Gemini
5 Guga – O Menino que Faz a minha Pupila Dilatar
Notas iniciais
Acordo já com cara de derrota. Ainda não consigo acreditar que eu disse o que sinto por ele. Afinal, não o conheço bem. Não sei muito sobre ele. Mas quando conversamos tudo é tão natural, como se nos conhecêssemos há anos. Mas e se eu estiver invadindo seu espaço? E se ele só quiser ser meu amigo?
Deixo de me preocupar antecipadamente e olho para meu celular desligado em cima do criado-mudo. Fico tentado a ativá-lo, ver ser Gabriel me respondeu. Mas não reúno coragem suficiente, e lhe abandono ali.
Levanto-me da cama e pego minha toalha. Saio do quarto e vou para o banheiro. Como de costume, ainda sou o único na casa que já levantou. Deixo que a água fria me lave e me acorde por completo. Demoro um pouco tratando o cabelo que ficara sem ser lavado por todo o final de semana e se tornara uma massa nodosa e dura. Após fazer com que meus fios voltassem ao normal, me ensaboo. Limpo todo meu corpo. Quando chego à região da virilha, me demoro um pouco lá... fazendo o que garotos fazem.
De volta ao meu quarto, me visto com a camisa do colégio e uma calça jeans. Pego minha mochila e dirijo-me à porta, no entanto, me retenho antes de sair. Olho para o celular sobre o criado mudo. Vou até ele, o pego e guardo-o no bolso.
Na escola, Mari e eu estamos sentados em carteiras lado a lado. Ela ainda tenta resolver seu exercício de matemática enquanto eu já desisti do meu. Decido, por fim, acabar com meu tormento e ligo meu celular e espero que ele seja iniciado.
Depois de o aparelho ser iniciado, as mensagens que eu deixei de ver desde a noite passada começa a chegar num fluxo feroz de mensagens de grupos agitados. Assim que as notificações param de aumentar, abro o WhatsApp. E sim, ele me respondeu.
Gabriel: Uau, bem eu não sei o que dizer
Bem, eu acho que também gosto de você
Você é incrível sabe
Sei lá, to nervoso.
Fico sem reação. A surpresa e a felicidade tomam conta de mim, meu coração acelera e tudo o que eu mais quero é poder encontrá-lo. Penso um pouco no que responder. Mas nenhuma palavra me parece ser suficiente para expressar o que eu sinto. Depois de alguns momentos de reflexão, começo a escrever algo, quando de repente meu celular é tomado de minhas mãos. Olho para cima e o vejo nas mãos da professora.
— Muito bem, Gustavo — repreende-me ela — Presumo que já tenha terminado seu exercício...
— Er... bem, eu...
— Foi o que eu pensei. Você acha que eu mereço isso de você usar o celular enquanto eu tento te ensinar alguma coisa? O problema da geração de vocês é que vocês não dão valor ao ensino... acho que eu vou ter que lhe ensinar uma lição.
Sinto os olhos de todas as pessoas atrás de mim vidrados na minha nuca e na professora, esperando o que está para acontecer. Ela olha para a tela, lê o que está lá. E então me encara.
— Eu quero falar com você no final da aula — e ela voltou para sua mesa, para desgosto de todos que esperavam que eu levasse uma bronca pública.
O resto da aula se passa de maneira muito desagradável para mim, de forma que eu não poderia resolver as atividades propostas nem se eu quisesse. Dentro de mim, a ansiedade queima meu estômago e me nauseia. Até que, depois do que pareceram mil anos, a campa toca e as pessoas começam a sair da sala.
— Te vejo lá na frente — diz Mari pondo a alça da mochila sobre um dos ombros. — Boa sorte...
Então só restamos a professora e eu – e uns bisbilhoteiros que ficaram na porta da sala, que logo foram mandados embora dali. A professora pede para que eu me sente a sua frente e para que eu relaxe.
— Gustavo... eu não vou brigar com você. Eu só queria dizer que... bem, por favor, nunca mais use o telefone em horário de aula.
— Está bem, professora...
— E... bem, eu sinto muito, mas eu não pude deixar de ler uma parte de sua conversa com o seu... namorado?
— Amigo, eu acho...
— Então, seu amigo. Gustavo, você tem certeza que é isso que você quer?
— Eu não entendi.
— Você quer mesmo ser gay? Sabe, é difícil se assumir. A sociedade atual não é receptiva com esse tipo de coisa.
— Na verdade... eu não tenho certeza... eu sempre gostei de meninos... e o Gabriel, esse meu amigo... ele faz meu coração bater mais rápido.
— Eu te entendo, Gustavo. Apenas tome cuidado, está bem? Eu vi que seus pais provavelmente não vão gostar de saber disso.
— É... eles podem acabar pirando...
Depois de sair da sala e ir para fora da escola, encontro Mari me esperando debaixo da nossa costumeira árvore.
— E aí, moleque, o ralho foi grande? — provoca ela.
— Nem. Só conversamos, de boas.
Sento-me ao lado dela.
— Sobre o quê? Se é que posso saber.
— Mari eu preciso te contar uma coisa.
— Sou toda ouvidos.
— É uma coisa séria e é segredo.
— Não se preocupe, eu não conto pra ninguém.
— Mari, eu acho que eu sou gay.
Ela não responde nada por muito tempo, me deixando desesperado.
— Eu já sabia! — grita ela, rindo-se.
— Cala a boca, vão acabar ouvindo! — repreendo-a, nervoso. Mas depois rio também. — E como você já sabia se eu mesmo só soube ontem de verdade? Eu pareço veado, é?
— Não, bebê. É que você nunca me falou sobre nenhuma menina. Nem nada disso... só anda com meninas e tal. Enfim, eu já tinha sacado. Mas o que isso tem a ver com a professora?
— Bem, naquela hora que ela pegou meu celular, ela viu minha conversa com um garoto.
— Um garoto? Quem? Conta!
— Calma, me deixa explicar. Tem um garoto que eu conheci naquele seu grupo de Paramore... na verdade, eu o conheci pelo número da amiga dele, ele tava usando o celular dela. E então, começamos a nos conhecer, nos falamos no Skype... e Mari... eu me sinto tão bem falando com ele.
— E vocês já se encontraram, por acaso?
— Não... ele mora em Belém...
— Ih... assim não dá, né? Será que isso dá certo, Guto?
— Ah, dá sim... tem que dar. Eu tenho quase certeza de que o amo e seria capaz de cruzar toda a Amazônia pra vê-lo! — e com isso ela ri, assim como eu. Decido não ir para a casa dela nessa tarde e nos despedimos e cada um segue seu rumo.
Quando chego em casa, mamãe me aborda tão logo que mal passo pela porta.
— Guga, meu filho. Você viu seu irmão na escola hoje? — mas é claro que ela só veio falar comigo por causa do Lucas.
— Ah, mãe, eu não prestei atenção. Acho que não.
— Tem certeza?
— Tenho, por quê? — pergunto fingindo estar curioso.
— Ele foi dormir na casa do Luiz, mas ele não retornou minha ligação quando liguei pra ele hoje de manhã.
— Ah, tá. Não se preocupa ele deve ter esquecido o celular na casa do... — esqueço-me do nome que ela acabara de dizer — amigo dele e deve estar demorando porque voltou para pegar.
— É, deve ser — responde ela num tom de voz preocupado.
Bato no ombro dela e subo as escadas, entro no quarto e me jogo na cama. Pego meu celular e o desbloqueio, e minha conversa com o Gabriel é diretamente mostrada. Leio mais uma vez o que ele me dissera e penso no que escrever. Por fim, tiro graça:
“Também to nervoso, nunca cheguei nessa parte :”
Saio da conversa com ele, abro as outras conversas sem nada responder e bloqueio meu celular. Tiro a roupa do colégio e fico só de short. Olho meu celular e vejo que não há resposta alguma do Gabriel; largo-o. O pego e olho novamente e o largo de novo e olho mais uma vez – vai que tá diferente. Ouço minha mãe me chamar para comer e saio do quarto, desço as escadas e sento à mesa. Meu pai desce as escadas e minha mãe fala ao telefone com alguém, mas não consigo ouvir o que ela diz.
Começo a me servir e meu pai também. Depois de um tempo, minha mãe se senta à mesa e se serve. Como bem rápido e volto pro meu quarto. Olho pro meu celular que está na cama e percebo que tem uma mensagem de alguém, desbloqueio o aparelho e me alegro ao ver que é o Gabriel.
Gabriel: Então... Desde quando vc chegou naquela conclusão?
Eu: Acho que desde ontem, sei lá fiquei pensando em como me sinto quando falo com vc e acabei falando que gosto de vc...
Gabriel: Ah, sim. Me sinto bem quando falo com vc tbm, sinto algo de diferente com vc
Eu: Também sinto isso, meu coração bate mais forte quando falo com vc, e fico esperando ansiosamente por uma mensagem sua e quando me lembro de vc, eu sorrio.
Gabriel: Ain, to muito nervoso, pensava que vc não sentia nada por mim.
Eu: Na verdade, eu tenho certeza que gosto de vc. Talvez já até ame
Converso com o Gabriel durante muito tempo, no qual conhecemos mais um sobre o outro e a cada minuto mais me apaixono por aquele menino longínquo.
Lá pelas seis da tarde, eu me sinto tão suado e sujo que peço licença ao Gabriel para tomar um banho. Deixo o celular sobre a cama e me dirijo ao banheiro com a toalha no ombro. Ao chegar lá, dispo-me e entro no box. Ligo o chuveiro e deixo que a água me purifique. Não deixo que o banho se prolongue para que eu possa voltar a conversar com o garoto que eu tanto amo. Saio do box e me enxugo. Saio do banheiro com a toalha enrolada envolta de minha cintura e abro a porta de meu quarto. Contudo, me detenho em entrar, pois Lucas está em pé ao lado da minha cama com meu celular nas mãos.
Ele tira os olhos da tela e me olha com a expressão confusa e acusadora que só pode significar uma coisa: meu irmão sabe que sou gay.
— Guga...
— O que você tá fazendo aqui? — grito.
— Eu vim procurar uma...
— Veio bisbilhotar? — atiro sem esperar que ele termine de responder.
— Não eu...
— Sai daqui agora! — saio do caminho e aponto para o corredor. — Sai!
E ele sai.
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