Gentleness

3 Como (não) era de se esperar


Notas iniciais
No começo da história, eu imaginava Ephir como alguém atento e pensativo... Bem, ele tem essas características, mas de uma forma diferente. Eu fico me perguntando como ele se tornou tão traumatizado.

— Como raios eu tirei um dez? — Ephir falou, mais pra si mesmo do que pros amigos. — Eu me lembro de deixar uma questão em branco.

Estavam no intervalo, justo depois da aula que receberam as provas corrigidas e com nota, à caminho do refeitório. Eram só um trio, como de costume.

— Se você está insatisfeito com alguma coisa, pode ir lá pedir pra professora baixar sua nota. — Nante brincou, com um toque de desafio.

— Eu não estou insatisfeito, só quero entender quando foi que me tornei gênio a ponto de mesmo quando respondo nada, estou certo.

Nante apoiou um braço sobre o ombro direito de Ephir e assobiou.

— Filosófico.

Enquanto isso, Mo analisava a prova do reclamão, com uma mão no outro ombro disponível para ser guiada pelo caminho sem bater em algo, e outra na prova.

— Também queria saber como você conseguiu um ponto extra sendo estúpido desse jeito. — Ela disse, depois de mais alguns passos.

— Ponto extra? — Ephir franziu as sobrancelhas.

Ela esfregou a prova na cara dele.

— Aqui. Bem. Aqui. Diz claramente "nove mais um igual a dez". Você ganhou um ponto extra, Ephir. Agora eu quero saber como.

— Haa, era de se esperar de um estudante que tem bolsa de estudos por nota. Ter crédito pra ganhar ponto extra mesmo quando deixa uma questão em branco, huh.

— Huh... — O "gênio" removeu a prova de sua estupidez da cara. — A gente teve coisas de ganhar ponto este bimes...? Ah! — Ele interrompeu a própria pergunta quando se lembrou e seu rosto se iluminou de compreensão. — O mini livro cheio de exercícios que a professora passou pro fim de semana, acho. Ela disse que se a gente não quisesse ter dificuldade no assunto pro resto da vida era melhor lermos e fazermos tudo... Então eu comprei um energético e virei o sábado à noite, pra depois ainda tentar enfiar o nariz no livro de literatura. Eu nem consegui me recuperar no domingo, porque tive que fazer uma redação sobre o livro... Foi triste.

Ephir fez uma cara de sofrimento e se encolheu um pouco com a memória de como madrugou, mas sua expressão aliviou um pouco ao perceber as coisas deliciosas e não muito saudáveis da lanchonete. Nem um pouco baratas, também. Uma fatia de pizza tava cinco reais. Ele sabia que ia se arrepender depois se não comprasse biscoitos integrais, mas havia tirado um dez. Uma comemoração não soava mal.

— Deve ter sido nesse dia que você disse no intervalo que tava cansado demais pra comer e tivemos que insistir até você engolir uns biscoitos. — Nante acrescentou, mas Ephir não prestou muita atenção.

Se ele fosse comemorar toda vez que tirasse uma nota boa, então ele acabaria liso. Afinal, justo como Nante disse, ele era um estudante bolsista por causa de suas boas notas.

— Isso poderia ter sido em qualquer outro dia, não? Ele está quase sempre com essa cara de quem vai desmaiar se não tirar um cochilo.

Biscoitos integrais fariam bem menos mal à saúde, mas se ele ia comprar na escola, era melhor ter estocado em casa.

— Não fala de cochilo que vai dar vontade nele... — O rapaz mais alto de cabelo castanho claro e pele morena ia rir, mas percebeu que o principal assunto da conversa estava se afastando. Mo também notou, e chamou por Ephir. O menino era rápido, quando os dois o alcançaram, ele estava babando enquanto olhava pra comida do outro lado do vidro.

— Pu...

— "Pu"? — Mo questionou, sem conseguir ver direito pra o que ele ele estava olhando, mas totalmente capaz de perceber os olhares de outras pessoas, estranhando um cara de segundo ano com olhos vidrados nos lanches. Desde quando a comida feita sem cuidado que a loja vendia conseguia fazer alguém babar?

— Pudim! Estão vendendo mini pudins hoje! Eu não sei fazer pudim, muito menos mini, então vou comprar pelo menos um! — Ele disse, feliz como um aluno em recuperação que tirou nota máxima (embora algo assim não o fosse fazer tão feliz) e no meio tempo que falava, já havia corrido pra fila.

Quando voltou pra sala, Ephir entrou cantarolando com três mini pudins nos braços, a questão de saúde ou dinheiro há muito esquecida. Ele se jogou na cadeira, mas cuidadosamente colocou os pudins na mesa e começou a comer o primeiro com muita satisfação. Minutos depois, seus dois amigos chegaram com seus lanches e caras frustradas.

Mo soltou um suspiro pesado enquanto encostava uma cadeira na de Ephir, e Nante estava prestes a fazer o mesmo quando percebeu uma coisa.

— Ei, Ephir, seu casaco tá quase caindo da sua bolsa.

Isso foi suficiente pra fazer o garoto de cabelo caramelo congelar, o que deu oportunidade pra Nante pegar o casaco.

— Hum? Eu nunca tinha visto esse. — Ele disse, analisando a peça de roupa.

Mo franziu o cenho.

— Não é um pouco grande demais pra você? — Ela perguntou, lançando um olhar para Ephir, que havia acabado de pegar o casaco de volta das mãos de Nante.

— E também é muito confortável, deve ser caro, não? Queria ter visto se é de marca. Ei, seus ideais incomuns não estão no ponto que você decidiu roubar, né?

— Não! Esse casaco é emprestado, ok? — Ephir respondeu num tom irritado, agarrando a peça protetivamente. Logo depois que as palavras saíram de sua boca, ele se arrependeu. — Eu meio que dormi aleatoriamente e acharam que eu era um sem teto.

— Isso é tão a sua cara que eu acreditaria, se não me parecesse que você está usando sua habilidade de exagerar pra distorcer a história enquanto você deixa coisas de fora. — Mo bebeu um gole de seu copo de café com cara de "desembucha".

— Ou se esse negócio não parecesse tão alta qualidade pra alguém simplesmente se desfazer. Se bem que pra alguém muito cheio de dinheiro, o que é um casaco caro qualquer, não é mesmo? — Nante começou a refletir e seu olhar ficou um pouco distante.

— Vocês são muito... Argh, é só um casaco.

— De pelo menos duzentos reais.

— ...O quanto alguém pagaria por você, caso fosse vendido como escravo, mudaria o fato de que você é um ser humano com direito à liberdade?

— Não, mas o que eu sou mudaria o fato de eu ser comprado?

Os dois trocaram um olhar entre "Pare de retrucar" e "Você quer mesmo continuar discutindo isso?" E Mo aproveitou o momento para discretamente provar uma colher de pudim. "Isso era pra ser bom?", ela quis perguntar, mas se conteve.

Depois de mais alguns instantes de discussão por olhar, Ephir suspirou.

— Que saco. Tá bem, eu explico um pouco melhor, mas só porque eu quero um pouco da opinião de alguém que não seja eu. — Ele se encostou no apoio da cadeira e se espreguiçou antes de pegar o pudim das mãos de Morgana, que ainda estava pegando colheradas e tentando decidir se odiava o pudim da lanchonete ou não. Infelizmente, no meio disso um pouco da calda caiu no casaco.

Ephir poderia jurar que seus olhos quase pularam pra fora com o que estava vendo. O belo casaco marrom fofinho e provavelmente caro, manchado de pudim... Ele saiu correndo pra tentar lavar no banheiro sem pensar duas vezes.

"Célio, não foi de propósito", ele se desculpou mentalmente, como se estivesse treinando o que iria dizer, apesar de ser bem mais parte do desespero. "Não foi culpa minha, quer dizer, foi também, eu nem deveria ter comprado pudim, era pra ser biscoito... Por que eu tinha que gostar tanto desse casaco à ponto de trazer pra escola? Uuugh...", ele começou a se arrepender profundamente de muitas escolhas na vida enquanto esfregava loucamente sabonete líquido na mancha.

"Espera---"

— Merda! O dinheiro e...! — Ele nem terminou de falar, começou a tirar as coisas que estavam nos bolsos. A nota de dois reais ainda podia ser usada se secasse, e mesmo que não ele poderia tentar reembolsar Célio, mas a nota fiscal... Alguns números dos que estavam anotados no verso já não eram mais legíveis. Ephir desejou do fundo do coração que não fosse algo importante.

"Aaaah, eu sou um desastre... Eu planejava abusar da gentileza dele, mas não desse jeito..." Ele pensou, voltando a tentar lavar o casaco e quase se deixando abater pelo desânimo. Ele tentou pensar em como poderia estender sem que o casaco fosse roubado, e se desse tudo certo ele poderia voltar pra sala a tempo de procurar algo pra embalar a coisa molhada para lavar em casa de novo e ainda terminar de comer antes que o sinal tocasse.

***

Lá estava ele, vagando por um corredor da escola de artes, com uma cara parecida com a de uma criança que quebrou o vaso mais caro de uma loja de antiguidades. Ele não queria realmente chegar o mais rápido possível onde provavelmente iria encontrar Célio, e não era como se o tempo que tivesse ali fosse pouco, então quando se deu conta, estava se arrastando para longe de onde ficava a escada. Obviamente, ele não queria adiar para sempre, e ficaria aflito se não encontrasse o cara ainda naquele dia, mas só não... Não naquele momento. Se Célio pudesse esperar um pouco, seria ótimo.

Nem era só por causa da culpa que estava sentindo ou porque se ele percebesse algo diferente com o casaco, teria que explicar o que aconteceu — era meio difícil ele não perceber mesmo que Ephir tivesse conseguido evitar que ficasse mancha, afinal, depois das lavagens o cheiro de Célio quase sumiu e grande parte foi substituído por sabão. Ele também não havia decidido muito bem que história contaria para justificar um pouco sua forma de pensar, só sabia que não podia ser a verdadeira.

Ugh, por que ele precisava se justificar mesmo? Ele não devia explicações a Célio. Quer dizer, pelo casaco ele devia, mas... Ele estava começando a dar um nó na própria cabeça. Felizmente, um leve som de piano o distraiu antes que ele considerasse batê-la na parede.

"Bem, eu me pergunto o que não ensinam aqui." Tentou criar um lembrete mental pra perguntar sua mãe qual era o preço daquilo tudo, mas provavelmente esqueceria, considerando como sua cabeça estava cheia de outras coisas. Tipo Célio, aquele infeliz.

"É natural querer chamar a atenção de uma pessoa que você se interessa, Ephir. Só que tem gente que faz isso inconscientemente, ou que usa métodos negativos. Sabe um pirralho que chama a garotinha bonita que ele vê na escola de gorda?" Enquanto ele andava, lembrou-se do que Mo disse depois de ele contar sobre o que havia acontecido com Célio até então, sobre como ele queria melhorar o plano que tinha, e como a situação toda não lhe saia da cabeça.

"Uma ova!" Ele respondeu, muito inteligentemente, mais rápido do que uma pessoa não puta da vida pode dizer "uma ova". Parou pra pensar um pouco e continuou: "Eu admito que acho que ele é interessante, mas não do jeito que você está insinuando. Só acho que testar ele seria ótimo, e se algo der errado eu posso simplesmente deixar de ir."

Ele também se lembrou de como não conseguiu terminar todos os pudins no intervalo do dia do acidente e ficou com fome e vontade de pudim até todas as aulas do dia acabarem. Foi cruel abrir a bolsa durante uma aula, ver comida e não poder comer, e pensar nisso lhe deu fome e o fez apressar o passo. Por fim ele se aproximou de uma porta que parecia ser a da sala de onde o som de piano estava vindo, mas decidiu que era melhor sentar no chão, perto da porta, do que atrapalhar a pessoa tocando. Ou quem sabe, um fantasma. Seria interessante se tivesse um fantasma lá dentro, mas irritar algum ser sobrenatural não estava exatamente em sua lista de prioridades.

Depois da pessoa tocando errar algumas vezes, ele pode ouvir o que parecia ser uma mulher conversando, e então a porta se abriu. Ele se perguntou como não percebeu som de passos, mas não prestou atenção na própria pergunta ao encontrar um par de olhos castanhos fixos nele. Ele esperou que a garota de cabelo loiro mel dissesse alguma coisa, mas em vez disso ela continuou encarando.

— Soli? — Uma voz feminina chamou de dentro da sala um pouco depois do som do piano parar, mas a pessoa que Ephir imaginou ser Soli não se virou, e seu rosto não demonstrou nenhuma reação, apenas continuou com uma cara pensativa por mais alguns instantes, até que ela finalmente sorriu e rabiscou rapidamente algo num caderno que ela tirou do bolso da saia jeans. Obviamente, ela tinha um lápis também. Terminado o rabisco, ela mostrou para o rapaz ainda sentado no chão.

"Você gostou da música também, não é?" Ephir leu a tempo de uma outra mulher aparecer na porta. Os olhos dela estavam semicerrados e ela parecia exasperada quando perguntou para ninguém em particular:

— De novo?

— De novo o quê? — Ele perguntou de volta, e provável-Soli não demorou pra começar a escrever novamente.

"Eu conheci ela de uma forma parecida"

— Você sentou do lado de fora da porta também? — Ephir franziu as sobrancelhas, de repente confuso sobre muitas coisas. Era normal sentar perto de portas pra ouvir o que os outros estão fazendo e ele não sabia? Como aquela guria escrevia tão rápido? Será que a touca dela era tão cara quanto o casaco de Célio, que aliás ele estava segurando nos braços desde que chegou? Aquilo contava como abraço? O que...

"Nah, eu simplesmente entrei na sala" Soli interrompeu seus pensamentos com sua resposta, e ele percebeu um coraçãozinho ainda identificável rabiscado no fim da frase. Quando Ephir olhou pra ela, a garota tinha o sorriso de alguém que tomou sorvete antes do almoço, mas não levou bronca. Isso fez a outra mulher, de cabelo preto liso curto e olhos também pretos, embora semicerrados, suspirar, apesar de ter soado mais como um "humpf". Provavelmente porque ela estava atenta a cada detalhe da conversa se desenvolvendo. Soli soltou um risinho ao olhar para a outra um instante, e escreveu algo pra ela que fez sua expressão suavizar.

— Você estava ouvindo, não é? Sentar no chão não é a melhor ideia. Eu já tenho uma companhia, mais uma pessoa não faz mal. — Ephir não entendeu que ela estava o convidando pra entrar até ela dar as costas e ir na frente. Soli deu de ombros, e aproveitou pra mostrar uma de suas mensagens já prontas, imaginando que talvez Ephir estivesse confuso com a mesma coisa que muitas pessoas que ela conheceram também estiveram.

"Q.: Por que você escreve em vez de falar?

A.: Eu perdi minha audição e me sinto confortável escrevendo, embora esteja aprendendo libras também. Eu desenvolvi muito minha habilidade de leitura labial, então apenas peço que fale devagar e não vai precisar se preocupar."

— Entendo. Tudo bem, e, hum, eu estou falando devagar o suficiente? — Ele perguntou, e se levantou.

"É, sim, mas não precisa ser tanto" Soli riu de leve, parecendo aliviada, e entrou também. O garoto hesitou um pouco, mas achou melhor fazer o mesmo. Naturalmente, ele ainda se sentiu um pouco desconfiado, mas não o suficiente pra compensar o quão interessante parecia assistir alguém tocar e se distrair com isso.

E a mulher que ele logo descobriu se chamar Ihna tocava muito bem. No começo, foi uma surpresa pra ele não ter mais ninguém na sala, mas Ihna explicou que ela dava aula lá, e ninguém se importava muito que ela ficasse na sala enquanto não houvesse gente precisando do espaço, ou do piano. Atualmente, muita gente gostava de ouvi-la, e não era raro que tentassem chegar mais perto pra ouvir ou quisessem vê-la tocando também, embora as circunstâncias em que Soli e Ephir fizeram isso fossem as mais peculiares de longe. Ela não explicou muito bem o porquê, no entanto.

E Soli, ela atualmente era bem fácil de se comunicar, e escrevia incrivelmente rápido. Consequentemente, a letra dela era bem simples e sem muitos detalhes, mas longe de feia. "Sendo compreensível, o resto é besteira", ela escreveu quando estavam discutindo o assunto. Infelizmente, ela não pôde ficar muito, e explicou que na hora que abriu a porta era porque já estava saindo para encontrar a irmã justo a tempo da tal chegar, procurando por ela. A esse ponto, Ephir já havia mencionado as aulas de dança semanais da mãe, então Soli pode escrever um despreocupado "Até mais" tanto pra ele quanto pra Ihna, antes de ir.

Sem a simpatia de Soli ali, o clima entre ele e Ihna ficou um tanto desconfortável, e a música era a única coisa evitando um silêncio angustiante. Mas a música era boa, e mesmo que ambos não tivessem nada a dizer, parecia não ter problema. Ephir estava com a cabeça apoiada na mão e o cotovelo apoiado na carteira em que estava sentado quando Ihna acabou a música e depois de olhar um pouco pra Ephir, disse:

— Eu conheço essa cara.

O que obviamente deixou o rapaz confuso, porque, bem, ele só conhecia aquela mulher há mais ou menos meia hora.

Por que será que isso soa familiar?

— Essa é a cara de alguém que está insatisfeito com alguma coisa. — Ela continuou. — Eu arriscaria dizer que você está escapando de algo.

Ele queria ter dito "Eu estou insatisfeito com muitas coisas" antes que a próxima frase dela lhe tirasse a oportunidade, e também a fala. Ela pareceu satisfeita por ele apenas ter franzido as sobrancelhas, em vez de retrucar.

— Eu digo isso porque já fiz muito uma cara parecida, e quando eu olhava no espelho achava que estava tudo praticamente escrito na minha testa. Mas surpreendentemente, eu era a única a chegar nessa conclusão. — Ela comprimiu os lábios um pouco, pensando, mas não deu tempo suficiente para que Ephir reagisse. — A forma como você segura esse casaco te entrega um pouco. Mas é compreensível estar escapando se a pessoa estiver com o casaco preferido do diretor.

Silêncio.

Silêncio.

Silêncio...

— Huh?

— Eu trabalho aqui, como você esperava que eu não reconhecesse o casaco preferido dele?

"Célio não roubou o casaco do diretor, roubou? Eu sei que é um casaco muito bom, mas..."

— Quem é o diretor?

Ihna franziu um pouco o cenho.

— Célio...

— Célio? — Ele interrompeu, antes que ela dissesse o nome completo. Só aquele bastava.

— Sim, Célio.

— Célio é o diretor.

— É.

Ele poderia ter caído da cadeira se fosse um pouco mais dramático.

— Quantos anos ele tem?

— Eu nunca perguntei... Mas acho que algo perto de trinta, talvez.

"Trinta..." A palavra ecoou na cabeça dele até perder o sentido.

Ihna olhou pra cara dele e suspirou.

— Embora, não me parece que você esteja com o casaco dele por má intenção. Você segura de uma forma cuidadosa, quase carinhosa.

"Carinhosa!" Sua mente repetiu, indignada. "Eu sou um dos ursinhos carinhosos agora?!"

Isso era o que ele estava conseguindo assimilar. Mas de fato, ele tinha que amar aquele casaco como amava seus olhos na cara, afinal era caro, bom e emprestado.

— Ora, que observadora você... — Ele murmurou, e após absorver uma grande quantidade de oxigênio de uma só vez e liberar gás carbônico como se isso fosse liberar suas frustrações também, continuou com o tom de voz normal: — Eu não sei onde você quer chegar, mas esse casaco me foi emprestado. Só isso.

— Eu também não sei muito bem onde quero chegar. — Ela olhou pro piano. — É que, como eu disse, sua expressão me pareceu familiar. Eu te conheci hoje, mas de repente pareceu que eu entendi algo sobre você que deveria levar muito mais tempo. Eu não sei se você é transparente demais ou se eu sou realmente habilidosa para me reconhecer nos outros, mas... — Ela voltou a olhar pra ele. — Alguém já te machucou?

Por alguns instantes, a sala pareceu ficar em absoluto silêncio, mas isso era difícil considerando os vários sons do lado de fora. Pessoas falando, passos, música de grupos de dança... Eram sons distantes e abafados, mas ainda poder ouvir eles era o que certificava Ephir que o mundo não havia parado.

— Que pergunta estranha. Quem consegue viver sem machucar alguém? — Ele tentou responder de forma que tanto a pergunta quanto a resposta soassem ambíguas.

— Não foi isso que eu quis dizer... Você é defensivo, Ephir. Como se em qualquer deslize fossem te fazer mal.

— ...Você é uma pessoa muito interessante, Ihna. — Ele se levantou. — Mas eu não quero continuar essa conversa. Se nos vermos semana que vem... Por favor, não mencione esse assunto.

E com um aceno com a mão, ele saiu da sala.

Ele nem sabia se queria ir pra escada e talvez encontrar com Célio, mas não teve tempo de decidir. Alguns metros à frente estava o dito cujo, pregando algo num mural.

Notas finais
Este capítulo quase que não saia este mês. Eu não tenho tanto um senso de obrigação pra atualizar a história, afinal. Mas acabei escrevendo bastante quando fui no lugar que me inspirou. Pra quem não sabe, Soli e Ihna são personagens de outras histórias minhas que estão postadas neste site, "Misofonia" e "A pianist's melancholy". Nenhuma das histórias depende das outras para ter sentido (o mesmo com esta), porém é possível saber mais sobre as personagens.