Gimme More
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Capitulo dezessete —
A sala de autópsia da Máfia era um campo de estudo para mim e as meninas. Como elas estavam na escola, hoje apenas eu aprenderia e demonstraria meus conhecimentos perante o legista. O cadáver na minha frente era de um dos homens a nosso serviço, deveria ter sido morto por algum policial, mas o coitado estava tão cheio de balas que a causa da morte (a bala principal) ainda não havia sido determinada. O que eu sempre gostei foi da capacidade, a forma humana dos mafiosos, como quando um dos seus acabavam mortos por oficiais da lei: eles não eram deixados para trás, eram levados para os seus amigos, família. E com uma resposta aos desejos de vingança.
Mais uma vez esse lugar parecia ser mais certo do que o mundo lá fora.
–Meu bem – o legista era um homem no auge dos 50 anos de cabelos acinzentados – Se você puder olhar nestes monitores – ele indicou duas telas fixas à parede – Você verá duas das balas que ainda não removemos.
–Aquela – indiquei o segundo monitor – está localizada no pulmão, certo? – ele sorriu negando palavras – A outra parece estar em alguma parte do estômago. – franzi o cenho – São meus olhos ou ele já havia sido ferido antes?
Ele riu.
–Você está certíssima. Ele havia sido ferido antes, um ferimento sério e que não foi tratado por um especialista. A bala que você vê no monitor rompeu a artéria e se alojou no ferimento antigo...
–Por não ter sido tratado foi a ferida antiga que o levou a morte. Provavelmente essa bala no pulmão doeu bastante, mas...
–Você está esperta de mais para mim, garota. – ele me passou uma bandeja de aço inoxidável com diversos “brinquedinhos” – Talvez seja à hora de me provar se tem um estômago forte – ele sorria tão maldosamente como se eu fosse passar mal apenas com a idéia de abrir um defunto e retirar as balas que ainda faltavam. Óbvio que não sou assim. Havia acabado de recuperar a primeira bala quando Marcos e outros dois apareceram.
–Thalia – virei-me – Acho que já está na hora de você falar com seus familiares – ele tinha um sorriso sinistro no rosto – Senhor, acho que pode se virar com o seu paciente...
–Claro.
Retirei aquele avental branco e as luvas avermelhadas foram jogadas fora. Caminhei com os três homens até uma sala escura e com diversas correntes espalhadas pelas paredes. Era a câmara de tortura. Havia alguns restos mortais ali, podiam ser do cientista, mas não importava. Marcos parou ao meu lado.
–Venho negociando com seu pai desde que ele foi informado do sequestro. O mundo lá em cima anda um caos, graças à fúria de Ares. Nas negociações foi prometido que você não seria machucada fisicamente, por isso aparecerá apenas abalada. É filha de Abelle então você pode deixar a todos bastante comovidos com a sua dor. Você não precisa se preocupar com nada.
Assenti e fui para a parede que me indicaram. Retirei as roupas e vesti um uniforme amassado e sujo. As correntes me prendiam os pulsos e tornozelos e não me permitiam levantar. Estava aparentando fragilidade apenas por não poder me mover muito.
–Thalia – ergui o olhar para Marcos – agora você deve reconquistar Zeus.
Ele pronunciou a frase com ódio. Era óbvio que ele não queria me ver suplicando ajuda para um pai que não fosse ele. Eu sabia que isso doía nele tanto quanto doía em mim. Deitei no chão imundo e fechei os olhos, mesmo assim uma lágrima rolou teimosamente e se perdendo na sujeira daquele chão. Eu chorava silenciosamente e apertava o pulso contra o peito como que para controlar o coração.
Era um vídeo conferência na qual os homens vestidos de preto e mascarados falavam com Zeus e Ares, na qual apenas a minha imagem aparecia ao fundo. Eu não prestava atenção nas palavras, apenas chorava. Eu precisava reagir...
–... Deixe-me falar com ela. Exijo falar com ela...
–Pai? – chamei com os olhos semi-abertos; a voz de Zeus soando agressiva como nunca antes, um silêncio potente se instalou quando o fiapo de voz saiu da minha boca – Cadê meu pai?
–Quieta garota! – um dos homens grunhiu – Quietinha ou nós vamos machucar você...
–Cadê meu pai? – o pouco que eu abri os olhos estava direcionado apenas ao brutamonte – Eu quero o meu pai!
Um grunhido de raiva ecoou. Passos vindos até mim e uma mão em meu pescoço; fui erguida até onde as correntes permitiam. Eles haviam tirado o som, então Zeus gritava sozinho. O homem sacudiu meu corpo com força.
–Você não me ouviu? Cale a boca ou...
–Não tenho medo de você. – rosnei de volta com a voz rouca – Eu quero meu pai!
Comecei a ser sacudida violentamente por soluços. Sussurrava pedidos para ver meu pai, dizia que o queria ao meu lado e voltei a cair no chão. Meu carcereiro pegou uma seringa sabe deus com o que; senti medo de verdade e olhei para cima: Zeus tinha lágrimas nos olhos e Ares tinha os globos oculares consumidos por chamas. Eu não me atrevia piscar, mas a agulha perfurou a veia do meu pescoço me deixando mole e dormente até tudo sumir em uma sombra negra.
Acordei no meu quarto com a cabeça latejante. Um ser qualquer me oferecia uma xícara com chá. Eu não precisava perguntar o que fora aquilo: eu tinha sido drogada. Uma estratégia para comover Zeus e enfurecer Ares.
–O vídeo funcionou. – o homem comunicou com a voz objetiva e sem maiores expressões – Zeus já enviou uma boa quantia em dinheiro para o seu resgate. Seu rosto está em todas as revistas e telejornais e uma nova onda de pânico atingiu NY. Os EUA estão em choque e seu caso é investigado com afinco.
–Obrigada. – agradeci secamente por culpa da garganta – Algum programa para mim?
–Marcos a espera no escritório quando você estiver recuperada do efeito...
Levantei sem ouvir a continuação; caminhei até o escritório. Lá dentro, todas as quatro meninas e os gêmeos me aguardavam. Marcos acenou a cabeça suavemente em uma saudação e começou a falar:
–Há um cassino novo aberto no centro da cidade. Não é nosso, mas sim de alguns ingênuos, tolos que pensam ser malandros e mafiosos. – ele falava de forma lenta, baixa o suficiente para todos ouvirmos e incrivelmente profissional – Eles têm uma dívida de território, de dinheiro para conosco.
Trocamos sorrisos.
–Vocês queriam mais ação. Queriam mais aventura. Queriam quebrar as regras injustamente impostas sobre seus ombros. Pois quebrem. Façam reféns, cometam assassinato, roubem e, acima de tudo, mostrem o quanto essa cidade nos pertence.
Giramos nos calcanhares e descemos para a garagem. Entramos antes no vestiário: roupas pretas de tecido largo e confortável, cabelos presos, luvas, mascaras, coturnos... Em questão de segundos estávamos divididos em dois carros blindados correndo pela cidade às 17h32min da tarde. O primeiro carro chegou já derrubando uma parede (Annabeth, Bianca e Clarisse desceram atirando com metralhadoras contra qualquer tolo que se deixasse amostra), do segundo, descemos Rachel e eu. Os gêmeos desceram assim que rendemos ou matamos a maioria. Eles passavam a mão em tudo! Em um instante o ambiente era limpo e coloridamente enfeitado. Agora não havia nada de valor a vista. Armadas, destruímos T-U-D-O o que não cabia ou não tinha valor. Invadi o escritório dos fundos e coloquei dois indivíduos deitados no chão. Deus! Tinha tanta grana dentro de um cofre atrás da parede...
Olhei melhor para um dos reféns. Ele vestia um terno escuro, tinha as feições duras na pele pálida, o cabelo era comprido e escuro como eu sabia também serem os olhos. O corpo era magro para um homem de 40 anos. Aquele era Tantâlo: um político miserável que prometia ajudar todos aqueles que passam fome, mas jogava apenas o dinheiro no bolso e “que se foda o resto”. Ainda consigo lembrar os dias de política de Zeus; o homem deplorável costumava ir a nossa casa discutir com meu pai. Ele nunca venceu nenhuma discussão fosse pelo que fosse. E desde cedo eu já consegui associá-lo ao ditado "Tão perto e, ainda assim, tão longe".
Não cheguei a me importar; nunca me importei. Para ser bem franca, eu adoraria vê-lo morto... Disparei cinco vezes nas costas do infeliz apenas por uma vingança a todo o dinheiro roubado daqueles que passavam fome. Ouvi o os gemidos altos do outro ao lado do morto e senti um pequeno sorriso surgir ainda oculto pela mascara. Revirei os bolsos do morto e consegui bastante coisa pra um homem que se dizia ser simples. Joguei tudo em uma mala e me agachei apontando a arma para o gerente chorão:
–Isso foi só um aviso. Ou vocês pagam os impostos ou vocês morrem. – amei minha voz sair grossa graças a um engenho de um dos cientistas que podia modificar nossas vozes sem torná-las falsas. Saí devagar, sem pressa. Aquele era meu ambiente, era a minha profissão, meu propósito. Talvez eu seja considerada sádica por sentir prazer no sofrimento alheio, mas, honestamente, todo e qualquer indivíduo se diverte com dramas e dores de outros que não sejam eles próprios.
Voltamos para os carros e seguimos para uma “entrada secreta”. Seguimos de volta para a base, mas agora por nossos amigáveis túneis largos o suficiente para seguir um carro por vez. Por falar neles, nossos maravilhosos arquitetos, pedreiros e outros, afirmavam já terem iniciado as construções no Arizona e Califórnia. Outros como Mississipi, Alabama e Flórida ainda estavam em fase de planejamento. Aquele progresso era divino.
[...]
Havia acabado de fechar o diário e aberto as planilhas sobre os ganhos em um bar no Brooklin quando meu celular começou a vibrar. Ah! Aquele número era conhecido... E muito bem vindo.
–Garota – a voz era rouca devido à falta de uso, era fria naturalmente como se era de esperar de um criminoso, mas eu podia sentir a luminosidade transbordando dela – Como andam as coisas ai fora?
–Acabamos de iniciar uma nova era de pânico – comentei em tom de riso e marcando alguns números com marca textos na cor roxa – A doce e perfeita filha de Zeus foi sequestrada, Hyperion! Você não sabe o quanto o país está em choque. – comecei a rir e ouvi a risada dura do presidiário – Diga, querido, como anda as coisas por ai.
–Isso é história feia para você...
–Duvida de mim?
–Não – a dureza era perceptível – Mas de qualquer forma, não é algo a ser dito. Tenho relatórios, informações, talvez planos...
Ri.
–Está querendo fugir? – coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha enquanto respondia com um sorriso.
–Você também planejaria se estivesse condenada a uma prisão perpétua.
–Acho o termo prisão muito amplo. Perpétua, também. São termos muito abrangentes.
–Como?
–Acho que todos estão condenados a uma “prisão perpétua”, mas cada um recebe uma diferente. – eu pensava naquela maldita mansão de largos corredores e cômodos amplos – Não importa. Conte-me seus planos. Quem sabe se logo eu não posso torná-los realidade?
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