Gimme More
69 Capítulo 59
Capítulo cinquenta e nove –
Estávamos somente Nico e eu nas pistas de treino. Eu estava dando aulas particulares ao nosso mais novo mafioso, aulas práticas sobre direção. Dirigir de tudo: moto, carro, caminhão, trator... Claro que não dava para ensinar tudo num dia mesmo ele sendo bastante habilidoso. Nico já havia iniciado suas aulas comigo na moto semanas atrás, mas fora uma brincadeira, nem sei se podíamos chamar aquilo de aula.
Havia sido preparada uma pista de obstáculos – bem simplesinha por sinal – e o desafio era Di Angelo passar por ela sem cometer erros em cada uma das marchas, sempre aumentando a velocidade.
—Lia... – choramingou ele; a voz abafada pelo capacete – Posso parar?
Estava chateado por ainda estar fazendo o mesmo percurso. Depois de acabar 100 vezes, mudei o sentindo dele.
—Faltam só 27 voltas, Nico.
—Andar em 1ª é uma droga!
Eu ri da sua impaciência, mas ele não parou.
—É importante saber andar devagar tanto quanto é importante andar rápido.
—Não muda o fato de ser uma droga – resmungou.
—Pense que quando você finalmente puder tirar a carta não vai precisar fazer muita coisa.
—Vou precisar sim. Vou precisar me conter – trocamos um sorriso mafioso.
Sim... Sempre nos contendo no mundo lá fora. Era maravilhoso chegar à Máfia e ser tudo o que éramos, sem preconceitos, sem limites, restrições... E falando em restrições...
Já era meio da semana e minha família continuava fria, enchendo meu saco sobre eu não ser mais solteira. Hefesto até tentara falar comigo, mas não deu muito certo; recebera uma ligação da oficina e o assunto morreu. Então eu ainda estava de castigo: ia da escola para casa e de casa para a escola, mas recuperara o celular. Seria de se esperar que minha querida família entrasse em desespero por eu ainda não ter voltado do colégio.
Falando no diabo...
—Oi, pai – disse sem emoções no aparelho celular, fiz um gesto para que Nico continuasse o circuito.
—Onde você está? – ele rosnou.
—Na rua. Sei que disse que iria para casa, mas estava entediada e encontrei uma companhia agradável.
—Menininha... Acho bom que esse maldito moleque não tenha encostado um único dedo em você, principalmente em lugares públicos.
—De quem está falando? – me fiz de inocente.
—Do seu ridículo namoradinho.
—Cuidado com o desprezo e com o diminutivo. Ele é meu namorado e é maravilhoso... De qualquer forma, não estou com Luke. Não sei onde ele está.
—Como não sabe onde ele está?
—Sou a namorada. Não sou nem babá, nem mãe, nem o GPS dele.
—Então está com quem? – o tom de Zeus era descrente num nível cômico.
—Nico.
—Quem?
Bufei de raiva.
—Nico Di Angelo, irmão da Bianca, minha melhor amiga, filho do Hades. O rapaz com quem você disse que eu poderia sair.
—Passe o telefone para ele.
—Oi?
—Você ouviu, Thalia. Obedeça.
—Ridículo – resmunguei e acenei para Nico parar a moto onde estava. Se Zeus ouvisse o barulho do motor desconfiaria que Luke estava perto e mesmo Nico falando, não o convenceria a me deixar em paz – Nico, por favor... – disse com cara de lamentação por passar o telefone.
—Alô – disse meio confuso – Senhor Grace... – Nico já me estendia o telefone.
—Volte logo para casa – e desligou.
Ficamos os dois quietos, constrangidos, tentando filtrar o que aconteceu. Nico esboçou um sorrisinho...
—Eu sinto muito pelo babaca do seu pai.
—Eu também – sorri maldosamente – Agora, continua.
[...]
Quando cheguei à mansão, no fim da tarde por sinal, o clima estava tenso e esquisito. Igualzinho o lado de fora: nublado, quase chuvoso. E logo na sala a visão mais temida de qualquer adolescente: lá estava meu pai entrevistando meu namorado.
—O que foi que eu perdi? – perguntei meio pasma; jogando a bolsa sobre um sofá vago.
—Nada – rosnou Zeus – Castellan já estava de saída.
—Estava, senhor Grace – sorriu Luke, os olhos fixos nos meus – Não estou mais.
Zeus ficou parado olhando de Luke para sua filhinha. Era como se ele esperasse me ver atracada ao pescoço de Luke ou mesmo o contrário. De qualquer forma era inconveniente.
—O senhor precisa de um convite claro para se retirar ou eu tenho permissão de levá-lo ao meu quarto? – fui bem clara. Zeus saiu quieto, mas eu sabia que ele ficaria por perto, me vigiando.
Luke se levantou e me prendeu nos seus braços. Ficamos ali, sentindo o hálito um do outro, sem encostar mais do que a pontinha do nariz, até que Luke inclinasse seus lábios em direção aos meus.
Realmente, era um beijo maravilhosamente calmo, um tipo de beijo que eu não dera nem recebera de ninguém além de Luke.
Mesmo quebrando o beijo não nos separamos. Eu continuei a brincar com seu cabelo, com sua orelha até que ele resolvesse me contar por si só o que eu interrompera, o que eu estava curiosíssima para saber.
—Me salvou, princesa – sorriu para mim – O grande e furioso dragão não perdoou eu ter roubado sua principal refém.
Não consegui conter um risinho. Amara a comparação.
—Ele pegou pesado com você?
—Do jeito dele, imagino. Muitas ameaças, alguns gritos. Eu estou estritamente proibido de encostar em você em público, num ambiente privado também temos muitas restrições.
—Ah é? – sorri.
—Sim e só podemos ficar assim, pertinho – disse me apertando mais – Na presença de Zeus ou um de seus irmãos.
—Que ridículo!
—Ah, sua madrasta também estava nessa entrevista. Tentou me vender a imagem de mãe e ficou nervosa por eu não ter trago um buquê de flores à ela – abri a boca pasma demais para falar – Como foi que ela disse? Ah, “o mínimo a se fazer é tentar agradar a sogra”. Tudo isso com uma cara feia; parecia o diabo tentando sorrir.
—Eu não acredito que esses dois imbecis se atreveram a... – as palavras sumiram; o ódio estava circulando por minhas veias.
—Eu não tenho medo deles, Thalia. Nem me importo com essas ceninhas de família perfeita, essa imagem falsa que eles tentam vender – afirmou – Você não é como eles. E enquanto você me quiser não existe força no mundo capaz de me afastar.
Não soube explicar o que eu sentia com aquelas palavras. Uma calma desgraçada e inexplicável me invadiu, deixou meu peito quente. Dessa vez, eu o beijei com um pouquinho mais de força. Queria que ele soubesse o quanto eu gostei de ouvir aquelas palavras.
—E sua mãe? – perguntei quando nos sentamos lado a lado, desesperada para mudar de assunto – Você disse que ela estava doente.
—May piorou muito. Não sei se foi porque fiquei muito tempo fora ou se eu negligenciei seus sentimentos por tempo demais.
—Não pode se culpar por tudo – tentei aliviar, mas Luke tinha muita culpa no cartório, sim. Acusá-lo agora não ajudaria nem a ele nem a mãe.
—É muito difícil não me culpar. Acho que amanhã vou levá-la depois da aula num psicólogo, vai levar quase a tarde inteira – resmungou; Luke voltou a sorrir e me abraçar – E você vai fazer o que amanhã? Encontrar Nico de novo? – senti a pontinha de ciúme em sua voz. Ele sabia que eu já me relacionara intimamente com o menino mais novo.
—Não – ri – Moonbean tem uma consulta marcada com o veterinário. Vou ver uns mimos para ele também. De lá nos passeamos um pouquinho.
-Parte de mim queria você no consultório conosco, comigo – confidenciou, os olhos amedrontados do que ele iria escutar do caso da mãe.
—Mas a outra parte sabe que é do filho que ela precisa. É um momento para vocês dois e eu só iria...
—Eu preciso de você – sussurrou fortemente, com muito impacto, interrompendo minhas palavras. Luke me puxou para seu colo, abraçava minha cintura com medo de que eu me afastasse.
—Luke – chamei tentando voltar para uma conversa, mas cedi aos beijos dele correspondendo com igual carência. Ousadamente, ele desceu sua boca por meu queixo, seguiu por meu pescoço e ficou ali: chupando, mordendo... Suspirei em seu ouvido, me agarrando mais a ele...
—Thalia! Mas que pouca vergonha é essa? – rosnou Zeus invadindo a sala.
Não deixei que Luke se mexesse, embora ele tivesse tirado sua boca do meu pescoço. Eu sabia que meu paizinho fizera de propósito. Ficara espiando nós dois até que o clima esquentasse um pouquinho só para que ele pudesse gritar e colocar nós dois como devassos.
—Tava demorando – murmurei.
—Levante agora mesmo antes que eu mande chamar os seguranças...
—Vai rolar um harém, é? – sorri vendo-o ficar púrpura; senti Luke travar o riso, apesar de ele saber que eu já vivera alguns haréns na minha curta vida. Aliás não tinha como ele não saber; na Máfia corriam todos os tipos de boatos sobre mim e sobre as demais princesas, a grande maioria era verídica. O ponto era que eu realmente fora longe demais com meu pai; Zeus parecia que ia explodir!
Luke levantou-se me levando consigo, aproveitando que eu conseguira deixar meu paizinho mudo, e delicadamente me colocou no chão. Continuei a beijar Luke, mas pequenos beijinhos carregados de sorrisos, empurrando-o até a porta para a própria segurança dele, e lá...
—Vai ficar tudo bem – garanti a ele, sabendo que ele precisava disso, de conforto – Se precisar de mim – acariciando seu nariz com o meu – É só me chamar...
Agora sim, um beijo longo, profundo e apaixonado...
—THALIA!
—Tchau – murmurei fechando a porta, lutando contra a minha vontade de observá-lo partir, o desejo de ir com ele e deixar o inferno.
—O que você acha que estava fazendo na minha sala?
—Beijando meu namorado – respondia ainda sem olhá-lo, escorada na porta – Pensei que tínhamos um acordo, mas parece que você quebra todos eles, não? – resmunguei mais para mim mesma.
—Não ouse...
—O que? – rosnei olhando em seus olhos – Não banque o bom pai, você não é. E acho que eu não preciso dizer que a escrota e burra namoradinha que você arrumou não é a minha mãe e eu não quero aquela vadia se comportando como tal!
—Olhe bem como fala da sua madrasta! – o tom ficou perigosíssimo; pena o meu também estar naquele tom.
—Olhe bem como ela fala de mim! – rosnei de volta.
—Ela está certa...
—Sobre o que? Sobre eu ser sua prioridade? Sobre como eu sou a única mulher na sua vida? Sobre como eu sou a cópia de Abelle? Não paizinho – debochei – Sua namorada sempre esteve errada sobre mim. Eu sou muito mais do Abelle, eu não sou a única mulher na sua vida, até porque você tem várias, não? E prioridades... Suas prioridades nunca me incluíram.
—Ela só quer o seu bem...
—O meu bem do outro lado do mundo. Qual é o seu problema? Por que você nunca enxerga as coisas como elas de fato são?
A porta da casa se abriu e por lá entrou o sonso Dionísio.
—Ótimo! Coloque juízo na cabeça da sua irmã – disse Zeus – Diga que Hera é uma boa mulher, uma boa madrasta...
Inacreditável como o rumo da conversa sempre voltava para aquela mulher detestável. Queria ter saído junto de Luke, mas cedo ou tarde eu teria que retornar para aquele inferno.
—De novo implicando com ela, Lia? Deixe a mulher em paz...
—Se ela fizesse o mesmo comigo, talvez – disse, mas ele não registrou – Ela que insiste em entrar onde não é bem vinda.
—Ela só quer ser mãe... Deixe ela agir como se fosse, vai poupar muitos problemas...
—No dia que eu permitir que aquela desgraçada se passe pela minha mãe a terra terá virado o inferno pelas minhas próprias mãos – disse me afastando, pegando a bolsa e subindo para o meu quarto, parei no meio do caminho – Zeus, pare de ligar para o meu namorado!
—Pare de se comportar como uma depravada – ele ameaçou de volta.
[...]
Depois de encher meu diário com palavras furiosas, fui fazer o dever de casa do colégio e em seguida o meu dever de casa. Não, não era nada relacionado à Máfia. Era algo relacionado a destruir a vida dos meus irmãos.
Dionísio estava me cansando com aquela voz arrastada e bêbada sobre ser gentil com a estúpida madrasta... Mas ele dissera uma verdade incontestável. A maldita queria ser mãe. Não que isso me fizesse ter pena dela, de forma alguma. Talvez explicasse sua implicância comigo.
—Não... – neguei em voz alta; talvez fosse um ponto a usar contra ela. Sempre retendo informações até o momento em que elas me fossem úteis.
O que fazer? O que fazer com aquela peste mascarada de irmão mais velho... A ideia era sensacional, mas não daria para ser feita sozinha. Se eu recebesse ajuda também seria complicada...
Saí do quarto e andei pelos corredores ignorando as portas dos meus irmãos. Literalmente espanquei a porta de Kate, chamando ela para o meu quarto pois tínhamos muito o que conversar, uma parada urgente!
Sim... Meu irmão estava me estressando demais.
Talvez o ódio na verdade fosse pela família inteira... Grace... Sim, era muito provável que eu tivesse canalizado tudo aquilo para o último Grace que me aparecera...
Estava num nível de ódio tão alto que estava recordando de todas as vezes que ele fora escroto comigo. Uma vez manchara meu vestido favorito de vinho, outra vez furara o pneu de todos os carros da família para não ter que me levar na casa de um colega para fazer um trabalho escolar e assim perder seu jogo de pinochele ou qualquer outra porra de nome esquisito que fosse. E a lista crescia.
Sim, eu estava obcecada.
Não, eu não pegaria leve.
Sim, eu adiantara meus planos.
Não, eu não via como algo ruim.
Ainda naquela noite, logo depois de Dionísio sair de seu esconderijo no porão, eu e Kate abrimos uma das “passagens secretas” para os gêmeos. Nós quatro, com um humor desgraçado e uma sede inominável assaltamos a adega do querido irmãozinho.
—Isso vai dar certo? – perguntou Connor; sabia que era ele, pois não estava passando a mão na bundinha de Kate.
—Por que não daria? – sorri de forma quase maníaca.
—O que vamos fazer com tanto vinho? – a pergunta foi de Kate.
—Estou pensando em vender e doar o dinheiro para alguma causa. Não decidi ainda.
—Não vai dar para acabar hoje – afirmou o outro Stoll.
—Não – concordei – Amanhã à tarde eu vou levar meu filhote no veterinário – comentei – Tive o cuidado de olhar a agenda do infeliz. Não vai vir para o almoço, nem vai chegar a tempo do jantar – os irmãos trocaram sorrisos nervosos, indecisos entre o brilhantismo da “vingança” e a minha falta de empatia – Volto para ajudar, é claro.
—Então vamos beber uma garrafa em nossa honra – disse Connor, abrindo e servindo os quatro.
—Honra entre ladrões! – riu Kate, contagiando os demais.
[...]
No dia seguinte, já no fim das aulas, despedi-me de Luke com um beijo carinhoso nos fundos do colégio onde não havia nenhuma testemunha viva, pois sabia que era exatamente disso que ele precisava.
Em casa, troquei de roupa e não me dei o trabalho de comer nada. Como não era nem um pouco saudável dar um banho depois, o banho do meu anjinho foi antes da vacina e ali naquele grande shopping canino; o veterinário logo ao lado nos aguardando. Enquanto isso eu era mimada na sala de espera com um lindo e grande sundae de frutas vermelhas, com muito chantilly e pedacinhos de frutas.
—Senhorita Grace – falou um funcionário que caíra no meu gosto desde a primeira vez que eu o vira; apesar de ser um pouco mais velho que eu, talvez um ou dois anos mais velho que Luke, ele já era casado com o manobrista do pet shop – Moonbean é tão bem comportado! É a imagem da perfeição – não neguei um sorriso – Ele está quase pronto, sim?
—Ele foi e está sendo bem adestrado.
—Sim, ainda me lembro do sequestro. Foi tão terrível para você. Acho maravilhoso que sua família esteja de protegendo com o melhor amigo do homem... Mas ele é tão dócil... – disse com o rosto encantado e quase descrente.
Apenas ri.
—Ele é dócil porque eu quero. Estou à vontade com você, mas se eu mandar que ele te ataque, não tenha dúvidas de que ele o fará.
—Extremamente leais – concordou – Parece que ele está pronto. Deixe-me ir buscá-lo – e saiu contente, brincando com meu filho.
O sundae estava quase no fim quando o noticiário chamou minha atenção. Foram encontrados uma casa de tortura para cães, um lugar terrível, onde os coitadinhos era maltratados em nome de ter filhotinhos de raças para vender a preços exorbitantes. Todos os cãezinhos – filhotes e idosos – foram mandados para uma ONG de poucas condições, e os funcionários pediam por auxílio.
—Que interessante... – murmurei para ninguém em especial, sabendo que aquela sala de espera tinha mais umas três madames além de mim. Mandei uma mensagem na hora para Kate.
Como está tudo aí?
Já ouvia os comentários e brincadeiras do homem com meu cachorro.
Passamos da metade.
Que resposta incrível!
Levantei deixando o restante do sundae na mesinha, seguindo para o corredor com o meu adorável cachorro ao meu lado sem auxílio de coleira alguma para deslumbre da grande maioria dos presentes.
—Olá, rapazinho – cumprimentou o veterinário – Está bastante saudável...
Mas eu quase não ouvia mais... Estava mandando mensagens para a direção do colégio, para marcos e até para Kate. Já sabia o que fazer com grande parte do vinho... A outra parte eu só ia beber mesmo.
Ah, os dias seguintes seriam maravilhosos.
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