Gentleness

4 (Olá) passado


Notas iniciais
Foi uma luta difícil terminar este capítulo, e está mais curto do que os outros, mas bem, foi um capítulo necessário para a história prosseguir. Dá pra sentir a tensão? Eu espero que meu planejamento não seja tão clichê. Cuidado com as expectativas, e sofra comigo até o próximo capítulo de Kuroshitsuji, porque só um conveniente conjunto de coincidências pra que eu termine antes. Olha, pelo menos sei o que estou fazendo. Eu acho.

— Ah, Ephir...? — Célio se surpreendeu ao perceber o outro ali.

O garoto engoliu em seco, mas deu alguns passos a frente e estendeu o casaco que abraçara até então sem fazer contato visual. Num tom de nervosismo, ele disse: — Isso é seu. Desculpe ter esquecido de devolver no mesmo dia, e obrigado...

Célio olhou para o casaco com uma expressão neutra, mas seus olhos estavam tendendo a semicerrarem.

— ...Sim, é meu. — Ele pegou a peça de roupa. — Obrigado por devolver.

Ephir teve uma luta interna muito dura que acabou antes que o adulto tivesse chance de revistar o casaco. Graças a isso, ele prendeu aqueles olhos azuis em seus castanhos, e juntou coragem para dizer:

— Hum, essa não é a única coisa pela qual preciso me desculpar. — Célio lhe lançou um olhar questionador, mas nada disse, encorajando-o a continuar. — Eu sem querer acabei molhando as coisas dentro do casaco, e não sei o quanto isso pode ter danificado algo... Mas garanto que está tudo aí. Também peço desculpas por ter saído daquele jeito semana passada, e também por não ter ido lhe devolver isso assim que cheguei hoje.

— Você molhou...? — Célio murmurou, descrente, enquanto procurava algo nos bolsos. Entre seus dedos logo segurou uma nota fiscal, virando-a para ver o verso. O número de telefone anotado estava borrado demais para ser compreensível.

"Oh... Era algo importante. ", Ephir pensou.

O rosto de Célio se contorceu, e Ephir não sabia dizer se era por desespero ou raiva. Ou alguma outra coisa. Ele só sabia que não gostava de ver aquela cara. O Célio sorrindo era muito melhor. Aquele lhe fazia sentir como se tivesse comido uma sopa estragada.

— ...Hah. — Célio guardou o papel novamente, pendurou o casaco no ombro e voltou a pregar papéis no mural.

Ephir ficou imóvel, com reticências e um ponto de interrogação imaginários sobre sua cabeça. Levou um tempo para se dar conta de que a conversa havia acabado ali, e ele estava sendo ignorado, e então não soube mais o que fazer. Não que ele soubesse antes.

O adulto terminou com aquele mural e lhe deu as costas. Ephir abriu a boca para dizer alguma coisa quando ele começou a andar, mas Célio parou, e sem se virar para trás, disse:

— Se você espera que eu diga "tudo bem", então estou avisando que não consigo fazer isso. Não... Agora.

E com os avisos ou o que quer fosse e um copo cheio de alfinetes, ele foi embora, deixando uma estátua petrificada muito parecida com um garoto chamado Ephir, o protagonista desta história, para trás.

— Tch. — A estátua estalou a língua e trincou os dentes, voltando a ser Ephir, antes de correr pelo caminho que viu Célio ir. Três corredores, e ali estava o bendito, grudando aquelas folhas em outro mural.

— Célio. — Ele ofegou um pouco pela falta de costume em correr. O exercício físico (e um tanto mental) que tinha era quando cuidava do filho da vizinha, uma miniatura de ser humano danada e que o fazia cansar mais fácil do que uma aula de educação física, mas não era algo no nível de mantê-lo em forma e acabar com grande parte de seu sedentarismo. — Eu vou te ajudar a pregar esse negócio.

Isso fez o homem franzir as sobrancelhas, exasperado.

— Se você estiver esperando conseguir alguma coisa disso, não vai dar certo...

— Sim, eu quero conseguir alguma coisa... — Ele pensou um pouco e completou antes que o outro retrucasse: — Passar um pouco de tempo com você. E você ganha com isso, então qual é o problema?

Ele não iria mentir dizendo que era pela pura vontade de transformar o mundo num lugar melhor, afinal. E não estava mentindo sobre seus motivos, embora estivesse omitindo que não suportava aquele gelo e queria quebrá-lo.

O adulto considerou um pouco, e sorriu mornamente, um pouco mais frio que de costume, com um suspiro que soava como um riso curto contido.

— Só estou chateado, mas se insiste. — Ele deu ao garoto o copo descartável cheio de alfinetes coloridos. — Você provavelmente não sabe onde ficam todos os murais, não faz sentido dividir as folhas.

"Se você me desse as folhas, como eu poderia passar um tempo com você?" Ephir pensou.

Nos quinze minutos seguintes, a comunicação deles se resumiu ao trabalho de espalhar aqueles papéis. De tanto vê-los, Ephir acabou lendo, e descubriu que se tratava de um festival para apresentar os resultados dos alunos durante aquele semestre.

—...Por que só você está cuidando disso? — O garoto perguntou quando Célio lhe estendeu a mão para que entregasse um alfinete.

O homem não olhou pra ele, mas respondeu:

— Eu não estou numa posição em que posso ficar de pernas pro ar esperando você aparecer. Se alguém vê o diretor fazendo isso, é claro que vão lhe dar o que fazer.

Ephir ficou em silêncio durante alguns segundos, absorvendo o que o outro disse. Quando Célio lhe estendeu a mão novamente, havia muitas coisas que ele queria ter dito durante o breve contato visual, mas o que saiu foi simplesmente:

— Você ficou de pernas pro ar?

Seu tom de voz espantado perguntava "literalmente?", o que fez Célio perceber o total novo significado que sua frase ganhou.

— Quê? Não! Claro que não. Er, só... Huh... Você é um garoto estranho, Ephir.

— Eu que lhe digo isso.

Célio soltou um suspiro, mas este acabou virando riso no final. Suave, curto. Ephir franziu o cenho.

— Você não se permite muito rir, não é?

— Eu estou chateado. — Ele sinalizou para que Ephir se apressasse em lhe dar um alfinete.

— Já sei disso. Mas por quê, realmente? — Ele disse, finalmente entregando um, de cabeça amarelo vibrante que podia cegar temporariamente alguém.

O mais velho lhe lançou um olhar de "fala sério" e se virou para o mural.

— ...Aquele número era de uma pessoa importante pra mim que eu não via há muito tempo, e só recentemente encontrei num café. Claro, você não tinha como saber, mas... — Ele trincou os dentes, focando no mural. — ...eu esperava mais responsabilidade.

"Ah, ele esperava algo de mim sem nem me conhecer", algo nas profundezas da cabeça de Ephir murmurou, mas o que o Ephir físico falou foi:

— ...

O que significa, nada. Célio dirigiu o olhar para ele, e se encararam. Seus olhos provavelmente pediam desculpas, mas as palavras não saiam tão frequentemente da sua boca, ainda mais num mesmo dia.

— Bem... — Célio desviou o olhar e continuou seu caminho, deixando o garoto atordoado por alguns instantes antes de segui-lo. — Temos mais dois, e o seu tempo comigo acaba.

Aquilo doeu. Dizer "tudo bem" era difícil, só de imaginar ele sentia um gosto azedo na boca e um nó na garganta. Era assim que Célio estava se sentindo sobre perdoá-lo? Em vez de apenas concordar e seguir em frente, ele comentou, tão casualmente quanto pôde:

— Tem uma pessoa que já foi importante pra mim, mas tentamos não nos vermos o máximo possível. — Célio parou. Ephir pensou que ele talvez tivesse se interessado, mas quando viu o mural perto do homem, ficou indeciso. — Ah, não que isso tenha a ver com alguma coisa ou algo assim, só pensei em dizer... Já que me lembrou... Haha...

Quando seus olhos se encontraram durante a passagem de alfinetes, o adulto lhe lançou um olhar que o jovem não conseguiu compreender imediatamente. Célio, se dando conta disso, murmurou enquanto voltava a se focar em seu trabalho.

— Fale.

— Huh?

— Eu estou ouvindo. Vou ir mais devagar, então fale.

"Huh? Ele não tava p da vida comigo agora há pouco?!"

— Então... Tá. — Ephir acariciou o outro braço com a mão livre. — Desde o terceiro ano, nós éramos da mesma classe. Eu havia acabado de me mudar com a minha mãe, mudado de escola, e a única coisa que eu fazia era estudar pra conseguir uma bolsa de estudos na escola particular que ela havia me colocado. A mensalidade ainda não era muito cara... Mas minha mãe queria que eu tivesse mais chances na vida que ela, e eu me sentia culpado...

"Eu não valia tanto esforço, mesmo que fosse uma questão dela satisfazer um desejo próprio", ele pensou, subitamente sentindo seu estômago queimar com uma vontade repentina de não existir, e tais palavras nunca deixaram sua boca.

O homem lhe estendeu a mão para mais um alfinete, mas o gesto pareceu estar incentivando-o a falar. Não de forma suave, afinal foi um lembrete de que a qualquer momento o outro poderia se apressar e lhe dar as costas, ou ao menos foi o que o jovem entendeu. Ele olhou pro chão um pouco, e transformou o suspiro que queria escapar em apenas uma silenciosa longa respiração.

— A garota que eu conheci era muito estudiosa. Ficamos amigos porque demos certo fazendo um trabalho juntos, e nos afastamos dos colegas de classe que considerávamos "pesos mortos". Sabe, gente que não se importava de estudar porque ia passar de qualquer jeito. Só nós nos entendíamos, éramos inseparáveis. Na primeira vez que eu ganhei a bolsa, ela ficou feliz. Na segunda, ela pediu para que eu estudasse com ela. Geralmente, nossa diferença era pequena, e ela até conseguiu a bolsa parcial uma vez. Todas as bolsas eram de um ano, aliás. E a mensalidade aumentava cada ano também.- Eles seguiram lentamente para procurar o próximo mural. -Até que... No oitavo ano... Ela tentou me sabotar. Me ensinando as coisas erradas quando estudávamos juntos, passando exercícios com respostas erradas, e por aí vai, tudo com um grande sorriso de "sua amiga está lhe ajudando, você consegue!"

Ele apertou a mão livre em punho, mas o gesto não ajudou em coisa alguma, então ele a enfiou no bolso.

— Eu estudava por livros da biblioteca também, então uma hora percebi. Não desconfiei muito, mas quando o estrago se tornou grande mesmo que eu estudasse mais e mais, até mesmo com ela, questionei se ela estava com dificuldade e ainda não havia notado, me passando os erros com as melhores intenções. E ela... Sorriu de um jeito tão distorcido. Tão cheio de desdém, me dá arrepios lembrar.

Ephir tentou falar num tom de brincadeira que ainda sentia arrepios, mas sua voz falhou. Eles chegaram em sua última parada, e como havia dito que faria, Célio estava estava ouvindo atentamente, silencioso como um urso de pelúcia e fiel confidente.

— E então disse que estava de saco cheio de mim, eu estava destruindo a auto estima dela mesmo quando tudo o que ela queria era se aproveitar de outra pessoa inteligente, ou me controlar. Aparentemente, ela estava tentando me sabotar há muito mais tempo... E então, eu tive que repetir o ano. — Com isso, Célio olhou para ele. Haviam chegado no último mural, mas aqueles olhos azuis estavam em Ephir, preocupados e atentos. — Os professores não teriam reprovado um aluno tão bom, mas eu disse para minha mãe que eu competia muito com uma amiga e, essa chance seria melhor para ganharmos nossas bolsas tranquilamente, já que são selecionados os melhores de uma série. Minha mãe não estava com contas apertadas graças às minhas bolsas anteriores, então concordou e convenceu os professores. Eu ralei e tirei notas tão boas que a única coisa na minha cabeça eram as matérias da escola e o que podia contar pro psicológo da escola preocupado com minha reprovação, mas valeu à pena. Ganhei a bolsa integral para o nono ano. Nunca mais vi minha "amiga", porque ela mudou de turno, e mesmo que não, aposto que ela não quer me ver até hoje.

Quando Ephir deu uma pausa, Célio comentou:

— Pela forma como fala, não parece que não quer vê-la de novo.

O olhar do garoto, que já havia se fixado no chão com a voz de Célio que parecia que ele não ouvia há meses, se tornou miserável, embora ele tenha sucedido em manter uma fachada séria.

— Eu tenho muitas memórias boas com ela. Não queria pensar que cada coisa, cada pequena coisa que fizemos juntos já era distorcida. Mas era... Eu acho. Não sei. Queria valorizar a parte boa da nossa amizade, mas... Mas mesmo assim, continua sendo incrivelmente cruel. — Ephir esfregou a mão livre pelo rosto, e então pelo cabelo. — Não me sinto melhor depois de contar essa história. Vamos acabar logo com isso?

A pergunta surpreendeu o adulto, afinal o garoto havia dito antes que queria passar mais tempo com ele. Porém, logo ele considerou que se Ephir não estava muito bem agora, era natural que quisesse ficar sozinho. Ele entendia muito bem, pois tudo o que queria era ir para casa e se enfiar debaixo de um edredom com miojo e uma lista de filmes de comédia que possivelmente melhorariam seu humor. Se piorasse, ele comeria mais miojo e iria dormir.

No entanto, eles nunca chegaram a acabar logo com aquilo, porque uma figura os alcançou, graças à demora causada pela história de Ephir, e não era ninguém menos que a tal pessoa importante de Célio.

Notas finais
Se precisarem de mim, estarei me escondendo num buraco. Que buraco? Boa pergunta.