Gimme More
60 Capítulo 50
Notas iniciais
Capítulo cinquenta –
O nosso primeiro dia era livre, sabe, descansar do vôo, explorar o resort, visitar a praia mais próxima... Mas a noite já tinha festa. Na verdade, teríamos festa todas as noites durante nossa estadia e passeios todas as tardes. Era perfeito!
Luke me acompanhou até meu quarto e esperou que eu pegasse uma calcinha. Descemos juntos para explorar toda a área. Andamos por todos os andares tirando fotos do local para mandar para família e amigos – e para lembrar exatamente de cada cantinho em que estivemos – no meu caso, era mais por Kate, os gêmeos e Marcos, que também mostrariam para as meninas indianas, para que não pensassem que algo ruim me havia acontecido; claro que teria que mandar algumas para meus irmãos, mas eu queria que Zeus explodisse!
Corremos em direção à praia e bancamos, juntos, as blogueiras de moda, sabem? Fizemos vlog e tiramos várias fotos espetaculares. A sensação de liberdade que eu tinha era fantástica, quase indescritível. Eu estava num lugar lindo sem ser soterrada pelo sobrenome, sem ser constrangida pelos familiares, sem a obrigação de ser perfeita... Estava ali, com os pés banhados pelas ondas, os cabelos dançando com o vento, a brisa suave no rosto, os olhos fechados.
—Tudo bem, Lia? – a voz suave de Luke ao fundo.
Não consegui responder, não num primeiro momento. Alguma coisa me dizia que se eu abrisse os olhos iria acabar chorando.
—É tão raro isso – murmurei – Essa sensação.
—O que você sente? –a voz dele era baixa, suave.
—Sou apenas eu. Apenas Thalia. Aqui não sou uma Grace nem uma princesa. Não sou nem filha, nem irmã. Não sou um estorvo nem uma benção. Sou... Sou comum, somente eu e nada mais.
Tal como semanas atrás, as mãos de Luke massageavam meus ombros e eu pude sentir a tensão ir embora. Ele não disse nada, nem precisava. Sabia que Luke compreendia o que eu queria dizer, embora nunca tivesse passado por conflito daqueles.
Levou muito tempo para sairmos dali, sairmos daquela calma, daquele lugar sereno e seguir para a baderna de amigos e colegas. Luke me prendeu ali por tempo demais, ele percebera o quão importante era não ser importante e me deixou curtir. Atitudes assim eram as que me recordavam de que ele não era somente mais um com quem transei – e com quem pretendo continuar transando – ele era um amigo. Não... Luke Castellan já era muito mais.
Suspirei e abri os olhos e deixando toda a minha melancolia, todo o meu medo invadir o azul de meus olhos. Virei, deixando que ele me visse daquela forma mais sensível. Castellan não perdeu seu tempo e me abraçou.
Deixei que ele pensasse que aquilo era reflexo de ser uma Grace. Ele não precisava saber que aquilo era a confusão de sentimentos contraditórios que ele me causava.
[...]
Os quartos eram de no máximo quatro camas, sendo a maioria nesse número, mas alguns ficaram com apenas três no quarto e teve apenas um caso de um dormitório duplo. Não houve ninguém que misturou as classes, digo, as turmas – fora um pedido da professora e como ela era mais velhinha e era razoavelmente legal ninguém reclamou. Nós princesas dividimos assim: eu, Bianca e Annie num quarto; Rachel e Clarisse no outro. Nossos quartos eram um de frente para o outro, então nós sabíamos que as noites seriam em quartos diferentes, sem essa ordem certinha.
Tomamos um banho rápido e vestimos algo leve – e fácil de tirar – somente para jantar, já que nos arrumaríamos apenas depois de satisfeitas. Estávamos só as três “donas” do quarto.
—Então, Lia – pelo tom de voz senti que a conversa seria mais “caliente”; Bianca sorria de forma maliciosa – Conseguiu se divertir com o loiro?
—Consegui – devolvi o sorriso e continuei a pentear o cabelo.
—E? – instigou Annabeth que saía do banheiro enrolada na toalha – Continua, gata.
—Detalhes, amor. Nós queremos detalhes – quando abri a boca, uma batida na porta nos fez parar. Comemorei até que abri e as princesas restantes se sentaram.
—Do que estavam falando?
—A Lia estava pra contar como foi o dia pervertido com o Castellan – disse Bianca. Joguei um travesseiro nela o que apenas fez com que risse.
—Ah, vamos, Thals! – implorou Rachel; detalhe: ela estava se achando com aquele novo corte dos cabelos: os cachos ruivos um pouco acima dos ombros.
Sentei na minha cama – a do meio – e esperei elas se reunirem a minha volta. Pensei primeiro no que contar e percebi que talvez tivesse até outros assuntos para discutir com minhas amigas.
—Não sei por onde começar – me desculpei. Elas não me vaiaram como de costume quando alguma de nós soltava essa frase; elas perceberam que eu realmente não sabia o que falar porque ainda não compreendia o que estava acontecendo.
—Vamos do começo então – disse Annie me passando muita calma de um jeito que só aquele anjinho sabia passar – O que aconteceu hoje de manhã, como foi sua saída de casa? Acho que nem falamos sobre.
Minha expressão de alguma forma endureceu, empalideceu... Se quer conseguia imaginar minha aparência naquele instante.
—Ai meu deus – disse Bianca e a ruiva e a morena xingaram baixinho.
—Foi assustador – sussurrei, então me recompus para tentar explicar tudo o que me acontecera – Fiz o que tínhamos combinado de fazer, sabem? Postei o vídeo que ficou muito maravilhoso de madrugada porque não conseguia dormir e... Ele nem sequer tinha visto, sei que Zeus não assistiu. Algum assessor deve ter visto e ligado para ele... Ele invadiu meu quarto e me puxou da cama – fechei os olhos relembrando a forma bruta com que segurara meu pulso e me acordara a tempo, antes de cair no chão – Eu nunca o vi daquela forma, parecia que ia explodir – tentei sorrir lembrando o tom vermelho, quase roxa que ficara seu rosto – Ele gritava tanto e eu não me lembro de nenhuma frase que tenha dito.
—Filho da puta! – resmungou Rachel.
—Ele estava falando algo sobre a viagem, algo sobre Luke e... Tenho quase certeza que ouvi a palavra internato.
—NÃO! – gritaram as quatro; eu estava quase a ponto de chorar.
—Ele ia me bater, tenho certeza, mas os gritos atraíram Hefesto e ele acalmou meu pai – disse fechando os olhos e mexendo nos cabelos.
—Hefesto está mais aceitável ultimamente, não? – disse Rachel – Se importa se eu pegá-lo?
Eu ri e as outras também. Não que Rachel tivesse mentido sobre o desejo de transar com meu irmão, mas ela diria isso apenas num momento de descontração e não numa conversa séria. Ela queria me fazer rir e deu certo. Eu amava demais aquelas meninas.
—Você falou sobre isso com mais alguém? – Clarisse disse baixinho.
—Percy percebeu de cara que Zeus tinha estragado minha manhã, mas só sabe disso.
—E essa questão do internato? – Bianca também empalidecera – Quer dizer, não é oficial, é?
—Desde que meu pai voltou com Hera... – suspirei e tentei de novo – A megera me quer longe dele e eu acho que ele também me quer distante. Acho que ele ainda não decidiu um, mas sei que está pesquisando cidades como Paris, Viena e Milão.
Ninguém pronunciou uma única palavra, mas todas sentiram e empalideceram ao pronunciar das três últimas palavras: todas as cidades em outro continente.
—Luke sabe? – foi Annabeth quem pronunciou uma das maiores preocupações em torno daquele assunto.
—Sabia como uma possibilidade, mas...
—Você agora acha que é uma certeza?
Assenti com os olhos cheios de lágrimas. Elas compreenderam: eu não conseguiria deixar a Máfia, deixá-las, deixar Luke. Elas também ficaram melancólicas e me deram um super abraço, daqueles que você sempre lembra com carinho em momentos de saudade.
—Não vamos te deixar ir, princesa.
—Isso mesmo. Vamos ficar todas juntas.
—Se for necessário – sorriu Clarisse – Vamos todas com você.
—Mas você tem namorado – e olhei de esguelha para Annabeth; a loira entendeu – Eu jamais pediria que escolhesse.
—Minhas amigas vêm em primeiro lugar, Lia. Chris pode esperar.
Sorri, mas não fui a única. Ela era a mais pobre de todas nós, a que tinha menos condições de ir e a que estava mais presa para ficar... E mesmo assim Clarisse se propunha a abrir mão de sua vida e de seu amor para seguir comigo ou com qualquer outra que precisasse. Era muito amor num quarto só. Amor...
—Eu amo muito vocês – verbalizei pela primeira vez aquela frase e, por mais ridículo que parecesse, não soou nenhum pouco clichê e meus ouvidos amaram ouvir as mesmas palavras como resposta.
Você nasceu para ser amada... Talvez eu também tivesse nascido para amar.
[...]
A maior mesa no terraço – onde faríamos as refeições – era de cinco lugares. Demos graças por isso e ficamos as cinco princesas juntinhas. Era engraçado e impossível não olhar para os lados. As meninas da nossa escola e as do outro colégio – porque fizemos um anuncio geral quando finalmente decidimos nosso destino que outro colégio particular resolveu fazer a viagem para o mesmo local e na mesma data – todas se fazendo de fitness: pratinhos com pouca comida e bem, ah, natural? Fresca?
—Ainda bem que não somos que nem elas – disse Clarisse – Eu jamais passaria reto por um hambúrguer e por um copo de coca gelada.
Nós rimos. Nossos corpos não precisavam daquela neura toda; éramos bem treinadas e sabíamos os limites entre comer somente “mato” e somente “besteiras”.
—Hum – resmunguei chamando a atenção delas e terminando de engolir; meu celular tocava – É Marcos! – sorri bastante empolgada e as meninas também; uma pena não dar para colocar no viva-voz – Oi, pai!
—Oi, minha princesa! – a emoção na voz dele era clara para mim – Está tudo certo? O que estão fazendo?
—Estamos jantando. É uma pena não poder colocá-lo no viva-voz. Aqui é muito lindo...
—Você se sente bem, não? Mais leve...
—Sim...
—Eu sabia que aconteceria – levei o copo a boca – Tem algo para me contar, Thalia?
—Algo como o que? – mas eu sentia que sabia qual era o ponto. Rachel que estava do meu lado se inclinou para ouvir e eu deixava, claro, assim ela passava aos sussurros mais ou menos o que o rei falava.
—Antes que seu vôo saísse Jackson informou que algo acontecera com Zeus... – a raiva foi clara, foi gritante – Ele te fez algo? Thalia, ele...
—Podemos falar sobre isso daqui alguns minutos? Tem muita gente por perto. – disse baixinho.
—Claro – mas eu senti que a palavra custara em sair. As meninas se olhavam em receio; tinham medo da reação de Marcos as notícias.
—Vamos mudar de assunto, sim? – tentei mais feliz – Como estão as meninas?
—Katie tem fiscalizado tudo e todos; treinou bem sua prima, meu bem – sorri grata pelo elogio – Elas estão um pouco mais receptivas as presenças masculinas como os gêmeos e não reagiram mal a minha presença na única vez que me atrevi a visitá-las.
—Isso me alegra muito.
—Perguntaram por você e por Luke.
—Logo mando os vídeos, sim?
Terminamos de comer em paz, sem maiores assuntos tensos ou algo do gênero. Voltamos todas para nossos respectivos quartos para começarmos a nos arrumar – Rachel e Clarisse foram apenas buscar as roupas e maquiagens que pretendiam usar.
Retornei a ligação para marcos e expliquei que Zeus havia surtado naquela manhã – não menti sobre nada, mas atenuei vários pontos. Ele pediu apenas que eu não pensasse no possível internato e que curtisse minha viagem tranquila que podíamos e iríamos resolver tudo quando eu retornasse.
Ligamos nossas músicas preferidas no máximo e curtimos todo o processo de se arrumar. Decidimos por combinar e contrariar a maioria das outras meninas. As outras – pelo que ouvimos no elevador e no terraço – decidiam por roupas de tecidos um pouco mais leves; nós não: cada uma com uma peça de couro preto. Rachel escolheu um colete: acompanhou-o com uma calça jeans e blusa e sapato de um mesmo tom caramelo. Annie optou pelo cropped: a saia plissada era curta e de um tom amarelo ouro lindíssimo, os sapatos eram pretos. Bianca ficou com a saia justinha e relativamente curta: usou-a com um bori mais delicado, em tom rose. Clarisse estava bem ousada, para seus padrões, lógico; escolhera o short como peça de couro: justo, bem coladinho nas suas curvas maravilhosas, e bem curtinho; usava ainda um cropped preto e um casaquinho bem curto com estampa militar, suas botas tinha saltos grossos. Eu escolhi a calça – bem justa, certinha em meu corpo e com cintura baixa – a regata era igualmente preta e um tanto curta, sem chegar a ser um cropped, mas não tinha maiores detalhes, tal qual o salto.
-Lia – chamou Clarisse – Não vai escapar. Nós não esquecemos – alertou.
—Verdade! Tem que contar como foram as coisas com Castellan – disse Bianca.
—Foram – sorri de forma pervertida – Bem picantes.
Fui detalhando algumas coisas a pedido delas, mas obviamente não tudo, enquanto fazíamos nossas respectivas maquiagens. Só posso dizer que amei o batom vermelho de Clarisse. Eu dei destaque aos meus olhos, já que o restante de mim seguia “sem cor”: abusei do lápis azul e do delineador. Bianca deu preferência a tons mais rosados, Rachel abusou do contorno e Annabeth maneirou na maquiagem: só o básico.
—Sabem de uma coisa? – disse Bianca do nado com uma cara bem séria – Nós vamos deixar todas as minas no chinelo, princesas! – causando riso em todas nós – Mas é sério! Olhem só para nós! Estamos perigosíssimas!
—Bom, não sei vocês, mas eu acho que a Clarisse quer matar alguém com essa produção – disse Rachel brincando com seus cachinhos.
—Exageradas!
—Não é por mal, Clari – sorriu Annie passando um pouquinho de gloss – Mas você nunca ligou muito para se arrumar.
—E olha só agora – disse – Você está magnífica e completamente dentro do seu estilo. Está muito mais confiante depois que nos contou que é órfã.
Todas concordaram e Clarisse sorriu realmente grata e a vontade com os elogios. A música estava alta e muito gostosa que levou um tempo para ouvirmos as batidas na porta. Bia foi abrir.
—Ouvimos a música – disse um rapaz desconhecido: bonito e sensual; ao lado e atrás mais uns seis, sete adolescentes – Podemos participar do esquenta?
—Depende – disse sedutoramente nossa Branca de Neve.
—Trouxemos bebidas – disse ele.
Trocamos um olhar.
—Então podem.
[...]
Ficamos no quarto até os últimos instantes, para sermos o centro das atenções quando finalmente descêssemos – pedido de Rachel, mas não foi nenhum sacrifício ficar lá com aqueles meninos desconhecidos; infelizmente – para eles – não rolou nada com nenhuma das cinco maravilhosas adolescentes.
O hall do hotel estava cheio e tal como se era esperado fomos o foco dos olhares da ala masculina e feminina. Chris já foi logo para o lado da namorada, sem pegação, mas apenas para deixar claro que aquela menina maravilhosa tinha namorado; Clarisse não reclamou.
Levou uma meia hora mais ou menos para todos entrarem nos ônibus e mais uns 20, 25 minutos até chegarmos à casa de show. O lugar era bonito, um ambiente misterioso e escuro, com luzes coloridas dançando.
—Não, não, não, não – Rachel falou bem rápido e impedindo os garotos de se aproximarem – Noite das meninas – e sorriu com maldade – Tentem a sorte amanhã.
Saímos às gargalhadas deixando-os de queixo caído. Todas nós precisávamos disso; um momento, uma noite, um dia, somente nosso. Precisávamos esquecer aquela ideia de um internato em outro país. Ficamos na nossa rodinha dançando e curtindo cada uma das batidas sensacionais. Preciso admitir que sou meio enjoada com DJs: ou amo ou odeio. Aquela noite eu amei.
—Annie – chamei – Vamos lá pedir um combo? – ela aceitou.
Avisamos as meninas e saímos em direção ao bar.
—Quando você percebeu? – Annie perguntou sem olhar para mim.
—Já faz um tempo.
—Thalia, eu... Nós...
—Não precisa – cortei e escolhemos juntas o combo; virei para ela – Podemos conversar no hotel e nem precisa ser hoje. Vamos curtir a noite, sim? Nós merecemos relaxar.
Quando voltamos, Clarisse e Bianca pulavam e gritavam ao redor de um “casal”: Rachel e um garoto num beijo muito sensual. Juntamo-nos àquela algazarra e depois expulsamos o garoto para curtir nossas bebidas. Era engraçado, quase nostálgico, estar apenas as meninas, sem garotos, sem preocupações ou...
Senti meu pulso ser segurado algumas músicas depois e um puxão repentino – não rude – que fez com que meu corpo virasse e colidisse com outro.
—Tem namorado? – foi a primeira coisa que disse em meu ouvido, bem alto por conta do som.
—Não – não tive que pensar, mas alguma coisa em mim se partiu quando dei a resposta; tive que completar – Olha, é complicado.
—Ele veio junto? – ele perguntava se a tal complicação estava ali naquela noite.
—Veio.
Ficamos um tempo sem falar, mas ele não me soltou. Estávamos bem próximos e eu até queria beijar alguém, mas... Mas era estranho pensar em beijar alguém que não fosse Luke... Isso era ainda mais estranho visto que eu nunca o beijara e nem ele a mim. Como eu podia desejar aqueles lábios, somente aqueles lábios, se eu não mesmo conhecia seu gosto, sua maciez?
—Posso pedir uma dança?
Afastei um pouco o meu corpo para olhá-lo. Era realmente muito lindo: moreno de corpo forte, cabelo cortado rente e uma barba por fazer. Não respondi com palavras. Fechei os olhos por meio segundo para sentir a música e comecei a me mover de forma sedutora conforme as batidas incríveis. Ainda dançando foi me virando de costas para ele, de frente para as meninas que também foram cercadas pelos amigos do gato latino.
—Vamos garotas! Só uma dança.
Era muito difícil não sensualizar, não mexer a cintura e o quadril. Mas eu não era a única com dificuldade em não perder o controle: Annie e Clari também pareciam querer se conter. Por deus! Era muito difícil não jogar o bumbum naquele ritmo magnífico o quebrar a cintura e...
—Que bundinha maravilhosa – riu ele em meu ouvido.
Por que eu estava me contendo? Era somente uma dança. Decidi me soltar um pouco mais, afinal, eram as minhas férias dos dois mundos; eu precisava curtir. Ele riu com malicia conforme eu me mexia mais sensualmente, mais naturalmente, consequentemente aproximando seu corpo do meu. No fim havia dançado bem mais do que uma música e eu havia gostado.
—Thalia – disse em seu ouvido.
—Pablo – disse ele no meu; suas mãos desceram até minha cintura exposta chegando bem próximas ao quadril – Vou procurar por você, gostosa – e sumiu no meio das luzes e fumaça.
[...]
Voltamos no último ônibus, aos risos, completamente encantadas com a noite maravilhosa que tivemos. Não teve essa de que uma ficaria sozinha, sentamos todas juntas ainda falando sobre aquela noite divertidíssima.
No hall do hotel, acenamos para os monitores e vimos vários grupos de meninas reclamando, gemendo e quase chorando por conta do salto alto: “Não vou usar mais salto” “Se eu soubesse” “Amanhã nós vamos de rasteirinha” e por ai iam...
—Ai que meninas molengas – resmungou Clarisse. Subimos aos risos. Arrastamos os colchões de Rachel e Clarisse para nosso quarto e não conseguimos fazer mais do que tirar a maquiagem e as roupas; estávamos mortas demais para procurarmos um pijama.
Era o mesmo sonho de antes. O mesmo parque. Eu seguia de mãos dadas com um Apolo de uns 14 anos mais ou menos. Minhas roupas eram adoráveis, mas não foram feitas para brincar num parquinho: o vestido era de um rosa bebe e saia tinha algumas camadas porque o tecido era fino e ligeiramente transparente, havia ainda algumas perolas presa ao vestido. Usava uma tiara em formato de laço – todo ele feito em perolas – e usava delicadas sapatilhas.
Para mim, a adolescente que assistia ao seu passado, era óbvio que Apolo me usara como desculpa para encontrar alguma garota no parque ao entardecer. E ele pouco se importava com minhas roupas.
—Lia – chamou ele se abaixando um pouco para ficar na minha altura – Você não pode sair do playground, entendeu? Fique longe de desconhecidos e...
—Você vai me deixar sozinha, Polo? – disse a menininha.
—Não, pequena. Eu vou estar ali – e apontou – Naquele banco mais afastado. Não precisa ficar assustada. Tem umas crianças ali, vê? Pode ir brincar com elas. – e foi me empurrando na direção do brinquedo.
—Você veio! – a voz de uma criança, um menino. Ao contrário da pequena Grace, toda chique e elegante, ele usava tênis, camiseta e calça de moletom; completamente confortável. A criança que fui se animou, mostrou isso no sorriso lindo que deu – Vamos brincar? – ele estendeu a mão e a mini Thalia aceitou correndo de mãos dadas para junto das outras crianças.
Levantei com um sobressalto e olhei ao redor. Estavam todas dormindo, as cortinas estavam fechadas e ainda era muito “cedo” para levantarmos. Os raios de sol transpassavam delicadamente pelas frestas da cortina deixando o quarto num ambiente mágico e calmo.
Por que aqueles sonhos haviam retornado? Por que um calafrio me subia pela espinha toda a vez que aquela criança sorria para a minha versão do passado? Por que raios meu coração disparava vendo aquelas mãos pequeninas juntas num aperto romântico e inocente? Por que eu teimava em acreditar que aquilo era meu passado real e verdadeiro?
Puxei o diário de baixo do travesseiro e escrevi tudo o que tinha para ser escrito, afinal, eu não conseguiria dormir mesmo.
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