Gimme More
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Capitulo dois –
A figura de saia curta e blusa justa se aproximava cada vez mais vindo em minha direção. Era Kelli, um demônio feminino nessa escola. Kelli é o perfeito exemplo de beleza negra: a pele da cor de cappuccino deixava o charme aos seus cachos negros hidratados, os olhos da mesma cor reluziam em superioridade. Uma vadia.
–Pensei que você fosse embora da escola. – ela disse em um tom mesquinho e falsamente alegre – ainda bem que você...
–O que quer? – fui ríspida, grossa ou os dois juntos.
–Nossa! O que aconteceu? – ela deu um sorriso malvado – Seu pai não te mimou hoje? – Eu já não estava em um estado normal de paciência e o ser ainda me fala isso? Não. Isso é pedir morte! Mas existe outra saída... Segredos são o que mais se existe nesse mundo, principalmente nessa escola e nas pessoas dentro dela. E eu tenho o custume de saber de tudo.
–Como vai sua mãe? – ela empalideceu. A mãe dela tinha sofrido um “acidente” e sua aparência agora era digna de um monstro, o pai abandonou Kelli e a mãe, mas ainda manda uma alta pensão; ninguém sabia disso a não ser eu, afinal, meu irmão era o médico que foi checar o desastre. – É bem legal brincar de falar dos pais, não? – eu disse lentamente, enrolando uma mecha de cabelo e olhando de forma quase assassina para ela.
Ela não pode reagir e eu também não. Algum garoto (retardado, só pode) corria em nossa direção, mas não conseguiu parar antes de me levar a cair no chão. Seu corpo sobre o meu me impedia de fazer qualquer movimento. Corpo forte, cabelos cor de areia, olhos azuis claros e um sorriso bem brincalhão. A raiva sumiu por alguns instantes, mas voltou quando eu percebia quem era. Castellan, Luke Castellan. O ficante da vadia de mãe deformada. Os pedidos de Kelli para ele sair de cima de mim pareciam distantes, não apenas para mim, mas para ele também. Luke enlaçou minha cintura e me puxou para mais junto de seu corpo (ouvi um rosnado de Kelli) e me levantou junto a ele.
Seus olhos pareciam presos aos meus e os meus aos dele... Eu não sabia bem o que sentir com o que tinha acontecido.
–Por que demorou tanto para levantar, amor? – Amor? Que retardada chama o ficante de amor? Segurei o riso, mas não evitei o sorriso maldoso para a cara constrangida dele pelo apelido. Ele ignorou a ficante e continuou olhando para mim, mas eu já não dava atenção a rebaixados. Vi a figura ruiva correndo até mim e abri o meu sorriso mais feliz.
–Ai amiga, você está irradiando maldade, sabia? – Rachel disse em meio ao abraço e ignorando totalmente aqueles dois vagabundos.
–Sabia. Tenho que te contar dos bafos dessa manhã...
–Ai vem coisa boa meu deus! – ela exclamou e eu ri – Então, quem vai morrer?
Kelli riu com escárnio e só então notei que ela e o Castellan ainda estavam ali.
–Ela matar alguém? – ela riu de novo enquanto apontava para mim; ah se ela soubesse o que eu faço... – A filha perfeitinha dos Grace?
–Sabe, acho que pode ser mãe dessa vadia. – eu disse de forma pensativa e depois sorri – Seria um favor vendo a condição que ela está, não acha Kelli? – Rachel franziu o cenho e Luke pareceu confuso. Ótimo, isso seria um segredinho nosso.
–Vadia – ela rosnou e eu ri.
–Acho que você é a vadia, mas me chame do que quiser: a verdade eu já conheço, mas você quer que eu conte para todos? – com o maxilar travado ela negou – Perfeito. Não vou contar nada.
Sai puxando a ruivinha de roupas coloridas para longe daqueles dois.
–Hey, o que foi aquilo lá trás? – Rachel indagou.
–Aquilo o que? – não era sobre o assunto com Kelli; quando eu dizia que manteria um segredo, ninguém era tolo a ponto de tentar descobrir. Minha palavra é lei; talvez a única lei a qual nunca quebre... A menos que eu precise muito.
–Você e o loiro gostoso. – eu olhei para ela com cara de “que porra é essa?” e minha amiga continuou – Ele não conseguia tirar os olhos de você.
–Sei lá, mas quem já veio tentar me chamar pra sair foi o Will. – sua boca fez um perfeito “O”.
–Por que tentar?
–Apolo. – disse com ódio e encerrei o assunto aí.
Demorou a encontrarmos as outras bandidas, mas logo Annabeth, Bianca e Clarisse deram as caras. O legal de ficarmos juntas era que nunca ficávamos entediadas e sabíamos nos entender. Todas tinham os pais ausentes ou super protetores ou até os dois (embora Clarisse nunca tenha mencionado os pais, mas aparentasse odiá-los). Nossa raiva por essas pessoas conhecidas como família crescia a cada ano e nossa sede de sangue também.
–Aquele vagabundo teve a coragem de me dizer que arquitetura não serve pra mim. Acreditam? – Annabeth desabafava a sombra de uma arvore. – Ele disse que eu sou delicada demais para seguir a carreira da minha mãe. Tomara que Marcos permita que eu o mate em breve.
–Que retardado! – Bianca disse enquanto tomava uma latinha de suco.
–Se seu pai soubesse tudo o que fazemos... – Clarisse deixou a frase no ar e nós sorrimos.
–Falando no nosso trabalhinho maravilhoso,– Rachel começou – quando vamos à ação? É um saco ficar parada!
–É. Eu quero roubar! – Annie deu seu sorriso meigo e eu ri.
Por motivos de segurança, principalmente de identidade, estávamos afastadas dos crimes durante as férias. No nosso último roubo a mão armada e que nos rendeu muitas verdinhas e vários diamantes havia sido o auge do pânico para a população da cidade; as rondas noturnas e diurnas da polícia haviam ficado mais rigorosas. Ainda lembro dos lábios ásperos de Ares em minha testa assim que me implorou para não sair muito de casa. Desde a onda de medo que instalamos no final do ano, passamos nossas tardes roubando sapatos e outros artigos de marcas famosas. Aquilo não trazia nem a metade da êxtase deixada pelo último roubo, mas era muito melhor do que pagar de santinha.
–Não sei de roubos, mas eu quero mesmo é ir a um racha. – vi os olhos das quatro brilharem em excitação – Quero ver os últimos modelos de motores e as melhores marcas de óleo. Precisamos de carros mais rápidos do que ano retrasado.
–Isso é verdade. Lembra que até aquele velhinho conseguiu passar de nós? – Bianca jogou a lata fora e disse com descrença.
Todas nós sabemos dirigir desde os treze anos. Sim, isso é ilegal, mas estávamos sendo preparadas para carros de luxo e velozes, bem velozes. Hoje em dia, mesmo com o carro “errado”, ninguém consegue ultrapassar uma de nós.
–Mas vamos testar os carros, né? – Clarisse perguntou com animo. Essa menina tende a ter um lado masculino maior do que o feminino, mas é isso o que eu mais admiro nela.
–Claro. O que acha de comprar um sapato sem experimentar? – nós rimos.
–Hoje? –Annabeth tirou um caderno da bolsa e começou a escrever.
–Tem que ser. – respondi – O velho não vai chegar cedo e eu consigo enrolar meus irmãos.
–Mas e a Hera?
–Ela poderia explodir que eu nem ligo.
–É sério, Lia. – Bianca nunca falava sério, por isso aquele sorrisinho brilhava – Se ela contar para o seu pai, você está perdida.
–Em quem ele vai acreditar, retardada? – Rachel gritou – Na esposa substituta ou na filha que, para o mundo, é uma santa e pura virgenzinha? – eu ri. Santa? Pura? Virgenzinha? Pode ser qualquer menina, menos Thalia Grace.
–Do jeito que as coisas estão lá em casa, ele nem vai se importar com nenhuma das duas.
Contei os ocorridos nessa manhã e senti as garotas tensas com o que essas discussões poderiam levar. Qualquer descuido nosso, uma simples discussão em família poderia dar em sérios problemas; nenhuma de nós consegue evitar a raiva e não temos o costume de ter piedade... Mas temos que manter as aparências... A questão era: até quando Zeus iria entender que não poderia mais brincar comigo?
–Você tem que se controlar. – Bianca disse naturalmente, mas um turbilhão de emoções passava por seus olhos... Principalmente o prazer da lembrança que invadia sua mente.
Bianca Di Angelo tinha perdido a mãe há três anos. Com treze anos, Bianca tinha o sangue tão frio quanto possível, mas nada dos pais e irmão descobrirem sobre o grande segredo... Até Maria Di Angelo achar a arma escondida na bolsa da filha e um caderno com as informações de dançarinas e sobre a revenda de drogas. Bia estava sozinha em casa apenas com a mãe e contou todos os segredos da Máfia para uma Maria chorosa; depois, não havia como mantê-la viva. As digitais já estavam na arma e só bastou um tiro na lateral da cabeça para o corpo de Maria Di Angelo cair sobre o assoalho. Ninguem se deu ao trabalho de se perguntar por que Maria tirou a própria vida, já que qualquer socialite tinha muitos motivos exóticos e quase incompreensíveis... Bianca matou a mãe e tudo não passou de um simples suicídio para a polícia. Nada além de um caderno em cinzas poderia levar a culpa a uma jovenzinha.
–Farei o possível.
–Vamos combinar as roupas, ok? – Annie mudou de assunto. – Shorts ou vestidos sexys?
–Annie, da pra ficar sexy de short, sabia? – Clarisse disse em tom de riso e a loira fez biquinho.
–Ai, o que eu quero dizer é: vamos com looks mais luxuosos ou mais confortáveis; afinal nós vamos correr?
–Que foi, boneca? – ela emburrou com o apelido do pai; eu fazia a mesma coisa quando era comigo – Não consegue dirigir de salto?
–Esta duvidando das minhas habilidades, Lia?
–Talvez.
Decidimos nossas roupas por pura falta do que fazer. Estávamos animadas com a possibilidade de corrermos mais uma vez, sentindo a adrenalina pulsando e percorrendo as veias. Ainda tínhamos muitos assuntos para por em dia como as viagens chatíssimas que fizemos, mas o sinal tocou indicando o início das aulas.
–Vamos, ladys, temos aula agora. – Annie puxou cada uma de nós para aquele inferno.
[...]
Todos sabem como funciona o primeiro dia de aula: o auditório enche enquanto o diretor faz o seu discurso de anos e anos atrás; os professores pegam leve com lições e revisões; novos alunos e os mesmos babacas se apresentam. Eram poucas as aulas em que uma de nós cinco ficávamos juntas quem dirá todas nós. Apesar de ser algo chato, prestei atenção a cada detalhe das aulas até as atitudes dos meus colegas de classe. Uma característica agradável e muito útil era não deixar nenhuma informação passar em branco... Mas não houve nada interessante. Nada mesmo.
O sinal indicando o intervalo era o som mais bem vindo para qualquer aluno e não existe surpresa alguma em ver todos correndo para o refeitório. Demorei um pouco a juntar minhas coisas e não pude sair tão cedo quanto gostaria.
–Senhorita Grace, pode esperar alguns instantes? – travei o maxilar ao ouvir aquele sobrenome, mas, como estava de costas, ele não viu. Virei-me sorridente e agradável para o coroa.
–Em que posso ajudá-lo, senhor? – o sorriso calmo que ele esboçou deixava claro que minha atuação foi impecável.
–Durante o decorrer dos anos em que dei aula para você, percebi o potencial e a sede de conhecimento que você e suas amigas têm. No 3° ano temos alguns alunos com dificuldades, digamos que eles se esqueceram dos conteúdos passados...
–Quer que eu os ajude a lembrar? – estava um pouco confusa; essa atividade não poderia tomar mais tempo da minha vida, mas eu raramente recusava algum trabalho extra.
–Nas minhas aulas de inglês avançado um aluno aparecerá. Quero que vocês façam duplas, quero que discutam suas opiniões.
–Minhas amigas...
–Nas aulas delas, não sei em qual, elas receberam um aluno ou aluna para fazerem dupla, assim como você.
–Isso não terá que passar dos horários da escola, não é? – dei um sorriso de desculpas – Não teria muito tempo sobrando e não gostaria de deixar o trabalho inacabado...
–Ah, claro que não. O limite de tempo da sua ajuda seria o tempo da aula, mas se pudesse arrumar um tempo, seria maravilhoso para o seu "aluno".
–Por mim tudo bem. Começaremos quando?
–Na próxima aula nossa. Agora vou deixá-la voltar para o refeitório. Se precisar de mais alguns minutos...
Eu sorri docemente.
–Conheço o esquema, senhor. Tenha um bom dia. – acenei e sai da sala pelos corredores vazios. Como de costume, meus passos leves não emitiam som algum; isso permitia espiar lugares e pessoas variadas. As janelas amplas do corredor me davam uma visão privilegiada do mundo fora da escola... Um homem de aparência comum passava pelo gramado a uma distancia considerável da janela. Os olhos castanhos fixos em mim mostravam sua tranquilidade... Era um homem da Máfia; assim como meu pai e irmãos, eu era protegida do lado de fora de casa pela criminalidade. A diferença entre minha família e a Máfia? Eu era tachada de ingênua pelos integrantes daquela casa; a proteção que aquele homem oferecia era ao meu disfarce de menininha e aos retardados que ousassem me incomodar.
Acenei levemente com a cabeça e ele fez o mesmo. Continuei meu caminho me sentindo mais calma comigo mesma. A Máfia nunca estaria longe de mim e isso significava que eu sempre teria um refugio, um mundo novo para recorrer e pedir socorro.
[...]
Como em qualquer outra escola, onde e com quem você se senta define quem você é. Havia as mesas dos nerds, as dos atletas, as patricinhas (ninguém alem de mim e minhas amigas as chamavam do verdadeiro nome; vadias), os drogados, os normais e a nossa mesa. Basicamente na nossa mesa só pessoas legais.
Caminhei calmamente por aquela baderna de mesas separadas por pessoas extremamente diferentes. A mesa dos atletas estava cheia de meninos lindos e de bom porte físico. Will estava lá exibindo um sorriso contagiante... E a sua frente estava Luke e a vadia Kelli. Os olhares dos meninos vieram para mim quando viram que eu me aproximava deles. Solace tinha os olhos fixos no meu corpo.
–Lia...
–Desde quando eu te dei permissão de me chamar assim? – minha voz não foi maldosa, mas ele ficou constrangido. Eu sorri. Enlacei seu pescoço e ombros e, assim, aproximei seu ouvido dos meus lábios – Te vejo depois da aula. – sussurrei não um pedido nem um desejo. Era uma ordem. Seu corpo estremeceu e eu me afastei da sua mesa, indo em direção ao balcão da cantina. Pedi um lanche natural e sobre a bancada de mármore veio uma bandeja com o sanduíche, uma maçã e um suco. Um braço enlaçou minha cintura e levantou a bandeja; Will me conduziu, carregando meu lanche, até meus amigos; depositou um beijo em minha bochecha e o lanche na mesa, assim voltou para seu bando.
–Uau! – Bianca exclamou assim que o loiro sumiu. Mordisquei um pedaço do lanche já que estava de pé apenas pelo cappuccino de hoje cedo. – Me diz, vocês estão ficando? – tomei um gole do suco antes de responder.
–Ainda não. – sorri para as meninas – Mas eu tinha que arranjar alguma coisa para fazer durante a tarde.
Olhei para as outras mesas: nos drogados, Grover acendia um baseado as escondidas dos fiscais da cantina; nas vadias, Silena retocava sua maquiagem; nos nerds, Malcon tinha o rosto enviado em um livro romano; Nico estava sempre só; e nos atletas, Castellan mantinha um olhar fixo em mim tão penetrante e indecifrável quanto o meu olhar sobre ele.
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