Ghost

1 Sobre pão de mel e contos de terror


Notas iniciais
HELL YEAH

O interior da loja estava bem aquecido e cheirava a bolo recém-feito. Já era mais do que o suficiente para que Jimmy desejasse permanecer ali até o fim das férias de inverno. Se não fosse pela cara de tédio da atendente e sua visível recusa em se tornar prestativa, ele certamente teria adorado o lugar. Mas como a realidade era aquela, sua função era ajudar Ellen a achar os doces que queria.

— O Frost podia ser menos fresco. – a garota reclamava, procurando no fundo de uma prateleira. – Ai a gente levaria qualquer coisa pra ele e estaria tudo bem! Mas não...

Apesar das reclamações, seu tom de voz era de felicidade. Afinal, havia sido idéia dela parar naquela loja para levar doces para o pessoal. Ela não estava realmente irritada, Jimmy sabia disso. Mas ao que parecia, nenhum dos doces que os amigos haviam pedido constavam no estoque daquela loja, deixando ambos decepcionados.

— Podemos ir em outra loja. – Ellen sugeriu, mordendo o lábio.

— Já estamos atrasados chuchu, Milord vai pensar que aconteceu alguma coisa. – Jimmy suspirou, segurando o braço dela entre o seu e levando-a para fora da loja. – Por que não vamos para o Acampamento e fazemos alguns pães de mel? São pra poucas pessoas mesmo.

O frio bateu contra eles como uma porta se fechando. Tinha nevado mais cedo e agora tudo que podiam ver era uma imensidão branca até o horizonte. O Acampamento estava escondido em algum lugar ali, sem neve nenhuma no chão graças às barreiras mágicas, mas até chegar lá seria uma boa caminhada.

No inverno, o lugar abrigava cerca de quarenta campistas que não queriam, ou não podiam ir, para as suas casas durante o período letivo. E outros poucos como Ellen e Jimmy, que gostavam de passar o feriado de natal e ano-novo com os amigos, eram esperados naquele dia, tendo comunicado previamente a Milord, o líder do Acampamento. Além disso, sendo ambos filhos de Zeus, era perigoso para eles ficarem fora das barreiras protetoras do lugar por muito tempo.

—Tudo bem. – Ellen concordou, começando a caminhar com dificuldade por causa da neve. – Mas você vai lavar as vasilhas essa noite.

Jimmy riu e começou a andar com ela. Não era um caminho longo, ou pelo menos não devia ser, mas as montanhas de neve formadas atrapalhavam muito a caminhada. Várias vezes os semideuses tiveram que impedir um ao outro de cair em buracos escondidos e de tropeçar em galhos expostos. Poderiam muito bem estar perdidos.

Um barulho alto assustou Ellen, que acabou trombando com Jimmy. O rapaz ficou absolutamente imóvel, olhando para os lados. Arrepios em sua nuca indicavam que alguém, ou algo os observava. Ellen puxou da bainha uma adaga escondida pela blusa e Jimmy deixou a mochila escorregar discretamente pelos ombros, a fim de poder pegar a espada ali dentro com facilidade.

— Vamos continuar andando. – eles disseram ao mesmo tempo.

A sensação de estarem sendo observados não passou, deixando Ellen inquieta. Pareciam que estavam andando a horas, mas na verdade só trinta minutos tinham se passado desde que saíram da loja de doces. O Acampamento parecia mais perto e mais distante a cada passo. Jimmy já ia perguntar se não era melhor arriscarem a usar o celular quando outro estrondo os assustou, seguido por um clarão de luz amarela. O rapaz tirou a espada rapidamente da mochila e Ellen já corria para o local, com a adaga em punho.

O susto que Yuri levou foi tão grande que a próxima bola de fogo que fazia desviou do seu curso e incendiou uma árvore próxima. Ellen estava pronta para atirar a adaga quando reparou que era o garoto que estava provocando os ruídos e toda aquela luz. Parou tão bruscamente que Jimmy, vindo logo atrás, não teve tempo de desviar e trombou com ela, derrubando-a no chão.

— Oh! Desculpe. – ele lamentou, ajudando-a a se levantar. – Yuri, que idéia doida é essa de ficar jogando fogo por ai?

— Desculpa, desculpa. – o filho de Apolo ficou vermelho. – Por favor, não falem para a Manu.

Os poderes de Yuri eram realmente perigosos. Ele não criava exatamente fogo, mas sim mini-sois em suas mãos que provocavam uma pequena explosão no lugar em que eram jogados. Poderiam se tornar um grande problema se não usados com sabedoria, o que certamente não era o caso. Mas Ellen e Jimmy se entreolharam e deram de ombros.

— Tudo bem. – Ellen sorriu. – Você pelo menos sabe onde está indo?

— Bem... Quando eu invoco um desses sois, sabe? Eles sempre querem ir para o oeste, que é onde eles deveriam se pôr. Mas depois de um tempo eles ficam quentes demais na minha mão e eu tenho que soltar eles e acontece... Bem, o que vocês acabaram de ver. É assim que eu tenho me guiado desde o ponto de ônibus.

— Ah, faz sentido. – Ellen aprovou. — Acho que não faz mal continuar não é?

— Não precisa. Eu acabei de ver o Velocino entre essas árvores ai na frente, quando o ultimo sol explodiu. Estamos bem perto.

Passou pela cabeça de Ellen que se Yuri não tivesse feito aquilo, mesmo que imprudentemente, ela e Jimmy provavelmente estariam indo para a direção errada. Mesmo assim, ela não disse nada, já havia prometido ao garoto que não contaria a líder do chalé dele do ocorrido. Os três continuaram andando para onde ele alegou ver o velocino, com menos dificuldade ao andar na neve semi derretida. Finalmente viram o grande pinheiro de Thalia se erguendo imponente contra as outras árvores, o velocino pendurado em um galho brilhando com a luz do sol que iluminava apenas o acampamento e o pequeno dragão montando guarda ao redor da árvore. Estavam enfim em casa.

Yuri desceu a colina correndo, satisfeito por não ter mais neve e sim grama sobre seus pés. Já estavam na metade da tarde e mesmo assim vários campistas de inverno faziam suas atividades como se nada demais estivesse acontecendo. O controle climático do acampamento funcionava perfeitamente.

Ellen e Jimmy foram mais devagar, olhando desconfiados para trás. Ellen foi a primeira a se pronunciar:

— Não acho que aquilo que estava nos seguindo tenha sido só o Yuri.

— Eu também não. – Jimmy suspirou. – Mas agora estamos seguros, não é?

— Claro! Vem, temos pães de mel para fazer! – a filha de Zeus começou a andar mais rápido, com um sorriso nos lábios.

Mal eles sabiam que aquela afirmação nunca havia sido tão falsa.

*****

— Queremos neve! Queremos neve!

Edu passou pelo pequeno aglomerado de campistas com certa dificuldade, pois eles tampavam uma boa parte da entrada da Casa Grande. A porta se abriu com facilidade quando ele girou a maçaneta, o que tornava estranho o fato dos supostos manifestantes não terem entrado ainda.

Milord estava sentado na poltrona com os pés para cima, obviamente se importando tanto com o que acontecia lá fora quanto com quem iria ser escolhido para o próximo Big Brother. Frost estava de pé em frente a ele, com um sorriso malicioso nos lábios.

— O que ta pegando? – Edu perguntou, sentando-se em outra poltrona mais próxima da janela e retirando as partes incomodas da armadura que usava.

— Parece que as crias de Hermes criaram uma rebelião em massa. – Milord bocejou.

—Ei, já falamos sobre isso, não tem nenhum filho de Hermes ali. – Frost riu.

— Certo, corrigindo, parece que os filhos de Hermes aliciaram outros campistas para uma rebelião em massa, mas não temos provas que isso ocorreu.

— Eles querem neve? Tipo, que você desligue o controle climático do acampamento?

— Simples assim, não é? – Milord revirou os olhos. – O Frost veio aqui inocentemente me dizer que era isso que os campistas estavam pedindo. E ele, obviamente, não tem nada a ver com isso, acredita?!

— Claro que não! – Frost deu uma risada nada inocente. – Só vim dizer o que eles querem.

Edu se levantou, já sem boa parte da armadura e espiou para fora da janela. Mais campistas curiosos haviam se juntado aos primeiros, desejando que a neve caísse livremente. Mas Milord tinha razão, nenhum filho de Hermes estava no meio da balburdia, o que certamente era estranho e algo para se desconfiar.

— Se nevar não vai ter como fazer os Jogos de Inverno. – Edu contestou, franzindo o cenho.

— Ah, qual é, podemos fazer novos jogos de inverno que possam ser jogados com neve!

Ambos olharam para Milord. O homem massageava as temporãs, desejando do fundo do coração estar deitado em uma cadeira de praia com um bom livro. Mas sendo diretor do Acampamento, não podia simplesmente se mandar...

... Ou talvez ...

— Certo. Convoquem os líderes dos chalés. Reunião de Emergência. – disse, se levantando. – Vamos decidir isso logo. Se algum líder não estiver no Acampamento no momento, chame o conselheiro. Quero vocês no anfiteatro em meia hora.

Edu e Frost se entreolharam, um tanto quanto confusos com a mudança de atitude de Milord, mas acataram rapidamente, deixando a Casa Grande antes que Milord mudasse de idéia. Os campistas se calaram quando Frost se aproximou, inclinando-se a espera de noticias. Não importava o que dissesse, era obvio que estava por trás daquilo. O sorrisinho de víbora em seus lábios era perceptível.

O sol deixava seus últimos raios tocarem o solo do Acampamento quando os líderes se reuniram, cansados após um longo dia de treino e tarefas com os campistas de inverno. Felizmente mais tarde todos poderiam comer um delicioso pão de mel enquanto ouviam historias na fogueira e no dia seguinte estariam de folga para as comemorações de natal.

Na mesa redonda colocada estrategicamente no anfiteatro, eles se questionavam por que haviam sido chamados. Aron, de Hefesto; Frost, de Hermes; Michel, de Zeus; Pete, o conselheiro de Afrodite; Manu de Apolo; Wlad de Poseidon; Edu de Hades e por fim Trindade representando todos os Deuses Menores. No momento ninguém do Acampamento poderia representar Dioniso, Atena e Ares, já que tanto os líderes como os conselheiros desses chalés estavam fora com as famílias ou passando as férias de natal em outro lugar. Como sempre, representando Roma, Felps assoviava baixinho com os pés em cima da mesa, sendo o primeiro a perguntar:

— E então, o que viemos fazer aqui afinal?

— Exigir o impeachment do Milord, com certeza. – Frost disse, parecendo completamente desinteressado.

— Talvez suas preces sejam atendidas mais cedo do que espera. – O próprio anunciou, entrando na sala. Michel chutou uma das cadeiras para que ele se sentasse, mas Milord ignorou, sorrindo daquele jeito que todos sabiam que aquela reunião não acabaria de um jeito bom. – Eu vou tirar umas férias.

Todos arregalaram os olhos, surpresos. Edu franziu o cenho e Wlad descruzou os braços, confuso. Pete quase caiu da cadeira, chocado com a noticia.

— Hm... Você tá falando sério? Tipo, você não tira umas férias a milhares e milhares de anos. Pra que começar agora? – Aron perguntou.

— Por que eu acho que vocês são bem capazes de cuidar de uns trinta campistas enquanto eu estou fora. Afinal, se não fossem, o que estariam fazendo na liderança? – ele retrucou, com um aceno de descaso. – Eu só preciso saber se vocês querem ou não desligar a magia climática no Acampamento, por que só eu posso fazer isso e uma vez dessa forma, não poderá ser mudada enquanto eu não voltar.

— Quem é a favor, levante a mão. – Frost disse, já com um ar de vitoria.

A mão do filho de Hermes foi a primeira a se levantar, sendo seguida pela de Trindade e Pete. Felps foi logo depois e Wlad também, após alguns segundos refletindo sobre. Manu ficou com os braços firmemente cruzados, assim como Edu.

— Santa democracia. – Milord suspirou. – Tudo bem Frost, você venceu. Quando eu voltar espero que esteja tudo exatamente como eu deixei. Conto com vocês.

Ele olhou bem fundo nos olhos de cada um, de forma a deixar claro o recado. Uma piscada depois e o líder não estava mais ali, desaparecera antes mesmo que eles pudessem dizer mais alguma coisa.

— Então... Somos nós por conta de nós mesmos? Que maravilha! – Frost deu seu famoso sorriso de víbora.

— Não pense que isso significa que você pode fazer o que quiser, cara. – Wlad alertou, mas tinha um leve sorriso nos lábios também.

— O Wlad tem razão. Então, alguém avisa aos idiotas lá fora que não precisam mais ficar gritando igual retardados? – Edu disse, se levantando e fechando o assunto.

*****

— Noite na fogueira, com neve e pão de mel, o que mais eu poderia querer? – Sara perguntou, sorrindo de orelha a orelha.

Havia cerca de quarenta semideuses ao redor da fogueira, assistindo enquanto os primeiros flocos começavam a cair. Alguém de Dioniso (ou de Hermes, nunca se sabe) havia conseguido algumas garrafas de vinho, que agora passavam pelas mãos gélidas na fogueira, sendo degustadas com calma, sem que ninguém ficasse nervoso esperando ser surpreendido por Milord.

— Eu sei o que pode melhorar a noite! – Foca anunciou.

Todas as cabeças se voltaram para ela, alguns deles já sonolentos por causa da bebida. A fogueira iluminava o rosto da filha de Hermes diabolicamente, mas todos já conheciam aquele olhar de quem estava aprontando alguma.

— Muito sexo? – GG sugeriu.

— Só se forem as garotas na minha cama. – Mai deu uma risada.

— Ei! Deixa a Foca falar! – Frost interrompeu, jogando a garrafa de vinho vazia na garota.

— Obrigada, eu acho. – Foca revirou os olhos. – Eu vou contar uma historia de terror.

Alguns campistas vaiaram, mas a garota os ignorou completamente, sentando-se de pernas cruzadas no meio da roda e pigarreando para chamar a atenção dos mais desatentos. Até mesmo dos campistas que estavam... “Ocupados” , a filha de Hermes pediu para que prestassem atenção tão insistentemente que todo mundo calou a boca só para que ela parasse de ser chata.

— A historia começa em um dia como esse, em uma loja de doces com dois meio sangues. Eles não sabiam que aquele seria o pior dia da vida deles. Pobres e inocentes semideuses, eles...

Um grito cortou a historia, sobressaltando a todos. O som era de puro terror, longo e gutural, vindo das profundezas da floresta. Foca parou os gestos que estava fazendo no ar, de boca aberta. A maioria dos campistas olhava para a direção do barulho, petrificados, sem saber o que fazer. Michel foi o primeiro a se levantar, dando ordens para que alguns guerreiros do seu chalé o seguissem.

— Quem foi? – Yuri perguntou, nervoso.

— Não sei, achei que estivesse todo mundo aqui ué. – Trindade deu de ombros.

Edu e Wlad logo chamaram mais gente para ajudar a procurar quem quer que fosse. Apenas cinco campistas ficaram na fogueira, cada vez mais ansiosos conforme os segundos passavam e os amigos não voltavam. Foca se levantou, limpou a roupa suja de neve e se espreguiçou.

— Foi uma péssima idéia. – disse, com um suspiro.

— Por quê? – Sara perguntou.

— A primeira regra das historias de terror é clara. – Foca estava realmente mais séria do que o normal.

— Qual é? – Vivi indagou, com um arrepio.

— Nunca se separem.

Notas finais
Gente, eu sei que as vezes eu falo que tem quarenta campistas e outras eu falo que tem trinta, o erro é proposital.