Gimme More
61 Capítulo 51
Notas iniciais
Capítulo cinquenta e um –
Quando todas acordaram, levamos os colchões de volta para o outro quarto sem sequer nos incomodar com o fato de não estarmos vestidas. Resolvemos esse último detalhe e fomos tomar café. Infelizmente, as vadias Silena e Kelli já estavam reunidas.
Fui surpreendida por um beijo na bochecha; vi as meninas se dispersarem e Kelli inflar como um baiacu.
—Bom dia – disse a voz baixa.
—Bom dia – sorri para Luke que se adiantou a pegar meu prato e esperar as indicações para pegar apenas o que fosse do meu agrado. Assim que escolhi a mesa, ele voltou para fazer o próprio prato. Quando se sentou a minha frente, soltou:
—Eu cheguei a dizer que você estava muito linda ontem à noite?
—Não que eu me recorde – me fiz de pensativa – Acredito que não.
—Foi angustiante te ver tão linda e... – sua voz foi morrendo.
—E...? – dei corda – E, o que, Luke?
—Foi... Foi... – meus olhos estavam tão fixos nos seus quanto os dele estavam em mim; não sabia como explicar que o mundo desaparecia, sabem? Não havia mais nada além de nós dois; somente... Luke, frustrado, puxou os cabelos – Por que vocês tinham que decidir que aquela seria a noite das garotas? Podíamos ter nos divertido muito mais.
Meu riso foi suave, discreto.
—Luke... – eu meio que suspirei seu nome – Mais do que já havíamos feito ontem?
—Não me diga que seu fogo foi extinto, princesa. Não vou acreditar.
—Não, não foi extinto, mas...
—Mas...
—Mas ainda temos muitos dias para continuar com isso, não acha?
Antes que ele respondesse ou reagisse, Grover e Júniper pediram para ficar conosco e devo dizer que foi um prazer tê-los ali. Conversamos muito, principalmente sobre a festa da noite passada. Grover admitiu que não trouxera nenhuma droga e que encontrara alguém que lhe passasse maconha e que aquele momento havia sido o auge da sua noite.
—Thalia, e quem eram aqueles homens lindíssimos? – perguntou Júniper – Quando fui procurar o bar, vi vocês cinco dando um show de dança...
Percebi Luke ficar tenso. Levei o copo de suco à boca para disfarçar um sorriso.
—Você viu que lindos? – perguntei com um sorriso empolgado.
—Nossa! Eram todos muito charmosos – disse a menina; Grover completamente alheio à opinião da namorada sobre outros garotos – Honestamente, o boy com você era o melhor... Mas tinha alguma coisa nele... Não sei explicar. Algo nele me deixou nervosa, sabe? Como se tivesse uma aura ou sei lá – explicou levando um pedaço de bolo à boca.
Fiquei pensativa sobre aquilo, mas continuei. Luke continuava quieto, porém atento.
—Não prestei atenção nisso, Jú. Nós dançamos por um bom tempo, mas não rolou nada – desconversei e senti o loiro relaxar um pouquinho.
—Claro, mas Luke também tinha boa companhia, não? Sei que Kelli é bastante temperamental, mas... – Júniper falava sem filtro algum.
Os músculos de Luke ficaram mais tensos do que já estiveram assim que menina soltara as palavras. Meus olhos tinham um brilho frio, mas o sorriso ainda era caloroso; era tão previsível quanto detestável a vadia correndo atrás do que já era meu.
—Você viu a DJ? Ela era maravilhosa! – mudou de assunto muito rápido.
—Era ela? Nem reparei nas pessoas ao meu redor, Jú – ri – Eu só queria dançar!
—Nós vamos para a praia depois, não é? – perguntou Grover meio aéreo – Digo, nossa escola...
No fim, Luke pediu-me discreta e mudamente para sairmos dali. Deixamos o casal continuar a conversar e descemos para a sala de jogos. Não falamos nada até que nos sentássemos num dos divãs disponíveis; não havia muitas pessoas, o que era agradável, assim conversávamos mais tranquilos. Sentei-me e Luke puxou minhas pernas para cima, deslizava sua mão por minha coxa com tanto carinho que um arrepio me subiu pela espinha.
—Lia... – chamou baixinho, implorou baixinho; estávamos bem próximos, seu corpo inclinado para ainda mais perto de mim... Eu não tinha motivos para explicar nada a ele, mas eu queria.
—Não aconteceu nada – acariciei seus cabelos – Juro – minha voz saiu tão suave que eu me surpreendi. Luke olhou fundo em meus olhos.
—Conte-me mesmo assim – pediu.
—Eu não vi ele se aproximar. Puxou-me pelo braço e perguntou se eu tinha namorado; eu neguei – sua mão ficou mais pesada sobre minha pele, sentia-o completamente tenso. Cobri sua mão com a minha enquanto a outra ainda acariciava-lhe os cabelos – Luke, acha mesmo que eu te trocaria pelo primeiro homem lindo que me aparecesse? Não, nós não somos namorados, nem sei o que nós somos – seus olhos brilhavam tanto... Eu só não sabia porque – Depois de toda a nossa tarde juntos, Luke... – minha voz foi sumindo, desvanecendo, com a intensidade de seus olhos.
—Depois... – instigou ele enquanto se aproximava mais; eu já conseguia sentir sua respiração em meu rosto – Depois de nós dois...
—Não precisava de mais ninguém – sussurrei.
O sorriso começou com um simples puxão de lábios e foi crescendo com delicada lentidão. Foi difícil saber qual de nós dois levou sua mão até minha cintura, deslizando por meu corpo até lá.
—E você nunca mais vai precisar – sussurrou de encontro aos meus lábios...
—Finalmente! – a voz era grossa e como nos pegou de surpresa, separamo-nos no susto.
—Solace – rosnou Luke. Will e Luke se encaravam com ódio, mas o intruso não estava sozinho para nos pegar no “flagra”.
—Dona Adelaide está louca atrás de vocês! – disse Kelli me fuzilando com os olhos – Só faltam vocês para irmos à praia.
—Que honra não saírem sem nós – sorri em deboche a Kelli que mordeu a isca ao tremer em fúria: na oitava série, os professores simplesmente esqueceram aquela vadia num passeio escolar qualquer de quinta categoria, mas eu era uma víbora e jamais deixaria aquela oportunidade passar. Toquei de leve no ombro do meu loiro e senti-o se acalmar um pouco mais conforme eu me aproximava, ainda mantendo as pernas sobre as suas – Não acha, Castellan? – e abracei-o vendo Kelli e Will fecharem os punhos.
Luke sorriu para mim com maldade como se dissesse “você é terrível” ou algo do gênero. Ele apertou minhas pernas e me pegou no colo repentinamente ficando de pé. Era engraçado o fato de ser insignificantemente leve nos braços dele, que me erguia sem esforço, sem dificuldade alguma. Era incrível o modo como eu me sentia protegida, segura, em seus braços; como se não houvesse lugar nenhum em que eu quisesse estar que não fosse ali.
—Ela pode andar sozinha, Luke – rosnou Kelli.
Muito devagar e com muito cuidado – como se eu estivesse machucada ou fosse difícil me soltar – meus pés voltaram para o chão. Eu ainda sentia aquelas palavras vibrarem em meu peito, batendo junto com meu coração... Nunca mais vai precisar...
Começamos a andar em direção ao saguão até que Solace tentou me segurar.
—Eu sei onde fica o hall, Will – desdenhei – Não pedi um guia.
Segui na frente deixando os três formandos para trás. Eu precisava desesperadamente de amigos para me distrair da minha raiva por Kelli.
[...]
Grudei nas solteiras: Rachel e Bianca. Ficamos as três a manhã toda juntas e sem falar de garotos ou assuntos pesados. Não chegamos a molhar mais do que os joelhos no mar cristalino enquanto tinha uma galera que pulara de cabeça – vulgo Jackson.
Estávamos seguindo apenas nós três para almoçar quando senti uma mão envolver a minha. Virei surpresa com tamanho receio naquele toque...
—Will!
—Thalia, preciso de alguns minutos seus – então olhou para as outras duas que me esperavam – se as suas amigas não se importarem, claro.
O silêncio foi tenso por alguns segundos, até Bianca se manifestar.
—Eu faço seu pedido, então, Lia – disse dando as costas e seguindo para longe junto com Rachel andando devagar por conta da areia.
—O que...
Solace me puxou para frente, para mais próximo do seu corpo. Segurava minha cintura com força e tinha um olhar desesperado, um brilho tão... Ele me pegara de surpresa e, infelizmente, tinha um pouco de força a mais do que eu; não conseguiria revidar ou me afastar mesmo mantendo as mãos em seus ombros para ter um pouco de distância.
—Castellan não te convém, Grace. Quando vai se dar conta?
—Você bebeu? Cheirou alguma coisa ou...
—Não preciso de drogas! Você me desestabiliza muito mais do que elas.
—Achei que já tínhamos encerrado essa disputa infeliz.
—Ele não merece você, Thalia – gemeu trazendo seu rosto para próximo do meu – Nunca mereceu! Pensei que fosse se dar conta, mas... Não pensei que teria que contar e...
—Contar o que? – meus ombros ficaram tensos.
—Acha mesmo que Castellan ficou na seca ontem à noite? – ele me olhou com desdém – Kelli é uma vadia desesperada, fez bem seu serviço.
—Aonde quer chegar, Solace? – tentei ignorar aquele aperto no coração, aquela dor esquisita e inominável; o problema é que eu já esperava algo assim de Kelli, mas doeu muito ouvi-lo – Castellan ficou com a vadia e por isso eu devo correr para seus braços? É isso o que está insinuando?
—Grace, Grace, Grace... – quase tive um ataque: queria matá-lo ali mesmo por repetir tamanha ofensa para mim – Já sei que me despreza, já entendi – ele suspirou fazendo seu hálito quente colidir com meu rosto – Mas eu te amo demais para deixá-la ser enganada por ele que eu tanto detesto. Sei que não quer nada comigo e eu vou aprender a superar. Não sei quanto tempo vai levar para que eu consiga vê-la com outro cara, mas... Mas só vou conseguir aceitar se eu souber que está sendo bem tratada, que você é o mundo dele e que não existem outras mais... Thalia, eu...
—Obrigada, Solace – sussurrei sem saber exatamente pelo que estava agradecendo, sem conseguir olhar em seus olhos ou... Soltei-me de seu abraço esmagado e corri na direção do restaurante.
A última coisa que eu pensava era em comida.
[...]
Programação da tarde: festa na piscina do hotel/resort.
As meninas se empolgaram com seus modelos de biquínis e Rachel queria testar seu novo rímel à prova d’água, mas fiquei umas duas horas – mais ou menos – sozinha no quarto. Não queria descer. Não queria ver Luke, nem Kelli, nem, evidentemente, Will.
Eu sempre fui péssima para lidar com os sentimentos das pessoas – Kate Gardner é meu melhor exemplo – e toda aquela confissão de Solace, toda aquela emoção na voz e nos olhos dele me destruiu.
Era o primeiro que me amava e não era correspondido? Não, óbvio que não. Fora o único com quem eu brincara e usara para me divertir? Não, de forma nenhuma.
Então o que diabos estava me incomodando nisso tudo?
Quanto ao ex-casal... O que eu podia pensar? O que eu poderia dizer? Eu passara a minha noite com vontade de beijar e recusara um galã caribenho por desejar outra boca na minha... E qual era o prêmio? Saber que Kelli beijara-o sem cerimônias. Eu me sentia horrível, sem saber o que fazer para melhorar aquele mal-estar todo.
Naquele meio tempo recebi um telefonema de Apolo e outro de Hefesto perguntando sobre a viagem e outras besteiras do gênero. O mais novo dos irmãos pedira que eu mandasse uma foto de como eu estava naquele momento; não vi motivos para não atender: basicamente eu estava deitada na minha cama de biquíni e regata, mas propositalmente, Apolo só podia ver meu rosto e busto; claro que eu sabia que ele demoraria os olhos no tamanho dos meus seios.
Estava encerrando a ligação quando a porta do quarto foi aberta. Nem olhei quem era por falta de interesse; só podia ser uma das princesas.
—O que ainda está fazendo nesse quarto, priminha? – era a voz incrédula de Perseu. Lá estava ele, molhado, porém sem estar molhando o meu chão.
—Querido – sorri sem felicidade, sem emoções – eu tenho muitos problemas pra resolver.
—Não deixou de ser princesa mesmo na viagem? Lia, são suas férias!
—É um prazer enorme ser a princesa.
—Claro que é. Mas são suas férias dos dois mundos, então – ele abriu a porta – fazendo o favor, alteza – e se curvou, antes que eu me movesse ele deu outra “ordem” – desligue o celular.
—Percy!
—Qual é, Thalia?
—Tudo bem, tudo bem – e sai do quarto aos risos, descalça somente com a regata – A festa está boa pelo menos?
—Querida – ele deu um sorriso afetado – qualquer festa é boa quando se está molhado o suficiente.
Não comentei nada sobre o duplo sentido daquela frase.
[...]
Na verdade a festa em si não estava tudo isso. Tinha pouco álcool e o DJ não era dos melhores, mas o calor estava ordenando que todos entrassem nas piscinas e somente saíssem quando o sol fosse para o outro lado do mundo.
Tinham muitas pessoas e eu não consegui localizar nenhum conhecido, nenhum colega e muito menos algum amigo. Percy pegou dois copos de azul Lemonade e fomos andando a beira das piscinas procurando algum lugar com sombra o suficiente.
—Fiquei sabendo que descobriu nosso segredinho – ele disse.
—Algo assim.
Perseu passou a mão sobre um frasco de protetor solar largado a esmo enquanto seguíamos para a sombra de uma linda e frondosa árvore, um pouco afastada das águas povoadas. Jackson fez o favor de me ajudar a passar o bloqueador solar de quebra fazendo massagem por minhas pernas, ombros, costas – por baixo da regata...
—Não ficou surpresa?
—Não – sorria.
—Acha... Acha que estamos fazendo o certo?
—Percy – chamei virando o rosto – Você é um dos meus melhores amigos, assim como Annie. Eu só quero que sejam felizes. Se será junto ou separado não me diz respeito.
Secamos os copos e voltamos para o aglomerado de pessoas em silêncio. Alguém muito gentilmente acertou um jato de água no meu primo fazendo-o cair dentro da piscina aos risos de surpresa.
—Vem, Lia – chamava e afundava e submergia para gritar de novo.
Fiquei alguns instantes rindo, apenas, de sua péssima atuação de um afogamento e pedidos patéticos de socorro, intercalados com ordens severas e ameaças para me molhar e me divertir junto aos amigos. Então o vi se aproximar, ainda estava bem longe, mas eu não precisava olhar diretamente para reconhecer Luke; um olhar de esguelha bastou. Continuei provocando Perseu que estava alheio a aproximação de um dos nossos e rindo da cara do moreno.
—Olha só, princesa, se você não pular eu vou sair e te jogar, entendeu? – dizia.
Eu estava pensando no que eu podia deixar acontecer e no que eu podia discretamente evitar. Eu não queria ver Castellan, não depois das palavras de Will, não até eu entender o que estava me incomodando tanto.
Ele estava mais perto.
Duas opções: confrontá-lo ou fingir que nada aconteceu. E a melhor forma seria... Ele estava próximo agora e chamava meu nome. Eu ainda sorria para Perseu que começava a nadar para perto da borda – se chegasse veria e ouviria Luke e então minha fachada de desavisada/desentendida iria ruir.
Pulei. As águas me abraçaram e pelo fundo, com os olhos abertos, nadei até o meio da piscina, puxando os pelinhos das pernas de Percy embaixo d’água para provocá-lo e fazer com que viesse atrás de mim. Deu certo. Emergi retomando o fôlego e rindo da cara de Perseu, mas não me atrevi a olhar para fora da piscina; limitei meu olhar, deixei-o baixo. Que bom que Percy era tão lerdo.
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