Ghost
2 Sobre o que aconteceu na floresta e as oito regras
Notas iniciais
— E quais são as outras regras? – Sara perguntou, ansiosa, trocando olhares com Vivi.
Além das três garotas, apenas um casal havia permanecido na fogueira, tão concentrados um no outro que nem tinham percebido toda aquela comoção ao redor deles. Com apenas uma olhada rápida, as garotas puderam perceber que eram Brant e Duda, o mais novo casal do Acampamento. Teriam dado risadas se a situação não fosse tão séria.
— Como assim gente, vocês não veem filmes de terror não? – Foca ergueu as mãos para o alto, exasperada. – Todo mundo conhece as cinco regras.
— Eu não gosto de ver filme de terror, ué! – Vivi revirou os olhos e Sara assentiu, concordando. – E o que te garante que essas regras vão valer aqui? Estamos na vida real!
— Um bando de adolescentes bêbados ouvem um grito no meio da floresta e nenhum responsável a quilômetros de distancia? Isso não soa extremamente familiar?
Elas ficaram um instante em silencio, pensando. Não conseguiam ouvir nada além do crepitar do fogo e dos sons de beijos que Brant e Duda faziam. A neve caia sobre seus ombros e estava começando a ficar frio, mas nenhuma delas queria se mover e arriscar ir sozinha procurar os outros. Por fim as três se sentaram próximas umas das outras e da fogueira, ignorando o casal e cochichando entre si baixinho:
— Vamos supor que você tenha razão, Foca. – Sara começou, olhando ao redor. – Quais são as regras?
— Primeiro. – Foca ergueu um dedo. – Nunca se separem, em hipótese alguma.
— Tarde demais. – Vivi tentou brincar, sem sucesso.
— Segundo. Nunca deixe as luzes apagadas, nunca mesmo. Acenda a menor das lanternas até mesmo para ir ao banheiro. Na verdade, esqueça as lanternas, a luz delas é assustadora e pode queimar. Tenha um filho de Apolo sempre que necessário por perto.
— Nunca achei que fosse sentir falta do Yuri. – Sara suspirou.
—Terceiro. Não se deve brincar com nada esquisito ou anormal. Tabuas ouija, livros de convocação, pergaminhos antigos, nada disso. Ou seja, fiquem bem longe do sótão da Casa Grande, lá é cheio dessas porcarias. – Foca olhou de relance para o local e podia jurar que viu a cortina se mexer. Com um arrepio, continuou a falar. – Quarto. Nunca pare para ajudar alguém. Nos filmes de terror, ninguém é seu amigo, eles provavelmente estão possuídos, ou são assassinos em potencial. Nem mesmo seus irmãos de chalé.
— Eu confio em todo mundo do três, não importa o que você diga! – Vivi interrompeu, indignada.
— Uma péssima escolha, pelo menos essa noite. Posso continuar? Quinto, nunca vá verificar barulhos estranhos na noite. É sempre uma armadilha. Sexto, sempre olhe para trás, pros lados, para todos os lugares quando for andar sozinho. Se possível, seja o Argos. Sétimo, tenha sempre armas a mão, mas isso não é difícil para nós, por que somos semideuses. Oitavo, sempre preste atenção na lista de mortes.
— Lista de mortes?
— Deuses. – Foca respirou fundo. – Sempre tem uma ordem dos primeiros a morrerem. O cara irritante, o casal meloso, a peituda gostosa, o cara que paga de fodão, o nerd, o motorista gordo da vã, a virgem casta, o namorado da personagem principal, ou do personagem principal sei lá. E por fim, caso tudo de errado, a própria principal.
— Você ta querendo dizer que quem quer que tenha gritado pode ter sido o “cara irritante” da historia? – Sara franziu o cenho. – Então os próximos são...
Vivi soltou um gritinho, apontando para o outro lado da fogueira:
— O Brant e a Duda sumiram!
******
Estava muito escuro e a floresta era muito grande para que os semideuses descobrissem rapidamente de onde havia vindo o grito, por isso eles resolveram se separar em grupos de três ou quatro pessoas para cobrir uma área maior. Frost não achou que essa fosse a melhor idéia do mundo, mas como estava meio tonto por causa do vinho, resolveu não contestar as palavras de Edu (Ok, isso após alguns resmungos e reclamações, mas enfim) e saiu com uma lanterna atrás de Dan, Manu e Aron. Edu não poderia ter colocado-o em um grupo mais estranho.
— Alguém se lembra de que direção veio o grito? – Dan, filho de Poseidon, perguntou, apontando a própria lanterna aleatoriamente pelas árvores.
— Não faço nem idéia. – Manu suspirou. – Mas se pelo menos soubéssemos quem não estava na fogueira na hora, nós...
— Isso não adianta se não acharmos a pessoa. – Frost interrompeu bruscamente, passando entre os dois. – Vamos procurar logo e parar de perder tempo.
Dan e Manu trocaram um olhar significativo e continuaram andando, com Aron cobrindo a retaguarda deles. Podiam ouvir outros campistas por perto, gritando a procura da pessoa e a falta de resposta só os deixava mais apreensivos. Quanto mais entravam nas profundezas da floresta, mais aquilo tudo parecia surreal. Ninguém podia gritar tão alto a ponto deles ouvirem a uma distancia tão longa. Quem quer que fosse realmente estava com sérios problemas.
— Ei, cara. – Aron começou a falar, depois de um tempo. Todos pararam e olharam para ele. – Isso não é uma pegadinha do chalé de Hermes né?
— Claro que não Aron! Por que eu iria sair no frio por causa de uma pegadinha de um dos meus campistas? – Frost disse rispidamente.
— Talvez você não saiba que é uma pegadinha. – Manu cruzou os braços.
— Um filho de Hermes nunca engana outro filho de Hermes, Manuela. – Frost cruzou os braços também. – Não é uma pegadinha.
— Gente, calma ai. – Dan pediu, erguendo as mãos. – Só vamos procurar a pessoa logo para voltarmos para a fogueira, que tal?
Aron assistia a discussão com visível impaciência. Quando Manu e Frost finalmente se aquietaram devido as palavras de Dan, ele olhou de um para o outro, mais intensamente para Frost e disse:
— Só perguntei por que eu sei quem não estava na fogueira essa noite.
— Quem?! – Os três perguntaram em uníssono.
— O GV.
*****
Yuri estava tentando produzir os mini-sois sem chamar muita atenção dos outros grupos de busca, o que era algo realmente difícil já que eles tinham a terrível tendência de explodir sem que ele percebesse. Não ajudava em nada também Ray rir da cara dele toda vez que isso acontecia, mas ele continuava mesmo assim, por que não confiava na durabilidade das lanternas que Edu e Frost tinham distribuído entre os grupos de busca.
Talvez eles estivessem procurando a dez ou quinze minutos. Ou quem sabe meia hora. Nenhum deles saberia dizer, o céu estava nublado e eles nem mesmo sabiam onde estavam indo. Só andavam a esmo pela floresta, torcendo para não encontrar nada perigoso demais. Infelizmente até mesmo a caminhada se tornava difícil com a neve que começava a acumular em seus pés. Nenhum dos filhos de Apolo estava feliz com a idéia de desativar o controle climático do Acampamento e aquilo deixava Yuri de mal humor. Era mais difícil criar os mini-sois daquela forma e eles explodiam mais rápido que o normal. Frustrante.
— Eu só quero ir dormir logo. – Trindade resmungou, num tom de voz meloso. – Odeio ficar andando na floresta a noite.
— Todo mundo odeia, cara. – Ray chutou a neve longe e olhou ao redor. – Não vamos achar nada dessa forma, devíamos esperar ficar de manhã.
— Até de manhã quem gritou já vai ter sido devorado pelas harpias de guarda. – Yuri balançou a cabeça.
— Provavelmente quem gritou já foi devorado pelas harpias de guarda. – A filha de Zeus retrucou. – Problema dele, alias. Quem mandou ficar bisbilhotando por ai à noite?
— Talvez a pessoa fosse encontrar alguém. – Trindade sugeriu. – Sabe, para dar uns beijos.
— O Edu e a Vick estavam na fogueira, Brant e Duda também. Tenho certeza que todos os casais que tem no acampamento estavam lá.
— Pode ser um casal novo. – Trindade bateu palmas em êxtase. – Tomara que seja!
— Você não tem jeito. – Ray revirou os olhos, mas sorria. Parou um momento e olhou ao redor, confusa. – Ei, onde está o Maro?
Os outros dois olharam ao redor também, mas não havia nem sinal do filho de Zeus. E mesmo que houvesse, estava muito escuro para enxergarem mais que o contorno um dos outros. Ray tentou ligar a lanterna, mas apenas o som do botão sendo apertado ecoou no vazio, sem ser seguido por nenhuma luz. A garota murmurou algo parecido com “maldito Frost” e jogou a lanterna longe, que se estilhaçou contra uma árvore.
Yuri produziu um dos sois rapidamente, que iluminou as duas garotas com uma luz amarela cegante. Ao desviar o olhar, Ray percebeu uma sombra se movendo na direção deles de um modo assustadoramente lento e calmo. Ela estava prestes a gritar, mas prendeu o fôlego no ultimo segundo, segurando o ombro de Yuri e apontando para o local. O rapaz assentiu e mirou a luz para aquele lugar, pronto para atirar. Trindade se escondeu atrás dos dois, espiando por cima de seus ombros.
— Ei gente. – Ouviram a voz de Maro, vinda das sombras. – Não se preocupem, sou eu.
Os três semideuses relaxaram instantaneamente. Maro entrou no campo de luz visível com as mãos erguidas e um sorriso relaxado no rosto. Parecia normal, mas algo naquele sorriso estava fazendo com que os pelos na nuca de Ray se arrepiassem.
— Onde você estava? – Trindade perguntou, aflita.
— Explorando. Mas estou bem. Encontrei alguém deitado no chão, preciso de ajuda para leva-lo para o acampamento.
— Então o que estamos esperando? Vamos! – Ray deu um passo a frente, mas Maro balançou a cabeça negativamente.
— Não, preciso que Yuri vá comigo e vocês duas avisem ao resto do pessoal que encontramos a pessoa. É desnecessário irmos todos.
Ray se afastou, franzindo o cenho, desconfiada, mas Yuri deu três passos rápidos em direção do filho de Zeus e Trindade já estava segurando seu braço para que as duas fossem procurar os outros, por isso ela cedeu e deixou-se levar. Mas algo não estava certo ali. Olhou para trás novamente, para verificar, mas os dois garotos já corriam na direção em que Maro viera.
— Yuri, não queria falar nada lá atrás para não te deixar nervoso. – Maro ia dizendo enquanto corriam. – Mas foi a Manu que eu encontrei. Ela está realmente ferida, em uma clareira logo a frente.
Yuri teria prendido a respiração diante a informação, mas preferiu continuar correndo, ainda mais rápido, deixando Maro para trás. O mini-sol explodiu em sua mão, mas ele nem percebeu. Chegou a clareira indicada facilmente e parou, ofegando. A clareira estava levemente mais clara que o resto da floresta, não o suficiente para que ele enxergasse o corpo de Manu na neve. Não parou para pensar que não era provável que fosse ela a pessoa que gritou. Até por que, a garota estava do seu lado na fogueira e tinha ido em grupo com Frost, Dan e Aron. Se ela estivesse mesmo ali, onde estavam os outros três?
Se ele tivesse sido mais rápido em pensar nisso, se ele tivesse criado outro mini-sol assim que tivesse chegado na clareira, se ele tivesse dado atenção a Ray... Talvez ele não fosse atingido na cabeça por uma pedra e caído desmaiado no chão.
*****
— Eu estou vendo alguma coisa.
Edu apontou a lanterna para o local que Vick apontava. Realmente havia algo enorme ali, parado no meio da neve. Parecia uma grande construção feita de pedras lisas. Os dois foram na frente para investigar, sendo seguidos de perto por Paixão, do chalé de Ares e Dudu, do chalé de Zeus. A construção era na verdade uma cabana com telhado de madeira coberto de neve, com um buraco enorme na lateral de onde saia fumaça.
— Não vamos entrar nisso, pode ser perigoso. – Vick disse, segurando o ombro de Edu.
— Relaxa, é só uma das forjas dos filhos de Hefesto. Já passei por aqui várias vezes nas patrulhas. – O rapaz tentou acalma-la.
—Não me tranquiliza.
— Parece que alguma coisa explodiu lá dentro. – Paixão observou.
— Pior ainda.
— Amor, relaxa. – Edu riu. – Sempre tem coisas explodindo onde os filhos de Hefesto estão. E eu teria que entrar de uma forma ou de outra para verificar o que aconteceu. Não é nada demais.
Eles apressaram o passo, apontando a lanterna para os lados também de forma a não perder nenhum vislumbre, todos com as espadas em punho. Edu subiu as escadinhas da entrada da cabana e bateu na porta, mas não obteve nenhuma resposta. A porta estava trancada por dentro e as janelas estavam escuras. Ele tentou empurrar com o corpo com toda a força que conseguiu, mas a porta não cedia.
— Um filho de Hefesto fez isso, você acha mesmo que vai quebrar tão fácil? – Paixão disse, mal-humorada. Ela se adiantou para uma das janelas, quebrando o vidro com o punho da espada. O objeto se estilhaçou em milhares de pedaços e ela apontou a lanterna lá dentro. – Não tem ninguém. Mas parece que tem uma fornalha acesa lá em baixo.
— Provavelmente alguém esqueceu ai e explodiu depois de aquecer demais. – Edu resmungou. – Vou falar isso para o Milord quando ele voltar.
Paixão deu de ombros e passou uma perna pela janela quebrada. Era tão pequena que não teve dificuldades em entrar. Vick foi logo em seguida, também sem se machucar. Os rapazes não tiveram a mesma sorte, arranhando-se nos cacos de vidro restantes que Paixão deixara para trás. Por dentro, a cabana parecia estar caindo aos pedaços, cheirando a mofo e a coisas queimadas. A sala principal era bem simples, com uma mesa de centro, uma pia e um armário. Uma portinha a direita estava aberta, com as dobradiças bem soltas e a fumaça vinha dali, além do brilho fraco da fornalha.
— Eu vou descer e investigar. Vocês fiquem aqui. – Edu alertou, já descendo as escadas.
Vick se sentou na única cadeira em frente a mesa, tamborilando os dedos no ritmo de uma de suas musicas preferidas. Alguém havia esquecido um martelo no chão e uma pequena aranha havia estabelecido sua teia ali.
— Parece estar abandonado há muito tempo. – Dudu disse, abrindo o pequeno armário em baixo da pia. – Os canos estão enferrujados.
— É estranho que tenha explodido só agora. – Vick concordou. Paixão estava agachada perto da janela, passando a mão em algo no chão. Estranhando aquele comportamento, a filha de Hades se levantou para ver. – O que é isso?
— É sal. – Paixão informou, com as sobrancelhas erguidas em tom de duvida. – Tem nos quatro cantos da cabana e na soleira da porta e das janelas também.
— Por que alguém colocaria sal por ai?
— Para absorver os compostos químicos no ar? – Paixão sugeriu.
— Isso não faz nenhum sentido...
Ouviram um grito alto bem próximo. As duas se viraram e se depararam com Dudu caído no chão em frente ao armário grande, com algo em cima dele. Edu subiu as escadas depressa, com a espada já apontada para a direção em que havia ouvido o grito. As garotas se aproximaram para ajudar, mas se afastaram assim que viram o que tinha saído do armário e caído em cima do filho de Zeus.
Era um esqueleto.
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