Ghost
4 Sobre mal entendidos e o casal inesperado
Notas iniciais
Frost já estava cansado de procurar. Apenas sua teimosia enorme e sua cabeça dura faziam com que ele permanecesse ali, no meio da floresta escura e úmida, ouvindo Manu dar palpites sobre o que poderia ter acontecido e com quem. Ele tinha certeza absoluta que não era uma pegadinha, e mais certeza ainda que tinha visto GV com eles na fogueira. Os outros com certeza estavam errados e só sua vontade de provar isso deixava que ele apontasse a lanterna para cada tronco de arvore distorcido no caminho. Além disso, ele não podia negar que estava um pouco preocupado com GV.
— Estou ouvindo passos. – Manu comentou, olhando ao redor.
— São os outros grupos de busca. Provavelmente não acharam nada ainda. – Dan suspirou, baixando os ombros com infelicidade.
— Como vamos saber se alguém encontrar o GV? Não combinamos nada. – A garota estava aflita.
Dessa vez, pelo menos, ela tinha razão. Frost se amaldiçoou silenciosamente por não ter combinado nada com Edu sobre o que fariam caso encontrassem. Talvez alguém já tivesse descoberto o que tinha acontecido e agora a maioria dos campistas estavam dormindo no calor de seus chalés. Como ele deixou uma falha enorme dessas escapar em seu plano? Se Milord estivesse ali... Bem, de qualquer forma, ele não estava, então os semideuses estavam apenas por sua conta e risco. Frost se perguntava quanto tempo iria demorar para que os outros desistissem e fossem embora.
— Tem alguém vindo ai. – Manu bocejou.
— Não me diga.
— Vocês dois podem parar de se alfinetar um minuto por favor? – Aron disse, cansado.
A necessidade que dela de afirmar o obvio irritava Frost profundamente, mas ele mordeu a língua por causa de Aron. Todos podiam ouvir os passos à frente, mesmo abafados pela neve. Quem quer que fosse, estava correndo como se sua vida dependesse disso. Manu apenas revirou os olhos, fingindo-se de surda ao comentário e apressou o passo para encontrar quem estava vindo.
— Jimmy! – exclamou, surpresa. – O que aconteceu?
Ellen, Michel e Brenda vinham com ele, todos vermelhos e arfando. Quando eles pararam para descansar, algo não tão distante assim rugiu alto, fazendo com que os pássaros da região levantassem voo.
— Que isso?! – Dan perguntou, alarmado.
— Uma hidra! – Brenda arfou. – Ela está... Nos perseguindo... Mas precisávamos encontrar vocês...
— Nos encontrar? Pra que?!
— Não temos tempo para isso! – Aron vociferou. – Armas a postos!
Ele tirou uma longa espada de duas mãos da bainha e os outros imitaram o gesto, deixando uma área livre no lugar em que o monstro iria aparecer. Ele vinha em toda velocidade, rugindo, pisoteando árvores e o que estivesse no caminho, parecendo furioso por ter sido interrompido no seu soninho de beleza.
— Ela tem muitas cabeças. – Michel explicou. – Parece que algum campista foi idiota o bastante para cortar algumas e quando viu que não surtia efeito, correu e deixou ela por aí.
— Que beleza. – Frost disse, com ambas as adagas em punho.
— A gente não pode simplesmente banir ela desse terreno? – Dan perguntou.
— Não dá. Só o Milord consegue fazer isso...
O monstro finalmente surgiu, destruindo as poucas árvores que restavam. Ele havia formado uma trilha no caminho em que viera e as pegadas na neve pareciam mais crateras. Com certeza alguém tinha se aventurado a invoca-la sem o mínimo de preparo, por que a criatura tinha pelo menos cinquenta cabeças. Seria surpresa se o campista que tivesse feito aquilo ainda estivesse vivo.
— Brenda, Dan e Ellen tentem ir por trás enquanto a gente distrai ele! – Aron ordenou. – O resto, formação de liderança B!
—B?! São cinquenta cabeças Aron! Vamos tentar a D! – Frost interpelou, já tomando a conhecida posição naquele tipo de batalha.
— Por que você sempre tem que questionar tudo? – Manu reclamou, mas com otodos os outros líderes seguiam da forma que Frost havia dito, ela se deu por vencida e foi para onde devia também.
Aquela forma organizada de ataque e defesa não eram típicas dos gregos, é claro. Desde que o Acampamento Meio Sangue e o Acampamento Júpiter fizeram as pazes, várias manias haviam passado de um lado para o outro e alguns semideuses chegavam a passar dias em acampamentos opostos, para aprender mais com os “primos” distantes. Todas as formações de liderança que eles sabiam haviam sido formadas pelo Pretor de Roma, Michael, com a ajuda de Wlad, Edu e Frost. Milord não era muito fã de toda aquela confraternização entre gregos e romanos, mas até mesmo ele tinha que admitir que dava certo.
A formação D consistia em distração e defesa. Era ótima para quando os inimigos eram muitos e os aliados poucos, mas não era a favorita de muitos da liderança, que preferiam bater diretamente a seguir uma estratégia. Naquele momento, no entanto, não tinha outra coisa a ser feita alem de se esquivar do fogo que a cabeça do meio, ou deveria dizer, as cabeças do meio, soltava.
— Alguém criou muitos McDonalds por ai. – Aron comentou, desviando-se de um jato de chamas.
— Espero que tenha sido um subway. – Alguém distante de onde o rapaz estava comentou.
Eles só podiam torcer para que nenhuma das cabeças virasse para trás e visse os outros três campistas andando sorrateiros em direção as costas do monstro. Era como dançar com a morte, indo de um lado para o outro, girando a espada para afastar as cabeças, desviando o quanto podiam do fogo. Em algum momento a perna de Frost acabou levando a pior, ficando completamente em chamas e ele foi obrigado a se deitar na neve e rolar para acabar com o fogo.
— Onde aqueles inúteis estão?! – gritou para os outros, do chão.
— Eu não sei! – Michel gritou de volta. – Mas se não andarem logo...
Exatamente nesse momento eles ouviram as folhas das árvores acima deles farfalharem. Dan foi o primeiro a pular, com a espada apontada para baixo, diretamente apontada para as costas do monstro. Brenda e Ellen não decepcionaram, atingindo também a as laterais com voracidade. Com apenas um rugido de ódio, a hidra explodiu em um montão de cinzas monstruosas.
— Precisava desse teatro todo? – Frost tossiu, sentando-se no chão para examinar a perna.
— Foi idéia do Dan. – Brenda disse, enquanto Michel a ajudava a se levantar.
— Vocês que não repararam nas dez cabeças de trás. Não desgrudaram o olho das costas por um minuto. – Dan se defendeu, revirando os olhos. – Afinal, o que era tão importante que vocês não podiam se livrar de uma hidra antes?
— Isso. – Ellen retirou o tablet de dentro da blusa de frio, onde imaginou que ele ficaria protegido. – Encontramos por ai.
— Por ai? Vocês sabem que nada tecnológico é permitido no Acampamento. – Aron avisou, desconfiado.
— Não é nosso, cara. – Michel interferiu calmamente. – Encontramos em um poço.
— Um poço?! Não tem poço por aqui. – Frost grunhiu, puxando a calça para cima, afim de ver o estrago que as chamas causaram. Manu se ajoelhou ao lado dele para ajudar, mas ele a dispensou com um gesto.
—Eu também achei que não, mas vi com meus próprios olhos. Se quiser a gente te leva lá. – O filho de Zeus segurou a mão de Brenda com carinho.
— Mas não podemos esquecer de ver se isso tem alguma utilidade. – Jimmy disse, apontando para o tablet.
— Certo, então. Manu, Frost, Michel e Brenda podem ir ver o tal poço. Eu, Dan, Jimmy e Ellen vamos voltar para a Casa Grande. – Aron já falava andando em direção ao local.
E então os grupos se separaram, um voltando para o mesmo caminho que haviam feito, outro caminhando em direção aos braços da morte.
*****
Edu andava de um lado para o outro na cabana, pensando no que fazer. Parecia precipitado demais imaginar que aquele esqueleto pertencia a um semideus. Mais ainda era pensar que outro semideus tinha feito aquilo com um deles. Era insano demais para ser real. E talvez não fosse mesmo. Poderia tudo ser um sonho. O que alguém sonhando faria agora?
— Talvez seja só uma pegadinha. – Edu pensou em voz alta. – O chalé 11...
— Não acho que eles iriam tão longe por uma pegadinha. – Dudu disse, tremulo.
— Eu concordo com ele, amor. – Vick cruzou os braços. – Você podia simplesmente perguntar.
— Ao Frost? Ele negaria, com certeza...
— Não. Não ao Frost. Você sabe. – ela olhou de esguelha para o esqueleto jogado no chão.
Edu engoliu em seco. Não gostava de fazer esse tipo de coisa. Era bem raro que precisasse apelar para seus poderes em lutas, já que era bom em manusear uma espada. Sentia um pequeno incomodo toda vez que invocava as forças do Mundo Inferior, como se uma pequena parte de sua vida fosse sugada toda vez que quisesse chamar um velho esqueleto para conversar. Dava graças aos Deuses por não fazer isso com frequência. Mas Vick tinha razão, aquela era uma questão de vida ou morte. No momento, mais morte do que vida.
— Tudo bem. – disse, se aproximando daquilo. – Vamos ver o que o camarada aqui tem a dizer.
— Espere. – Paixão murmurou, da janela. – Estou vendo alguém lá fora.
Todos ficaram petrificados no lugar, parando até mesmo de respirar. A filha de Ares espreitava pela cortina, tentando distinguir o que tinha visto. Estava muito escuro lá fora e a neve não ajudava, mas ela podia jurar que tinha visto algo se mover entre as árvores. O mais silenciosamente que conseguiam, todos sacaram as armas, olhando para a porta, prontos para atacar ao menor sinal de hostilidade. Porem, minutos se passaram sem que nada atravessasse o portal.
—Tem certeza que viu alguma coisa? – Vick perguntou o mais baixo que conseguiu.
— Absoluta. – Ela cerrou os dentes.
Edu se aproximou com passos calculados e lentos de outra janela. Olhou para os outros brevemente e abriu a cortina. Um clarão de luz praticamente o cegou. Ele fechou a cortina rapidamente, esfregando os olhos e praguejando.
— Que merda é essa?
— Aposto que é o Yuri. – Dudu disse, relaxando. – É o garoto dos sois.
— Ah é? Pois eu vou falar com a Manuela sobre ele. Isso pode ser perigoso. – Edu bufou. – Foi isso que você viu, Paixão?
— Não exatamente. – ela mordeu o lábio, incerta. – Estava mais para um vulto. Parecia nos observar, das árvores.
— O dono da cabana, talvez? – Dudu perguntou, arregalando os olhos.
— Não gente, relaxa. Provavelmente era só o Yuri com o grupo dele. Devem ter achado estranho isso aqui, mas diferente da gente, resolveram passar direto. – Vick tentou acalma-los.
— Bem que eu queria ter tido essa idéia também. – Edu murmurou, taciturno. – Vamos logo com isso.
Ele se aproximou novamente do esqueleto e abriu a boca, prestes a invocar sua alma atormentada para servi-lo e toda aquela coisa sombria de filho de Hades, mas foi novamente interrompido por outro estrondo, dessa vez da direção da porta da frente da cabana, que foi aberta tão bruscamente que voou das dobradiças.
Edu se moveu em uma velocidade incrível, girando a espada e apontado-a diretamente para o pescoço do invasor.
*****
— Já são duas horas da manhã e eles ainda não voltaram. – Vivi choramingou, olhando pela milésima vez pela janela.
— Quem gritou já deve ter sido soterrado pela neve. – Foca deu de ombros, entediada. – Pior para ele.
— Pessimista. – Sara revirou os olhos. – Mas já tem três horas que eles saíram, devem ter encontrado alguma coisa.
— Se tivessem encontrado nós não estaríamos aqui, não é mesmo? – A filha de Hermes revidou. – Já estamos em qual morte mesmo? Agora seria a peituda gostosa?
— Não sabemos o que aconteceu com Brant e Duda. – Vivi interrompeu. – Eles podem estar bem.
—É, se você diz. Bem, em quem vocês apostam? A Julia tem uns peitos muito bonitos.
— Foca! – As outras repreenderam.
Elas estavam no chalé de Poseidon, sentadas na cama de Vivi e olhando da janela para o relógio, alimentando as esperanças de que os outros voltariam. Mal elas sabiam. Durante algum tempo, o único som audível foi o tic tac incessante do relógio, sempre lembrando a elas que os amigos estavam em algum lugar na floresta escura, com frio e provavelmente com fome. E bêbados também, aliás.
— E se eles voltaram e estão na Casa Grande? Não tem como ver daqui. – Sara opinou, se levantando e andando de um lado para o outro.
— Você quer ir lá ver? – Foca olhou para ela com o cenho franzido.
— Bem... Eu...
— Gente! – Vivi chamou, se levantando. – Vem vindo alguém!
Sara e Foca correram para a janela, disputando espaço para ver quem era. Realmente um vulto se aventurava na neve, indo em direção do chalé, um pouco lento por causa da neve grudada em seus pés e sem uma lanterna visível para se guiar.
— Esse povo não vê filmes não? – Foca fez um muxoxo de irritação. – Não se deve andar na noite escura sem uma lanterna gente! Por favor, né!
—E se for... A pessoa que causou tudo isso? – Sara gaguejou.
As outras não tinham pensado por esse lado. Começaram a falar uma por cima da outra, alarmadas e sem saber o que fazer. Estavam obviamente presas ali dentro, já que não tinha outra saída. O máximo que poderiam fazer seria se esconder em baixo de uma das beliches ou em um dos armários, mas sabiam que isso nunca dava certo nos filmes. Estavam começando a entrar em desespero quando uma voz conhecida chamou lá de fora:
— Vivi? Você está ai?
A garota ficou instantaneamente paralisada, achando ter ouvido coisas, mas logo se acalmou e suas bochechas assumiram um tom rosado.
— É só o Dan. – disse, com um sorrisinho. – Esperem aqui, tudo bem?
Ela se levantou da cama e ajeitou a roupa, respirando fundo. Saiu do chalé sem olhar para as amigas, que tentaram assistir da janela o que acontecia. O pequeno vulto que pertencia a Vivi ia com pressa em direção ao outro, que agora aguardava parado.
— Realmente, ninguém aqui aprende nada. O que eu disse sobre confiar nas pessoas? – Foca bufou. – E você viu o sorrisinho dela? Ela está tipo, saindo com ele? Eles são irmãos de chalé!
— Você namora um dos seus irmãos de chalé, do que você ta falando? – Sara revirou os olhos. – E a Vivi disse que nunca deixaria de confiar em alguém do 3.
— Bem, a morte é dela, eu suponho...
*****
Aron entrou na Casa Grande, satisfeito por estar em um lugar quente e aconchegante. Nem queria imaginar o mal que aquele frio e aquela neve estava fazendo as suas forjas. Se pelo menos tivesse tido tempo de preparo, poderia criar algo que impedisse que as maquinas estragassem com a neve, mas como o Acampamento sempre esteve livre de complicações climáticas, ele nem imaginava que seria necessário. Deveria ter pedido a Denis que verificasse o chalé antes de saírem em busca do dono dos gritos. Ou então que algum campista ficasse por lá para vigiar, como Gustavo ou Luisa. Bem, era tarde demais. Ele tinha outras coisas para se preocupar agora.
— Vocês encontraram isso em um poço? – ele perguntou, sentando-se na poltrona confortável que normalmente Milord se sentava. – Tipo, sério.
— Aham. – Jimmy afirmou, ficando de pé e passando o braço ao redor do ombro de Ellen. – Inteirinho, como pode ver.
— Incrível. Provavelmente estragou, vocês sabem a quanto tempo está lá?
— Nem idéia. – Ellen disse. – Mas o poço parecia bem velho.
— Muito estranho... Bem, alguém pegue, por favor, arroz na cozinha do Milord. Acho que ele não vai se importar. E uma panela grande.
Ellen correu para atender ao pedido. Dan não estava ali, havia dito que iria dar uma olhada em quem tinha ficado para trás no meio da correria. Enquanto aguardavam a garota, ouvindo os ruídos que ela fazia na cozinha ao procurar o material necessário, Aron examinava o aparelho com curiosidade e Jimmy o mirava com um sorriso que ele nunca permitia que saísse de seu rosto. Aron apertava todos os botões, em vão, pois o tablet realmente não ligava. A coisa mais emocionante que aconteceu foi um pequeno compartimento abrir, revelando o cartão de memória da coisa.
— Isso aqui vai ser útil. – Aron disse, se levantando. – Ellen! Esquece o arroz, preciso que você vá até o chalé 9 e me traga minha mochila.
— Ah, eu vou com ela. – Jimmy disse. – Vai precisar de alguma coisa a mais?
— Não, não. Só isso.
Ellen reapareceu e Jimmy segurou sua mão com delicadeza. Eles saíram novamente para a noite fria sem parecerem nem um pouco aflitos por deixarem o conforto da Casa Grande. Aquela tinha sido a melhor escolha que fizeram durante todo o dia, tendo em vista a companhia que teriam ali mais tarde.
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