Gelo e Cinzas
11 Rastros na Neve
Ele permaneceu ali, imóvel, observando-a chorar como uma criança por ter falado meias verdades. Quando Shisui morrera, Youko não estava na aldeia. O trabalho de consolá-la não fora seu e, naquela época sombria, ele sequer teria sido capaz de oferecer qualquer conforto.
Mas agora, enquanto a via soluçar na neve, uma pergunta fria atravessou seus pensamentos: Ela chorara assim quando desertou? Quando matara Izumi, que considerara uma amiga? Quando esfaqueara Yashiro, que sempre fora gentil com ela, convidando-a sempre para se juntasse a polícia? Quando os filhos de Airi, tão pequenos que mal sabiam andar, caíram sob sua lâmina? E seus pais... Fugaku e Mikoto. Chorara por eles também?
O corvo em seu ombro crocitou, um som rouco que cortou o silêncio como um grito. Então, bateu as asas e levantou voo, deixando-o sozinho com peso daquelas perguntas. Não sabia as respostas e, talvez, não quisesse saber.
Youko esfregou o nariz com as costas da mão, limpando os traços de lagrimas. Quando se ergueu, o olhar de Itachi estava fixo nela. Ele sempre fora uma cabeça mais alta que ela, tal como Shisui.
— Se realmente foi um sacrifício dele e seu — a voz dela saiu rouca. — por que é um nukenin? Quero saber a verdade, Itachi.
Itachi a observou em silêncio, seus olhos escuros captando cada tremor contido em seu corpo, cada músculo tensionado para manter a compostura.
— Já contei o bastante. — Respondeu, a voz tão fria quanto o vento daquele dia. — Contente-se com isso. Se quer um conselho, continue sua busca pelo Conclave. Não é essa a sua missão?
Ela revirou os olhos, o gesto quase adolescente contrastando com a dor adulta que carregava. Virou-se bruscamente, a neve rangendo sob seus passos determinados. Então parou.
Sem olhar para trás, as palavras escaparam antes que pudesse pensar melhor:
— É a segunda vez que me salva. Obrigada. De verdade. — uma pausa. — Seja qual for a promessa que o fez fazer isso, já cumpriu. Se eu voltar a Konoha... — engoliu seco — não mencionarei nosso encontro aqui. Espero o mesmo de você.
E entrou.
Lá dentro, Kisame parecia dormir escorado contra a parede, a Samehada largada ao lado. Youko pegou suas coisas deixadas no chão com movimentos bruscos. Estava pronta para partir quando a luz da entrada foi bloqueada. Itachi estava lá novamente, o rosto impassível, mas o punho cerrado estendido em sua direção.
— Leve isso. — ele disse.
Ela estendeu a mão, e Itachi depositou um pequeno embrulho de papel. Dentro, algumas pílulas de alimento, suficientes para alguns dias. Com um simples meneio de cabeça, ela agradeceu. Guardou as pílulas no bolso da calça e saiu, sem olhar para trás.
Kisame, ainda escorado, abriu os olhos lentamente, um meio sorriso preguiçoso formando-se no rosto.
— É sempre um drama com você, Itachi — murmurou ele, endireitando-se. — Deixou a namorada ir embora de vez. Eu até me oferecia para dar uma voltar, deixar vocês dois... matarem a saudade. — Deu um riso baixo. — Pain ia entender se explicasse direito. Ele também é homem e tem suas... necessidades.
Itachi ignorou a provocação barata de Kisame. Seus pensamentos estavam muito mais longe, em um penhasco sobre o Rio Nakano, anos atrás. O vento soprava forte, carregando o cheiro de água e sangue. Shisui sorria para ele, um sorriso sereno, enquanto o sangue escorria de suas órbitas vazias.
— Cuide dela para mim, Itachi.
Era um pedido simples. Tão simples quanto impossível. Por anos não pensou nela, tampouco quis saber sobre sua vida, se estava bem ou não, se ainda era vigiada ou como vivia depois do falecimento do avô. Ele nunca se permitirá pensar em Youko como algo mais que uma lembrança, uma peça de um passado que escolhera deixar para trás.
Ele cumpriria a promessa feita a Shisui enquanto isso fosse necessário, mas seria cuidadoso para que não se tornasse um fardo. A prioridade continuaria sendo Sasuke. Sempre.
No entanto, ao vê-la no patíbulo, lutando por ar, agarrada ao colar que Shisui lhe dera como se aquilo fosse tudo o que lhe restava, Itachi soube que não poderia falhar com o velho amigo.
sentia essa necessidade quase urgente de acompanhá-la de perto, de garantir que ela sobrevivesse não apenas à forca, mas a tudo que estava por vir. Era a dívida para com Shisui? Ou era algo mais? Ele não tinha a resposta. E talvez não a quisesse encontrar.
**
Kori não estava abandonada. Estava morta
Youko parou diante do portal de madeira esculpida, os dedos pairando sobre os símbolos desbotados pelo tempo. Onde deveria haver vida, havia apenas silencio, nenhum cheiro de lenha queimando, nenhum riso de crianças correndo entre as casas, nenhum murmúrio de conversas. Apenas o silêncio. Um silêncio profundo e absoluto, quebrado apenas pelo sussurro cortante do vento e pelo crepitar quase imperceptível da neve caindo. Tudo estava coberto por um manto pesado e gélido.
Dois dias desde que deixara Itachi e Kisame para trás. Dois dias de uma marcha solitária através de uma paisagem implacável, onde cada sombra parecia se contorcer em uma ameaça. Noites passadas em claro, encolhida em abrigos improvisados, com os olhos arregalados na escuridão, cada estalo de galho ou uivo de vento soando como os passos de um predador se aproximando. Dois dias alimentando uma chama teimosa e frágil de esperança no peito.
A esperança de que Yamato estivesse ali, à sua espera, a esperança de que ela não estivesse tão irremediavelmente sozinha.
Mas Kori era um túmulo aberto. Ela avançou, os pés afundando na neve fofa, cada passo mais pesado que o último. A neve chegava aos tornozelos, grudando em suas botas tentando puxá-la para baixo.
Youko parou no centro do que um dia fora a praça principal. Girou lentamente, observando os esqueletos das casas cobertos de neve, as portas arrancadas, as janelas quebradas como órbitas vazias.
— Yamato! — Sua voz irrompeu no silêncio, um grito áspero e desesperado que ecoou entre as ruínas como um tiro solitário, sendo rapidamente engolido pela vastidão branca e indiferente.
Nenhuma resposta.
Ao menos não há vítimas..., pensou enquanto avançava pela neve. Mas a ausência de corpos não era consolo. Algo varrera aquele vilarejo. Foi então que viu, entre duas construções parcialmente desabadas, a neve esmagada. Um sulco profundo, com bordas marcadas por garras metálicas, atravessava o solo branco como uma ferida aberta. A largura era grande demais para ser de um animal, e o peso que aquilo carregava havia pressionado a neve até tocar o solo congelado.
Youko se ajoelhou, tocando a borda da marca com a ponta dos dedos.
— Isso não é um trenó — o sussurro saiu em uma nuvem de vapor, dissipando-se rapidamente no ar gélido.
Ela conhecia gelo. Conhecia a dança delicada do chakra que moldava a umidade do ar, transformando-a em lâminas afiadas ou escudos translúcidos. Era uma extensão de si mesma, uma arte. Mas aquilo... aquilo era diferente. Era como se o próprio frio tivesse sido arrancado à força do mundo e depois prensado contra a terra, deixando para trás apenas essa cicatriz grotesca.
Isso é a arma, constatou. Ela levantou-se devagar, os músculos tensos. O rastro seguia adiante, cada marca uma facada no silêncio da floresta. Algo monstruoso passara por ali, algo que arrastara consigo o peso de uma vila inteira. Ou de seus habitantes.
Olhou para trás, pelo caminho que veio, vendo a neve cobrindo que restara de Kori. A lembrança da conversa na estalagem voltou à sua mente com o peso de uma lápide: o Conclave da Geada criou uma arma inspirada na Kekkei Genkai do clã Yukiryuu. Sua Kekkei Genkai.
Por que, então, ela não possuía tal poder? Por que seu gelo nunca alcançara aquela magnitude absoluta, aquele poder de erradicar tudo e congelar até a memória de um lugar? Desde criança, ela aprendera a manipular o gelo, a sentir o fluxo do frio em suas veias, a moldá-lo com seu chakra em esculturas mortais e escudos translúcidos. Ela suportava temperaturas que transformariam outro ser humano em estátua de gelo. Mas aquela cicatriz no chão... aquilo era algo completamente diferente. Era uma profanação, não uma manipulação.
Arisa.
Se havia alguém que podia ajudá-la a entender o que lhe faltava, era ela. A única pessoa viva que conheceu o clã Yukiryuu, a única que poderia explicar por que seu gelo nunca alcançara tamanha magnitude destruidora.
Seus pés, quase por vontade própria, começaram a se mover, decididos a seguir o rastro monstruoso que se perdia na floresta. Foi então que um som a fez congelar no lugar. Não foi o vento. Não foi o crepitar da neve. Foi o estalo distante e nítido de um galho sob algum peso. Alguém a observava.
Seu corpo girou lentamente, cada músculo tenso, a mão pairando sobre o punhal à sua cintura, vasculhando as sombras entre os troncos das árvores e os esqueletos das casas.
Um vulto surgiu entre as sombras do portal destruído. Um ancião, curvado sob um manto de palha esfarrapado, seus olhos turvos escrutinando-a com curiosidade morna.
— Procurando pelos antigos moradores, menina?
Youko avaliou-o rapidamente: mãos trêmulas, postura inofensiva, nenhum traço de chakra perceptível.
— Não — Respondeu, aproximou-se com cautela.— Alguém sobreviveu?
O velho pareceu levar uma eternidade para responder. Seus dedos nodosos brincavam com as fibras do manto enquanto seus olhos perdiam-se no horizonte nevado.
— Não sei ao certo... — disse, por fim. — Alguns partiram antes, quando os primeiros avisos chegaram. Mas os outros... — Seus ombros se curvaram-se ainda mais. — Simplesmente sumiram. Uma noite estavam aqui, na outra... apenas silêncio. Como fantasmas levados pelo vento...
Seus olhos lacrimejantes e turvos finalmente encontraram os de Youko, e um tremor percorreu seu corpo envelhecido.
— Tenho medo... — Murmurou o idoso.
— Do quê? — perguntou Youko, compadecida pelo velho. — Que avisos foram esses?
O velho fechou os olhos, como se recusasse a encarar a memória.
— Nada... — balançou a cabeça. — Nada... Tenho fome. — A mudança de assunto foi abrupta e desconexa. — Minha neta fez comida. Vou comer.
Virou-se, arrastando os pés, e começou a se afastar. A palavra "comida" despertou uma dor oca no estômago de Youko. Há dias sua refeição era reduzida a pílulas insossas e calafrios.
— Espere! — ela chamou, a decisão tomada antes mesmo que seu cérebro a processasse completamente. Ela deu um passo à frente. — Posso acompanhá-lo? — disse, tentando soar mais vulnerável do que se sentia. — Também estou com fome. Há dias não como nada decente.
Ele hesitou. O olhar, antes enevoado, clareou por um segundo, como se a avaliasse. Então assentiu, devagar.
— Claro, claro..., mas vai ter que andar. E o vento... não vai ser seu amigo.
— Não tem problema — disse, ajeitando o manto. — Ele nunca foi.
Seguiu os passos lentos do idoso pela trilha. Seus olhos atentos a cada sussurro entre as árvores, a cada movimento das sombras. Mas não havia nada. Nada além deles dois e o vento, que cortava como navalha.
O silêncio do caminho era quebrado apenas pelo som rítmico da neve sob os pés e o roçar do manto de palha do velho.
— Não tem medo do Conclave atacar sua vila? — Perguntou ela, quebrando o silêncio.
— Eles não vêm aqui — murmurou, sem se virar. — Não precisam.
A trilha serpenteava por entre árvores cobertas de neve até que a vegetação rareou, abrindo espaço para um pequeno agrupamento de casas. A vila parecia congelada no tempo, soterrada em branco. Nenhuma fumaça nas chaminés. Nenhum latido, nenhum ruído humano. Apenas o rangido distante de uma corda solta ao vento.
— É aqui. — disse o velho, apontando com um gesto trêmulo.
Youko estreitou os olhos. Havia algo de errado. Todas as janelas estavam fechadas, mas em uma das casas mais afastadas havia um sinal: pegadas recentes levando até a porta.
O velho apontou para ela.
— Aquela é a minha. A comida deve estar pronta. Minha neta é uma boa moça. Vai gostar de você.
Subiram os degraus do alpendre e ele bateu duas vezes. A porta rangeu para dentro, revelando uma jovem envolta em lenços pesados, de olhos fundos e pele pálida. Por um segundo, seu rosto congelou ao ver Youko.
— Vovô... quem é essa?
— Uma visita. Está com fome também.
A garota hesitou, mas depois abriu mais a porta.
— Entrem...
Youko atravessou o umbral e imediatamente percebeu o cheiro no ar de sopa quente... e remédio. Havia ervas penduradas no teto, uma chaleira fumegava e sobre a mesa havia dois pratos.
Mas havia também algo mais: sobre um banquinho, ao lado da lareira, uma faixa de tecido dobrada cuidadosamente. Era uma bandana da Folha. Queimada nas bordas. Tingida de sangue seco.
O sangue de Youko pareceu gelar em suas veias. Sua mão voou instintivamente para o cabo da kunai escondida sob seu manto, seus olhos se encontrando com os da jovem.
O velho, entretanto, parecia alheio à tensão. Ele se esfregou nas mãos, olhando para a panela de sopa.
— Cheira delicioso! Minha neta tem mãos abençoadas.
— Quem mais passou por aqui? — sua voz saiu mais áspera do que pretendia.
A neta recuou um passo instantaneamente, tropeçando no velho, que se encostou na parede com um pequeno grunhido de surpresa, assustado com a repentina mudança de tom.
— Eu... não sei do que está falando. — A garota gaguejou, os olhos arregalados, voando entre Youko e a bandana.
— Sim, sabe! — Youko puxou a kunai com um movimento fluido, a lâmina cintilando à luz do fogo. — Ele esteve aqui, não foi? Um homem da Folha. Alto. Cabelos castanhos. Olhos sérios. — Desviou os olhos por um instante para o objeto. — Ferido.
A garota começou a chorar silenciosamente, lágrimas escorrendo por suas bochechas pálidas. Por um momento, Youko vacilou. Eram pessoas simples, medrosas e, ela, uma ameaça.
Foi o velho quem respondeu, acalmando a neta.
— Ele... ele estava ferido, sim. Sangrava muito. Mas não ficou. Seguiu adiante assim que pôde. Disse que precisava encontrar a arma... antes que fosse tarde. Ele lutou com homens do Conclave.
— Para onde ele foi?
— Para o leste. Disse que ia atras deles... Tentar detê-los.
Youko recuou um passo, as palavras do velho atingindo-a com a força de um soco no estômago. O sangue pareceu gelar em suas veias. A bandana na cadeira... era dele. Yamato. Só podia ser. Ele estava vivo, mas ferido, e indo direto para a boca do lobo. E com certeza seguira até ali para encontrá-la...
A garota falou, por fim, em um sussurro:
— Disse que se eu encontrasse alguém como ele... para avisar que “eles estão procurando sangue”.
Youko fechou os olhos. O peso daquela mensagem cifrada caiu sobre ela como uma avalanche silenciosa. Sangue. Não era uma metáfora. Era uma referência direta à sua à linhagem Yukiryuu. O Conclave não estava apenas testando uma arma; eles estavam caçando ela. Yamato não estava apenas tentando detê-los; ele estava tentando avisá-la.
— Obrigada.
Ela guardou a kunai, pegou a bandana e pôs em sua bolsa. Então um movimento chamou sua atenção.
A garota, que momentos antes chorava silenciosamente, agora segurava um cutelo de cozinha. As pontas dos dedos brancas de tanto pressionar o cabo. Seus olhos, vermelhos e inchados, brilhavam com uma mistura de medo e determinação.
— Saia daqui! — o grito saiu estridente, quase desesperado. — Saia agora!
A lâmina tremia em suas mãos, mas a ponta estava firmemente direcionada para o coração de Youko. Youko ergueu lentamente as mãos, em um gesto de rendição.
— Eu não vou machucar vocês — disse, mantendo a voz calma. — Só quero encontrar meu companheiro.
— Ele também disse isso! — a garota avançou um passo, o cutelo reluzindo à luz do fogo. — E depois vieram eles. E Kori... Kori sumiu!
Youko sentiu o estômago embrulhar. A passagem de Yamato, assim como a dela agora, era um farol que atraía predadores.
— Eu não sou como eles — insistiu, mas as palavras soaram vazias até para seus próprios ouvidos.
A garota riu, um som amargo e quebrado.
— É o que todos dizem.
O velho finalmente se mexeu, colocando uma mão trêmula no ombro da neta.
— Já basta, Hana. — murmurou, a voz cansad. — Ela vai embora.
Youko sentiu um aperto estranho no peito ao ouvir aquelas três palavras. Com um último olhar para a bandana agora escondida em sua bolsa, ela se virou e saiu, a porta rangendo atrás dela.
O silencio a tomou do lado de fora. Sabia agora para onde ir para encontrar Yamato e o Conclave, mas sentia-se mais sozinha do que nunca. Abandonada. Ao apertar o colar no bolso, o metal frio não trouxe consolo.
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