Gimme More
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Capitulo três –
Os jardins da frente e o estacionamento enchiam à medida que o sinal tocava. Era a saída. O fim do primeiro dia de aula. Aquele sinal nada mais era do que um aviso de que a tortura seguiria no dia seguinte; era uma benção pelo dia de hoje e uma maldição pela manhã seguinte. Um intrigante paradoxo.
Escorei meu corpo em uma árvore qualquer e observei os jovens que passavam desfilando com seus narizes empinados achando que podiam fazer de tudo sem receber as devidas consequências. Sorri a contra gosto. Aquele era um grande mal da adolescência; se achar invencível, intocado, perfeito... Observei o jeito mesquinho como o que Kelli e suas amigas andavam, o modo como o irmão mais novo de Bianca, Nico, seguia andando pela sombra querendo se fundir as paredes e os patéticos atletas agindo como macacos. Mas eles não me interessavam; não por enquanto. Meu interesse era o garoto loiro se aproximando sorridente e radiante; sua mochila foi parar no chão.
–Não achei que fosse me esperar. — Will chegou mais perto, mas não ousou me tocar.
–E eu não ia. — minha voz chegou perto de ser cortante, mas meu sorriso brincalhão destruía qualquer traço, mesmo mínimo, de rispidez. — Mas decidi que hoje era o seu dia de sorte. — colei meus lábios nos seus sem pedir permissão e sem lhe dar tempo para uma resposta qualquer. Um beijo ardente em luxuria que foi rudemente interrompido pela falta de ar. Apoiei-me em seu ombro e tive a visão privilegiada do que sobrou dos estudantes da escola enquanto Will via a árvore as minhas costas. Luke passava por nós a uma distância "segura"; os punhos fechados e o olhar raivoso dirigido a mim e ao menino que me enlaçava à cintura. Não sei o que deu em mim; eu estava completamente satisfeita com aquele beijo e não precisava de mais nada, mas ver Luke me despertou o desejo de continuar o que comecei: mordisquei a orelha de Will enquanto puxava seus cabelos de leve e o ouvia gemer. Meu olhar focou no dono dos cabelos cor de areia, em como seus punhos já cerrados pareceram se fechar com ainda mais força.
Solace começou a beijar meu pescoço e a murmurar coisas sem sentido para mim; fechei os olhos e aproveitei o começo do calor que invadia meu corpo. Quando voltei a abri-los, Luke não estava mais lá.
O calor e o desejo de continuar sumiram.
–Espero que tenha se divertido. — comentei enquanto me afastava em passos calmos de um Will surpreso. Queria ir para casa mesmo não querendo encarar as pessoas com quem eu convivia. Não liguei para Apolo ou para ninguém, decidi seguir a pé mesmo. Era uma caminhada longa, mas agradável. Minutos preciosos em que eu não era ninguém além de uma Thalia qualquer, só alguém andando pelas mesmas calçadas que outros. Não consegui caminhar mais do que dois quarteirões quando uma moto preta parou ao meu lado. Senti-me tentada a parar e encarar o motorista... Era Luke. Ele tirou o capacete e bagunçou os fios cor de areia.
–Precisa de uma carona? – sua voz soou mais calma do que seu humor aparentava estar minutos atrás.
–Não, mas obrigada. – voltei a caminhar pelas calçadas cinzentas apreciando o leve e quase inexistente vento. A moto me seguia na mesma velocidade despreocupada.
–Você vai caminhar até sua casa? Uma menina mimada não se cansa de andar tanto? — todo o encanto que ele começava a exercer sobre mim desapareceu quando me chamou de mimada; parei de andar.
–O que quer? — meu tom foi ríspido — Você com certeza não prestava atenção em mim antes de hoje cedo. Por que se importa agora?
–Vim oferecer uma carona...
–Eu nem te conheço! Nem você a mim!- voltei a andar e ignorei o fato de ele ainda me seguir. Virei a uma esquina.
–Eu quero conhecê-la.
–Por que eu? Por que agora? — voltei a parar de andar.
–Não sei — ele voltou a bagunçar os cabelos — É só uma vontade. — um silencio constrangedor se instalou sobre nós — Vamos! É só uma carona. — ele estendeu o capacete para mim. Eu não queria pegá-lo, queria seguir andando devagar e pensando no que aconteceu hoje quando Luke decidiu cair sobre mim — Quero me desculpar por hoje mais cedo, Grace — era inegável que tinha acontecido alguma coisa entre nós dois, uma conexão talvez. Mas isso não queria dizer que fosse uma conexão boa. Mas, ao mesmo tempo, eu queria pegar aquele capacete e seguir para minha casa agarrada em sua cintura...
Peguei o capacete e o menino sorriu.
[...]
O caminho foi tranquilo e rápido; demoramos vinte minutos no máximo. Vinte minutos agarrada ao corpo forte do rapaz dois anos mais velho que eu. Se qualquer homem na minha casa me visse, eu estaria encrencada. Paramos nos portões em frente aos seguranças e ao porteiro.
–Você mora lá dentro? — era óbvia a surpresa e admiração dele.
–Moro, mas não por opção — comuniquei os seguranças e o porteiro que nos deixasse entrar; os portões foram abertos e Luke voltou a dirigir. Passamos pelos canteiros floridos e por uma fonte que servia como rotatória. Ele parou em frente às portas duplas de madeira maciça — Obrigada pela carona — devolvi o capacete — Eu te convidaria para entrar como manda a boa educação, mas meus irmãos estão em casa e isso resultaria em morte ou tortura pra você e a um longo interrogatório a mim — ele riu achando que eu estava brincado, mas eu não disse mais nada.
–Eu pensei que me odiasse — ele comentou de repente sem qualquer expressão.
–Odeio pessoas como a Kelli: gente fútil, mesquinha, mas você não é assim — esclareci — Não sei o que sinto por você, talvez seja nada, só um vazio. — ele assentiu como se sentisse e pensasse o mesmo.
–Nos vemos na escola, acho.
–Até lá — me virei para as portas e ouvi o motor voltar a ser ligado. Atravessei o portal e deixei que a madeira se fechasse as minhas costas. Soltei um suspiro em parte de alívio e em parte frustração. Eu não sentia só um vazio com aquele menino, sentia? Eu realmente não sabia nada sobre Luke Castellan o que explica o vazio, mas não o que senti enquanto brincava com Will ou quando caímos na grama. Mas algo a se levar em conta é o quanto eu amo brincar com as pessoas.
Não havia uma escapatória. Teria que pesquisar mais sobre ele.
Atravessei corredores impecáveis e passei por inúmeras empregadas; sorri para cada uma delas que me retribuíram o sorriso com afeição. Elas talvez fossem as únicas a quem eu mantinha algum tipo de afeto naquela casa. Subi as escadas que me levariam até os inúmeros quartos e entrei no meu. Ignorei o chamado insistente da minha cama e fui para o meu closet enorme. Bolsas, sapatos, maquiagens e roupas de marca guardadas de forma impecavelmente arrumadas. Livrei-me das roupas e acessórios que usava e vesti um vestido curto e simples; estava calor e eu estava em casa, não precisava me preocupar tanto com a aparência... Só então me joguei no colchão macio e fofinho da minha cama. Meus olhos foram se fechando lentamente e eu estava entrando em um estado entorpecente, o começo de um sono...
–THALIA, VENHA ALMOÇAR — a voz era de alguma empregada, mas me irritou por me tirar daquela sensação de sossego. Levantei devagar e sai do quarto ainda mais lentamente.
–Olhe aqui sua fedelha mimada — a voz vinha de uma porta aberta a minha frente. Hera saiu de lá com um visível mau humor; como se fosse diferente em qualquer outro dia — Você não tem o direito de me deixar mal na frente do seu pai! — ela rosnou e tentou segurar meu pulso, dei um passo para trás, mas meu rosto ainda era a máscara do tédio.
–Se você quer ser falsa, seja — disse de volta em uma cordialidade fria — Mas eu não vou mentir sobre meus sentimentos para o meu pai. Cansei de fingir sensações para agradar alguém que nunca está presente — passei por ela e voltei meu caminho para a sala das refeições — Você deveria fazer o mesmo que eu, querida vaca. Ou será que você acredita ainda que ele vai estar presente na sua cama depois de todos esses anos de promessas tão vazias? — comentei de costas sem ver a explosão de raiva que corria naquelas veias. Esperava que ela fosse esperta e compreendesse a indireta.
[...]
O resto da minha tarde não passou de um borrão escuro. Dormi até as seis da tarde para poder ficar acordada o máximo possível durante a noite. Meus sonhos foram perturbados por um diário e a primeira vez com que falei com a Máfia; eu amava a adrenalina e emoção que me vinham sempre que pensava naquele ano; o primeiro ano da minha liberdade.
Fui até minha janela e observei o jardim "secreto" da minha mãe: era o lugar mais simples da casa e ficava nos fundos a frente de um galpão, onde, na verdade, era um pequeno estúdio de artes cênicas. Zeus tinha nos proibido de entrar lá desde que me lembro. Algo que meu velho não admitia era o envolvimento dos filhos com qualquer tipo artes. Eu me sentia mal por essas regras, mas era Apolo o mais afetado: ele queria estudar música e poesia, mas não pode por respeito ao pai... Respeito esse que eu não tinha.
Ainda descalça sai do meu quarto para ir até o galpão. A casa grande só fazia separar cada membro da família, o que facilitava minhas idas às escondidas até o antigo refúgio da minha mãe e agora meu. Apenas Teresa, minha empregada favorita que cuidava de mim desde pequena, conhecia minhas idas até o local proibido. O sol já começava a dar sinais de que sumiria e o céu atingia lindos tons coloridos quando cheguei aos fundos. O galpão feio por fora era uma beleza por dentro: o piso de madeira, as paredes revestidas por espelhos do chão ao teto, barras de ferro próximas ao espelho como as salas tradicionais de ballet, um piano preto ao fundo... Aquele lugar era maravilhoso... Principalmente para esconder segredos que talvez eu venha a revelar depois.
[...]
–Teresa, faz um lanche pra mim? — cheguei à cozinha onde ela estava hoje.
–Dormiu a tarde toda, não foi anjo? — ela tinha os cabelos começando a ficar grisalhos, mas ainda existiam muitos fios loiros escuros, os olhos cor de amêndoas eram amorosos e sua voz sempre suave e doce comigo.
Sorri; eu amava quando ela me chamava de nomes carinhosos.
–Foi — ela começou a preparar algo para mim, sorri para as outras moças e senhoras na cozinha; por alguma razão, eram poucos os funcionários "homens" da casa, sem contar com os seguranças — Eu vou sair à noite e precisava de um sono extra.
–Seus irmãos concordaram com isso? — sua voz não perdeu o tom amável, mesmo soando levemente temerosa.
–Nem sabem, mas não importa. Talvez eu volte tarde ou durma na casa de uma das meninas — ela sorriu para mim; Teresa gostava das minhas amigas como gostava de mim.
–Existe mesmo a necessidade de dormir fora, pequena? Seu pai vai ficar ainda mais chateado.
Raiva me correu pelo sangue e algumas funcionárias notaram minha reação. Como era que Zeus tinha a cara de pau de ficar chateado com a verdade? Ele vivia dizendo para não guardarmos segredos e sermos sempre sinceros, mas ele mente diariamente... E seus segredos eu conheço... Tentei não deixar a raiva transparecer na minha voz; elas não tinham culpa alguma do pai que eu tinha.
–Não quero esbarrar com ele, mesmo que seja por alguns segundos – meu tom foi o suficiente para encerrar o assunto ali.
Depois de sair da cozinha, entrei no meu closet para separar uma roupa para a ida ao racha. Eu me sentia animada com a idéia de ver carros e motos velozes, os motores envenenados e as novidades do mercado. Analisei as melhores combinações de jóias e sapatos, roupas que me deixassem confortável para todo o tipo de ocasião. Separei meu look e tomei um banho relaxante de banheira antes de calçar os perfeitos Louboutins, vestir o top cropped preto simples e o short jeans escuros, um colete sem mangas de couro vermelho, um Rolex e anéis de prata. Deixei meus fios longos soltos e peguei minha bolsa Chanel com minha arma favorita dentro.
Sai do quarto sabendo que exalava animação e, sem qualquer preocução, passei pela mansão sem encontrar nenhuma alma viva. Sair seria mais fácil do que pensei.
–Onde pensa que vai vestida desse jeito? — ótimo! Eu falei cedo demais. Era Dionísio atrás de mim; sua voz era naturalmente grossa e quase sempre ríspida, nada anormal.
–Vou sair — disse olhando para a janela esperando Bianca chegar com o carro.
–Não vai não.
–Vou sim — insisti tão firme quanto ele — Você pode até ser mais velho que eu, mas não é meu pai. Aceite querido: você não exerce poder algum sobre mim. Volte para seu jarro de tinto.
Ele fechou a cara e me analisou profundamente. Encarei da mesma forma o homem baixo de cabelos e olhos castanhos escuros.
–Papai não vai gostar de saber que saiu sozinha.
–Ele não precisa saber.
–Se sair, vou ter que contar a ele... — nunca me contradiga; conheço muitos segredos e posso usá-los contar qualquer um. Como agora:
–Conte e eu conto que você arrumou uma namorada há cinco anos e não contou ou a apresentou a nenhum de nós. Zeus ficará chatiadíssimo por não conhecer essa garota maravilhosamente capaz de te aturar e você — ri pelo nariz — Você estará encrencado por mentir durante longos cinco anos.
Dionísio me olhou como se não me reconhecesse e no fundo ele se perguntava como eu sabia disso; senti-me maldosa. Meu irmão tinha arrumado uma namorada há alguns anos atrás, mas mantêm segredo dessa relação até hoje. Eu não sabia quem era a menina apenas por não querer saber e por respeito à privacidade do meu mano (ele era o que menos pegava no meu pé em relação a garotos), mas era ótimo ter sempre uma carta na manga.
–Como... Como você...?
–Não importa. Se você contar meu segredo, eu conto o seu.
–Você sabe que vai ficar de castigo se eu contar...
–Mas é você que vai se constranger trazendo a namorada aqui. E nós dois sabemos que Apolo adora roubar as namoradas dos outros, não é? — ouvi a buzina na frente de casa; Bianca tinha chegado.
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