Gemini
6 Lucas - Confuso e Arrependido
Notas iniciais
Acordo com uma dor de cabeça horrível, olho ao meu redor sem saber onde estou. Cada movimento faz com a minha dor aumente e a pouca luz do sol que entra no quarto me maltrata cada vez mais. Cubro meu rosto com o lençol e volto a dormir. Acordo novamente com o toque do meu telefone, o ignoro e volto a dormir. Ouço a voz de Luiz me chamando, abro os olhos e sinto minha cabeça latejando novamente. Luiz me ajuda a levantar e sentar na cama dele. Ele sai do quarto e volta com um copo d’água e me dá. Vou bebendo aos poucos e meu celular toca novamente, o pego e vejo que é minha mãe, lembro que eu teria aula hoje e percebo que já é 12:30. Atendo.
— Oi, mãe.
— Filho, você foi pra escola?
— Fui sim, voltei pra casa do Luiz porque esqueci meu skate.
— Vai almoçar aí?
— Vou sim, acho que vou passar a tarde aqui, tem problema?
— Tem sim. Você vai voltar assim que almoçar, tá bom?
— Tá, mãe. Beijos.
Desligo o telefone e olho pro Luiz, e ele está bebendo água também. Vou pra cozinha e bebo mais água e tomo um remédio. Tomo banho, escovo os dentes e visto a mesma roupa de antes. Volto à cozinha e Luiz está cozinhando algo. Sento-me à mesa olhando pra ele.
— Cara, cadê teus pais?
— Viajando — responde ele despreocupado.
— Ah, sim.
Ele tira o frango da chapa e tira arroz e feijão do micro-ondas. Então comemos em silêncio. Quando acabo de comer, vou pro quarto do Luiz e deito na cama dele e ele deita do meu lado.
— Cara, ontem foi legal — diz ele.
— É foi sim, bem legal. Tirando a parte da Rayra — e começamos a rir.
— Ah, mas eu tô ligado que você tava dando em cima daquela garota — ele sorri.
— Quem? A Fênix? — ele concorda com a cabeça. — Ah, não, cara. Ela que veio falar comigo e ficamos conversando. Ela parece legal.
— Tá bom. Vai ficar sofrendo pela Rayra?
— Eu já estou sofrendo, ela arrombou meu coração.
— Pô, cara, melhoras, viu — ele se levanta e arruma a cama dele — você vai melhorar com o tempo.
— Eu tô muito mal, serião.
— Desiste dela, mano. Você viu que ela tá em outra. Ela mesma te disse que não gosta de você.
— Não! Eu não vou desistir dela. Gosto dela muito dela, quando se gosta de alguém, tem que lutar por esse alguém.
— Acontece que todos e inclusive você já sabem que ela não gosta de você, nem como amigo! Que tal sermos realistas, Lucas? — ele espera uma resposta, mas estou triste demais pra responder. — Ela não gosta de você. Ela gosta de outro, beija outro, quem sabe até trepa, mas ela não faz isso com você. Se ela quisesse, você que era o cara que estava beijando ela no evento.
Fico chocado demais com o que ele disse, e com como ele parecia sério, irritado e preocupado ao mesmo tempo. Só me levanto, pego meu skate e vou em direção à sala para ir embora. O ouço me chamando, mas não me viro, não falo nada. Abro a porta e vou embora, sem rumo, sem chão. Não quero ir pra casa. Não sei pra onde ir, não sei o que pensar, não sei com quem falar.
Pego meu skate e ando nele. Acho melhor ir pra casa, ou minha mãe vai ficar preocupada. Abro a porta de casa, meus pais estão sentados no sofá da sala assistindo TV. Eles me olham e quem se levanta para fala comigo é minha mãe. Ela me abraça e me dá um beijo na testa, penso que alguém morreu e olho pra eles desconfiado.
— Eu estava muito preocupada, filho. Que bom que você está bem — ela me abraça de novo. — Pensei que você tinha nos desobedecido, que tinha ido ao evento e que estava mentindo pra mim, pensei que estava em outro lugar e que não queria mais voltar pra casa.
Fico ali nos braços dela sem saber o que falar. Choro em silêncio, pensando na merda que eu fiz de ter ido ao evento e o pior: eu bebi. Logo que ela me larga de seus braços, eu saio rapidamente de seu campo de visão e subo as escadas correndo, entro no meu quarto e me afundo no travesseiro e choro até não sobrar vestígio de água no meu corpo. Passo um bom tempo ali, chorando. Ouço a porta do meu quarto abrindo, me viro rapidamente para ver quem é. Meu pai está me olhando assustado, senta na minha cama e fica me olhando sério, acho que eu devo estar com uma cara inchada e vermelha.
— Oi, pai — cumprimento ele com uma voz rouca e fraca.
— Oi, filho. Diga o motivo de você estar chorando — ele dá tapinhas no meu ombro. — Pode confiar em mim.
— Eu... gosto de uma garota... e eu faço de tudo por ela, e eu jurei não desistir dela, mas... eu a vi beijando outro cara, ela me ignora e já disse que não gosta de mim, mas eu falei pra ela que eu não ia desistir. O Luiz... falou que eu devia desistir dela, e que... ela não gosta de mim, ele disse... ele disse a verdade — começo a chorar descontroladamente, sinto meu pai me abraçando. — Eu só quero saber lidar com a verdade... Quero esquecer ela, e não sofrer — começo a soluçar.
— Filho... Isso é normal, você deveria ouvir o seu amigo, ele tem razão. Se você já sabe que ela não gosta de você, que ela mesma disse isso e que ela estava beijando outro rapaz, você já deve saber que não vale a pena insistir — ele fala de um jeito sincero e amigável, o abraço de volta e enterro meu rosto em seu peito e choro. — Espero que você não fique assim, filho. Sempre quero o bem de você e o do Guga, amo muito vocês dois.
Afasto-me dele e ele o faz também. Ele bagunça meu cabelo e sai do quarto. Decido ir tomar banho e fico um bom tempo debaixo do chuveiro, pensando no que meu pai e o Luiz disseram. Saio do banho e visto uma roupa limpa, procuro meu celular e não o acho, lembro que não o peguei quando fui embora da casa do Luiz e me jogo na cama sem fazer nada e logo durmo.
Acordo com uma necessidade grande de ter o meu celular em minhas mãos, então vou até o quarto dos meus pais para pedir o celular de algum dos dois pra ligar para o Luiz. Bato à porta e ninguém responde, tento abrir a porta, mas ela está trancada. Desço as escadas e vou à sala e à cozinha e não encontro ninguém.
Provavelmente eles saíram, mas o Guga deve estar aí. Subo as escadas e vou em direção ao quarto dele. É estranho ir até o quarto dele. Na verdade, não vejo como é o quarto dele há muito tempo – talvez desde quando começamos a dormir em quartos separados. Paro na frente do quarto e bato à porta, mas não obtenho resposta.
Do final do corredor, consigo ouvir o barulho do chuveiro e entendo que é lá que ele está. Sem paciência para esperar, abro a porta e logo avisto o celular dele, que está em cima da cama e desbloqueado. Não quero aparecer de repente na porta do banheiro gritando e pedindo emprestado o celular, então dou meia volta e nesse momento o celular indica que chegou uma mensagem e minha atenção é chamada para ali. O pego e vejo que um tal de Gabriel mandou mensagem para ele e a leio: “Já pensou se a gente tentar se encontrar, e a gente... meio que começar a namorar?”. Releio essa mensagem várias vezes sem acreditar, então rolo a tela para cima e leio as outras mensagens
Continuo sem conseguir acreditar no que estou lendo. O Guga é... gay!. Então, atrás de mim, a porta se abre e vejo meu irmão com a toalha enrolada na cintura, ainda meio molhado, e eu olho em seus olhos. Tento imediatamente me explicar.
— Guga...
— O que você tá fazendo aqui? — grita ele sem me deixar continuar.
— Eu vim procurar uma...
— Veio bisbilhotar? — fala ele me interrompendo novamente e parece furioso com a minha presença.
— Não eu...
— Sai daqui agora! — ele sai do meu caminho e aponta para o corredor. — Sai!
E eu saio, mas completamente arrependido de ter invadido a privacidade dele, de tê-lo deixado com raiva e com mais um motivo pra não tentar ter uma boa relação comigo – na verdade eu nunca dei e acho que ele até desistiu.
Sinto-me um bosta, mas o Guga é gay e acho que isso é errado. E também foi errado eu ter ido ao evento escondido e ter bebido e mentido para meus pais, mas só que eu nunca mais vou fazer isso e o Guga com certeza vai querer ficar com aquele garoto e.... Eu preciso contar isso para os meus pais, mas se eu fizer isso, o Guga vai me odiar pra sempre. Mas eu não vou fazer isso pro mal dele. Uma coisa dessa meus pais nunca vão aceitar. Eu vou ter que contar.
Percebo que estou sentado no chão do corredor abraçando minhas pernas, cheio de dúvidas, incertezas e culpa.
Levanto e vou para o meu quarto, me embrulho e fecho os olhos tentando não chorar novamente, mas eu choro de qualquer jeito. Se eu não fosse essa pessoa idiota que eu sou, talvez isso não estivesse acontecendo. Fico debaixo dos lençóis por um bom tempo, tentando tomar decisões. Me mexo de vez em quando porque está muito frio. Acho que o melhor a fazer é esperar meus pais chegarem e falar pra eles de uma vez. Ou não...
Acabo dormindo um pouco e quando acordo estou congelando. Desligo a central de ar e volto a me deitar. Olho para o teto, ouço barulho no andar de baixo. Com certeza são os meus pais entrando em casa. Espero um pouco na cama até ouvir meus pais entrando no quarto deles. Me levanto e lavo meu rosto e fico me olhando no espelho. Será que sou o quero ser? Será que contar é a coisa certa? Será que o Guga está feliz assim? Nunca fui contra quem é homossexual, mas nunca acho que seja algo certo ou errado, mas meus pais nunca vão aceitar que ele é gay e ele vai sofrer muito com isso.
Saio do banheiro e ando pelo corredor. Paro na frente do quarto dos meus pais, mas não consigo bater à porta. Apenas fico ali sem fazer nada. Ouço um barulho e olho pro lado. Guga está entrado no quarto dele. Ele me olha assustado e ficamos nos encarando.
— Lucas, por favor... Não fala pra eles — suplica ele.
— Desculpa, eu te amo — e entro no quarto.
Meus pais me olham confusos, já que não bati antes de entrar, sento na cama deles e falo sobre ter entrado no quarto do Guga sem permissão e que olhei o celular dele enquanto ele estava no banho.
— Que isso, Lucas? Que falta de respeito é essa com seu irmão? — repreende minha mãe com uma expressão irritada.
— Filho, você tem que respeitar a privacidade do seu irmão — diz meu pai do mesmo jeito que minha mãe. — Mas por que você está falando isso pra a gente? Você devia estar pedindo desculpa pro seu irmão.
— Pai, mãe. É que, eu... descobri que o Guga é gay — falo bem rápido. Eles me olham confusos.
— Gay? Você tem certeza, Lucas? — pergunta minha mãe.
— Tenho. Ele estava falando com um garoto. Disse que gosta dele, mas não como amigo, como se ele estivesse apaixonado e eles ficaram falando coisas um pro outro, coisas que falamos pra alguém por quem estamos apaixonados.
Meu pai se levanta e vai até o banheiro, minutos depois ele sai de lá com um barbeador elétrico e sai do quarto. Eu e minha mãe nos olhamos e o seguimos. Ele está no quarto do Guga e grita com ele, pedindo o celular.
— Vamos, Guga me dê o seu celular — grita ele furioso.
— Pra que que o senhor quer? — responde ele calmamente, mas dá pra ver o medo em sua face.
— Guga, me dá esse celular agora, e eu o quero desbloqueado — fala ele, Guga desbloqueia o celular e o dá pro nosso pai. Ele vasculha o celular. — Quem é esse Gabriel? O que que eu e sua mãe não podemos descobrir?
— Não é nada, pai — fala Guga olhando pra baixo.
— Por que você apagou a sua conversa com ele? Guga, você está me escondendo algo?
— Não, pai! Eu não estou!
— Guga, por favor. Não esconda nada da gente — pede minha mãe.
Uma mensagem chega e meu pai olha o celular. Todos ficamos em silêncio. Meu pai olha pro Guga com fúria nos olhos e o manda sentar numa cadeira, Guga senta hesitante na cadeira, meu pai liga o barbeador na tomada e fala:
— Isso servirá como lição.
E ele começa a raspar o cabelo do Guga e lágrimas grossas começam a escorrer sobre sua face, assim como sobre a minha.
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