Gelo e Cinzas
12 Antes da Tempestade
A casa abandona, de madeira podre, com o teto desabado pelas intempéries do tempo, serviu como abrigo temporário para Youko. As pílulas que Itachi lhe dera havia sobrado cinco, para mais cinco dias. Entanto, o que lhe fazia falta era comida de verdade. Embora as pílulas lhe dessem saciedade, não a nutria. Desde que abandonara Kori – a dois dias – sentia que quanto mais levava a pílula a boca, mais peso perdia.
Sua mente, no entanto, tinha três focos: Arisa, Yamato e o Conclave. A velha havia servido ao clã Yukiryuu e, provavelmente, conhecia segredos e mais informações que jamais obteria se procurasse só. Yamato estava ferido após lutar contra Conclave. "Eles estão procurando sangue." A mensagem ecoou em sua mente, mais aterrorizante agora na solidão da cabana. Sangue. Seu sangue.
Ela olhou para a pílula em sua mão. A resposta veio clara e cruel como o gelo: ela era inútil assim. Marchar em direção ao inimigo, fraca e ignorante, seria entregar-se de bandeja. Ela não saberia como lutar ou como deter aquela máquina. Seria uma sentença de morte para ela e para Yamato.
A decisão a cortou como uma lâmina: ela não iria diretamente para o leste, para Yamato. Ela encontraria Arisa primeiro. O conhecimento era a única arma que poderia salvá-los.
Saiu da cabana antes do amanhecer, seu corpo protestando a cada passo. Ela evitou estradas, movendo-se por trilhas cobertas de neve, alerta para cada som. O cansaço e a fraqueza a forçaram a parar à beira de um rio parcialmente congelado nas bordas. A visão da água despertou não só a sede, mas uma ideia desesperada: pescar.
Ajoelhou-se na margem gelada, tentando manejar uma kunai como uma vara improvisada. A tarefa era ridícula e humilhante para uma jounin de Konoha. Por longos minutos, ela falhou. Sua concentração falhava, seus reflexos estavam embotados pela fadiga. A kunai escapou de seus dedos trêmulos e desapareceu na água escura, levada pela correnteza. O desespero apertou sua garganta e bateu com punho fechado na perna. Estava fracassando até na coisa mais básica.
Foi então que um som suave, o rangido de neve sob botas, a fez erguer a cabeça com um sobressalto, a mão voando instintivamente para outra kunai em seu bolso.
Um homem estava parado a alguns metros de distância, observando-a com uma curiosidade cautelosa. Era um pescador, vestido com roupas grossas e remendadas, seu rosto queimado pelo vento gelado. Em suas mãos, ele carregava uma vara de pescar.
— Não vai pegar nada desse jeito, moça — disse ele, sua voz quebrando o silêncio entre eles. — O gelo está fino na borda, mas o peixe está mais ao fundo. E com uma faca... — Ele inclinou a cabeça, um leve brilho de humor em seus olhos. — É um método novo?
Youko manteve-se tensa, avaliando-o rapidamente. Ele não parecia uma ameaça. Não carregava a postura de um lutador, apenas a resistência calma de quem trabalha duro para sobreviver. Mesmo assim puxou mais o capuz sobre o rosto.
O pescador aproximou-se lentamente, sem fazer movimentos bruscos, como se se aproximasse de um animal assustado. É de fato, Youko parecia um.
— Você não é daqui — observou ele, parando a uma distância segura. — E pela sua roupa... não é pescadora. Está perdida? Faminta?
A precisão da pergunta fez Youko baixar a guarda por uma fração de segundo. Ela não iria respondê-lo, mas o ronco audível de seu estômago o fez por ela.
O homem sorriu, um gesto simples que criava rugas ao redor de seus olhos.
— Não se preocupe. O inverno é duro para todos. Minha aldeia não é longe daqui, fica rio abaixo. — Ele apontou com o queixo na direção da correnteza. — Temos peixe fresco e sopa quente. É pouco, mas é honesto. Melhor que tentar pescar com uma faca de briga.
Era uma oferta tentadora. Comida de verdade. Calor. Um teto. Mas cada instinto em seu corpo gritava contra isso. Era um risco. Uma armadilha em potencial. Ela olhou para o rio, para a kunai perdida, para suas próprias mãos trêmulas. A necessidade superou a cautela.
— Por que faria isso? — perguntou, sua desconfiança ainda pairando no ar. O velho vizinho de Kori a expulsara e aquele poderia fazer o mesmo.
O pescador encolheu os ombros.
— Aqui na neve, ou nós ajudamos, ou morremos sozinhos. Esse é o jeito das coisas. Além disso — ele acrescentou, seu olhar tornando-se um pouco mais sério —, uma pessoa sozinha nesta tempestade que se aproxima... não vai durar muito. Vamos. A comida esfria e o céu não espera.
Ele virou-se e começou a andar rio abaixo, esperando que ela o seguisse.
Youko hesitou por um último momento. Era um risco, mas era também sua única chance real de recuperar um pouco de força antes de encontrar Arisa e enfrentar o que quer que estivesse à sua frente. Com um suspiro resignado, ela se levantou e seguiu o pescador, com seus passos vacilantes.
A pequena aldeia era um aglomerado de casas de madeira à beira do rio. O cheiro de fumaça da lenha e peixe defumado fez seu estômago roncar alto.
— Quase lá, moça. Minha mulher vai te encher de comida até você esquecer seu próprio nome.
O pescador a levou até uma das cabanasmaiores. Ao abrir a porta, uma onda de calor convidativo e o som de vozes baixas envolveram Youko. Dentro, algumas famílias estavam reunidas ao redor de uma mesa longa, compartilhando uma refeição simples de pão escuro, sopa de peixe e legumes cozidos. Todas as conversas cessaram quando ela entrou, e dezenas de olhos se voltaram para a estranha usando uma capa suja, pálida e faminta.
Uma mulher robusta, com um avental limpo e um rosto franzido por preocupação e bondade, levantou-se. Era a mulher do pescador.
— Querido... Quem é essa... visita? — perguntou ela, olhando Youko com curiosidade de cima a abaixo, mas sem hostilidade.
— Uma viajante perdida. — Pôs a mão sobre o ombro de Youko, incentivando-a entrar no ressinto. — Encontrei-a à beira do rio, tentando pescar com uma faca — ele disse, o tom levemente divertido.
A mulher abriu um sorriso caloroso.
— Pelos céus! Bem, não se pesca nada com faca, querida, só problemas. Vem, senta aqui. Você parece que vai cair a qualquer momento.
Ela puxou uma cadeira e encheu uma tigela de sopa fumegante. A hesitação de Youko durou apenas um segundo até sentir o cheiro da comida. Ela sentou e comeu com uma sofreguidão intensa, sentindo a energia real começando a percorrer seu corpo.
Enquanto comia, não pôde deixar de ouvir os pescadores falarem em vozes baixas sobre o Conclave, sobre luzes estranhas e o rio que estava "estranho este inverno".
Youko congelou, uma colherada de sopa a meio caminho da boca.
— Eles... causam problemas aqui também? — ela perguntou, tentando soar casual.
A mulher encolheu os ombros.
— Eles não se importam conosco. Mas seu trabalho... assusta os peixes. E quando os peixes se assustam, nós passamos fome. — Ele olhou para Youko. — Você não é apenas uma viajante, é?
Youko baixou a colher. Os olhos profundos no homem via muito além do que ela tentava transparecer por debaixo do capuz.
— Eu... estou tentando impedi-los — ela admitiu, sua voz baixa. — Eles machucaram pessoas que eu conheço.
A mulher colocou uma mão quente e reconfortante em seu ombro.
— Então você é brava. E faminta, também. — disse ela, simplesmente. — Come. Precisa de força para ser brava. E depois de comer, você vai dormir.
Youko olhou para ela, surpresa, arqueando as sobrancelhas.
— Dormir?
— Sim, dormir — repetiu ela, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Você mal consegue ficar em pé, querida. Meu filho foi servir o daimyo na capital e sua cama está vazia. É simples, mas é quente e segura. Você não vai enfrentar ninguém assim. Uma noite de sono verdadeiro faz mais bem que dez jantares.
— Além de que — começou o pesqueiro, enchendo o prato de sopa e sentando-se em frente a Youko. — Dormir antes de morrer é melhor do que passa a noite toda acordada. Você não é a única que quer enfrentar esses malucos. E não vai ser a primeira que eles vão matar como exemplo.
A kunoichi quis levar a mão as marcas profundam no pescoço, mas isso chamaria atenção. Embora a família fosse gentil, o quanto da mulher que sobrevivera a focar eles sabiam?
— Eu sei... — murmurou. A mulher dardejou um olhar para o marido, que deu de ombros. Youko os entendia, imaginava que ela era uma tola com coração cheio de ódio e sem força para lutar. Uma parte eles estavam certos, por isso a oferta de dormir em uma cama em segurança era tentador. — Obrigada. Eu aceito. Obrigada.
Após a refeição, a mulher a levou a um pequeno quarto anexo à cabana. Suas quatros filhas foram juntas, curiosas e animadas com a visita. Ofereceram roupa para Youko, que recusou veementemente por ser mais alta que as meninas. O quarto era pequeno, com uma cama estreita, um baú e uma vela como única iluminação. Mas para Youko, parecia um palácio.
— Durma bem, querida — disse a mulher, fechando a porta suavemente, arrastando as filhas consigo.
Youko caiu na cama, suas roupas ainda meio molhadas e sujas parecendo irrelevantes. O colchão de palha era áspero, mas aconchegante. O silêncio, quebrado apenas pelo crepitar distante da lareira e pelo murmúrio do rio, envolveu-a como um cobertor pesado. Pela primeira vez em semanas, ela não precisou ficar alerta.
O quarto estava envolto em penumbra, o ar pesado com o aroma doce do suor dos dois. Youko arqueava as costas sob o toque de Shisui, seus dedos enterrando-se nos cabelos dele enquanto seus lábios exploravam cada centímetro de seu pescoço.
— Youko... — o nome dela escapou dos lábios dele como uma oração, quente contra sua pele.
Ela puxou-o mais perto, as mãos deslizando por baixo da camisa preta, sentindo os músculos tensos de seu abdômen contra suas palmas. Shisui riu baixo.
— Ansiosa, hein? — ele murmurou, os dentes roçando levemente seu ombro.
Youko não respondeu com palavras. Em vez disso, puxou-o para um beijo profundo, seus dedos se enrolando nos cabelos dele com possessividade. Shisui respondeu na mesma moeda, suas mãos deslizando para baixo de suas costas, apertando com firmeza... e então, algo mudou.
O toque se tornou mais frio. Mais calculista. Youko abriu os olhos devagar, e o coração parou. Era Itachi quem a segurava agora.
Seus olhos escuros queimavam como brasas na escuridão, penetrantes. Ele não sorria. Não falava. Apenas observava.
Seu rosto estava tão próximo que ela podia contar cada fio de seus cílios. Seus olhos negros refletiam sua própria imagem: desarrumada, surpresa, vulnerável.
Você não deveria estar aqui, ela tentou dizer, mas as palavras morreram em sua garganta quando uma de suas mãos deslizou lentamente por sua cintura, os dedos frios contrastando com a pele ardente dela. Youko prendeu a respiração quando sua palma se apertou contra sua coxa, puxando-a mais perto.
Itachi inclinou-se, seus lábios pairando a centímetros dos dela. Seu hálito era quente, mas cheirava a sangue.
Acordou com um grito sufocado na garganta. O coração martelando contra as costelas. Agarrou o colar no bolso de sua calça, apertando-o com força até sentir as bordas cortarem sua palma.
**
O último barril de peixe, pesado e escorregadio, foi colocado sobre a carroça com um baque surdo. Youko endireitou as costas, esfregando as mãos frias e avermelhadas nas calças. Havia uma estranha satisfação no trabalho físico simples, um contraste gritante com a violência que marcara sua vida. Ela ajudara a carregar a pesca da manhã, uma forma silenciosa de agradecimento pela comida, pelo abrigo e pela única noite de sono verdadeiro que tivera em semanas.
O pescador prendeu as cordas sobre os barris, garantindo a carga com nós firmes.
— É a última viagem antes do gelo fechar o caminho de vez — comentou ele, olhando para o céu baixo e cinzento. — Vou para a próxima aldeia, rio acima vender o que sobrou. — Ele olhou para Youko. — O caminho pode servir pra você. Posso te levar até a bifurcação. É melhor que andar sozinha com essa tempestade prestes a cair.
Youko hesitou. Aceitar outra carona era prolongar a despedida, aumentar o risco para eles se alguém a visse. Mas a lógica era sólida. A neve começava a cair em flocos mais pesados e densos.
— Não quero trazer problemas para você — disse ela, sua voz baixa.
O pescador deu uma risada curta e seca. A mulher dele, carregando a filha mais nova no peito, também riu carinhosamente.
— Problema é não vender o peixe e passar fome. Um passageiro silencioso é só uma companhia para espantar o tédio da estrada — disse o pescador, com um aceno despreocupado. Ele se virou e beijou a mulher, depois beijou a testa da bebê, que agarrava seus dedos com uma mãozinha minúscula. — Cuidado com o vento, meu amor. E mantenha as portas trancadas.
Ele então acenou para as quatro filhas mais velhas, que estavam ao fundo, concentradas em tarefas domésticas. Duas delas apoiavam um grande peixe sobre uma tábua de madeira, tirando as escamas com facas pequenas e hábeis, enquanto as outras duas secavam potes e panelas. Todas olharam para o pai e acenaram de volta, com sorrisos tímidos dirigidos a Youko.
— Volto antes do escurecer — ele prometeu para a família. — Vamos, moça.
O coração de Youko apertou diante daquela cena de normalidade doméstica, um contraste tão violento com a solidão e a carnificina que marcaram sua vida. Aquela família estava lhe oferecendo um fragmento dessa normalidade, mesmo sem saber o perigo que ela carregava.
Com um último olhar para a esposa do pescador, que lhe ofereceu um pequeno e encorajador aceno de cabeça, Youko subiu no banco. A carroça moveu-se com um rangido ritmado, puxada por um cavalo velho e paciente, abandonando o calor da cabana, o cheiro de peixe e família, mergulhando novamente no manto silencioso e ameaçador do inverno.
Após um longo silêncio, o pescador falou, sem olhar para ela, seus olhos fixos na estrada coberta de neve:
— Talvez seja melhor você evitar a aldeia hoje. Vá direto pelo desvio da floresta quando chegarmos na bifurcação.
Youko olhou para ele, percebendo o tom contido em sua voz.
— O que há na aldeia?
O pescador fez uma expressão carrancuda, como se tivesse experimentado algo azedo.
— Os devotos de Tomoe. Eles vão se reunir hoje lá. — Ele cuspiu na neve, um gesto de desprezo claro. — Bando de loucos e fanáticos, se me perguntar. Andam por aí murmurando sobre a "volta de Tomoe" e incentivando rebeldia civil. Estão dizendo agora que Tomoe está viva. Bando de malucos.
O nome Tomoe fez Youko estremecer. Sua antepassada, querendo ou não.
— E... o que isso tem a ver com o Conclave? — ela perguntou, tentando soar apenas curiosa.
O Pescador encolheu os ombros.
— Quem sabe? Uns dizem que o Conclave caçou os devotos no início, que eles eram contra a tal "arma". Outros sussurram que agora há... uma estranha paz entre eles. Que o Conclave os deixa em paz, e os devotos... bem, os devotos não falam mais contra o Conclave. É estranho. — Ele abanou a cabeça. — Melhor não se misturar com nenhum dos lados. Loucura atrai loucura.
A velha era a porta-voz dos devotos de Tomoe. Era ela quem mantinha viva a chama daquele culto. Se os devotos estavam se reunindo hoje, Arisa estaria lá. Não era uma possibilidade; era uma certeza. Encontrar Arisa era sua única esperança de entender o que estava acontecendo.
A carroça chegou à bifurcação. À esquerda, a estrada mais larga levava à aldeia. À direita, um caminho estreito e arborizado sumia na floresta sombria.
— Aqui é onde nos separamos — disse o pescador, parando a carroça. — A floresta é mais dura, mas mais segura. Boa sorte, moça.
Youko saltou para o chão, mas antes que pudesse agradecer, o pescador estreitou os olhos, olhando para algo além dela, na direção da aldeia.
— Estranho. — Murmurou ele.
Youko seguiu seu olhar. Uma arvore erguia-se alta contra o céu cinzento, com galhos secos e mortos, mas repletos de corvos. Nenhum som saía deles. Nenhum grasnado, nenhum movimento. Apenas dezenas de pares de olhos fixos na carroça, em Youko, no pescador.
— Mau presságio... — sussurrou, mais para si mesmo do que para ela. — Não gosto disso. Traz má sorte. — Cuspiu na neve com desprezo. — Vá pela floresta, moça. É o meu conselho final.
Youko deu de ombros. Corvos eram inofensivos, seres humanos, não. Era uma verdade fundamental de seu treinamento: animais seguiam instintos; humanos tramavam, traíam e matavam com crueldade calculada. Aquele bando de pássaros, por mais ominoso que parecesse, era apenas pássaros. O verdadeiro perigo, ela sabia, estava à sua frente, na aldeia, onde homens como os do Conclave, com suas ambições e armas, aguardavam.
— Obrigada. Por tudo — disse Youko, curvando-se. Com um aceno, o pescador partiu.
Esperou até o pescador sumir de vista para tomar seu caminho. Ajustou o coldre de suas armas, garantindo que estava firme em sua cintura. Puxou o capuz para cobrir melhor o rosto, escondendo as características que poderiam denunciá-la.
Youko não percebera, mas entre as centenas de corvos que pesavam sobre os galhos da árvore, um a observava. Diferente dos outros, agitados ou indiferentes, este permanecia absolutamente imóvel. Apenas sua cabeça girava com uma lentidão acompanhando cada um de seus passos.
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