Gemini
1 Guga – Cansaço
Notas iniciais
Eu estou realmente cansado disso, dessa vida. Dos meus pais, da minha cidade, do meu irmão. Principalmente do meu irmão.
Sim, eu acho que eu e meu irmão deveríamos ser mais unidos e tal. Mas Lucas realmente se esforça para me ver irritado. Eu bem que queria ser seu amigo, mas somos apenas irmãos bem afastados.
Outras coisas que são importantes de se saber sobre nós: somos gêmeos. No entanto, não somos muito parecidos. Lucas é um pouco mais alto, e tem a massa muscular um pouco mais desenvolvida que a minha; já eu sou magrelo. Lucas usa os cabelos cortados no estilo militar; eu mantenho meus cabelos na altura dos ombros. Lucas é mais amado por nossos pais; eu sou constantemente esquecido por eles.
Já é novembro. Bem, mais um ano vai terminar, “alô, alô, graças a Deus”. Um ano a menos que terei de passar com eles; assim que eu completar dezoito, quero ir para bem longe.
Eu sei que eu deveria me esforçar mais para ficar ao lado da minha família, mas não sinto esforço vindo deles, então cansei de tentar estar junto. Saio para a escola sem tomar café, depois da aula vou para a casa da minha amiga, e para a minha casa só regresso à noite. E não parece que eles sentem minha falta.
De manhã, quando acordo, fico deitado fitando o teto por alguns minutos. Pensando em como o dia vai ser, e como eu gostaria que fosse. Mas os dias nunca são como eu gostaria que fossem.
Cruzo com Lucas no corredor, e ele tenta me derrubar pondo o pé no meu caminho, mas eu desvio, já acostumado com tal provocação. Entro no banheiro e abro o chuveiro. A água fria envolve meu corpo por completo. Eu gosto do frio, ele me deixa calmo. Termino o banho, me enxugo. Ponho minha roupa para a escola e volto ao quarto para pegar a mochila. Saio de casa sem falar com ninguém, e vou caminhando em direção à escola.
Fico sentado abaixo da sombra de uma árvore nos terrenos da escola, em parte acordado, em parte adormecido. Estou olhando para meus pés quando noto que alguém está de pé bem acima de mim. Olho para cima. É Mariana.
Ela se agacha e me abraça.
— Bom-dia.
— Dia — eu respondo, desanimado.
— O que aconteceu, tigrinho? — questiona ela com a voz melosa, passando a mão pelo meu rosto — Por que essa carinha de “queria estar morto”?
— Oh, não é nada — respondo, mas não a convenço.
— Vamos lá! — exclama ela sentando-se ao meu lado — Quantas vezes tenho que repetir? Você é um tigre! Você é forte! Quando te põem pra baixo, você levanta! Não se deixe abalar por causa de coisas pequenas, como seu irmão.
— Antes fosse só meu irmão, é minha família inteira. Ninguém quer saber de mim naquela casa.
— Isso não é verdade! Eles te amam, com certeza!
— Com certeza não.
Ela não diz mais nada, e eu me sinto grato por isso, pois não quero discutir.
— E você, como está? — pergunto, quebrando o silêncio.
— Bem, eu acho.
— Que bom.
E a conversa morre de novo. É então que ela pega o celular do bolso e começa a conversar com alguém via mensagens.
Percebo que estou sozinho, então pego meu celular também. Mas não tem ninguém para conversar agora tão cedo.
— Quer entrar em um grupo de Paramore? — subitamente me pergunta Mariana.
— Eu nem gosto de Paramore.
— Eu sei, mas tem umas pessoas legais, que você talvez goste de conhecer.
— Tá, pode ser.
— Ok, vou falar com o administrador do grupo pra ele te colocar.
Toca então a campa de entrada, então nós entramos na escola e nos dirigimos à nossa sala. Outra coisa que devo agradecer a Deus: Lucas não está na minha turma esse ano.
A aula começa e eu copio uns assuntos, faço alguns exercícios, algumas aulas se passam e chega a última, de História. Mas o professor não veio, e não há substituto, portanto temos um horário inteiro para fazermos o que quisermos.
E eu pego meu celular e percebo que estou em um novo grupo de WhatsApp. Cheio de fãs de Paramore.
Então eu fico apenas observando as mensagens que chegam, sem ter o que falar, por não saber sobre o tema e por não conhecer ninguém ali além de Mariana.
Até que uma garota identificada por “carlaa” manda uma mensagem dirigida a ninguém e a todos:
“Quem é semideus aqui?”
Semideuses são os fãs dos livros da série do Percy Jackson, de Rick Riordan. Eu já li alguns livros, e me considero um semideus. Não sei por que fiz isso, mas copiei a mensagem dele e acrescentei uma resposta:
“Quem é semideus aqui?// eu sou”
Mais ninguém responde à menina, e eu não mando mais nenhuma mensagem. Saio do grupo.
Então meu celular vibra e eu recebo uma mensagem de um número desconhecido. Possivelmente alguém do grupo perguntando por que eu saí.
Mas quando leio a mensagem, não é nada disso:
“Filho de qual deus?”
Demoro um pouco para entender, mas a foto do perfil é de uma menina, então presumo que seja a tal “carlaa”.
Eu: Hermes
E você?
Carlaa: Hermes também.
Eu: Hum
Carlaa: Você é de onde?
Eu: De São Paulo, e você?
Carlaa: De Belém
Eu: Longe, né?
Carlaa: Bastante.
Eu: Seu nome é Carla mesmo?
Carlaa: Na verdade, meu nome é Gabriel
Só que esse é o número da minha amiga, e eu tava mexendo no whats dela.
Eu: Hummmm
Carlaa: Vou pegar seu número aqui e salvar no meu celular.
Mas, qual seu nome mesmo?
Eu: Gustavo. Me chama de Guto, ou Guga.
Carlaa: Ok, tchau, até mais tarde.
Eu: Até
Guardo o celular no bolso. A campa toca. A aula acabou.
— Tigrinho, vai lá pra casa hoje? — pergunta-me Mariana quando estamos saindo da sala.
— Não, hoje não — respondo.
— Mas por quê?
— Não sei, não tô com vontade. Não que eu não goste de você, ou não queira passar a tarde com você, mas hoje eu quero ficar sozinho, me entende?
— Claro — responde ela sorrindo sinceramente —. Todos precisamos de um tempo só nosso de vez em quando.
Chego em casa na hora do almoço e toda minha família está sentada a mesa, conversando sobre como foi o dia. Assim que me veem, todos se calam e me observam enquanto me sento em um lugar vago na mesa.
— Oi —arrisco.
— Oi, filho — responde mamãe — Que surpresa! Veio pra casa hoje.
— É...
Como em silêncio, e eles estão em silêncio também, embora eu saiba que estavam tendo uma conversa animada pouco antes de eu chegar.
Não reclamos, não digo nada. Somente termino de comer e vou para meu quarto.
Dormi um pouco e quando acordo, há uma mensagem de um número desconhecido. E a foto de perfil era um panda comendo bambu.
“Oi
Gabriel falando”
Respondo um “oi” de volta e salvo o número dele.
Gabriel: Tudo bem?
Eu: Sim
E você?
Gabriel: Sim.
Eu: Então, gosta de Paramore
Gabriel: Na verdade não
Hahahaha
Eu: Nem eu huehueh
Gabriel: Pois é
Eu: Humhum
Gabriel: Então, já leu todos do Percy Jackson?
Eu: Ainda não, e você?
Gabriel: Já
Eu: Legal
Passamos um momento sem que ninguém diga nada.
Gabriel: Posso te ligar?
Eu: Qual a sua operadora?
Gabriel: Posso te ligar pelo Skype?
Eu: Pode
Dou meu contato do Skype e aguardo.
Quando o vejo pela primeira vez na tela do meu celular, me apaixono na hora. Ele é moreno, tem traços leves, que dão a ele uma aparência infantil e inocente.
Ele também parece surpreso em me ver. Sorrio para ele.
E ele diz “oi”. Eu me sinto nas nuvens ao ouvir sua voz, me sinto feliz como há muito não me sentia.
Passamos horas conversando, sobre livros, filmes e música. Compartilhamos nossos sentimentos. Eu não sei por que, mas senti confiança nele como eu não sinto com quase ninguém.
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