Gentleness
14 Eu te amo (mas não)
— Eles são tão estúpidos, não acha? — Anne uma vez dissera enquanto lanchavam juntos num dos bancos perto da lanchonete da escola.
Ephir levantara o rosto com a colher de pudim na boca para seguir o olhar dela. Crianças corriam pra lá e pra cá, em meio a outras conversando nas poucas e disputadas mesas da lanchonete. Só havia um grupo com a corda de pular, excluindo da brincadeira quem não gostavam, e aqui ou ali havia uma com um treco caro que usava pra competir "quem é melhor" com as outras.
— Acham que estão sendo eles mesmos, mas só estão seguindo o ritmo das regras. Por enquanto só são animais de circo pros adultos rirem e acharem bonitinho, mas no futuro vão sofrer, jogadas num mundo que pisa nelas até agirem como esses mesmos adultos. — Ela semicerrou os olhos, desprezando todos que via.
Ephir assentiu. Anne era a única pessoa que entendia ele, então os outros só podiam ser estúpidos mesmo.
— É por acharem isso natural que nós sofremos, mas também é por isso que ainda vamos rir enquanto pisamos neles, Ephir. Eles se deixam controlar por sentimentos, mas nós somos diferentes. — Ela sorriu, e virou pra ele com um olhar afetuoso. — Nós podemos controlar qualquer um.
— ...Mas eu tenho sentimentos. E você só gostou de mim porque eu sou como eu sou. — Ele engoliu mais uma colherada de pudim e observou a garrafa de suco dela que não esvaziava num ritmo notável ao olho nu.
Anne arregalou os olhos, mas segundos depois seu rosto se tomou de orgulho por sua companhia.
— É verdade, Ephir, você é uma pérola. Você tem sentimentos, mas sufoca eles até que desapareçam. — ela riu e colocou o suco no colo dele, desistindo de comer naquele dia. — E a parte que eu mais gosto é que, quando você se importa muito com alguém e sabe que é correspondido, você deixa a pessoa escolher quais pode sufocar ou não. Eu não consigo pensar em algo mais fofo que isso.
Ele fechou o chuveiro.
"Eu deveria ter sufocado isso antes que saísse de controle", pensou, sacudindo a cabeça pra se livrar da memória que tomara conta de sua cabeça durante o banho.
Enquanto se secava, acabou olhando pro armário com espelho. Seu rosto estava corado pelas atividades de antes, e seus lábios mordiscados. Contudo, já não queria mais arrancá-los. A sensação dos de Nante havia sido gravada ali e extinguido sua angústia, fazendo ele se dar conta de uma coisa, enquanto os traçava com os dedos.
Não tinha mais volta.
Ele havia esquecido dos seus próprios limites e estrapolado eles.
Por mais que não tivessem ido até o fim, tinham ido longe o suficiente pra que ele se desse conta que não conseguiria nem queria mais se afastar de Nante. Mesmo que sua dificuldade de confiar lhe fizesse continuar empurrando o outro pra manter sua distância, algum dia isso poderia expulsá-lo mesmo. E não era isso que ele queria, já se importava demais pra suportar o abandono.
Mas não era isso o que Nante queria desde o começo? Que ele se prendesse a ele tanto quanto Nante estava preso? E mesmo que o ingênuo jovem mudasse de ideia, Ephir não o soltaria mais tão fácil. Ele havia estendido a mão... Nada mais natural que aguentar quando Ephir decidisse segurá-la.
Ansioso, o de cabelo caramelo se enfiou nas roupas e acabou escorregando ao sair do banheiro às pressas com pés molhados.
— Aaaai...!
— Ephir! — Nante veio correndo ao ouvir o barulho que o outro fez ao se desequilíbrar e cair de bunda no chão.
— Ai... Agora minha bunda tá doendo sem eu nem ter feito nada com ela... — Ephir murmurou, se apoiando no outro para levantar.
Nante ruborizou ao entender o que Ephir queria dizer, mas não se deixou afetar e tentou carregá-lo no estilo noiva até o sofá, levando um tapinha. O de cabelo caramelo decidiu por enrolar o braço no pescoço dele pra andar.
— Huh... V...Você machucou alguma coisa?
"Minha dignidade", o de cabelo caramelo retrucou mentalmente.
Ephir negou com a cabeça. Pensou duas vezes, e encostou a cabeça no corpo do outro. As gotas do cabelo molhado de Nante pingavam nele, mas isso não lhe incomodou. Estava aproveitando a sensação de estarem os dois com o mesmo cheiro depois de tomar banho.
— ...Ephir? — Nante perguntou, desesperado, pensando que talvez o garoto estivesse desmaiando.
— O que foi? Não posso ser carinhoso? — Ephir franziu as sobrancelhas, disfarçando com irritação o fato de estar amuado. Ele tinha noção de que às vezes era agressivo demais, mas que causasse um choque tão grande... Ele provavelmente tinha causado mais impressão negativa do que gostaria...
O queixo de Nante caiu. Ele ficou encarando, sem saber o que dizer, o que deixou o outro impaciente.
— Eu sei que é estranho, mas... — O de cabelo caramelo começou, mas foi interrompido.
— Ephir, você sabe demonstrar carinho? Eu estou com medo. — O moreno questionou, numa voz exagerada de propósito, com uma cara tão assustada que ele parecia ter visto um jacaré voando.
Ephir lhe deu um chute, desequilibrando Nante por alguns passos até eles desabarem no sofá. Sim, o mesmo sofá em que a briga de espadas havia ocorrido, por sorte ainda parecendo um "sofá de família que nunca presenciou cenas indecentes". Só parecendo, mesmo.
— Eu sei que eu provoquei, mas ai, isso foi desnecessário. — Nante murmurou, ao som de alguma coisa estalando. Ephir virou a cara para o outro lado, em cima do muro entre arrependimento e puto da vida, e seu olhar caiu no pudim preparado em cima da mesa junto com o caderno de matéria do outro, aberto em física. Pelo visto, Nante já havia deixado as coisas prontas pra ele.
— Hum? — O moreno seguiu o olhar dele. — Ah, eu estava tirando fotos e te mandando por mensagem... Você não precisa pegar das páginas antes da que eu deixei aberta.
— ...Muito obrigado. — Ephir agradeceu numa voz pequena e encheu uma colher de pudim, engolindo tão rápido que parecia mágica.
Nante sorriu como o bobo apaixonado que era, mas logo começou a se incomodar com o silêncio esquisito que ameaçava tomar conta.
— Por que você gosta tanto de pudim? — Tentou puxar assunto.
O olhar do de cabelo caramelo ficou distante, como se estivesse procurando a memória, e Nante se arrependeu por alguns segundos de ter perguntado. O apartamento ficava tão silencioso, mesmo durante a tarde, que ele podia ouvir a respiração do outro.
— Você tem certeza que quer saber? Tem a ver com você sabe quem. — Ephir desviou o olhar pro pudim, parecendo ainda pensar no assunto.
Nante sentiu uma pontada de ciúme que algo relacionado à Anne ainda fosse importante pra ele, e retrucou: — Claro. Seria a primeira vez que você me contaria algo sobre ela por livre e espontânea vontade, afinal.
— Bem... A madrasta de Anne se esforçava em fazer com que a menina comesse a comida dela, mas Anne se recusava. Quando nós ficamos amigos, por um tempo ela empurrou todos os lanches dela pra mim, como se fossem presentes. — Ephir suspirou, e colocou mais pudim na boca.
— Ela é uma oportunista desde pequema, pelo que entendi. — Nante encostou a cabeça na mão e Ephir deu de ombros.
— Quando eu descobri eu fiz ela pelo menos dividir comigo. Mas uma coisa que ela rejeitava completamente eram doces, e se fosse pudim ela era capaz de jogar no lixo só pelo desgosto. Eram a especialidade da mãe dela, ou algo assim...
— Oh. — Nante sentiu uma pontada de pena, mas essa sumiu tão rápido quanto apareceu assim que ele se lembrou de seu último encontro com ela, no qual ela mentiu descaradamente e ainda beijou Ephir.
— Enfim, o pudim da madrasta dela era muito bom, então acabou despertando o meu amor por pudim. Eu só não tenho esperanças de comer dele de novo na minha vida... — Ephir fez uma expressão tão melancólica pra colher de pudim em sua mão que alguém poderia pensar que aquela era sua última colherada.
— Eu posso te conseguir pudins muito melhores. — Nante resmungou.
— Por favor, não me diga que você que vai tentar fazer. Eu te amo, mas não. — Ephir balançou a cabeça em total desaprovação, exagerando na cara de "Por favor, não. Só não".
— Não foi iss... — Nante tentou interromper, mas então arregalou os olhos, seu coração quase saltando pela garganta. — Você o quê?
— Eu hão quewo povar sa comida. — (tradução: Eu não quero provar sua comida) Ephir disse com a cara estufada de pudim, apontando a colher acusatoriatoriamente.
— Não, não isso. Você... acabou de dizer que me ama. — Havia uma ponta de desespero na voz de Nante, seus olhos presos na figura que continuava indiferente a seus sentimentos.
Ou pelo menos era isso o que parecia. A ficha de Ephir tinha caído e o frio na sua barriga podia competir com um congelador, enquanto ele se esforçava em manter sua cara insensível.
— É. — Ephir tentou encarar de volta, mas seus olhos insistiam em escapar pra qualquer canto longe dos de Nante. Ele estava se segurando pra não soltar um "e daí?" por impulso, mesmo que isso exigisse um esforço em se manter honesto num nível absurdo pra ele. Ele não queria se distanciar por impulso, mas como era difícil! Suas bochechas ficaram mais rosadas, o que só incentivou o coração de Nante a bater mais rápido.
— Só "é"? O que "é" quer dizer? — Nante segurou a colher a centímetros da boca de Ephir.
— Significa "é", ué. O que você quer? Um pedido de casamento? — O de cabelo caramelo baixou as sobrancelhas, incomodado com sua colher presa e com o constrangimento que estava sentindo sem nem entender.
— Tô aceitando. — A resposta saiu da boca de Nante com o impacto de um tiro.
— ...Ainda que eu te fizesse usar o vestido de noiva?
— Estranho, mas ainda tô aceitando. — Nante deu um sorriso confuso. Ele podia ficar feliz e acreditar que seus sentimentos tinham esperança, sem ninguém puxar seu tapete? Sério mesmo? Ele nem se importava com os fetiches estranhos do outro desde que fossem saudáveis.
Ephir soltou um riso genuíno, lamentando apenas não ter uma câmera pra tirar foto da cara de Nante. O moreno se sentiu numa conspiração pra fazer seu coração explodir.
Limpando algumas lágrimas dos olhos, o garoto se acalmou de rir e disse: — É, eu te amo. Mas não espere que eu fique de joelhos nem nada assim.
— Ephir, se você não estiver rindo da minha cara, essa é o pior pedido de casamento ou sei lá o quê que eu já vi na minha vida. — Nante corou, ficando amuado pra se acalmar e não ter esperanças demais.
— Mas as suas caras são fofas, como você quer que eu não ria? — Ephir sorriu, e de repente seus olhos brilharam com uma ideia, exclamando "É isso!". Ele ofereceu o pudim pra Nante como se fosse um anel de casamento, e usou seu tom mais sério pra perguntar: — Nante, quer ser meu sei lá o quê?
O moreno congelou e até parou de respirar por um momento, sem saber como reagir. Era tão raro que ele tinha esquecido, mas Ephir de bom humor era pior que um palhaço e um bêbado juntos.
— Você é um idiota. — Nante colocou a mão na testa, sem conseguir esconder um sorriso. — E com isso eu quero dizer aceito.
— Então hoje nos declaro oficialmente "sei lá o quê" um do out... — Ephir estava a ponto de colocar uma colher de pudim estilo aviãozinho na boca de Nante, mas foi interrompido.
Com uma confiança que ele nem sabia que tinha, Nante fechou o espaço entre ele e Ephir e pressionou os lábios contra os dele. O de cabelo caramelo ficou sem saber o que fazer com suas mãos ocupadas. Criando mais coragem, Nante mordiscou e chupou de leve o lábio inferior do outro.
— Eu prefiro esse doce. — ele disse, ao se afastar, com cara de "quem está provocando quem agora?" — Oh, e antes que eu me esqueça.
— Ai!
— Mo pediu pra te dar um puxão de orelha por ela. — Nante sorriu cinicamente, enquanto Ephir massageava a orelha puxada mesmo que nem tivesse doído muito.
— Eu nem sei pelo quê isso foi... — Ephir resmungou.
— Se nós fizéssemos uma lista, você provavelmente não teria mais orelhas.
Ephir ficou meio amuado no canto e voltou a encher a cara de pudim. De alguma forma, ele convenceu Nante a continuar tirando as fotos de física enquanto ele copiava e tirava dúvidas. Foi meio chocante a mudança abrupta entre modo bêbado pra estudante-sério-na-verdade-disfarçando-a-parte-de-bêbado.
O que não deveria ser, considerando que essa última era basicamente uma definição de Ephir.
Embora o tufo caramelo continuasse brincando aqui e ali e fosse mais carinhoso que o normal, ele deu sinal vermelho pra qualquer coisa além de abraços e colo, deixando claro que já tinham tomado banho e se começassem mesmo com pouca coisa, ia ser difícil parar.
Não estava errado, mas isso não impediu Nante de ficar com a cara murcha.
Ao escurecer, a mãe de Ephir chegou. Ao abrir a porta do apartamento com uma cópia da chave, encontrou os dois cochilando no sofá, Nante com a cabeça no colo de Ephir. Havia um caderno e o que parecia ter sido algum doce na mesa.
Ela suspirou e deixou seu celular na sala com um alarme pra meia hora depois, com um toque de britadeira, antes de vazar pro próprio quarto sem fazer barulho.
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