Gimme More
66 Capítulo 56
Notas iniciais
Capítulo cinquenta e seis –
Um barulho alto, extremamente incômodo, nos assustou a ponto de nos afastarmos. Um barman derrubara a bandeja. Abaixei a cabeça, escondendo meu rosto com ajuda dos cabelos. Meu coração estava disparado, minha mente nebulosa, as bochechas em chamas.
Um beijo inocente. Um selinho... Como quando éramos crianças.
Finalmente!
—Por que eu nunca consigo te beijar direito? – senti a amargura em sua voz e não consegui não sentir o mesmo.
Estava um barulho considerável de risos e ovações; parecia que tínhamos passado despercebidos. Ele se levantou, puxando-me pela mão para fora daquele pequeno tumulto. Seguíamos de volta para o hotel por aquelas ruazinhas bem desenhadas, iluminadas por lindos postes de luz.
Eu me movia na base do automático. Era muita coisa ao mesmo tempo. Estava sentindo o corpo mole, quase zonzo apenas com a sensação daquele toque tão levinho... Dois! Não apenas um, mas dois selinhos! E ele fora o meu primeiro... O primeiro beijo, o primeiro amigo, o primeiro com quem dormi, o primeiro por quem eu me apaixonei.
Castellan me puxou para perto quando eu menos esperava virando meu corpo em direção ao seu. Eu só sentia suas mãos em minha cintura, em minhas costas. Só conseguia me segurar em seus braços para me impedir de cair sob a intensidade daquele olhar tão límpido, tão claro, tão meu.
Seu rosto desceu na direção dos meus lábios ao passo que eu ergui o queixo, oferecendo-os para serem beijados. E foi exatamente isso o que aconteceu. Luke encaixou seus lábios nos meus, ainda inocente, um pouco mais do que um selinho. Chupei seu lábio com medo, como se ele pudesse se desfazer se eu ousasse demais, como se pudesse acordar daquele sonho sem ele ao meu alcance; Luke parecia sofrer do mesmo, pois cada toque era singelo, leve, longo. Subi minhas mãos para seu pescoço, pressionei sua nuca e permiti que ele aprofundasse o beijo. Um som baixinho me escapou, um som que denunciava todo meu prazer, e foi nesse instante que suas mãos me deram ainda mais apoio: no quadril e a outra um pouco abaixo dos ombros, me pressionando contra seu corpo. A sincronia com que nossas línguas dançavam juntas era fantástica, eu nunca tivera um beijo assim, em que eu estivesse tão conectada com alguém a ponto de sentir meu coração explodir de satisfação.
—QUE DELÍCIA!
O grito de um homem nos assustou a ponto de nos separarmos. Ele simplesmente passara por nós, gritara e agora olhava para trás e ria de nossas caras envergonhadas/assustadas.
Eu estava tão sem chão... Tão dependente de apoio... Tão trêmula... Aquela boca era tão melhor do que eu imaginei... Meu deus!Que constrangimento...
—Eu sabia que te beijar era uma tarefa difícil – eu sentia o sorriso sarcástico em sua voz, conhecia-o o suficiente para entender que ele estava tentando aliviar o clima, se acalmar; ergui o olhar para vê-lo tão desestabilizado quanto eu – Mas já está ficando bizarro.
Eu não consegui rir, mesmo tendo graça.
Voltei a brincar com seus cabelos enquanto era envolvida por seu abraço. Tanta coisa para assimilar... Seus lábios e os meus juntos outra vez. Mas não queríamos ser interrompidos novamente. Fomos parando com chupões e então selinhos, ainda com medo de ser apenas uma ilusão. Porém não conseguíamos nos soltar mais. Por mim, o mundo que acabasse naquele instante.
Outro homem vinha passando e receando outra animada saudação nos afastamos sem rumo, andando para longe de pessoas. As mãos juntas, os dedos entrelaçados. Encostamo-nos lado a lado numa parede qualquer, escondidos nas sombras, observando as luzes ao longe do hotel. Precisávamos recuperar o fôlego.
Castellan voltou-se contra mim, se colocando a minha frente quase me empurrando contra o concreto. Deus! Como eu queria mais dele... Suas mãos estavam ali, firmes em minha cintura, seu hálito quente batendo em meus lábios... Não precisava vê-lo, e quase não conseguia naquela penumbra, para saber que seus olhos estavam brilhantes de um jeito quase maníaco; não precisava de um espelho para saber que estava tão desesperada quanto ele. Deixei minhas mãos em seu peito sentindo-o agitado, tão agitado quanto o meu... Eu queria mais. Queria mais de Luke.
Encontrei seus lábios e não lhe dei descanso. Como se ele quisesse. Um beijo bem mais sensual, mais provocativo. Mordisquei seu lábio e não o soltei até que estivessem bem acomodada, com as pernas em seu quadril. Eu sentia suas mãos me apertando nas coxas, seus lábios chupando os meus, seu coração pulsando junto ao meu... Estava perdida nele. Completamente perdida nas sensações únicas que ele me causava, nos sentimentos que ele me oferecia e proporcionava. Ele desviou sua boca para minha bochecha, seguindo até minha orelha onde suspirou e mordiscou o lóbulo. Sua mão também subiu, quase chegando ao meu seio.
Basicamente nós queríamos todos os beijos possíveis: picantes, singelos, lentos, insanos, quentes, doces. E que se foda se era demais para uma noite só! Eu queria, eu precisava... Estava me assustando com o quanto eu queria Luke Castellan. Queria tudo dele, queria tudo para ele, tudo com ele, porque estava irremediavelmente apaixonada por ele.
Apaixonada.
Fiquei tensa sem um primeiro motivo aparente. Medo. Eu estava novamente com medo dos meus sentimentos, dos sentimentos dele. Medo de ser estupidamente apaixonada como minha mãe e ser tão fria e cruelmente insensível como meu pai. Não queria me machucar. Mas mais que tudo isso eu não queria que Luke sofresse.
A resposta imediata era afastá-lo. E a última coisa que eu queria era afastá-lo de mim.
Ficou claro que ele me sentiu tensa, apreensiva. Castellan não era tonto; conhecia-me mais que o suficiente para saber o que eu sentia. Seus carinhos ficaram mais sutis, a trilha de beijos no meu pescoço, no meu rosto até minha boca foi ainda mais gentil. Eu senti meus olhos cheios de lágrimas, mas não as deixaria cair. Não, eu não deixaria. Luke acariciou meu lábio com seu polegar antes de beijar minha boca com carinho e lentidão.
E o medo sumiu tão rápido quanto apareceu.
Seguimos de volta para hotel dessa forma. Andando de mãos dadas, nos escorando pelas sombras, fugindo das pessoas e trocando longos e gostosos beijos por onde passávamos. Era irrelevante saber que podíamos ter percorrido o caminho até o hotel em menos de 15 minutos e que nós havíamos, no mínimo, dobrado o tempo.
Quando perto da recepção, já bem a vista de qualquer um que passasse, nas portas de vidro ouvi a voz da professora que parecia procurar por algum aluno. Luke apertou uma última vez meu corpo contra o seu. Seus olhos gritavam em protesto contra aquela separação e eu mesma segurei-o um pouco mais, pedindo sem palavras que não se afastasse de mim.
Claro, Luke estava fugindo da professora depois do que acontecera entre ele e Solace. Não era nenhum um pouco legal para o nome da escola a situação em que eles se colocaram e ele ouviria um sermão inteiro. Eu entendia. Entendia também que tinha que despistar a idosa da cola dele pelo menos até o fim da viagem. Eu só não queria me separar dele.
Eu não consegui interpretar seu olhar, só sabia que eu estava frágil e que isso estava bem visível para qualquer um. Luke segurou meu rosto, me beijou e sussurrou:
—Eu volto – ficou claro que era uma promessa, que nossa noite não havia acabado.
O timing foi perfeito. Dona Adelaide entrou em foco no instante em que Luke sumiu nas sombras na direção contrária a qual seguimos até aquele instante.
—Thalia Grace! – nem mesmo o desgosto do meu sobrenome me atingiu tamanha minha dispersão – Mas você não foi? Os demais estavam tão empolgados pelo luau! Animadíssimos por sair bem mais cedo que o habitual.
—Não, eu... – pisquei diversas vezes como que para acordar; mantenha-se no presente, garota! Recomponha-se!— Não senti vontade de ir essa noite.
—Tem aproveitado, não? – e deu uma risadinha já me puxando “discretamente” pela mão – Sempre acontece: alunos desistindo de uma festa porque curtiram demais nas noites passadas – ela não parava de falar e mal registrava os sons que saíam da minha boca em concordância até que o elevador estivesse com as portas fechadas – Chegou a ouvir, querida? Foi tão grosseiro! Reclamarei com a direção do hotel, inclusive.
—Perdão, Dona Adelaide – disse meio aérea – Não sei se entendi...
—Eu sei. Eu sei. – ela resmungou e deu dois tapinhas na minha mão – Num dos quartos acima do meu uma depravação danada no meio da madrugada! – congelei; disfarce, Thalia!— Claro que não pode ser de nenhuma garota da nossa escola, quero pensar que também não foi nenhum dos meninos. Tamanha falta de respeito!
—Acho mais provável ser um vídeo – desconversei legal – Não faz muito sentido já que estamos num ambiente tão observado por monitores e professores... Não acho...
—Sim, sim, sim – saímos no terraço por onde ela me conduziu pelas mesas quase vazias, com exceção de alguns funcionários comendo – Você comeu o doce de abacaxi? Eu já jantei, mas preciso repetir. Está excelente! – disse se servindo; apenas me sentei de frente para ela – Você tem visto o menino Luke Castellan? – meu coração pulou de uma forma muita errada, tão errada que eu tenho certeza de que ela ouviu.
Menos, menina. Parece que nunca foi beijada!
—Ah, não, eu...
—Andam muito próximos vocês dois. Nós, professores, acreditamos que estejam saindo, ou seja lá como vocês jovens falam hoje em dia. Alguns até já apostaram se não estariam namorando.
Senti as bochechas em chamas. Mais constrangida, impossível.
—Nós não... – não continuei a frase até porque o final dela me doeu. Apenas baixei os olhos e esperei que meus sentimentos não estivessem assim tão transparentes quanto eu os sentia.
—Preciso conversar seriamente com ele. Chegou a ver o que aconteceu aqui duas noites atrás?
—Não, eu não vi. – sussurrei abalada pela simples lembrança.
—Ouvi por acaso dois monitores conversando sobre e então perguntei para alguns alunos do segundo ano e umas meninas do outro colégio. Tenebroso! Esse tipo de comportamento é inadmissível. Preciso conversar seriamente com os dois: Castellan e Solace.
—Claro.
—É muito importante. Se o vir pode dizer que tenho que falar com ele?
—Claro.
A professora continuava falando sobre as atitudes infantis dos garotos e que brigas não levam a nada; eu só concordava, falava pouco. Já estava mais calma. Razoavelmente calma. Não conseguia parar de pensar nele, de rever os inúmeros beijos trocados no início daquela noite, de desejar mais... Mal notei que a idosa levantara para repetir (pela terceira vez) o prato de doce. Mas registrei uma comoção entre os funcionários, pessoas se debruçando sobre os vidros fechados, um murmurinho crescente e que me acordou para o momento presente.
Levantei seguindo para as enormes janelas de vidro com vista para a praia exclusiva... E meu coração parou.
—Não acredito – murmurei para ninguém em especial, aquilo só precisava sair de mim antes que eu me sufocasse.
Escrito com auxilio de diversas velas nas areias da praia “Namora comigo?” e um pontinho quase solitário que eu sabia ser o meu Luke. Meus olhos encheram d’água. Meu corpo tremia descontroladamente a ponto de eu precisar me apoiar no vidro. Levei a mão aos lábios tentando esconder o sorriso, tentando abafar um som de surpresa.
Senti que me olhavam, mas nada importava mais. Inclusive pareciam apontar para mim e sussurrar “é para ela”. Não importava, não importava nada!
Respirei fundo e controlei meu corpo dando as costas à vista. Saí correndo com um sorriso incrédulo no rosto ouvindo diversos aplausos que continuavam conforme eu passava de andar a andar – ignorando totalmente o elevador – na recepção, nos jardins, pelo único quiosque que passei de frente para o mar. Assovios e ovações e aplausos. Mesmo registrando superficialmente, era claro, era nítida a alegria que eles sentiam por mim, por uma estranha.
Parei assim que o asfalto acabou. Assim que vi o tremular de seus cabelos.
Isso não é real!
De repente tudo ficou silencioso. Como se todos quisessem ouvir mesmo sendo muito improvável.
Não consegui correr. Dei meus passos lentos em sua direção, não acreditando no que me estava acontecendo. A brisa vez a luz das chamas cintilarem, refletindo lindamente em seus olhos, seus cabelos moveram-se delicadamente.
Luke parecia tomar coragem para dizer:
—Eu passei anos da minha vida feliz só por te ver de longe. Desejei por muito tempo minha amiga de volta. Prendi-me tanto no que eu perdi que esqueci o que poderia ter – ele afastou os cabelos do rosto, os olhos reluzindo em lágrimas – Por muito tempo eu me culpei por desejar você, minha melhor amiga, a menina que cresceu comigo. Mas como não se você era muito mais do que eu esperava, em todos os sentidos? Eu me prendi tanto nas nossas lembranças e me confundi tanto com o presente que esqueci a promessa que fizemos depois do nosso primeiro beijo – já não tinha controle sobre minhas lágrimas.
“Eu tenho uma visão de namoro não tão convencional – ele tomou fôlego – Acredito que o namoro aconteça: num dia você acorda sem grandes pretensões e percebe que está namorando – ele sorriu, contendo as lágrimas – Por essa visão já estamos namorando há muito tempo, não? – eu concordei muito rápido – Mas a despeito de toda nossa intimidade, não éramos um casal, não éramos namorados. Não para você – acariciou minha bochecha, o rosto condoído – Sei que nossa relação é complicada e atípica – ele continuou com seriedade – mas eu conheço seus sentimentos... Se isso tudo tiver qualquer significado... – gesticulou mostrando as velas – Você acha que nós dois... – ele mexeu em meus cabelos, com cuidado, então muito suavemente roçou o dedo em meus lábios e suspirou; Castellan estava angustiado, necessitava da resposta – Eu quero cumprir a promessa, você quer?
—Sim – o murmúrio quase não foi ouvido – Sim, eu quero.
—Não vai nem pensar sobre o assunto? – ele tentava esconder o sorriso, inegavelmente emocionado com a resposta rápida, claramente respeitoso para com meus sentimentos. Só me fez ter mais certeza.
—Não tem o que pensar – minha voz saiu firme apesar de tudo – Eu sei o que eu quero, Castellan. E desta vez eu estou prometendo.
A felicidade nos olhos dele era tamanha que transbordava... Ele entendera bem o que eu dissera: quando crianças ele prometeu não me deixar; agora era eu quem fazia essa mesma promessa. Luke me puxou para um beijo longo e apaixonado, rodando comigo pela areia; fomos acompanhados por ovações de desconhecidos, pessoas de alma sensível o bastante para se emocionarem com um reles pedido de namoro. Foi a noite mais linda de toda a viagem, de toda a minha curta vida.
Era o primeiro passo contra um medo. Era o primeiro passo para minha felicidade.
[...]
Levou um tempo para nos recuperarmos da emoção e conseguir controlar as lágrimas. Logo depois do beijo, a galera do quiosque aumentou o som, gritaram votos de felicidade e nos incluíram naquela pequena festinha. Claro, nós sumimos rapidamente. Andamos pelas areias da praia do resort, a beira-mar mesmo, conversando e nos beijando a luz daquele luar maravilhoso depois de um dia nublado.
Castellan confidenciou que não espera fazer o pedido para mim. Luke acreditava – lá no começo do ano – que tivesse um futuro melhor com uma garota fora daquele “mundinho de gente rica” que era o colégio – eu sabia que não faltavam pretendentes – e que nós retomaríamos nossa amizade de infância como se todos aqueles anos de distância tivessem simplesmente passado em branco. Uma namorada gostosa de um mundo mais humilde e a melhor amiga de um mundo de luxos. E como eu, ele sentiu e cedeu primeiro á luxúria, logo se culpando e assumindo um relacionamento às pressas com Kelli – “Achei que assim eu não te desejaria tanto” ele disse, e eu lembrava bem daquele relacionamento relâmpago, do anúncio espalhafatoso logo após nossa primeira noite juntos e da notícia do término assim que retornei da Austrália “Ela nunca significou nada” – mas que terminou quando minha ausência e a lembrança da promessa fizeram óbvios seus sentimentos.
Também confessou que as velas foram improviso e auxílio. Duas semanas antes o hotel sediara algum evento especialmente iluminado a luz de velas; então quando ele chegou numa área restrita a funcionários com um pedido de ajuda especial a sugestão foi quase unânime. Pensaram inclusive arrumar um buque de flores – esse ele mesmo recusou “qual a graça das flores se eu apenas, na melhor das apostas, as veria morrer no avião ao lado dela?” Não pude deixar de concordar.
Não queríamos voltar para o hotel: ver amigos, colegas de quarto, ouvir risinhos e “parabéns”. Queríamos ficar a sós. Luke, muito mãos leves, roubou uma enorme toalha e estendeu-a sobre a areia. Mal senti o instante em que minhas costas encontraram o pano tamanha minha imersão naquele beijo.
Eu não era uma menina romântica, mas todo aquele pedido, luz de velas, pés descalços, o mar ao fundo, dormir a céu aberto sob um céu estrelado... Era o sonho mais lindo que eu já sonhara. E falando em sonho...
De pé eu conseguia ver a pequena-eu no meio daquela roda, conseguia ver o pequeno Luke tão envergonhado quanto eu, com aqueles gritos “beija, beija, beija!”. O respeito com o qual aquela criança segurava a mão da amiga era deslumbrante. Mesmo ali, nas bases da infância, minha opinião, meus sentimentos já eram importantes para ele.
—Eu posso? – ele perguntou baixinho ignorando que os gritos cresciam; a pequena eu nem se recordava do irmão – Você não vai ficar brava?
As bochechas estavam bem vermelhas, os olhos brilhantes de constrangimento. A pequena só via beijos nos filmes infantis – aqueles bonitos da Disney: Bela Adormecida, Cinderela – nunca vira seu pai beijar a madrasta, ou seus irmãos beijando as amigas que levavam para casa. E nos filmes o beijo era algo rápido e feliz, então porque não?
—Pode me beijar – disse baixinho.
Realmente foi um selinho muito bonito. As mãos sempre juntas. Enquanto as crianças começaram o coro “ta namorando!” a pequena-eu perguntava o que aconteceria depois.
—... Namoro é coisa de gente grande – eu disse.
—Quando nós crescermos eu prometo ser seu namorado. – os dois sorriram timidamente e se abraçaram murmurando que seriam amigos até “lá”.
Mas eu não assisti ao sonho sozinha. Abelle não disse nada, ela apenas me olhou com carinho, abraçou-me apertado e me prometeu felicidade com aquele sorriso lindo.
Acordei nos braços de Luke, com as luzes do nascer do sol iluminando o céu. Voltar foi razoavelmente tranquilo até que nos separamos: eu fui para o quarto, ele para o terraço. Assim que Annabeth abriu a porta começou o interrogatório – que eu não respondi até estar de banho tomado e estarmos todas juntas.
—O que aconteceu com você?
—Achei que ia ao luau mesmo tendo perdido o passeio da tarde.
—Onde você dormiu?
—Pensei que íamos todos ao luau!
As perguntas seguiram pelo caminho todo e se tornaram mais enfáticas quando uma camareira me parabenizou. Torturei-as dizendo apenas que estava morrendo de fome, deixando-as ainda mais curiosas para o que me acontecera.
—Muito bem, chega! – Rachel se exaltou depois de perceber os sorrisinhos que eu recebia dos funcionários do hotel – O que raios aconteceu? Por que te deram parabéns? Sou péssima com datas, mas não é seu aniversário.
Sob toda a pressão contei superficialmente minha noite. Não queria dar detalhes dos longos discursos de Luke; havia coisas que ficavam muito melhor apenas entre nós. Contei que apesar de todo aquele fogo entre nós dois, nunca havíamos nos beijado até noite passada e que logo depois da interrupção da professora eu fui pedida em namoro; especifiquei bem a forma com a qual ele pedira. As carinhas emocionadas, pasmas, felizes, das minhas irmãs de alma não tinham preço.
—Mas você aceitou, não é? Diga que aceitou, Lia! – Bianca quase implorou interrompendo o começo de uma comemoração.
Eu entendia o porquê da pergunta. Romance era um assunto muito delicado para mim e eu não era exatamente um doce de pessoa. Não seria surpresa se eu tivesse dito não.
—Sim – mordi discretamente o lábio – Eu disse sim.
A comemoração delas me causou risos.
Voltamos para o quarto para nos arrumarmos para o último passeio daquela viagem. Estávamos quase prontas quando meu namorado apareceu pedindo ajuda. Ainda era estranho pensar assim. Meu namorado. Recebi diversos olhares atravessados; nada que não desse para conviver. Ao que parecia, a professora também iria nesse passeio e Luke ainda tinha algumas marquinhas minhas de duas noites atrás; ele não conseguiria fugir dela, acho que nem se importava mais. Abri sua camisa e cobri as manchinhas com maquiagem a prova d’água por via das dúvidas.
Tivemos que pegar um “taxi de água” para chegar até a praia de areias rosadas. O lugar era lindo e calmo apesar dos meninos agitados. Basicamente fiquei numa rede curtindo o solzinho até que Luke voltasse depois do sermão de Dona Adelaide e se deitasse ao meu lado. Muito fofo, dividimos uma água de coco e passamos nossa tarde assim, num clima romântico – sem nada escancarado, nenhum beijo ou selinho – apenas molhando as pernas nos afastando dos demais, mesmo assim ainda ouvindo todos falando sobre o pedido que eles não viram noite passada.
A balada tinha que ser inesquecível, seria a nossa última noite. Precisávamos aproveitar bem. Todas as roupas, sapatos, maquiagens foram bem pensadas, bem trabalhadas; nos meninos, inclusive. Todos lindos. A música estava fantástica. O lugar era incrível. Tinha tudo para ser a melhor balada da viagem.
Claro que nem tudo são flores, arco-íris e todas essas coisas bonitas... Não. Eu ainda era uma Grace: um imã de desgraças.
Num ínfimo instante no qual me separei da turma mafiosa para buscar bebida ou ir ao banheiro – não lembro e nem vou lembrar – encontrei ele com seu sorriso bonito e seus olhos sedutores. Pablo. Eu devia ter prestado atenção na sua postura, que algo não estava certo apesar da descontração que ele tentava me passar, que algo ali não estava combinando.
Só percebi meu erro quando levei o copo à boca e vi a faísca de triunfo nos seus olhos. Soltei-o e vi o restante do líquido se perder no chão junto com os cacos de vidro do copo.
A mafiosa em mim estava adormecida, descansando nas férias prometidas, confiante de que nada aconteceria, mas despertou no instante em que a droga do estupro começou a fazer efeito. Ou seja, não fez diferença. Amoleci nos braços do caribenho.
Que droga!
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