Ghost

3 Sobre invocações e o Segredo da Cabana


Notas iniciais
>:D

— Você pelo menos sabe para onde está indo? – Brenda perguntou, nervosa.

— Claro que eu sei. Já te falei, eu e os outros líderes fazemos a ronda aqui todos os dias. – Michel tentou tranquiliza-la, mas sem obter nenhum sucesso visível.

— É xuxu, pode ficar calma, o Michel sabe o que está fazendo. – Jimmy sorriu, passando o braço pelos ombros da garota.

A neve embaixo deles passava como um borrão sem que tocasse os pés dos filhos de Zeus, graças a Michel e Brenda. Ambos tinham um poder muito parecido de criar pequenos furacões em baixo de seus pés que os sustentavam com facilidade. Quando trabalhavam juntos, esses furacões ganhavam a capacidade de locomover um pequeno grupo de dez pessoas em uma velocidade incrível. Como naquele momento eram apenas quatro, contando com Ellen, eles cobriram uma grande parte da floresta bem rápido, sem que encontrassem ninguém no caminho. Estavam a uma boa dianteira das outras equipes de busca, por terem saído primeiro, mas mesmo assim parecia que quem quer que fosse que tivesse gritado havia sido dissolvido na neve.

— O que o Milord estava pensando, deixando vocês no comando assim? Quando ele voltar, vou fazer questão de soc...

— O Milord também precisa de descanso, querida. – Jimmy interrompeu Brenda. – Ele trabalha muito todos os dias.

— Sentado o dia todo na Casa Grande comendo pizza! – Brenda resmungou.

Os furacões em baixo deles começavam a assumir um tom cinzento de uma tempestade. Era o que normalmente ocorria quando Brenda tinha emoções fortes demais. A diferença de seu poder para o de Michel era que ela podia fazer o pequeno e inofensivo tornado tomar as proporções catastróficas de uma tempestade de raios. Sabendo disso, Michel segurou a mão da namorada, tentando acalma-la novamente.

— Aposto que daqui a pouco encontramos a pessoa e então poderemos voltar para a fogueira e comer mais alguns marshmallows, o que acha?

— A gente podia ir pro chalé também. – Brenda sugeriu.

— O que você quiser. – Michel retrucou, com um sorriso sugestivo.

Jimmy deu uma risadinha e olhou para Ellen, mas a garota não prestava atenção no que acontecia ao redor. Parecia tentar enxergar algo distante, forçando às vistas para poder ver melhor. Sentindo os olhares sobre si, ela disse, baixinho, apontando para algo entre as árvores.

— Tem algo ali.

Michel e Brenda coordenaram os furacões até onde Ellen indicava. Parecia tudo igual a quilômetros atrás. Apenas neve e árvores. Parecia um... Poço? Michel franziu o cenho. Nunca havia reparado naquilo durante as rondas e nenhuma das Harpias de vigia notificara algo estranho na floresta. Percebeu que os outros o encaravam com ar de duvida, mas não falou nada, apenas acelerou mais.

Pararam bem em frente a construção. Era realmente um poço, feito de tijolos envelhecidos pelo tempo. Até mesmo a água dentro dele era escura e o musgo crescia livremente por suas bordas, indicando que há anos ninguém mexia ali. O que, é claro, não fazia um pingo de sentido. Não tinha como existir um poço no meio da floresta sem que nenhum dos líderes soubesse e fizesse um relatório sobre. Milord sempre exigia que todas as rondas ficassem registradas num arquivo da Casa Grande. Era impossível que deixassem isso passar.

— Jimmy, você sabe o que é isso? – perguntou, franzindo o cenho.

— Me parece um poço.

—... Eu quis dizer se você sabe algo sobre isso. Estava nos relatórios?

— Nenhum que eu tenha lido... Ellen amor, o que você ta fazendo?

Ellen pegou o balde que jazia esquecido no chão e o pendurou no gancho enferrujado. Algo brilhava no fundo. Brenda percebeu o que ela tentava fazer e a ajudou a empurrar a manivela pesada. O balde caiu na água com um som alto e desceu cada vez mais no poço, chegando ao fundo um minuto depois.

— Agora para puxar... – Brenda disse, limpando as mãos. – Vocês dois se viram.

— Que falta não faz um filho de Poseidon. – Jimmy suspirou.

Os garotos tomaram o lugar delas na manivela, puxando com dificuldade. Parecia extremamente pesado, mais do que deveria estar. Finalmente eles colocaram o balde para fora, cheio da água escura e lodosa. Tirando o fato de ser velha e parada, parecia água comum. Brenda cheirou o conteúdo, mas deu de ombros, indicando que não notou nada de anormal também. Ellen jogou o resto do conteúdo na neve, derretendo-a. Algo a mais caiu do balde no chão, produzindo um baque oco.

— O que é isso? – Os quatro perguntaram ao mesmo tempo, se aproximando.

Brenda pegou o objeto nas mãos, com os olhos arregalados. Era um celular de ultima geração, com a tela desligada e as extremidades amassadas. O metal estava frio ao toque. Ela mostrou para os outros, que soltaram exclamações surpresas.

— É impossível que isso esteja funcionando. – Michel disse. – É impossível que tenhamos tirado isso de dentro de um poço!

— Eu estava esperando por uma fita cassete ou algo assim. – Ellen brincou.

— O que?

— Nada, é só um filme que eu vi uma vez.

— De qualquer forma. – Brenda interrompeu. – Acho que devemos levar isso para um filho de Hefesto. Eles vão saber o que fazer.

— Brenda, isso é lixo. Não tem como ligar mais. Deve estar a anos lá dentro. – Michel franzia o cenho, em duvida.

— Não custa verificar. – Ela deu de ombros. – Vem, vamos procurar o Aron.

*****

Muffin estava com fome. Com muita, muita fome. O que não daria por uma pizza naquele momento. Mas sabia que se reclamasse novamente que queria voltar para comer, Pete ia dar na cara dela, por isso ficou em silencio. Ela também não entendia como havia acabado em um grupo de busca com Pete, Wlad e Julia. Todos ali estavam bem mal humorados, desejando poder voltar para os chalés.

Ouviram um urro vindo do norte que fez com que Pete praticamente saltasse para o colo de Muffin. Julia se aproximou de Wlad, de olhos arregalados. O líder de Poseidon nem se alterou, ainda andando em frente.

— Hã... O que foi isso? – a garota perguntou, apertando as mãos com aflição.

— Uma hidra, provavelmente. Ou um ciclope. – Wlad deu de ombros. – Alguns semideuses os invocam aqui para treinar e acabam correndo e os deixando para trás. É por isso que os líderes fazem ronda toda semana, para acabar com esses monstros.

— Ah... – Julia ficou mais calma, respirando fundo. – Se for assim tudo bem. Queria ter meu arco aqui.

— O que aconteceu com ele? – Muffin perguntou educadamente.

— Uma garota aleatória quebrou, mas isso não vem ao caso. – ela revirou os olhos. – Achei que era algo pior que um monstro.

— E o que pode ser pior que um monstro?- Pete riu, mas parecia uma risada meio forçada e nervosa.

— Somos semideuses, lidamos com monstros todos os dias. – Julia cruzou os braços enquanto caminhava, recebendo um olhar orgulhoso de Wlad. – Eu estava pensando em algo mais... Sobrenatural.

— Não tem nada de sobrenatural aqui. – Wlad afirmou. – E ninguém vai se machucar enquanto eu puder evitar.

— Bom mesmo gato, meu corpinho não foi feito pra ser dilacerado. – Pete deu uma piscada que deveria ser sexy. Wlad o ignorou.

Caminharam em silencio por mais algum tempo. Um cheiro estranho incomodava o nariz de Muffin, provavelmente apenas o cheiro de monstros (o nariz dela era muito apurado para esse tipo de coisa, e para comida também), por isso ela não disse nada. Se aproximou de Julia e, querendo evitar o silencio mórbido, perguntou:

— O que você quis dizer com sobrenatural?

— Ah, sei lá. Fantasmas, espíritos, poltergeists. Coisas desse tipo.

— Tem algo assim na mitologia grega?

— Não que eu saiba. – Ela deu de ombros. – Mas eu não sou exatamente uma especialista.

— Wlad deve ter razão, não deve ser nada. Provavelmente alguém brincando com a nossa cara.

— Gente, sou eu ou ta cheirando igual a uma faculdade de humanas aqui? – Pete perguntou lá de trás, parando para respirar fundo.

As duas respiraram fundo também e Muffin percebeu que o cheiro que sentiu mais cedo havia se intensificado. Parecia incenso queimando e estava bem próximo. Wlad também percebeu e retirou a espada da bainha, andando cautelosamente para frente e depois pensando melhor e parando.

— Muffin, você consegue nos guiar?

— Ah. É, consigo, eu acho. – ela disse, ficando um pouco vermelha e seguindo em frente.

A garota às vezes odiava sua capacidade de sentir cheiros. Quer dizer, o que isso tinha a ver com uma filha de Apolo? Mas era o dom que seu pai tinha dado a ela. Podia até mesmo dizer quando alguém estava doente pelo cheiro da pessoa. Ok, essa parte era legal, mas durante os treinos, com todos aqueles semideuses suados, era terrível. Não podia ter um poder legal como seus irmãos. Yuri com seus sois, por exemplo. E Manu que vez ou outra tinha sonhos proféticos. Não, nada disso, ela sentia cheiros absurdamente fortes que outras pessoas sequer percebiam.

De qualquer forma, ela foi na frente. O cheiro era bem mais forte em uma direção especifica então ela seguiu pra lá. Era como um caminho invisível trilhado pelo cheiro. Os outros a seguiam cautelosamente.

Surpreendentemente, chegaram a uma clareira sem neve. Era como se alguém tivesse colocado uma barreira invisível ali que impedia que a neve entrasse no local. Ali a grama estava seca e quebradiça, como no outono e o cheiro de incenso estava tão forte que deixava os semideuses enjoados. A fumaça subia dos aparatos usados, largados displicentemente no chão. No centro da clareira, alguém havia desenhado um circulo com tinta vermelha e o preenchido com símbolos estranhos, os quais ninguém reconhecia. E deitado no centro do que parecia um pentagrama...

— GV! – Julia gritou, correndo para o centro do circulo.

O rapaz segurava uma faca ensanguentada e em seu peito havia uma enorme mancha de sangue vermelho escuro. Julia percebeu que o circulo em que estavam também tinha sido desenhado com aquele mesmo sangue e fechou os olhos, tentando acabar com a súbita tontura que tomou conta dela. Com a mão tremula, tocou o rosto do filho de Hermes. Reparou que Wlad se ajoelhou ao seu lado e que Muffin e Pete assistiam não muito distantes também, mas sua visão estava embaçada.

— Ele está acordado. – Wlad informou, procurando néctar ou ambrosia pelos bolsos. – Ei! Vocês dois tem algo ai?

Pete se aproximou correndo com um vidrinho de ambrosia. Era o pingente de seu colar, para emergências. Wlad o destampou e pingou exatamente onze gotas na boca do rapaz. GV respirou fundo e tossiu com força, deixando um pouco de sangue sair. Julia prendeu a respiração e segurou a mão dele, assistindo-o abrir os olhos.

—Cara... – Wlad murmurou, completamente chocado.

— Vocês... Precisam... – GV tentou dizer, tossindo mais um pouco.

— Foi você quem gritou? – Julia tentou descobrir.

— F-foi. Me escutem. Vocês... Precisam ir embora. – mais tosse. – Ele... Ele te...

— Ele quem?

— Ele... Tem... Uma serra... Cuidado. Cuidado!

Ele se curvou para frente, tossindo com tanta força que parecia que seus pulmões iam sair. Julia se adiantou para ajudar, mas Wlad a deteve. GV levou dois minutos para se acalmar e se deitar novamente, de olhos fechados.

— Ele está...?

— Não está morto. – Wlad disse. – Mas está quase lá. Precisamos buscar ajuda.

— Tem uma cabana a leste daqui. Parece que algo explodiu lá, mas não sei dizer bem. E tem alguns semideuses lá também. – Muffin disse, ajudando os dois a erguerem o filho de Hermes.

— Então é para lá que vamos. – Wlad disse, segurando o tronco de GV. – Por favor, nos guie.

*****

Dudu jogou o esqueleto para longe, gritando. Edu e Vick o ajudaram a se levantar e os três se afastaram daquilo. Paixão pos as mãos na boca, horrorizada. Era realmente um esqueleto humano completo em um armário. Parecia coisa de livro, talvez de uma historia escrita por alguém muito perturbado. Mas era real, bem ali, na frente deles.

— Será... Que é...? – Paixão gaguejou.

— Não. Está ai a muito tempo. – Edu constatou. – Não sei dizer de quem é, mas os filhos de Hefesto nos devem uma explicação.

— Uma explicação muito boa. – Vick concordou. – O que tem lá em baixo, amor?

—É só uma das forjas deles. Parece que a caldeira explodiu, mas foi bem pequena a explosão, apenas o suficiente para acabar com uma parte do teto.

— Que ótimo. E eles não falam nada para os líderes? — Paixão cruzou os braços.

— Milord tem que saber disso! – Dudu guinchou, ainda nervoso por causa do esqueleto.

— Não é só isso. – Edu murmurou, sério. Ele mostrou para os outros um diário que trazia nas mãos, mas que ninguém tinha reparado até então. – Parece apenas um diário comum, mas é pior que isso.

— O que pode ser pior que o diário de um filho de Hefesto? – Paixão perguntou.

— Um diário de um filho de Hefesto cheio de rituais satânicos. – Edu virava as paginas, repletas de símbolos e escritas estranhas.

— Ok. Essa pessoa realmente precisa de um hobbie novo.

— Ao que parece algo estava acontecendo aqui. Tinha uma pagina marcada com os ingredientes necessários para invocar um espírito muito poderoso que possuiria aquele cujo coração carrega uma grande magoa.

— Bem, parece que tudo explodiu antes que ele pudesse fazer alguma coisa. – Vick disse, esperançosa. – Não é?

— Eu achei que sim. Era necessário bronze celestial, morangos, lava...

— Eita, que tipo de espírito esse cara queria invocar? – Paixão arregalou os olhos.

—... E a pele, carne e órgãos da pessoa que magoou aquele que será possuído. – Edu completou.

Todos ficaram em silencio. Ninguém falou nada, mas todos os olhares se direcionaram para o esqueleto no chão.

Notas finais
A questão é vocês entendem de referencias?