Gentleness

13 ( Sem ) salvação


Notas iniciais
"No hetero, but I love you" — Nante, probably

Uma batalha épica de encarar estava acontecendo entre Mo e Anne.

A primeira estava andando até o prédio infantil para buscar a irmãzinha, quando viu Anne conversando com Lori muito desconfortável num banquinho. Os pais dele geralmente demoravam para buscá-lo em dias que Ephir não podia, e ele devia estar esperando quando a loira apareceu. Num plano rápido, Morgana disse pra irmãzinha ir brincar com ele no playground da escola enquanto ela conversava com Anne.

— O que você queria com o Lori? — Questionara, assim que se foram.

Anne não respondeu de imediato. Semicerrou os olhos, mexeu o pescoço pra lá e pra cá e quando Mo estava prestes a abrir a boca com raiva, disse:

— Ah, eu te conheço. Foi você que colocou Ephir debaixo da sua asa, huh. Valeu a pena? — Anne riu do próprio trocadilho.

Mo grunhiu, com a mão coçando pra acertar aquele rosto de pele lisinha: — Responda minha pergunta.

— E se eu não quiser? — A loira largou o sorriso.

E agora estavam se encarando. Dava pra sentir o ódio ficar mais e mais denso, embora ninguém por perto tenha pensado em se meter.

Anne era boa o suficiente pra continuar competindo por mais alguns minutos, mas por impaciência, deu tapinhas ao seu lado no banquinho e disse: — Quer tomar o lugar dele?

De Lori? Mo não soube se ela estava falando sério ou lhe provocando. Com aquele tom de voz irritante de quem se acha superior que a loira tinha, era difícil identificar muita emoção. Hesitou por alguns momentos, como quem recebe o convite do lobo para chegar mais perto.

Por fim, sentou. Se convenceu de que era pela satisfação de desafiá-la. Anne lhe deu um olhar entretido.

— Vou te contar uma história. — disse esta.

— Sobre por que você beijou Ephir? Estou interessadíssima. — Mo retrucou.

Anne negou balançando a cabeça, dizendo: — Essa é fácil de entender. A que vou contar é sobre uma garotinha.

Mo semicerrou os olhos, tentanto entender o que se passava naquela cabeça que havia conquistado Ephir por tanto tempo.

— Não tinha quem a entendesse no pequeno mundo em que vivia. Lá só havia pessoas horríveis, que jogavam pedras na garotinha todos os dias...

— Me poupe... — Mo murmurou, rolando os olhos.

— ...Um dia uma nave caiu e quebrou nesse mundo, com um garotinho com tantos machucados quanto ela. Eles se entendiam tão bem que a garotinha pensou que devia ser o destino ele ter ido parar no mundo dela, mas... — Anne deixou de olhar em seus olhos para dobrar uma aviãozinho com uma das folhas do fichário em seu colo. Mo poderia ter se levantado enquanto isso, mas algo naquela história soou um alarme em sua cabeça. — ...ele é um alienígena. Um ser estranho, diferente, que não pertencia àquele mundo. E não podia levá-la pra longe com ele, porque ela fazia parte dali. Por mais parecidos que fossem, suas diferenças criavam um abismo entre eles. Pior, o mundo dela queria prendê-lo ali. Então ela esperou que ele entendesse, porque até então sempre se entendiam, quando ela lhe deu um chutão na bunda que o mandou de volta pro espaço. Infelizmente, ele ficou putíssimo enquanto começava a sufocar sem ter uma nave adaptada. — Anne jogou o avião no ar e se virou pra Mo.

O aviãozinho caiu no meio de algumas crianças brincando e foi pisoteado. Uma menininha que estava isolada num canto observando os outros percebeu e foi pegá-lo. Confusão tomou seu rosto ao desdobrá-lo e encontrar um desenho de um boneco palito com x's nos olhos e uma língua pra fora.

Mo estava de cenho franzido.

— E? Nem eu entendi. Por que sequer me contou isso?

Anne se levantou e bateu a poeira da roupa.

— Porque eu nunca disse que acabou. Sempre vem algo depois da mentira que chamam de fim. E eu não gosto muito da continuação, mas nós duas sabemos que o garoto da nave nunca sentaria no banquinho comigo. — Anne lhe ofereceu um sorriso amargo, colocou a mochila nas costas e foi embora.

Mo sentiu de vontade arrancar os cabelos. Os de Anne e o os seus próprios.

Bem longe dali, Nante compartilhava o mesmo sentimento, por motivos diferentes. Estava perdido.

O que ele esperava? Realmente achar o apartamento de Ephir que nem num passe de mágica? Tolice. Não tinha memória fotográfica.

Cansado, decidiu parar numa padaria pra pedir informações. Felizmente ainda lembrava de uma farmácia enorme como ponto de referência na área, então quem sabe...

"Não sei informar, moço. Uma farmácia? Tem muitas farmácias por aqui", foi o que ele recebeu e ainda acabou sendo convencido a comprar um sonho. Lembrando de Ephir, decidiu levar um pouco de pudim também, para se manter motivado a ainda encontrar o apartamento.

Estava suspirando e com os pés doendo enquanto mordiscava o sonho num dos banquinhos da padaria, quando uma senhora derrubou uma sacola perto dele.

— Ah, que desastre, muito obrigada... — Ela murmurou enquanto ele juntava as coisas que haviam se espalhado pelo chão para ela. — Minha coluna já não é mais como era antes, como é bom ser jovem...

— Disponha, mas tenha mais cuidado. — Ele sorriu educadamente, entregando a sacola.- Ainda bem que não tinha algo que pudesse... Huh? — Seu rosto ficou estampado de surpresa. — Não era você a dona Mariana, que cuidou do Lori por um tempo? Eu lembro quando você foi buscar ele na escola...

A senhora ajustou os óculos.

— Ora, sou eu mesma. Mas quem é você mesmo?

— Nante, dona Mariana. Sou eu, Nante. Amigo de Ephir, eu estava com ele no dia que Lori esqueceu a chave e ficou até tarde na escola...

— Aaah! Sei, sei. Você está diferente. Cresceu ou eu que diminuí? — Ela riu.

— Haha... Eu não sei, mas você lembra onde é o prédio da família de Lori? Meu amigo vive lá também, caso a senhora não lembre. Ele ficou doente e eu tenho umas coisas da escola pra entregar pra ele. — Nante suou frio um pouco.

— Hum... Acho que sim... Se eu não me engano, era... — Ela foi citando os detalhes ao passo que vinham à memória.

— Eu não lembro, mas deve ser isso mesmo! Pode anotar pra mim por favor? — Com as energias renovadas, ele tirou caneta e caderno da bolsa para que ela anotasse. Depois ainda conversaram mais uns instantes e ele seguiu saltitante com o sonho na mão e o caderno na outra, além do pudim na bolsa.

Perguntando de estabelecimento em estabelecimento, ele por fim conseguiu chegar em frente ao prédio de Ephir. A ansiedade lhe deu um murro no estômago ao olhar paro o botão que tinha de apertar para tocar a campainha do apartamento dele. Talvez tivesse encarado por tempo suficiente para a porteira se sentir interessada, o que só lhe deixava mais nervoso.

Deu às costas pra respirar fundo, contou até vinte e numa onda de determinação apertou.

— Quem é? — Uma voz rouca masculina perguntou, num tom de quem não esperava visitas.

— Eu vim trazer coisas das aulas. Sou eu, Nante. — respondeu, no tom mais confiante que se sentiu capaz no momento. Estava com medo que o tufo caramelo desligasse na sua cara. — Me dei... —

— Sua voz fica horrível no interfone. — Ephir interrompeu, com um riso seco.

— Sempre tão romântico... — Nante murmurou. — Eu trouxe pudim. Me deixa entrar, Ephir. Por favor.

O silêncio tomou conta por uns bons segundos, nos quais Nante teria pensado que ele desligou, se não fosse a luzinha acesa.

— ...Quanto pudim?

— Muito pudim. — Nante mentiu descaradamente, suando frio.

— Vou abrir o portão.

E com isso o portãozinho fez um barulho. O moreno não perdeu tempo e num instante estava batendo na porta do apartamento do outro. Ephir abriu tão rápido que se fosse um pouco mais iludido, Nante poderia ter pensado que ele estava esperando perto da porta.

— Pudim. — Ephir estendeu a mão para que Nante lhe passasse.

— Sua mãe está em casa? — Nante perguntou, limpando os pés no tapete e passando através dele. Ephir moveu o maxilar e mordeu o canto do lábio inferior, segurando um suspiro muito profundo de estresse.

— Não. Por isso eu ia dizer pra você esperar na escada enquanto eu comia pudim e tirava foto do material. — O de cabelo caramelo se virou e gesticulou para fora.

— Que crueldade. Depois de me esforçar tanto pra chegar aqui, eu preciso de algo macio pra me encostar. — Nante se sentou no sofá e tirou os sapatos, passiva-agressivamente desafiando Ephir, que fechou a porta com um "que seja" ou "que saco" exausto. O moreno não soube diferenciar muito bem.

— Estou surpreso que tenha prestado tanta atenção no caminho pra lembrar. — O outro resmungou, abrindo a mochila ainda nas costas de Nante e tirando a sacola com potinhos de pudim. Percebendo isso, o de cabelo castanho claro tirou a mochila das costas e tomou a sacola das mãos dele.

— Por que não atende o telefone desde aquele dia? Mo e eu estávamos morrendo de preocupação. Andei tanto que não sinto meus pés, só pra saber se você ainda estava vivo. — Disse, mas Ephir evitou de olhar em seus olhos.

— Estou. Infelizmente. — murmurou.

— Ephir...

— Eu só queria desaparecer, ok? Eu não tenho forças pra lidar com vocês preocupados sem saber o que fazer por mim, eu estou cansado demais de tudo isso. Tudo... — Ele espremeu os olhos como quem quer chorar, mas nada caiu. — Só estou estudando porque só sirvo pra isso mesmo. Mal consigo comer, só quero vomitar o tempo todo com a sensação daquele beijo... Claro que eu ia ficar doente assim. Claro, combina com meu estado mental. O pior de tudo é que eu odeio sentir que estou fazendo drama por besteira, mas essa aflição não vai embora...!

Nante puxou ele pra um abraço, colocando a cabeça do outro contra seu pescoço ainda coberto pela gola da blusa emprestada. A mão enrolada nos fios caramelo acariciava, enquanto a outra soltou a sacola no chão pra se prender na cintura de Ephir como se nunca mais quisesse soltar.

— Nante... Por que você está chorando?

Depois de um soluço, ele respondeu: — Eu... Se você faz essa cara de quem quer chorar, eu não consigo evitar... Vendo... Ver você triste... me deixa triste também. Seus sentimentos são válidos, Phir.

Ephir baixou os olhos e se deixou afundar no cheiro de Nante. Dava pra perceber que ele havia suado muito, provavelmente sofrido usando aquela blusa de frio por baixo da roupa, além de andar muito nesse estado... por alguma razão o de cabelo caramelo não conseguia se sentir incomodado com a sensação. Fraco, ainda dava pra perceber um perfume amadeirado.

"Ele realmente me ama, não é?", pensou, fechando os olhos e abraçando de volta. Seus pensamentos foram se acalmando até ficar com a mente em branco.

— Ephir?

— Hum?

— Você... ouviu o que eu disse?

— Uhum.

— Não vai dizer nada?

— U-um.

"Confortável...", Ephir pensou, se encaixando mais nos braços de Nante. Apesar de irritante e bobo, tinha algo reconfortante em ser abraçado por esse garoto capaz de chorar por ele.

— ...O seu corpo está quente. Você teve febre?

— Uhum... — O de cabelo caramelo estava sentindo sua consciência ir embora.

— Ephir, você tá dormindo...? Ou desmaiando?

— Uu...

Num pânico silencioso, Nante afastou Ephir e o deitou no sofá pra pesquisar na Internet como cuidar dele. Desajeitado, teve que se virar sem saber onde ficavam as coisas pela casa, mas felizmente não demorou pra Ephir acordar e poder lhe instruir melhor. Enquanto o de cabelo caramelo dizia que a melhor opção pra comer alguma coisa eram os pudins, Nante buscou coisas pela cozinha e voltou com um copo na mão, o celular na outra e uma cara de quem já espera frustração.

— Não. — Ephir balançou a cabeça para o limão com mel.

— Vamos lá...

— Eu vou colocar meu estômago pra fora.

— Eu coloco de volta no lugar.

— Como? Eu não sou muito fã de gore...

— Uh, um futuro médico por obrigação numa família de médicos tem seus segredos. — Nante disse numa voz incerta, mas piscou pra terminar a brincadeira.

— Você disse que nunca presta atenção nessas coisas da sua família...

— Ephir, pare de discutir e bebe!

O doente virou a cara para o outro lado. Exasperado, Nante começou a fazer cócegas nele. No meio da guerra, Ephir teve uma ideia genial e puxou Nante para um beijo. A cabeça do moreno deu tela azul. Porém, seu corpo correspondeu e colocou o copo no chão, o que poderia ter feito Ephir fazer um gesto de comemoração se não estivesse com as mãos ocupadas pelo corpo do outro.

Nante também não havia esquecido do incidente com Anne e de Ephir tecnicamente dizendo que ainda tinha a sensação do beijo dela o tempo todo, então em meio a essa oportunidade, decidiu tentar compensar o ocorrido o quanto pudesse. Aprofundou o beijo, menos desajeitado que da última vez e bem mais determinado, pressionando o de cabelo caramelo contra o sofá. Pra sua surpresa, o outro não se deixou intimidar e o puxou mais pra perto. Num instante seu corpo estava colado o quanto possível sobre o de Ephir, cuja temperatura estava diminuindo até então, mas subiu por outras razões com o contato.

— Agora... eu vou ficar doente também... — Nante sussurrou contra o ouvido do outro, enquanto arfava por ar.

— Deveria aproveitar, já que não tem mais volta... Minha mãe só chega no fim do dia mesmo...

Nante levantou o rosto para olhar nos olhos de Ephir.

— Você está doente.

— E? — Ephir enlaçou o pescoço do outro com os braços.

— Você também está... estranho. Mais carinhoso que antes.

— É mesmo? — Ephir lambeu os lábios.

— ...Você está me seduzindo? — Nante mal conseguia acreditar nas próprias palavras.

— Descobriu agora? — Ele sorriu. E que sorriso. Uma obra de arte, material de papel de parede, tela de bloqueio, uma pintura numa das paredes do quarto de Nante... — Estou tentando me desinfetar com o meu amor.

— ...Oi? Perdão? — O moreno arregalou os olhos.

Ephir fez sua melhor cara de desinteresse.

— Você é meu e me ama, então "meu amor" porque é seu, entende?

Nante ficou lhe encarando com cara de batata, ou seja, sem expressão.

Ephir começou a corar com vergonha do que estava dizendo e virou a cara pro outro lado numa tentativa fútil de disfarçar.

— Não fique só me olhando assim, caramba...

— Você pode falar de novo pra eu gravar e usar como toque de notificação?

Ephir teria dado uma joelhada nele, mas se contentou em morder sua orelha.

— Unhg! — Nante tremeu, arqueando o corpo.

— ...Você se tornou mais pervertido ou é impressão minha? — Ephir sussurrou, arranhando o que pode expor do pescoço do outro.

— Agh... De quem você acha que é a culpa? — Nante retrucou, ofegante.

— Sério? Você fantasia comigo? — O de cabelo caramelo beijou a região da mandíbula do outro. Este não lhe respondeu, estava tentando controlar o próprio corpo. — Como é a sensação de ter seu objeto de desejo fazendo essas coisas com você? — Ephir começou a tentar tirar a blusa de Nante.

— Você não é um objeto... — O moreno franziu as sobrancelhas.

Ephir riu.

— Você realmente é muito bobo. Eu nem sei por que acho isso fofo.

Nante corou e puxou Ephir para olhar nos olhos dele. Havia tantas emoções no rosto do de cabelo caramelo além do sorrisinho que estava desaparecendo que o moreno nem sabia por onde começar a falar. "Tem certeza?" parecia a melhor opção, e talvez ele tivesse perguntado se o rosto de Ephir, que até então também estava lhe analisando, não tivesse ficado completamente sério e de repente ele tenha lhe puxado para mais um beijo.

Notas finais
Eu poderia escrever as cenas mais explicitas, mas não quero uma história minha com conteúdo adulto, pelo menos por enquanto. De qualquer forma, com a personalidade do Ephir, eles não vão até o fim sem camisinha, lubrificante, essas coisas, sabe. Mas ainda há o que possa ser feito ainda assim. Se você não consegue imaginar, pode usar como base uma pegação cheia de provocações. Aliás, esses dois adoram se provocar. Às vezes isso é tão divertido, mas outras é exaustivo. Ai ai... Eu estou juntando músicas que representem os personagens, e nun capítulo futuro postarei. Até agora achei para o Ephir e para a Anne. Por fim, queria dizer que estou num momento em que preciso muito de apoio, por várias complicações que estão acontecendo e que me fazem não ter a menor ideia de quando vou conseguir escrever, quem dirá terminar um capítulo. Não é uma cobrança, calma, só um aviso. Se você pudesse deixar um comentário, garanto que faria uma grande diferença.