarregavam do resto das sacolas. Mal abriram as portas e uma bolinha peluda e branca de olhos quase dourados pulou em minhas pernas, o rabinho abanando sem parar em puro êxtase. Não contive um riso sincero.
–Ai meu lindinho! Cuidaram bem de você, meu lobinho? – peguei-o no colo; ele lambeu minha bochecha. – Hermes, cuidaram dele, não é? – perguntei quase o ameaçando.
–Claro.
–Vamos, amore. – coloquei no chão e comecei a me afastar quando meu irmão me chamou:
–Ele tem nome?
–Lógico.
–E...?
–Moonbean.
Tomei uma ducha apenas para relaxar. Eu sabia, e ainda fui informada por Teresa, que um jantar “informal” ocorreria para que comemorássemos minha volta completamente intacta (com isso quero dizer que Apolo faria uma bateria de exames em mim). Sendo assim, tinha que me arrumar pelo menos um pouco: o vestido era azul claro estampado com diversas cerejas avermelhadas e suculentas, coloquei pelo menos quatro daquelas pulseiras tipo pandora, que contam sua vida através de pingentes e uma corrente fina no pescoço. Queria ficar descalça, mas não podia.
Como queria privacidade, fui até o jardim de Abelle. Deitei-me sobre a grama macia, entre as flores completamente silvestres que cresciam ali. Estava me sentindo inquieta. A pobre e ingênua Katie havia sido traída pelo namorado. E eu era a outra. Se isso já não fosse algo bastante forte a se pensar tinha o fato de que Katie era um anjo e Travies era um demônio, um demônio mafioso e ela... Deuses! Eles podiam e estavam colocando em risco minha segurança, meu disfarce, minha única chance de desfrutar da minha dupla identidade.
Ele me atendeu no segundo toque:
–Seu inútil, imbecil, desgraçado...
–Thalia, eu juro que não sabia...
–E que diferença isso faz? Você percebe o quanto estou exposta? Percebe os riscos que você esta impondo a mim? Ela é minha prima, Travies. Minha doce, ingênua e certinha prima.
–Thalia, você precisa entender...
–Eu não preciso entender nada.
–Eu acho que a amo. – seu sussurro foi chocante. Primeiro porque eu não sabia que os gêmeos poderiam sentir algo tão tolo quanto isso, segundo porque eu achava o “amor” uma grande besteira e ilusão; palavrinha tremendamente inútil que consegui matar tanto quanto a igreja medieval.
–Vou tentar ser bem direta; se você a amasse, coisa que eu duvido e muito – pronunciei com escárnio – não a teria traído comigo. Você não pode revelar nada sobre nossa vida, entende? Nenhuma palavra ou insinuação, qualquer gesto por menor que seja... Porque se você contar e ela começar a falar, Travies, eu não terei piedade com você... Nem com ela. Ou termine tudo se achar mais fácil, eu não ligo – simplesmente eu era o reflexo da frieza.
–Thalia, você não a...!
–Mataria? Você conhece a resposta, eu não preciso dizê-la.
–Thalia, meu bem – Teresa chamou-me com a voz doce – Seu irmão está chamando por ti, pequena. Ele te espera na salinha perto do banheiro.
–Obrigada, Teresa. – sorri para a mulher que saiu da minha visão; voltei ao celular onde Travies choramingava por mais opções de preferência bondosas. – Decida, querido. A escolha está em suas mãos. – e desliguei.
Segui para a salinha onde eu seria revistada por Apolo.
–Minha linda! – ele me fez dar uma voltinha – Parece até que pegou um bronzeado. Está linda...
–Vai começar a me examinar agora ou...
–Vou precisar que retire o vestido. – ele me olhava sugestivamente.
–Vai, é? Vou precisar de ajuda.
Ele não se importou nem um pouco com isso. Apolo realmente me examinou e depois de ter certeza de que eu não pegara nenhum vírus contagioso e que minha pele estava tão sedosa e cheirosa quanto antes de viajar, ele beijou-me o corpo inteiro. Sem pudores.
Impressionante porque, meus queridos, a namorada dele (e a de Dionísio) finalmente viriam jantar conosco. Mais uma vez eu sou a outra em um relacionamento... Mas não me importo nenhum pouco.
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