Gimme More
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Capitulo seis —
A casa ainda parecia estar em choque, tanto comigo quanto com Hera. Todos pareciam se perguntar internamente o que levara a patroa a bater em uma empregada antiga e dedicada à família. Nem eu tive a coragem e a disposição de perguntar o motivo daquilo para Teresa; sentia dela um choque grande. Teresa pensava nas minhas palavras, mas não conseguia ligar os pontos. Suspirei.
–Vá para seu quarto, querida — afaguei seu ombro, em um aperto firme, mas suave — Tire o dia de folga; se precisar está dispensada amanhã também.
–Eu não...
–Não vai contrariar um pedido e uma ordem minha.
Chamei um dos seguranças que ainda estavam dentro de casa e pedi que a acompanhasse gentilmente até seus aposentos. Ainda havia outro segurança vestido em um terno preto na sala.
–Quero ser informada sobre qualquer agressão física ou moral de Hera contra qualquer funcionário desta casa, inclusive você — comuniquei — Avise aos outros funcionários que encontrar e peça que espalhem minha ordem e pedido a todos desta casa.
–Isto deve chegar aos ouvidos do senhor Zeus, senhorita?
–Não me importo de que chegue, mas gostaria de ser eu a contar do pedido, se vocês não se importarem.
–Como quiser senhorita — ele abaixou a cabeça respeitosamente de um jeito automático, mas respeitável; senti-me forçada a lembrá-lo de como as coisas deveriam funcionar.
–Você certamente sabe que não precisa concordar com as minhas atitudes. Pode me questionar desde que com respeito e que cumpra o pedido. Estou certa em afirmar isso?
Ele sorriu minimamente.
–Sei senhorita. É uma ótima patroa. Nada chegará aos ouvidos de seu pai, se possível.
–Obrigada.
Saímos os dois da cozinha e foi nos meus passinhos lerdos e calmos que eu percebi o peso do sono chegando cada vez mais forte, me embriagando tão fortemente quanto várias doses de álcool. Assim que fechei a porta meus olhos encontraram o MacBook com as informações já passadas. Desconectei o Iphone, salvei os arquivos colocando senhas complicadas para abri-los e caí no colchão em um sono pesado e intranquilo.
A boneca foi a primeira coisa que entrou em foco: os cabelos loiros cacheados e os olhos castanho escuro, o vestidinho rosa e o colar a definiam como a minha favorita na época. Não era uma boneca qualquer; aquela era a representação da minha mãe em forma de uma boneca de porcelana. Era tão linda e frágil que eu temia quebrá-la por acidente.
A menina de seis anos estava sentada no tapete da sala de estar. Os dedinhos finos e brancos traçavam um caminho pelo rosto da boneca e logo passava para os cabelos claros do brinquedo. De forma automática a menina levou a outra mão aos próprios cabelos comparando os fios castanhos escuros, quase negros aos cabelos claros da boneca. Qualquer um que observasse a cena veria a admiração de uma garota pela sua boneca. Sorrindo feliz por tê-la como companheira, a menininha abraçou sua boneca.
... As vozes ao longe chamaram a atenção da criança. Ela ergueu a cabeça e prestou atenção sem entender o real significado das palavras. Eram duas mulheres que conversavam ao longe. Olhou por cima do ombro e encontrou a empregada de que mais gostava e viu ela. Era uma mulher muito bonita: tinha cabelos compridos e loiros (não eram tão bonitos quanto os da sua boneca, mas nunca poderiam ser chamados de feios), seus olhos pareciam mudar de cor dependendo de suas emoções e ela parecia ter um grande amor por roupas coloridas e jóias douradas. O pai havia dito que ela seria sua nova mãe e que cuidaria bem dela; a menina confiava no pai, ele era o seu melhor amigo mesmo estando sempre ocupado...
–Pode ir Teresa. Está dispensada por hoje. Eu vou cuidar bem desta menininha adorável. — o sorriso branco foi radiante e encantador. A criança ingênua sorriu de volta para a nova mãe e uma empregada saiu da casa. O silencio se instalou no ambiente; a casa estava vazia com exceção das duas...
Levantei da cama em um pulo. A respiração ofegante e o coração acelerado denunciavam meu desconforto. O suor escoria pelo meu rosto, pescoço e ombros, encharcando minha camiseta assim como meus cabelos. Batidas na porta chamaram a minha atenção, mas antes olhei para o relógio; 16h02min. Levantei e caminhei ainda abalada até a porta. Luke estava escorado no batente com o seu já costumeiro sorriso, mas que desapareceu quando viu meu estado abalado.
–Você está bem? — sua posse de metidinho desapareceu na hora. Tentei ajeitar meus cabelos desgrenhados sem sucesso.
–To, não foi nada. Entra — dei espaço para que ele passa-se. Enquanto ele olhava embasbacado para meu quarto enorme eu observava sua roupas: calça jeans, camiseta branca com dizeres em francês que não me dei o trabalho de traduzir e tênis.
–Esse é o seu quarto?
–É.
–É gigante! Da uns quatro quartos de hotel juntos.
–Concluímos que eu sou bem espaçosa.
Ele sorriu de um jeito divertido, mas não forçado como estava acostumada a ver; aquele sorriso tinha um traço de pureza. Ele sacudiu a cabeça como se livrasse de um pensamento.
–Vamos começar logo esse trabalho?
–Não. Eu vou tomar um banho pra ver se acordo; você me espera aqui e não mexa nas minhas coisas.
–Isso não pareceu um pedido.
–Porque não foi.
–Não quero ficar aqui sem fazer nada durante esse tempo! – sua fala foi ficando lenta e arrastada enquanto me observava tirar o short e a camiseta. Meu corpo coberto apenas por peças íntimas e cintilando de suor parecia ser o paraíso dele. Homens! Mas havia qualquer traço de adoração ali...
–Meu deus! Ligue a TV e assista a um filme, só não mexa nas minhas coisas. Sei onde está cada pequeno grampo de cabelo ou quantos diamantes tem no lustre, então não tente nada — entrei na suíte e tranquei a porta e só então voltei a me permitir ofegar. Eu não deveria ter sonhado com aquilo, não mesmo! Entrei embaixo da água morna lavando meu corpo, cabelos e alma. Não demorei e assim que desliguei o chuveiro me dei conta de que não tinha pegado uma roupa para me trocar. Que ótimo! Tirei o excesso de água dos cabelos e enrolei meu corpo em uma toalha; teria que sair assim até o closet.
Assim que saí senti os olhos dele sobre mim. Caminhei com normalidade até meu closet e encostei a porta ainda sentindo o peso de seus olhos. Eu sabia que ele gostava do que via, mas eu não gostava que "homens" me olhassem apenas como um pedaço de carne. Vesti um short amarelo forte e um top cropped jeans, ainda descalça voltei para o quarto e desliguei a TV.
–Hei!
–O que temos pra fazer mesmo? — ele abriu a mochila e tirou uma folha.
– Temos que interpretar a primeira dessas frases famosas e não famosas.
Peguei uma escova de cabelos e me sentei ao seu lado na minha cama. Luke olhou para mim com uma visível ansiedade. Discutimos mais do que fizemos o trabalho. Nós dois somos diferentes demais um do outro, mesmo ainda não nos conhecendo bem. Deu trabalho, mas consegui colocar um pouco de luz sobre aquele menino disléxico. Ninguém sabia sobre essa doença dele, mas eu percebi logo no início. Luke me pediu que guardasse seu segredo e sendo uma excelente pessoa, prometi guardá-lo.
No fim, seus olhos brilharam e aquele sorriso de canto, não era metidinho, brincalhão ou pervertido; era só um sorriso agradecido e sincero.
–Não vai ser tão ruim aprender com você.
–Não vai ser tão ruim te ensinar.
[...]
Eu acompanhava Luke até a porta quando ele me parou, segurando meu braço.
–Te devo uma resposta. A carona também foi porque não gostei de te ver sozinha e indefesa. Eu prometo me esforçar mais na matéria, sabe, pra não ter que te dar tanto trabalho que nem hoje.
A resposta me chocou, já que eu não esperava isso, principalmente a promessa.
–Sou muitas coisas, Luke, mas nunca serei indefesa.
Estávamos próximos a porta de saída, mas ficamos apenas nos olhando esperando por uma resposta ou por varias. Importante dizer que ele estava bem próximo a mim. Abri a boca para lhe dizer algo, mas não pude.
–Thalia — o tom foi rude e raivoso; dessa vez não era nenhum irmão, era o meu pai; eu estava encrencada em muitos pontos — Quem é este?
–Um colega da escola...
–Por que está aqui, garoto? — o tom não se alterou e percebi Luke ficar tenso com tamanha agressão contida na voz. Fiquei irritada com Zeus, mas extremamente envergonhada por Luke.
–Luke, por favor, vai embora! — pedi olhando-o com desespero, mas não deu em nada; coloquei a mão em seu ombro e o fiz olhar para mim — Por favor! — ele passou pela porta e eu finalmente virei para Zeus — Qual é o seu problema?
–O meu problema? A minha filha desaparece de casa durante a noite e não volta pela manhã. Ninguém sabe onde foi e quando volta. Depois sua escola me liga relatando um caso de assédio...
–Foi um simples acidente!
–E como você me explica essa sua fuga durante a noite? – então Dionísio se atreveu a contar. Imbecil!
–Fuga? — olhei incrédula para o homem a minha frente — Então sou uma prisioneira agora? Que quando sai da cela é porque está em fuga. É isso? É assim que me vê? — gritei as palavras e comecei a notar os escondidos observando a cena — Sai durante a noite e fui para escola como uma boa menina. Não matei aula como esses drogados que você vê na TV; eu só saí.
–Não vai mais sair sem me avisar...
–Pois saio e faço questão de agora sair toda a noite com mais frequência! — vi seus olhos semicerrarem e seu rosto começar a ficar vermelho.
–Não ouse desobedecer minhas ordens.
–OU O QUE? — gritei com ódio — Vai me proibir de respirar? Você é bom nisso!
–EU DEVIA PROIBI-LA ATÉ DE FALAR! Você não pode fazer o que quer e quando quer; tudo tem limite e você já ultrapassou. Você tem um pai mocinha...
–MAS NÃO É ESSE QUE ESTÁ NA MINHA FRENTE! — gritei com os olhos marejados de ódio e o coração pulsando em desejo por morte. Tentei sair do cômodo, mas Zeus segurou meu braço, assim como Luke, mas com força, marcando minha pele clara.
–VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE DIZER UMA COISA DESSAS!
–Tenho sim! Você não conhece seus filhos, não me conhece!
–É claro que conheço meus filhos, Thalia!
–Então você sabe pelo menos que Dionísio namora há quase cinco anos? Sabe da namorada que ele esconde de você? Por vergonha? — Zeus estava pasmo; puxei meu braço com força e analisei a vermelhidão — Não sabia. Ninguém sabia; só eu. E sobre mim, você não sabe nada — lhe dei as costas e saí do cômodo.
–Essa conversa ainda não acabou — ouvi sua voz.
–É claro que não acabou. Nunca vai acabar.
[...]
Tranquei a porta do quarto assim que entrei e senti vontade de me descabelar e destruir tudo o que eu tinha ali. O pior era nunca conseguir dizer tudo o que eu queria dizer a ele, jogar na cara que ele não era um pai. Queria desesperadamente o abraço reconfortante e protetor de Marcos sobre mim, queria estar nas oficinas, escritórios ou no ringue, mas não queria estar ali trancada no quarto.
Respirei fundo contendo minha raiva e observei o silencio. Tinha coisas demais para serem feitas, mas até ai, eu tinha que desabafar meus pensamentos, meu ódio. Caminhei até o closet quase do tamanho do meu quarto; as paredes cobertas por um papel de parede peludinho da cor de creme, o piso de madeira davam um ar sofisticado ao meu espaço. Caminhei até as gavetas embutidas nas paredes e peguei uma chavezinha escondida ali naquele meio.
Voltei com a chave para o quarto. Escondido debaixo da cama estava um baú forrado em couro tingido de roxo; era lindo e estava trancado. Ele não era grande, tinha um porte médio, mas escondiam bem meus segredos. Tirei o cadeado e levantei a tampa: havia, no mínimo, seis "cadernos" ali dentro. Diários. Um para cada ano da minha vida desde que entrei na Máfia deveria ser, mas em uns escrevi mais em outros menos. Todas as capas eram duras e continham desenhos abstratos e diferentes das outras; todos os diários tinham cadeados. Peguei o último e deixei o baú aberto ao pé da cama, ao meu lado.
Sentei na cama e me inclinei sobre o criado mudo. Havia um porta-retrato ali, próximo ao alcance da minha mão. Na foto, eu e minhas bandidas sorrimos felizes demais com nós mesmas. Atrás do porta-retrato se escondia a chave dos diários. Assim que o abri, deitei sobre o colchão e peguei a caneta já riscando o papel, colocando tudo o que podia colocar em palavras e expressões.
"... Voltei a ter aquele mesmo sonho; vejo-me brincando com a boneca e Hera aparece com o seu sorriso radiante dizendo que vai cuidar de mim. Esse sonho não deveria me afetar mais; não deveria! [...] Zeus também não mudou nada nesses anos. Sua 'preocupação' comigo não passa de uma farsa pelo sentimento de culpa em seu coração [...] Ainda não é tempo de pensar em fugir; ainda tenho que manter as aparências, preciso mentir e dizer que estou bem, assim como Abelle dizia que estava, quando na verdade, mamãe queria se afogar em álcool e esquecer de Zeus e suas traições."
Ouvi batidas na porta, mas ignorei o chamado insistente de sabe-Deus-quem. Continuei riscando as folhas do diário até meu coração se sentir leve a ponto de a minha respiração se normalizar. Aquele sonho, ou melhor, aquela lembrança com a boneca ainda estava viva demais na minha mente. Em menos de um suspiro minha mente voltava para os meus seis aninhos.
A elegante mulher tinha nas mãos algo que eu não saberia dizer o que era na época, tamanha era a minha inocência, hoje eu sabia que aquilo era um cigarro. Mas Hera não fumava; nunca fumou.
O sorriso da mulher sumiu assim que a empregada desapareceu. A frieza de seus olhos fez o sorriso puro de criança ser substituído pelo inicio de medo daquela mulher. Hera se aproximou de mim com graça e se agachou e tirou a boneca de minhas mãos.
–Devolve! É a mamãe! — levantei ajeitando o vestido verde claro que eu vestia. Ela ergueu a boneca no ar deixando-a cada vez mais longe de mim.
–Sabe Thalia, eu não gosto de você e nem da sua mãezinha. Acho que essa boneca vai ter de sumir... — meus olhos se arregalaram...
–NÃO! — Hera jogou a porcelana contra a parede e eu vi o que restava da minha mãe se partir em dezenas de pedaços; a megera segurou meu braço, cravando as unhas na minha pele e com a outra mão ela levou a ponta do cigarro acessa de encontro a minha pele. Eu gritei de dor, gritei pela boneca, gritei por ajuda...
–NÃO! NÃO! Me solta... ME SOLTA!
A cada grito, ofego ou gemido suas unhas entravam mais na minha pele e o cigarro encontrava mais uma vez meu braço. Insatisfeita com o meu sofrimento, Hera me jogou contra a parede. Lágrimas corriam pelo meu rosto, sangue manchava meu braço direito e marcas de queimadura no esquerdo.
Hera se ergueu com toda a sua postura de rainha e me observou me arrastar até os restos da boneca, onde me encolhi contra a parede e segurei os pedaços de porcelana contra o peito tentando não chorar...
–Eu vejo Abelle toda à vez que olho pra você, Thalia. Vejo minha rival em cada piscar desses olhos... Venha, vamos dar um passeio, princesa... — ela voltou a me agarrar o braço e seu rosto se contorceu em ódio frio e sem tanto fundamento para mim. Ela me puxou até a entrada para o porão escuro e inabitado, fechado e frio. A escada sumia de vista tamanha era a escuridão...
–Não! Não! Me solte... Por favor, me solte! — ela soltou meu braço no topo da escada... Mas me empurrou escuridão abaixo. Antes que eu parasse de rolar escada abaixo, ouvi a porta se fechar e ser trancada... A risada alta dela ofuscava meu choro e os gemidos de dor e medo. Fiquei deitada de bruços, do jeito que caí, sem conseguir me mexer e sentindo dor enquanto o frio do chão passava para o meu corpo e minhas lágrimas quentes caiam ao chão.
Fale com o autor